POR QUÊ EXISTE TANTA VIOLÊNCIA NO MUNDO HOJE?
José Manuel de Sacadura Rocha

A resposta a esta pergunta não é simples, todos sabemos. Mas, seja qual for a resposta mais coerente e aceitável, científica que seja, ela tem que passar pela realidade dos fatos. A violência é um fenômeno social que sempre esteve presente na sociedade humana, em maior ou menor grau, e sempre seu recrudescimento esteve ligado às condições materiais e concretas de vida dos seres humanos. Assim, historicamente, a violência na sociedade humana sempre esteve ligada ao fracasso das condições mínimas de vida das pessoas, ao fracasso da racionalidade (não a estritamente econômica, mas a orientada pela razão humanista) e inteligência humana, de um lado, e ao fracasso da solidariedade do outro. A violência de hoje (e pensar que a minha geração esperou tanto pela Era de Aquarius) é em grande parte produto de uma racionalidade doentia, uma irracionalidade que privilegiou sempre o econômico em detrimento do humano, o capital em vez da solidariedade. A violência de hoje, seja qual for a explicação que queiram dar, é produto de uma insanidade que usurpou a inteligência humana e a colocou a serviço da acumulação material insensata, mesquinha, descabida, privada, trocando a ganância das coisas materiais pela sabedoria de que o maior bem é poder dedicar-se ao outro, ao mais necessitado. Os dados abaixo demonstram isto, a predatória epopéia da sociedade humana nos últimos tempos, o total fracasso do humanismo e da solidariedade, fracassos esses que nos colocou todos, ricos e pobres, de todos os credos, de todas as raças, de todas as culturas, de todas as nações do mundo, à beira da barbárie e reféns de nós mesmos. Por enquanto só nos resta acreditar que a máxima não será esquecida: "SE NÃO HOUVER JUSTIÇA SOCIAL PARA TODOS, NÃO HAVERÁ PAZ PARA NINGUÉM!"

A HERANÇA DO SÉCULO XX:

- Os 20% mais ricos dividem 82% da receita mundial (PNUD, 1996)

- Afortuna, em dólares, dos 358 indivíduos multimilionários mundiais é superior à renda anual acumulada pelos 45% dos habitantes mais pobres do planeta (PNUD, 1996, 2)

- Entre 1970 e 1985, O PNB mundial aumentou em 40%, mas o número dos pobres cresceu 17%. Quase 200 milhões de pessoas já viram sua renda diminuir entre 1965 e 1980. Entre 1980 e 1993, esse foi o caso de mais de um bilhão de indivíduos (PNUD, 1996, 3)

- Se, em 1960, 20% da população mundial que vive nos países mais ricos tinha uma renda 30 vezes superior em relação aos 20% dos países mais pobres, em 1995 essa renda era 82 vezes superior (Le Monde Diplomatique, Nov. 1998, 14)

- Mais de 1,6 bilhões de indivíduos vivem pior que viviam no início dos anos 80 (Le Monde, 11/10/96)

- Mais de 800 milhões de seres humanos passam fome e em torno de 500 milhões de indivíduos sofrem de subnutrição crônica (PNUD, 1996, 23)

- Entre 1987 e 1993, o número de pessoas que dispõem de uma rensa diária inferior a 1 dólar aumentou aproximadamente em 100 milhões (PNUD, 1997, 4)

- Todo o ano, em torno de 17 milhões de pessoas morrem de moléstias infecciosas ou parasitárias curáveis, tais como a diarréia, o paludismo ou a tuberculose (PNUD, 1996, 23)

- Milhões de crianças ainda não têm acesso à escola - 130 milhões para o primário e mais de 275 milhões para o secundário (PNUD, 1996, 23)

- Levando-se em conta apenas países que já faziam parte, em 1993, da OCDE, havia oficialmente, em 1996, 37 mulhões de desempregados, ou seja, três vezes mais do que no início dos anos 70, para uma população total de crescimento quase nulo (PNUD, 1996, 3)

- Nos países em desenvolvimento, o crescimento sem a geração de empregos traduz-se por longas horas de trabalho combinado com uma remuneração muito baixa, para centenas de milhões de pessoas que têm um emprego de pouca produtividade na agricultura ou no setor informal (PNUD, 1996, 3)

- Nos países industrializados, mais de 100 milhões de pessoas vivem aquém do limiar de pobreza monetária, definido como correspondente à metade da renda média individual disponível (PNUD, 1997, 2)

-Nos Estados Unidos, mais de 47 milhões de pessoas não têm seguro contra doenças, e em Londres, as estatísticas oficiais reportariam 400 mil sem-tetos (PNUD, 1997, 31-32)

-No antigo bloco socialista, após a reintrodução do capitalismo, a taxa média de pobreza absoluta para toda a região, fixada em 4 dólares por dia, passou de 4% em 1998, para 32%, em 1994. Portanto, ela multiplicou-se por oito. O número de pobres passou de 14 milhões para 119 milhões. Sessenta milhões desses pobres estão na Rússia (PNUD, 1997, 37)

- Segundo as estimativas das Nações Unidas, de 30 a 40 bilhões de dólares suplementares seriam necessários, por ano, para satisfazer, de 1996 a 2000, as necessidades relativas à nutrição, à educação e aos cuidados básicos com a saúde, assim como o abastecimento de água, ao saneamento e aos cuidados com a obstetrícia e pediatria de baixo custo. Essa soma pode parecer considerável, mas representa apenas um quarto do orçamento militar anual (PNUD, 1996, 82)

- O FMI calcula que Moçambique gasta U$ 6,20 por pessoa com educação e saúde. Moçambique continuará a gastar mais com o serviço da dívida do que com a saúde e a educação somadas. Se apenas a metade do reembolso do serviço da dívida fosse para a saúde e para a educação, isso salvaria a vida de mais de 300 crianças por dia e 16 mulheres a menos morreriam em conseqüência do parto (PNUD, 1997, 69)

- A mortalidade materna nos países em desenvolvimento - 384 para 100 mil nascimentos com vida - permanece doze vezes mais elevada do que os países da OCDE (PNUD, 1996, 23)

- O crescimento desenfreado e não controlado, que numerosas nações conhecem, devasta as florestas, polui os cursos de água, destrói a biodiversidade e esgota os recursos naturais (PNUD, 1996, 3)

- Os habitantes dos países industrializados constituiem somente uma quinta parte da população mundial, mas eles consomem - por habitante - aproximadamente nove vezes mais energia de origem comercial do que os habitantes dos países em desenvolvimento (PNUD, 1996, 24)

PNUD - Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento

OCDE - Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico

Dados retirados do livro "O Outro Davos - Mundialização de Resistências e de Lutas". François Houtart e François Polet (org). Ed. Cortez, 2002.

Julho de 20003

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