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BOLETIM BLOG # 38

 
Serviços Universitários

25/setembro/2006
Eu e os Amigos

Livro de Sociologia Jurídica

CORRESPONDÊNCIA

  ENSAIOS


 03/09 

VARIAÇÕES SOBRE A EXISTÊNCIA
O que existe?
Tudo.
Tudo existe.
Tudo existe para o homem.
Tudo existe para o homem que existe.
Tudo existe para o homem que existe para a existência.
Ou seja, para o homem aberto para a existência, que admite a existência de si próprio e para tudo o que o cerca, ainda que não atingível por sua percepção racional ou emocional.
Porquanto existe o homem, tudo existe, seja real (conhecido ou cognoscível ou desconhecido, visível ou invisível) ou ideal.
Quando não mais houver a humanidade, aí sim, poderíamos afirmar que para o homem nada existiu, existe ou existirá, porquanto permanece perceptível o atual plano espacial tridimensional da existência do homem, como corpo físico e como espírito (razão e emoção) dependente da existência corporal como meio de atingir e expressar a idéia. Há realidades sensíveis pelas percepções do corpo e outras perceptíveis pelas sensações e razões do espírito.
O que inexiste?
Só duas coisas.
A própria inexistência e a unidade.
 Dizer que “algo” não existe significa apenas, no vulgar julgamento do homem comum, que sua percepção não atingiu ou não conheceu ou não quer admitir ou conhecer.
O que não existia ontem, hoje existe.
O que não existirá, já existe ou existiu.
O próprio sonho ou realidade virtual já é a existência de algo.
Basta criar algo, qualquer coisa no pensamento, ainda que ninguém tenha visto ou pensado. A sua real imaginação é a própria existência do ideal ou virtual.
Não existe o cético. Este já admite a existência do invisível ou impossível, já admite a existência de Deus, quando exclui estas supostas existências do seu plano de conhecimento ou de pesquisa.
 A unidade não existe.
Admitir a unidade já denota sua divisibilidade per si. Algo é uno apenas conforme o ângulo ou natureza, no plano de pensamento humano por razões práticas. Mas teoricamente, a unidade não existe.
Admitir a existência do Universo já significa admitir a existência de algo que não lhe pertence.
Não admitíramos o dia sem a noite.
O alto do baixo. O feio do bonito. O mineral do orgânico. O material do espiritual. O bem do mal, o passado do futuro, cru e cozido, dado e construído.
O homem mesmo é dual, dois olhos, duas narinas, duas faces (no mínimo) etc.
Macho e fêmea. Vida e morte.
O autista admite a realidade exterior, mas não a aceita por si só.
Há duas espécies de realidade.
Há duas ordens de relações correspondentes a essas realidades.
Por isso, há apenas dois tipos gerais de regras. E dentro dessas, a dualidade prossegue...
Indagarão os senhores: mas não existe o ímpar? E o número “pi”, como pode ser dual se é infinito, não podendo ser perfeitamente divisível?
Ora, meus caros!
Admitir a imparidade é aceitar a existência da paridade.
Segundo, porque podemos representar o “pi” sobre dois.
Logo, como haveria infinito sem finito?
Vemos, assim, que a inexistência, como tudo, também é dual. Por si e pela unidade. Lembrem-se: Só DUAS coisas não existem. A inexistência existe por causa da existência, e quando manifestada, mostra-se dual. Per si, a inexistência não existe, tampouco a unidade.
 O ser é. O não ser não é.
A Existência e a Inexistência, unidas, são duas. Separadas, são duais em si.
Pense. E verás que tudo é tese e antítese.

Por Douglas Stefanelli, no útero filosófico.

 29/08

Daniel,
Não pude "passar desapercebida" à citação que vc trouxe de Todorov e, resolvi registrar uma de autoria de um "senhor" muito especial chamado TENZIN GYATSO :
" A compaixão é um poder. Cultive-a."
É também de autoria dele :
" A responsabilidade é a chave para a sobrevivência do humano e é a melhor garantia para implementar os valores universais e a paz."
Portanto, não considero que a OAB cometa o "pecado" da certeza da razão... Na minha opinião, ela se coloca como um canal para que o exercício do direito "floresça". Cabe aos operadores do direito o exercício do livre arbítrio. Cabe aos operadores do direito o exercício da responsabilidade. Sds, Telma.

