Os estatutos do homem 

[Thiago de Mello]

Fica decretado que agora vale a verdade,  que agora vale a vida, e que de mãos dadas trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Fica decretado que todos os dias da semana inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro abertas para o verde onde cresce a esperança.

Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único: O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça  do silêncio nem a armadura das palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Fica estabelecida que, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se  amor a quem se ama e saber que é a água que dá a planta o milagre da flor.

Fica permitido que o pão de cada dia tenho no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da  ternura.

Fica permitido a qualquer pessoa, a qualquer hora da vida, o uso do traje branco.

Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido. Tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo Único: Só uma coisa  fica proibida: amar sem amor.

Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú de medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo final: Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio e a sua morada será sempre o coração do homem.

 

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(por Marta Souza)

domingo, 04 de novembro de 2001

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