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Um dos
aspectos mais importantes da humanidade, pelo menos de forma
conceitual, é o respeito às minorias. Neste momento, em vários
lugares no mundo, as minorias estão sendo destroçadas. A língua de
alguns povos é um bom exemplo de minoria, como no caso da língua
portuguesa. Em Goa e Macau, por processos tendenciosos pouco
transparentes, a questão da língua desses povos está neste momento
se deteriorando. Não somos contra a integração política desses
territórios portugueses a seus Estados originários, desde que esta
seja a vontade de seus habitantes. Mas a língua portuguesa deveria
continuar a ser cultivada, pois queiramos ou não, esta é a língua
dos antepassados desses cidadãos, e constitui o pilar de uma
integração cultural própria. As línguas nativistas desses lugares
também deveriam ser cultivadas, claro está? Mas não faz sentido
destruir o elo de séculos que a língua portuguesa proporcionou a
esses povos.
Existe uma
outra forma odiosa de uma língua ser maltratada: a exterminação de
um povo pela fome e pela miséria. É o que presenciamos há 25 anos
nos ex-territórios portugueses de Angola e Moçambique. Destroçados
por guerras civis intestinas, que afloraram quando Portugal em 1975
concedeu a independência a esses países, governos e opositores
destroçaram esses povos através de guerras sangrentas, numa mistura
surrealista e irracional de tribalismo com fanatismo
ideológico-político, conceitos que esses povos podem sequer entender
o que significam. A velha divisão esquerda-direita, acalentada por
potências mundiais que nada entendem de África, e que nada
construíram nesse continente a não ser fome e miséria, levou esses
povos à mais absoluta e aviltante miséria que a dignidade humana
mundial deveria repudiar veementemente. Enquanto permanece a
retórica seccionista e interesseira de uns e de outros, governos
despóticos e oposições fisiológicas, interventores hipócritas e
falsos moralistas de direita e esquerda, esses povos estão sendo
extintos, e com isso a língua que lhes dá a unidade nacional. Estão
sendo extintos pela bestialidade de Estados, governos e políticos
nativos, e de toda uma comunidade internacional que assiste aos
acontecimentos por satélite, confortavelmente instalados em suas
poltronas aconchegantes e mesas fartas, como se nada tivessem a ver
com isso.
Não
bastasse isso, agora chegam as mais aterrorizantes informações e
imagens do Timor Leste. Da mesma forma, desde 1975 que este pequeno
território luta contra a ditadura da Indonésia, que tentou, usando
de todo o arbítrio e atrocidades animalescas, acabar com os
descendentes dos portugueses miscigenados com os povos dessa região,
apenas porque se recusam a abandonar a sua língua, a língua de seus
antepassados. Só depois que o Prêmio Nobel agraciou os dois líderes
da resistência à selvajaria do governo despótico da Indonésia, que
nem o próprio povo quer mais, a comunidade internacional se mostrou
sensível e algum movimento esboçou no sentido de acabar com o
conflito. Na eminência de não conseguir abalar a convicção desse
povo de língua portuguesa, o governo indonésio decidiu perpetrar o
terrorismo aberto e descarado contra os timorenses do leste, através
da contratação de milícias que, apesar do plebiscito popular onde
mais de 85% da população votou a favor da independência, vêm
cometendo as maiores atrocidades, como assassinatos, torturas,
estupros de mulheres e crianças. O que está a O.N.U. e a comunidade
internacional esperando para intervir militarmente? Estão esperando
uma outra Angola e Moçambique!!!!!!!! Quando mais nenhuma identidade
nacional e cidadania restar, quando mais nada existir no Timor Leste
além de cinzas, fome e miséria total, vão enviar uns poucos soldados
de algum país sul-americano para explodirem junto com as milhares de
minas instaladas!!!!!!!!
Um povo é a
sua língua: os desamparados, os esfomeados, os perseguidos no mundo
todo que falam a língua portuguesa se integram à imensa massa das
minorias excluídas planeta afora! Há uns anos atrás Israel resgatou
pelo mundo afora todos os Judeus que quisessem viver em Israel, não
importando sua língua, sua cultura, sua raça e quão longe pudessem
estar. É um belo exemplo de conceito de povo! E não falavam a mesma
língua. Será a religião mais consistente e importante do que a
língua? Ou será que Israel tem uma ética que suplanta a retórica e
inoperância internacional?!
A
propósito, por estes dias, em nosso país foi aprovada lei que obriga
o estudo da língua espanhola desde o ensino fundamental para nossas
crianças. Dá para entender a preocupação dos nossos congressistas e
de nosso governo com a integração com o restante da América Latina,
que fala o espanhol, ou melhor, o castelhano. Razoável em tempos de
integração econômica e formação de blocos econômicos mundiais. Mas
sempre me pergunto: os demais países de nosso continente também vão
ensinar o português às suas crianças? Ou essa é mais uma dessas
medidas unilaterais, da maior potência econômica do continente, que
na inexorável vocação à diplomacia, não exige reciprocidades à
altura de seus irmãos latino-americanos?! Nós vimos recentemente a
consideração que nosso "parceiro" mais forte tem com o Brasil, com
relação a tratados já firmados no âmbito do assim chamado Mercosul!
Diante de
tanta injustiça e bestialidade humana que mundo afora se realiza
contra as minorias, inclusive de língua portuguesa, fico pensando se
não temos razões concretas para nos preocuparmos com os destinos da
nossa língua no contexto da América Latina. Somos a minoria, mas
temos dignidade! Acho que vale a pena ficar atento, e exigir
categórica reciprocidade nesta questão, pelo menos no âmbito do cone
sul.
Mais do que
isso, temos o direito fundamental de preservar a herança lingüística
de nossos antepassados, com pena de nada sermos, com pena de
estarmos sutil e eternamente fadados à dominação, subjugação e
subserviência dos poderosos e dos que são em maior número do que
nós. A força de um povo não está na riqueza monetária e nem tão
pouco na quantidade de elementos. A verdadeira força está no
respeito ao seu passado, e à luta tenaz de passar para seus filhos
aquilo em que acreditam. Se a humanidade não conseguir respeitar e
preservar as minorias, e não conseguir suprir as necessidades
básicas dos povos, não poderá evoluir nunca do ponto de vista da
moral, da ética e do respeito que a si mesmo deve dar como espécie!
O futuro cobrará de todos, da espécie humana, estes desmandos e
estas atrocidades contra os povos mais fracos e oprimidos.
Ao povo do
Timor Leste, e a todos os povos mundo afora que falam ou não a
língua portuguesa, rendo minhas homenagens pela luta em prol de uma
identidade cultural. E me uno, desta forma singela, aos seus
clamores por paz, justiça, liberdade e direito a escolherem seus
destinos de forma autônoma e soberana. Onde a intolerância estiver,
lá estará um pouco de nosso ser. Cada criança com fome, cada mulher
estuprada, cada homem mutilado é um pouco de mim que está faminto,
que foi violentado e que foi arrancado, diante da comunidade
internacional impávida e conivente. Justiça seja feita!
José Manuel
de Sacadura Rocha.
Setembro de
1999 |