 18/08

Olá Manuel,
Recebi seu e-mail.
Aqui está tudo indo. Muito trabalho.
Eu e meu marido, o Fred, abrimos uma empresa de representação comercial. Representamos empresas no ramo de equipamentos para panificação e confeitaria. Trabalhamos com algumas das melhores empresas do ramo tais como: Perlima, Cimapi, Progresso, Tedesco, Klimaquip, Brasforno, etc. Contamos com a ajuda do meu pai que está no ramo a pelo menos 40 anos e nos indicou para várias dessas empresas. O fred é muito bom para vender e eu ajudo no escritório (home-office) , além de cuidar da casa e tudo que envolve isto. As vezes não sei como dou conta, mas consigo. Com saúde, muito amor e vontade tenho conseguido. Faço votos pra que você consiga algo legal. É só encontrar o caminho certo. Todo mundo tem sua hora, todo mundo passa por altos e baixos, mas o importante é a essência de cada um e você é uma ótima pessoa, tem seu valor e receberá o que merece. Vá atrás. Vou te enviar uma foto do meu filho no próximo e-mail pra você conhecê-lo. Um grande abraço, sua amiga, Elaine.

 22/06

Resposta de uma pergunta que foi feita ao médico psiquiatra Roberto Shinyashiki, numa entrevista concedida por ele à revista "Isto É".
 O entrevistador Camilo Vannuchi perguntou a ele:
- Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?
 Shinyashiki responde:
- A sociedade quer definir o que é certo. São quatro as Loucuras da Sociedade.
 A primeira loucura é:
- Instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse significados individuais.
 A segunda loucura é:
-Você tem de estar feliz todos os dias.
 A terceira loucura é:
-Você tem que comprar tudo o que puder. O resultado é esse consumismo absurdo.
 Por fim, a quarta loucura:
-Você tem de fazer as coisas do jeito certo. Jeito certo não existe. Não há um caminho único para se fazer as coisas.
As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito.
Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento.
Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo a praia ou ao cinema, . .
 Quando era recém formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes.
Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte.
 Maior parte pega o médico pela camisa e diz:
"Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz".
 Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas.
Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida.
 "Ter problemas na vida é inevitável, ser derrotado por eles é opcional."
Guilherme

 18/06

Amigos, ontem ao entardecer (13/03), recebi uma ligação a cobrar. A pessoa identificou-se como sendo da Telefônica dizendo que meu Telefone estava com linha cruzada e ela iria consertar.
Estranhei a ligação e disse-lhe que a Telefônica não liga a cobrar, ele Insistiu e pediu que eu discasse:
       21*0211581172839#
Não disquei e falei pelo 190 com a Polícia ...  O policial disse-me que esta é uma ligação do Comando
Vermelho, das penitenciárias do Rio de Janeiro e que este número se acionado é mais que um clone , é uma extensão de seu telefone.
A partir daí, eles Ouvem tudo o que você fala e se for interessante pra eles,começam a ameaçar.
Isto é sério e extremamente perigoso. Avisem todos os seus Familiares, amigos, principalmente os mais idosos, empregadas, adolescentes, enfim, aqueles que, sem maiores preocupações, possam cair nessa conversa ..
O próprio policial pediu-me para divulgar. Inclusive se conhecesse alguém da imprensa, pedir para que eles também divulgassem, pois infelizmente o golpe já está fazendo vítimas em  várias localidades.
Não deixe de repassar esta mensagem.

