| O
poeta gosta de caminhar descalço pelos morros de Jarinu,
no interior de São Paulo, observando pássaros
e outros bichos. Crê no xamanismo e nos estados alterados
da consciência e gosta de John Coltrane, Miles Davis
e Monk, mas também de Red Hot Chili Peppers. O poeta
é ácido, sarcástico, e define-se como
anarco-monarquista. ''O marxismo, para quem gosta de natureza-morta,
é um prato cheio'', diz ele.
O poeta é
o paulistano Roberto Piva, um dos mais importantes autores
contemporâneos do País. Ele está em
vias de ter sua obra completa reunida por uma mesma editora,
um feito para qualquer poeta - e ainda mais para Piva, cuja
reputação de marginal maldito é antiga.
A Editora Globo já lançou os dois primeiros
dos três volumes com as obras de Piva, o primeiro:
'Um Estrangeiro na Legião' (200 págs,
R$ 38), que reúne 'Ode a Fernando Pessoa', 'Paranóia',
'Piazzas' e 'Os Primeiros Manifestos'. O segundo volume:
'Mala na Mão & Asas Pretas', , reunindo
'Abra os Olhos & Diga Ah!', 'Coxas', '20 Poemas com
Brócolis', 'Quizumba' e 'Segundos Manifestos'. Por
fim, sairá 'Estranhos Sinais de Saturno',
volume formado por um inédito, e 'Ciclones'.
Ninguém
foi mais rápido no gatilho do que Roberto Piva: no
início dos anos 60, ele escreveu 'Paranóia',
um dos retratos poéticos definitivos da metrópole
paulistana que emergia e de sua paisagem de morfina, seus
arranha-céus de carniça, seus arcanjos de
enxofre. A 'Action Surréaliste' destacou sua ''fascinação
pelos neóns e a alucinação pela metrópole
metálica''.
Ele continua
vivendo no coração dessa metrópole
que odeia e venera, num apartamento em Santa Cecília.
Ignora a Internet e os computadores. Ali, soterrado por
livros, recebe discípulos, curiosos e até
mitômanos há mais de três décadas
sempre com a mesma dedicação, mas já
sem tanta paciência. ''A juventude brasileira está
sendo preparada pelos professores para viver no século
19'', desabafa.
Sofrendo do
mal de Parkinson, Piva trata-se com vitamina B2. O remédio
atenua efeitos da doença e impõe certas regras:
ele não pode comer carne vermelha. ''Mas há
uma bela compensação'' ele festeja. Recomenda-se
que ele tome vinho tinto chileno ou francês, cujas
uvas contêm bioflavonóides, pigmentos de ação
terapêutica. O poeta brinda às ironias da vida.
O organizador
e responsável pela edição da obra de
Piva é Alcir Pécora, professor de Teoria Literária
da Unicamp. Os posfácios são do escritor Cláudio
Willer, de Eliane Robert de Moraes e do crítico Davi
Arrigucci Jr.
Piva tem um
currículo no mínimo excêntrico. Foi
um dos primeiros produtores de shows de rock no País
- produziu concertos de Made in Brazil e Duda Neves, por
exemplo. Sua poesia funda-se, além de uma invejável
erudição, na relação com o metafísico
e o sagrado. ''Sob o império ardente de vida do princípio
do prazer, o homem, tal como na Grécia dionisíaca,
deixará de ser artista para ser obra de arte'', ele
proclama.
Piva
cultua seus orixás (Xangô, Iemanjá e
Oxum) e também toca tambor para invocar seu animal
xamânico, o gavião. Se você estiver algum
dia zanzando pelas estradas da Cantareira e vir um homem
caminhando descalço com os sapatos nas mãos,
bom, talvez seja o Piva.
|
Pergunta
- Você nasceu em 25 de setembro de 1937 em São
Paulo. Onde passou a infância? O que queria ser na
vida?
Roberto Piva - Acho que não queria ser nada.
