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Filippo Scozzari Entrevista dada à revista Animal (1989/90) por Priscila Farias |
A região Emilia-Romagna, terra natal de Filippo Scozzari, é conhecida em toda a Itália como a terra dos tortellini, dos movimentos estudantis e dos comunistas. Dizem também que as mulheres de lá fazem as melhores chupetas da Itália, mas isso não vem ao caso. Já Scozzari é conhecido, entre outras coisas, pelos seus belos quadrinhos ve- nenosos e pelo modo impiedoso de tratar os leitores da FRIGIDAIRE na seção de cartas.
O fato é que, na década de 70, Filippo conheceu
Vicenzo Sparagna, Stefano Tamburini, Andrea Pazienza o fugiu de Bolonha. Aí..
Animal-Quando e onde você nasceu?
Scozzari- Bolonha, 30 de agosto de 1946.
Animal-É verdade que você estudou medicina? Você se formou?
Scozzari- Infelizmente estudei medicina durante 8 anos, mas não me formei.
Animal- Na época, você participou dos movimentos estudantis?
Scozzari-Sim. Eu incendiei algumas barricadas. (risos)
Animal- E quando você começou a desenhar e publicar seus quadrinhos?
Scozzari- Em 1977. Aproveitando de alguns filhos-da- puta do movimento, consegui me introduzir na redação de uma revista milanesa, a línus.
Animal- Era a primeira vez que você publicava?
Scozzari -Não, eu já havia publicado em uma revista da Mondatori chamada Il Mago, mas não gostava muito de lá.
Na época a linus tinha reinventado o conceito de quadrinhos, mas o quadrinho novo e interessante se afirmou durante os anos seguintes, na revista Frigidaire.
Animal-AntesdaFrigídairo, você trabalhou no Il Male e na Canníbale. Conte um pouco desta experiência.
Scozzari- Bem, a Linus era uma revista milanesa, pensada e inventada por um punhado de intelectuais mexeriqueiros de Milão, pseudo-comunistas, pseudo-tudo; mas teve o grandíssimo mérito de elevar o conceito de HO da posição de cultura série z a um verdadeiro fenômeno cultural. Já o Il Male teve o mérito de ser, por um lado, a expressão do movimento italiano, o também de recuperara conceito de revista político-satírica. O IL Male foi também o primeiro exemplo bem sucedido de editora autogerida. Conquistou seu público sem ter que pedir permissão para ninguém nem se apoiar nos grandes potentados da imprensa italiana.
O Il Maio surgiu com toda a sua vulgaridade e violência em 1978, uma época em que os interesses estavam completamente polarizados entre terrorismo de esquerda ou de direita, dando o seu ponto de vista, escrachando tudo o todos. De fato foi, desde o primeiro número até o última, a revista mais apreendida do mundo.
Cada número que saía era apreendido. Tanto que até a presidente dos Estados Unidas- acho que na época era o Carter, quis saber, do governo italiano, que história era aquela. (risos).
Agora que acabou, mesmo aqueles que xin-gavam o Il Male falam da revista como algo legendário. Exatamente porque não existe mais.
O Il Maio existiu de 1978 até 81. Para quem trabaIhava Iá foram anos bastante pesados; mas a situação pesou mesmo quando os redatores tiveram a idéia de fazer os falsos do Il Male
imitações muito bem feitas de alguns jornais italianos como o Il Corriere della Sera.
Foi o primeiro grande impulso nas vendas. O momento decisivo foi quando saiu um falso que tinha como manchete 'Ugo Tognozzi é o lider das Brígadas,Vermelhas' '(risos)
O escândalo foi enorme. Lembro que fui a Roma naquela época, Peguei um taxi na estação e o motorista era comunista. Começamos a conversar e quando ele descobriu que eu trabalhava no Il Male, começou a fazer perguntas, tipo interrogatório, como a clássica "Mas quem é que financia vocês?' 'Ele não acreditava que quem nos financiava eram os próprios leitores, que compravam um número despropositado de cópias. Ficou furioso e mo fez descer, tive que pegar dois taxis para chegar à redação. (risosl A nível editorial, a Il Male teve o mérito de abrigar alguns desenhistas - entre os quais eu- dando a eles a possibilidade de expor seus traços, suas idéias, seus sonhos, sua raiva, etc
Animal- E a Cannibele?