NÃO ATENDER LIGAÇÃO NO CELULAR DESTE NÚMERO: (11) 9965.0000
Adriano Gomes

 

 22/09

   Borges fala da dificuldade em demonstrar aos judeus que "uma assembléia contra o racismo não deveria tolerar a doutrina de uma Raça Eleita" (Dois Livros). Então leio na Carta Capital que Borges, presumivelmente, nunca recebeu o Nobel por ter visitado Pinochet  (A Mancha Humana, no. 408). Borges diz que todos os que advogam Raça e Povo - como Pinochet o fez -, são nazistas e repetem Hitler. Como Chomsky, o lingüístico, e parafraseando Russel, o filósofo, Borges acredita que as crianças deveriam ser ensinadas para "a arte de ler com incredulidade os jornais", para que depois não se deixem "lograr  por artifícios tipográficos ou sintáticos; pensam que um fato aconteceu só porque está impresso em grandes letras pretas; confundem a verdade com o corpo doze [...]" (Idem). Recordo-me do nosso Reale... Será possível encantar-me com a poesia de Borges mesmo sabendo que não passam de artifícios tipográficos e sintáticos?  Oficialmente, no Chile, durante a ditadura de Pinochet,3.197 pessoas morreram como dissidentes, dos quais 1.192 permanecem até hoje desaparecidos. Maravilhado leio Borges sem entender Borges!

 

 20/09

   Dallari fala, em seu Elementos de Teoria Geral do Estado,  de Hobbes com a certeza pacificadora própria do senso comum: "Hobbes acentua a gravidade do perigo afirmando sua crença em que os homens, no estado de natureza, são egoístas, luxuriosos, inclinados a agredir os outros e insaciáveis [...]". Depois vai bem. Reproduzo as palavras de Hobbes, e basta:"A natureza fez os homens tão iguais quanto às faculdades do corpo e do espírito que, ... quando tudo é considerado em conjunto, a diferença entre um e outro homem não é tão considerável para que um deles possa, por causa disso, reivindicar para si algum benefício ao qual o outro não possa aspirar, tal como ele.[...]De modo que encontramos na natureza do homem três causas principais de discórdia. primeiro, a competição; segundo, a desconfiança; terceiro, a glória" (Leviatã). Eis o jusnaturalismo de Hobbes: a igualdade, isso sim, é a desgraça dos homens! Os olhos vêem o que a alma lhes ordena!

 

 10/09

    Vou precisar explicar: é tão cômodo e tranqüilizador que o mundo da Lei seja! Sócrates, Tomás, Hobbes, Montesquieu, Kant, Comte e Kelsen são xifópagos na Lei, e de certa forma, psicólogos da alma humana: lhe dão a candura da felicidade acéfala. O destruidor, e o verdadeiro jurista  é Nietzsche: "A causa do prazer não é a satisfação da vontade... mas o fato de que a vontade quer avançar... O feliz: ideal de rebanho. Deve-se separar estas duas formas de prazer: a do adormecer e a do vencer. Os esgotados querem repouso, bocejos, paz, silêncio: esta é a felicidade das religiões e das filosofias niilistas. O ser humano diante de um pré-humano representa uma enorme quantidade de poder, não um aumento de felicidade. Como se pode pretender que tenha aspirado à felicidade?" (Vontade de Potência). Falo de Cossio e do sentido atemporal da conduta humana para o Direito. E me perguntam da segurança jurídica, da validade e garantia das Leis, etc, - os que são felizes, claro está. Tenho uma idéia: o Homem Oco de Eliot - "Fôrma sem forma, sombra sem cor, Força paralisada, gesto sem vigor" -, se compraz com o Recrutamento das Tropas de Kafka - "ele não deseja outra coisa senão ser convocado" -, e se a Lei já dava a moral e a razão, agora trás a felicidade. Kelsen não dá prazer, mas para o rebanho basta!

 

