EDITORIAL
(Homenagem ao diplomata Sérgio Vieira de Mello, morto em missão de paz da ONU no Iraque, em 18 de Agosto de 2003)
ESTAMOS DE LUTO
Mataram mais uns; mataram mais um.
Só que este era nosso!
Que diferença faz? (pensamos todos)
Mataram mais um pouco a esperança de paz.
Oh! P(p)ai, até quando, até quando?
Oh! Espíritos de Luz, porquê, porquê?
Por quê nos enviaram esses facínoras,
Todos eles,
Por quê temos que conviver com esses dejetos humanos?
Até quando estaremos à mercê da ferocidade infernal,
Entre eles,
Até quando, até quando?
Oh! Boff, como a bestialidade e irracionalidade humanas
Saem de mãos dadas com o demônio
E nos obrigam a crucificar um Cristo
A cada dia, a cada hora, a cada minuto, a cada segundo,
Desta miserável existência humana
Em um chafurdar ignóbil, lamacento e pútrido
Jamais visto,
Em um bacanal sanguinolento de feromônios.
Como desejo ser uma galinha
E não uma Águia!
Para quê...?
Estamos de luto,
De um negro tão profundo que nos fez da cor da escuridão
Pré big-bang.
Por fora e por dentro as lágrimas marcam nossos corpos e nossas entranhas
Com sulcos... Que brilham, afinal!
Teimosamente brilham
Construindo caminhos em meio a tanta podridão,
Provocando sensações estranhas.
Dos escombros,
Do entulho
A fina flor de um Sérgio teima em procurar o sol.
Do empoçado chão molhado,
Da coalhada poça de sangue
A alma de um Gandhi ressuscita de mãos dadas com ele.
Enquanto os animais ferozes e sedentos de sangue
Teimam em se banquetear com carne humana,
Mais e mais as legiões da paz estarão fortalecidas
Na defesa da dignidade, da justiça e da liberdade humanas.
Mataram mais uns, mataram um dos nossos!
Mas ainda não acabaram comigo, com meu filho, com meu país, com a legião do diálogo e da tolerância mundo afora.
Nada,
Nem que suplícios infernais nos sejam infligidos
Nos fará desistir e calar.
Afinal,
Agora temos mais um espírito de luz que se juntou a outros tantos
Para nos fazer resistir e acalentar.
JMSR
São Paulo, 25 de Agosto de 2003