Scozzari- Caunibale surgiu algum tempo depois de havermos começado com Il Male. Era uma revista só de quadrinhos e éramos em quatro a fazê-la. Foi uma invenção muito romana de Stefano Tamburini.
Era uma revista um pouco na linha das revistas underground americanas, gerida apenas por de- senhistas. A Cannibale contribuiu para mudar decisivamente o panorama da HQ italiana, o também para afirmar não tanto um tipo de estória ou de traço, mas sim alguns autores. A Cannibale foi algo muito importante do ponto de vista cultural. Tanto que, quando acabou, em uma importante mostra sobre a imprensa italiana feita no Beaubourg de Paris, Tamburini viu, para seu grande espanto, um velho número de Cannibale exposto junto a outras revistas oficiais italianas.
Animal- Nesta revista você só desenhava ou também escrevia, editava?
Scozzari- Na Cannibale, que era só de quadrinhos, sim. Mas também fui redator e tradutor, nas raras ve- zes em que publicamos quadrinhos americanos. No Il Male desenhava vinhetas, fazia histórias, escrevia. Já na Frigidaire, do ponto de vista profissional, a coisa é muito mais complicada.
Animal -No expediente da Frigidaire você consta como "consulante specíalíssimo'. O que quer dizer isso?
Scozzari- Nada. É uma besteira do Sparagna para convencer as pessoas a trabalhar para ele sem serem pagas. (risos)
Na verdade, a Frigidaire é feita por duas pessoas: eu e o Vicenzo Sparagna. Ele é diretor responsável porque é jornalista, e as revistas italianas devem Ter um diretor responsável que seja, obrigatoriamente, um jornalista.
Animal -Como quadrinhísta, o que te influenciava quando começou a desenhar?
Scozzari Bem no começo, como indicação geral, Richard Corben - um desenhista americano que agora se tornou super imbecil. Eu o descobri na época em que ele ainda militava em algumas revistas underground americanas, o logo depois ele se tornou o desenhista super imbecil dos músculos, dos socos na cara, das mulheres peladas.
Ele não consegue ir além disso nem mesmo quando ilustra "As Mil e Uma Noites' ou autores clássicos. Corben nãoé um autor, mas simplesmente um desenhista de quadrinhos, e é sempre hollywoodiano, como a maioria dos americanos.
Portanto, grande músculos, grandes tetas, pintos enormes, grandes porradas, sanque... tudo lindíssimo, muito bem desenhado mas sem nenhuma importância do ponto de vista cultural. No início, porém, quando o descobri, seu trabalho me mostrou que as coisas que eu imaginava podiam muito bem ser desenhadas. leve em conta que na época – 1975/76 -, na Itália' não existia quadrinho que você pudesse ler sem ter vontade de chorar. (risos) Existia a linus, feita pelos mexeriqueiros milaneses e uma galaxia de HQs completamente idiotas, tipo Tex, cowboys, pornô... imbecilidades em geral.
Eu era na época um autor cheio de dúvidas a respeito do que dizer, como desenhar, a descobri com estes americanos- e em especial Corban - que não era caso de ter dúvidas. Era uma questão de pegar ou largar. E então eu peguei.
Outro mestre - este sim muito importante na minha formação -foi Will Eisner, o autor de Spirit.. Eu estudei seus quadrinhos, e eles mo deram indicações sobre a importância da estória, do roteiro, dos enquadramentos. Deram-me a importántissima lição de que, em um bom quadrinho a qualidade literária do que sai da boca das personagens deve ser levada em conta, Não adianta nada elas serem supor bem desenhadas, se quando falam só dizem imbecilidades; ou, ainda, em um italiano, ou inglês, ou português - horrível.
Esta foi uma indicação que eu traduzi para o italiano, segundo a que ou sentia o o que eu pensava, o dali surgiram os Famosos quadri- nhos de Scozzari. (risos)
Animal- Então, você escreve os roteiros antes de desenhar?