 05/09

      Schopenhauer em 12 pontos e uma conclusão: 1. Ali onde há Vontade há Vida; 2. A Vontade de Viver é o Ser que se move a partir da constituição cosmológica; 3. A multiplicidade, a divisão não concerne mais que ao simples fenômeno; e é um só e mesmo Ser o que se manifesta em tudo que vive; 4. O querer individualizante é o que provoca a dor, o sofrimento, devido ao fastio e aborrecimento da repetição do mesmo, estando na impossibilidade de não poder acalmar jamais o infinito do querer da Vontade; 5. O Egoísmo é assim a tendência ontológica da individualidade como Vontade de Viver; 6. O Estado, graças ao castigo, pode disciplinar essa maldade natural; 7. A atitude ética a superar esse egoísmo é a Compaixão diante do sofrimento alheio; ainda assim, essa compaixão é egoísta: concerne em reconhecer no outro diretamente a si mesmo; 8. Logo, a Compaixão não nos permite libertar-nos do sofrimento, aquela inexorável ânsia egoísta de Viver; 9. Solução: negar a Vontade, superar a Vontade de Viver pela auto-supressão da Vontade, pela contemplação, que pode ser de duas formas: pelo êxtase estético ou santidade ascética rumo ao Nirvana; 10. Aparência de critica em crítica da aparência que não toca a realidade da origem da dor produto do mal ético; 11. Submissão do sofredor histórico pelas classes opressoras, e a dor inevitável dos oprimidos imobilizados, por uma dor irrefutável e universal de um egoísmo igualmente inexorável e igual, cuja solução presumível é a estética e a vontade asceta pela santidade; 12. Modernamente, um mecanismo ideológico aterrador disfarçado de Filosofia - veja-se Fichte e Carlyle e a suspensão da vontade pela razão de Estado. Conclusão: O aparentemente crítico tornou-se reacionário! Diz Dussel (Ètica da Libertação) que Schopenhauer, na Comuna de 1848, emprestava a casa e o binóculo com que assistia ao teatro a um capitão e seus soldados para atirarem com maior precisão nos operários e o povo de Paris - ele não queria perder a herança do pai que lhe dava a vida de conforto pela qual podia dedicar-se à sua filosofia!

 

 29/08

      Leio, a propósito de Montesquieu, o senhor Guilhon Albuquerque, que vai muito bem até se sair com isto(Montesquieu: Sociedade e Poder, para a coletânea de Weffort, Os Clássicos da política): "No governo republicano o regime depende dos homens. Sem republicanos não se faz uma república. Os grandes não a querem e o povo não sabe mantê-la. O comércio, os costumes, o gosto pelas riquezas, o tamanho do país, as dimensões da população, tudo o que contribui para diversificar o povo e aumentar a distância cultural e de interesses entre suas classificações, conspira contra a prevalência do bem público". Na obra Modernidade e Holocausto, Bauman, baseado nas experiências de Milgram, comprova que na base da possibilidade de se cometer atrocidades contra um semelhante, com naturalidade e sem quaisquer resquícios de culpa, é que esses atos sejam entendidos como obrigações de comando dentro de um sistema bem articulado de distanciamento perpetrado pela burocracia de Estado. Para que essa burocracia não possa ser questionada e, portanto, nenhum mal seja aferido pelos executores da maldade e crueldade do genocídio (enquanto obedientes a ordens superiores da razão calculada pela máquina moderna do Estado), é que não exista qualquer sensação de distanciamento entre comandantes e comandados e que estes sintam a total integração dos seus superiores, monoliticamente confinados em suas atividades. Como bem o sabemos, qualquer subordinado obedece melhor se sentir que não existem discórdias e conflitos entre seus superiores. Portanto, com muita propriedade, diz Bauman: "o pluralismo é o melhor medicamento preventivo contra pessoas moralmente normais envolvendo-se em ações moralmente anormais". Montesquieu, obviamente, não apregoava o centralismo e o poder monolítico, muito ao contrário, talvez a sua grande contribuição foi precisamente apregoar a fragmentação isonômica do poder em instituições constitucionais que se fiscalizariam mutuamente. É sabido que Montesquieu vê como ideal a Monarquia Parlamentar inglesa como a forma ideal de governo, exatamente porque nela a sociedade se encontra melhor representada e os poderes e equivalem e fiscalizam. Isto não sanciona o centralismo e o anti-pluralismo; precisamos ter certos cuidados em certas questões e como elas são escritas!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Poesia UNIGALERA™
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Pela Paz

Figura: http://br.geocities.com/unigalera

Participe e faça a sua parte. A PAZ depende de você também!!
Salve esta "Pomba da Paz" e envie-a num e-mail para todos os seus amigos e... inimigos!
Coloque
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EM BUSCA DE: MEMÓRIAS!

I

           Naquela manhã José levantou-se tropeçando costumeiramente na esquina da cama. Olhou o espelho do banheiro e viu um rosto disforme e inchado e pensou que aquele era mais um erro de projeto: os humanos acordavam disformes e inchados. Bocejou, forçou a vista no espelho do banheiro e não viu nada, ou melhor, tudo que viu foi uma névoa branca, espessa e leitosa. Sorriu consigo mesmo e pensou como era fantástico o poder de sugestão de um livro. Esfregou os olhos com os nós dos dedos e nada, a névoa branca espessa e leitosa continuava sendo tudo o que via. Continuou sorrindo e pensou que aquele era mais um daqueles momentos tão comuns onde a consciência da realidade exterior se perde por instantes, e nunca se sabe por quanto tempo, hiato onde apenas a presença da memória se mistura numa profusão de elementos reais e fictícios construindo uma realidade puramente cerebral, um vácuo no espaço e no tempo onde nada se vê a não ser a consciência a si mesma, verdade ou mentira. Esfregou mais uma vez os olhos, agora com os dedos indicadores...

II

             O sertão que não era sua terra se aproximava definitivamente. Um ar quase sem oxigênio quente e sufocante. Uma terra cor de fogo, ocre rachado onde o calor subia em marolas fumegantes mesmo na sombra das árvores de longos contorcidos e descarnados ramos. O asfalto parecia derretido quando se olhava pela janela do ônibus em alta velocidade, á frente, dos lados, atrás. Dentro do veículo o ar fétido se misturava à algazarra das pessoas, adultos, jovens e crianças, que na medida em que o sertão mais e mais se apresentava, mais se danavam a falar a gritar e a chorar todos ao mesmo tempo, claro está, na medida em que o bagaço de laranja e o punhado de farinha o possibilitava.

            Maria havia dado à luz o primogênito do casal, uma menina gorduchinha de olhos grandes e pretos que desde logo se percebeu que era geniosa. Cerca de 90 dias antes Maria havia efetuado a mesma viagem para mostrar à família seu primeiro filho, principalmente aos pais, à mãe, a neta. E regressara do sertão com uma jovem adolescente cuja intenção era que ajudasse o casal na grande cidade, em troca de casa, comida, estudo e salário, e este a mãe da adolescente havia deixado claro para que fosse remetido para ela; mas não dera certo porque a jovem queria mesmo era conhecer a grande cidade e em pouco tempo saiu de casa sozinha, perdendo-se, evidentemente, cuja sorte foi ter sido achada por policiais que conseguiram sabe Deus como reconduzi-la à casa dos seus responsáveis e tutores. Além da sarna que a jovem trouxera consigo, e que passara à bebê, a jovem cujo nome se perdeu nas lembranças, tinha aquela personalidade altiva e forte do nordestino, moldada pelas agruras e dificuldades permanentes do grande sertão, do pedaço do país onde impera secularmente a miséria e o clientelismo provocados pelo coronelismo latifundiário, cuja vitalidade é impressionante e boçalmente superior às forças democráticas do resto do país, em parte, verdade seja dita, devido igualmente à boçalidade e incompetência da inteligentsia elitizada saída dos porões da ditadura. E devido a isso tudo, José levava a jovem de volta, esvaziando-se assim a troca de favores oficializada na justiça, devolvendo aquela criatura ao grande sertão.

E o grande sertão os engolia a todos na mesma velocidade do ônibus que há três dias e meio devorava as paisagens mais contrastantes e surrealistas possíveis. E quanto mais perto do destino se chegava mais a luta entre o mal e o bem saíam das páginas do grande romance e invadiam a mente do jovem José que aos 22 anos conhecia o verdadeiro sertão, e que deixava as imagens fortes penetrarem seu cérebro e reverem a leitura que havia feito a partir do que lera e do que os professores lhe haviam dito sobre essa parte do país. E assim o tempo inesgotável e cada vez mais elástico parecia passar.