Scozzari -Sim, admitindo que ou tive uma idéia. Eu não me animo muito com a primeira coisa que me vem em mente, porque sei que é até bem fácil, tendo um mínimo de talento, provocar estupor nos indígenas com a primeira besteira que te passa pela cabeça, e,pelo menos aqui na Itália ' não existe nenhum tipo de crítica de quadrinhos. Existem alguns representantes de panelinhas ligadas ao mundo do colecionismo que posam como críticos, mas que são completamente incapazes de falar em termos precisas do qua- drinho nos moldes em que evoluiu nestes últimos 20 anos.
Os mais iluminados não conseguem ir além de uma crítica às formas e às cores do desenha, sem entender que há um problema de escolha do que se quer dizer, escolhas dramatúrgicas, até, que marcam a diferença entre um autor inteligente e um autor idiota.
Até agora ninguém na Itália conseguiu falar nestes termos. Portanto, na falta deste tipo de crítica, um autor deve ir tateando. Se arrisca, procura caminhos, explora, e quando finalmente se convence de que deve ir em frente com a sua pesquisa está praticamente sozinho. Não há nenhuma ajuda do ponto de vista crítico ou editoral.
Animal - Hoje em dia o que te inspira? O que você lê?
Scozzari- Eu não leio nada. Minha fonte de inspiração vem da raiva mortal que nutro por este planeta de merda. (risos) Quem tem raiva se salvará, quem está satisfeito morrerá em um mar de lágrimas, Estou convencido disso. Mesmo porque, do ponto de vista cultural - o até constitucional, genética, sou incapaz de falar de modo positivo sobre alguma coisa, (risos) Se algo me agrada, ma calo, Só consigo falar das coisas, das pessoas, do mundo, quando os odeio. (risos)
Scozzari -Nada. (risos) Sou como um traficante, não consumo a droga que vendo.
Animal- Vejo no seu trabalho uma forte ligação com o de Stefano Tamburiní e Andrea Pazienza, que morreram...
Scozzari -Na verdade éramos muito diferentes, como cabeças. Cada um tinha a própria visão do mundo, sua própria cultura pessoal, e então não poderia haver ligação. O extraordinário no fato determos nos encontrado foi que, mesmo sendo muitíssimo diferentes, estávamos totalmente de acordo sobre como descrever, ou contar, ou desenhar o mundo que nos circundava.
Isto, provavelmente, dentro da monstruosa diferença que nos dividia, era a única coisa que nos unia. Eu agora falo por mim, mas acho que posso falar também por estes que não estão aqui : na verdade não gostávamos muito do mundo do modo que estava se formando nos últimos 20, 30 anos, e mantivemos sempre esta postura crítica, este estar de olhos abertos, que permitiu a Andrea, Tamburini e a mim e aninguém mais na Itália, contar certas coisas que nunca foram contadas , nem antes, nem depois.
Eu agora olho à minha volta e procuro desesperadamente ver quem, entre os desenhistas de hoje pode Ter colhido a bandeira idealmente caída das mãos de Andréa e Tamburini , mas não há ninguém. Surgiram alguns desenhistas hospedados naturalmente pela Frigidaire, mas que não tem nada a dividir com os velhões da Cannibale, a não ser a vontade renovada de se afastar do passado sem Ter que obrigatoriamente , ajoelhar-se ou tirar o chapéu.
Animal- Mas não há, entre estes autoras novos, nenhum que te agrade em particular?
Scozzari- Acho que o único é Palumbo - autor de Ramaro - que está tendo certo sucesso e é um ótimo desenhista. Porém ele tem um sério problema: é jovem (risos)... mas vai sarar.
Animal- É verdade que você "despreza o universo", como está escrítonaprefácio doáibumildotior Gek?
Scozzari- Não, não! Eu não desprezo o universo Desprezo apenas os italianos (risos)... E o modo como os italianos vêem o universo. Você tá brincando? Eu AMO o universo! (risos) É uma coisa seríssima!!
Animal -Alguma mensagem aos leitores brasileiros?
Scozzari- O que dizer?... Bem... Tentem não se deixar enganar como o lraque (risos)... Não paguem ninguém e parem de destruir as florestas... mas sobretudo não paguem ninguém!(risos)... Continuem a cultivar bundas, viva a sol, e viva o Brasil... No futebol, a gente sempre vai ganhar de vocês. (risos)
Veja algumas ilustrações de Scozzari
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Uma história sobre pessoas brilhantes e idéias catastróficas. |