Era o ano de 1980 de Jesus. José tivera dificuldades para entender no começo, mas agora estava claro que o Deus e o diabo, o bem e o mal, estão dentro de cada ser humano. A conclusão que se formava em seu espírito imberbe era que seria absolutamente racional que em certas condições o mal recrudescesse mais forte na alma humana e solapasse quase que completamente a existência do bem, e isso variaria de acordo com as condições de vida a que os homens estivessem sujeitados. Assim, quando finalmente chegou a seu destino e foi recebido meio a um conflito peculiar do sertão com briga e desaforo por bebedeira e intercalação física mediada por uma tal de “peixeira”, regozijou-se e sofreu por ver que sua tese elaborada durante a viagem fazia sentido, pois as condições de vida em que encontrou aquelas pessoas estavam além de sua imaginação e eram impossíveis de serem descritas perfeitamente, destarte a eloqüência do poeta e do escritor, o que imediatamente perdoou tal lhe pareceu a brutalidade intraduzível daquele pedacinho do sertão no interior da Paraíba. Mas ao mesmo tempo, sofreu e regozijou-se ao perceber que o nordestino é amável e desdobra-se para oferecer o pouco que tem e o que não tem, numa amabilidade que beira às raias da subserviência para com o viajante principalmente se este apresentar indícios de algum poder material, o que, bem explicado, ver-se-á que apresenta coerência com as relações de vassalagem perenes com o latifúndio. Mas, por vias tortas ou não, o fato é que aquela amabilidade, principalmente a doçura da sogra – meu filho para cá, meu filho para lá – fez José pensar naquela noite, enquanto o sogro preso estava por tentar matar com a “peixeira” quem lá na sua visão o havia desacatado, que mesmo em condições de vida as mais degradantes e desumanas, os homens, talvez até mais as mulheres, como sua mãe ou a mãe de sua esposa, podem fazer com que o bem se sobreponha ao mal, apesar, repetia insistentemente no escuro, tudo estar a favor do demônio. Mas não havia dúvida que o grande sertão era o melhor lugar que já havia presenciado o bem e o mal se dedicarem ferozmente a conquistar as almas humanas; mais do que Alighieri ou Goethe, Guimarães Rosa. Falaria sobre isso quando voltasse. Queria ver o que seus colegas do escritório, da universidade, os amigos, os seus pais e professores lhe diriam.

A modernidade vendeu-nos uma idéia de um mundo a ser conquistado pela força de caráter, pela racionalidade, pela inteligência e engenho humanos, pelo trabalho honesto e, precisamente, pelo fim do servilismo. Mas ali, no sertão, nada disso parecia ser adequado e estar realmente funcionando. Era como se o tempo estivesse parado num feudalismo tupiniquim, guardadas as devidas particularidades. Mas estas particularidades que desenhavam perfeitamente um quadro aparentemente diferente, era no fundo uma realidade feudal. A modernidade ali não chegara ou pior, talvez já tivesse passado, ao largo, muito ao largo. Mas uma coisa era certa: aqueles dias jamais o deixariam, e aqueles acontecimentos e imagens jamais se perderiam entre tantas outras. E virou-se para olhar na cama humilde o céu estrelado do grande sertão... veredas; veredas que os filhos da modernidade não viram, não viveram, e quando viram ou viveram não sentiram.

III

Ao negro Silas pela amizade e pelo aprendizado de tolerância!

Queria dizer o mesmo ao povo de Angola: não sei porquê não consigo! 

Foto. Branco. Preto. A praia. Das maçãs. O branco e preto da foto que o tempo não pode amarelar debaixo do sol velado do atlântico norte. O garoto negro magro e esguio treme de frio; escorre água, pois acabara de sair do mar gelado mesmo sendo verão no atlântico norte. O garoto negro está gelado e o abraço que dá ao garoto branco gorducho tem a propriedade de provocar arrepios de frio... não fora esse abraço o verão seria como um verão qualquer para o garoto branco e gorducho de 5 anos. Quando do futuro se olha para o passado, seja lá o que for passado e futuro, percebe-se a extraordinária presença da linha da vida que une fatos e acontecimentos e os encadeia de forma única e profética: mas há que os ver inversamente em relação ao tempo. Quer isto dizer que se pode ver o futuro!? Poucos anos antes uma vidente havia profetizado que José faria uma grande viagem... Talvez tivesse que fazer mais de uma grande viagem em busca da felicidade.

O conceito de tolerância tem valor. O valor de um conceito é dado por sua substância e para os homens as substâncias de seus conceitos os remetem a determinadas posições diante da sua existência concreta. Isto quer dizer que se alguém se diz tolerante em relação a alguma coisa então se afirma intolerante em relação a seu oposto: se disser que tenho tolerância racial isto obrigatoriamente significa dizer que sou intolerante em relação à intolerância racial ou que não aceito o racismo, como se queira dizer. Portanto, ser tolerante com algo é ser intolerante com seu oposto o que me obriga a ter uma posição definida sobre os dois lados da moeda. O conceito de tolerância é bivalente e me define sociopoliticamente na medida em que me posiciono e me constituo como elemento único e ao mesmo tempo coletivo em determinado contexto. Mas como a tolerância é um conceito em si mesmo moral ele se torna absoluto e hermético, quer dizer, não está relacionado com determinado contexto... Ou não deveria estar: não posso ser racista aqui e não ser racista ali e vice-versa. Assim, quem tem tolerância em relação à raça, religião, cultura e costumes, ideologia política, sexo, etc, não pode aceitar o racismo, o fanatismo profético, a utopia da superioridade civilizatória, a política além do bem estar da coletividade, o mito da complementaridade fisiológica como sinônimo de integridade espiritual e assim sucessivamente.

Uma das fantásticas proezas da modernidade foi precisamente esvaziar os conceitos morais retirando-lhes a substância hermética e, desta forma, torná-los, aparentemente, reflexos simples do contexto, do momento, da oportunidade e do “politicamente correto”. Outra estratégia bem sucedida foi a equiparação entre conceitos cuja substância é diametralmente oposta, mas que na banalidade do moderno aparecem como sinônimos e de igual importância. Nos dias do pós-moderno é muito comum confundir-se tolerância com indolência. Enquanto a primeira é afirmativa e se engrandece em sua significação, o conceito de indolência remete à negação de uma substância ativa na vida dos homens, haja vista que o ser indolente não toma posição alguma diante dos fatos permanecendo apático em relação a qualquer motivação e conduta moral mais perene que lhe poderia suscitar reações e comportamentos efetivos. A engenhosa transmutação que leva ao esvaziamento do ser e da vida pode ser decorrência de uma maximização sempre empobrecida e interesseira de um período histórico e de uma cultura conivente e determinada pela produção mesma da existência humana. A contemporaneidade do consumismo depende da liberalidade de valores; daí ao permissivismo egocêntrico e ao egoísmo apático é um pulinho. No extremo desvirtuado e manipulado da tolerância se estabeleceu ideologicamente, pseudoconcretamente, a banalidade do não-ser. A retórica mal-fadada aparentemente conveniente da tolerância sem limites esvaziou politicamente o homem moderno, o esvazia cotidianamente no tal do pós-moderno, na medida em que se instaura sutil e intencionalmente a racionalidade do “tudo é permitido” em nome da liberdade, e assim confunde-se substância como essência moral de ser a favor ou contra isto ou aquilo em um esvaziamento indolente do tipo não ser a favor de nada muito pelo contrário, desde que meia dúzia de bugigangas possa ser relatada ao sensor como sendo minhas, ou em outras palavras, se eu puder consumir juro que não me meto na sua vida e não vou questionar a forma da reprodução dessa vida, economicamente falando, politicamente falando, socialmente falando, filosoficamente falando e sejam quais forem os “andos”.

Lá pelos idos de 1973/74, numa sala comum de aula a não ser pelo fato de apresentar 95% de negros, 1% de mulatos e 4% de brancos e pelo calor estonteante de mais de 40º C destarte a sombra e a brisa do mar, o professor francês de francês entra abruptamente, deposita seus livros ruidosamente na mesa e o silêncio total se faz como que por um passe de mágica (principalmente se levarmos em consideração ser uma sala de jovens pré-adolescentes entre 11 e 12 anos). Inadvertidamente o negro Silas riu baixinho por causa de algo que o jovem José lhe havia dito, ainda como extensão da galhofada geral e anterior à entrada tempestuosa do professor francês de francês. Imediatamente o professor de forma irada pede ao negro Silas que saia da sala. Ainda sem entender o que havia acontecido, o negro Silas se levanta e de forma temerosa caminha até a porta, tentando equilibrar os seus pertences debaixo do braço diante do olhar atônito de alguns, de prazer de outros, de incompreensão da maioria que estavam de boca aberta agachados protegendo-se atrás do corpo do colega da carteira da frente. Ao passar pelo professor que se postara junto à porta da sala, o negro Silas recebe um tapa na nuca e um pontapé em seu traseiro com tal violência que fez com que se precipitasse violentamente pela porta a fora, o que resultou obviamente na sua queda e que para se proteger do choque violento com a parede do corredor externo soltou todo seu material que ficou espalhado parte ainda dentro da sala. Agora parece que tudo aconteceu em ínfimo lapso de tempo. O tempo real não foi muito grande de verdade. O jovem português José, cujo destino o levara, menos de dois anos depois daquela foto gelada abraçado a um menino negro em uma praia do atlântico norte, a cumprir a profecia da vidente, levantou-se, pegou seu material e de cabeça erguida olhando para o professor francês de francês calado saiu da sala de aula.

José teve poucos amigos como o negro Silas e de todos os seres humanos que em sua vida passaram nenhum foi tão negro na pele e tão branco em sua iluminação interior como o negro angolano Silas. Hoje José sabe o significado da palavra amigo. Na época apenas sentia algo que começava a aprender o seu significado. Mas algo diferente José já aprendera, algo que será eterno enquanto os homens souberem valorizar o que é importante e o que faz a diferença: o verdadeiro significado da palavra tolerância. A verdadeira diferença entre os homens está no comprometimento que cada um tem com querer ser, querer fazer, o que defender e o que condenar. José jamais se esqueceu que a partir daquele dia havia se comprometido definitivamente com a tolerância de forma positiva negando e combatendo todas as formas de desrespeito à diversidade, à divergência e à multiplicidade em todas as esferas que o universo nos apresenta. Lutar por isto não apenas no discurso interesseiro e mentiroso, mas com um sentimento verdadeiro e ações concretas nas mais inusitadas e pequenas situações que possam aparecer. Infelizmente hoje a indolência é tão grande que o agredido aparece como merecedor da agressão e o agressor como todo poderoso detentor de uma verdade inquestionável; e assim as pessoas não reagem, desde o mais simples arbítrio e desrespeito até a mais hedionda e gigantesca agressão à humanidade. Ninguém quer se expor, ninguém quer arrumar encrenca. Ninguém quer ser envolvido. E é isso que estão ensinando aos nossos jovens: não se envolva, não se meta. Tudo em nome de uma vida tranqüila, sem dores de cabeça e... sem conquista alguma; sem problemas e sem conteúdo algum; muito consumismo e sem filosofia. Este é o legado da modernidade e a realidade no pós-moderno: bem estar para alguns, miséria para muitos e uma vida sem sentido e sem conteúdo para todos. Uma verdadeira lobotomia social na humanidade que só tem se agigantado no começo do século XXI.

José recorda o negro Silas com carinho tendo a certeza de que esse angolano lá na costa ocidental do continente africano, num país banhado pelo atlântico sul, não se esqueceu desta história e deve lutar cotidianamente também contra a indolência, para que mais e mais fotos proféticas possam ser tiradas. Fotos de brancos e negros, amarelos e vermelhos, cristãos, judeus, islâmicos, hindus, budistas, ocidente, oriente, homens, mulheres, crianças... Há!... A pureza das crianças é bonita, e é bonita. Viver e não ter medo de ser um eterno aprendiz...

Continua...

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Força Sindical: www.cst.org.br

Central Única dos Trabalhadores: www.central.org.br

Ministério do Trabalho:  www.mte.gov.br/Programas/PrimeiroEmprego/default.asp

Universidade de Brasília (Concursos): www.cespe.unb.br

 

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Pensamento:

Não se trata de discutir o que é ser uma pessoa de bem, mas de sê-la!
Marco Aurélio


             

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