Passei a infância em São Paulo e no interior,
na fazenda do meu pai em Analândia, região
de Rio Claro. Eu era muito avesso à escola regular,
fiquei muitos anos sem estudar e depois fiz duas faculdades
para poder sobreviver, para poder dar aulas.
Quando você se definiu pela literatura? De quando
são os primeiros poemas? Nessa época você
convivia com outros poetas?
Em 1961. Saí na 'Antologia dos Novíssimos',
editada pelo Massao Ohno. Nesse período eu vivia
com o Cláudio Willer, Antonio Fernando De Franceschi,
Décio Bar, Roberto Bicceli, entre outros.
Na sua juventude (início dos anos 50) a novidade
literária era o concretismo. Como você via
esse movimento?
Eu não me interessava por ele. Era um pequeno
grupo que nunca me despertou interesse, eu não tomava
conhecimento disso. Não me interessava, como não
me interesso hoje. Esse negócio me parecia linha
de montagem e, em 1936, o genial Charles Chaplin, já
tinha "desmontado" essas estruturas com o filme
"Tempos Modernos". Portanto, não entrei
nessa.
No final dos anos 50 (com pouco mais de vinte anos) você
fez um curso de três anos sobre Dante Alighieri, que
parece ter sido decisivo na sua formação.
Quais outros autores estavam presentes nesse momento?
Nietzsche, Kierkegaard, os existencialistas, Heidegger,
filosofia e literatura, tudo misturado, Artaud, beat generation...
Sempre que escrevem sobre sua vida, recordam sua passagem
pela produção de shows de rock, nos anos 60.
Essa experiência — somada à linguagem
fragmentada do cinema e às inúmeras referências
a pintores (Bosch, De Chirico, Caravaggio) e escritores
— mostra um poeta essencialmente urbano, bombardeado
pela indústria cultural? Ou se trata de aproximações
poéticas?
Não tem nada a ver com indústria cultural.
É mais a segunda opção. Eram aproximações
poéticas com as obras que me impressionavam, me inspiravam,
me impeliam à criação.
Seus primeiros livros (em 1963 e 1964), conforme nos apresenta
Alcir Pécora no prefácio da obra reunida,
tem um "viés beat, whitmanniano e pessoano".
Você ignora o concretismo, não adere à
poesia participante, de conteúdo social e, tampouco,
segue a secura da tradição cabralina. O verso
livre, desprovido de toda e qualquer regra, era também
um grito de liberdade naquele momento de sufoco e repressão?
Que sufoco? Isso era muito relativo, os militares não
ficavam atrás de você o dia inteiro. Eles ficavam
lutando bang-bang com os terroristas e deixavam o resto
da população em paz. O verso livre tem a ver,
antes de mais nada, com o estilo da minha vida.
Homossexualismo. Alucinógenos. Marginalidade. Como
era viver de um modo tão controverso quando as minorias
tinham ainda menos espaço, menos expressão
na nossa sociedade?
Eu vivia como vivo hoje. Dava aulas para sobreviver
e não pensava muito nessas coisas. Foi um período
em que não escrevi quase nada.
Pois é, esse período coincide com um hiato
na sua produção poética. Depois de
uma estréia tão forte, com Paranóia
e Piazzas, você ficou 12 anos sem publicar. Por que
isso?
Não sei. Eu não pensei nisso. Para falar
a verdade eu nunca pensei nisso.
Já nesse primeiro momento, sua poesia vem acrescida
dos "manifestos". Como eles foram divulgados e
como você os analisa dentro da sua produção?
São poemas também, ou tratam de questões
que não cabiam nos poemas, por isso, esse outro formato?
Não os considero poemas, era uma outra maneira
de me expressar, eram manifestos mesmo. Os manifestos dos
anos 60 eram divulgados por mimeógrafo, em plaquetes.
Segundo Alcir Pécora, esse primeiro momento já
traz algumas características marcantes da sua "poesia
explosiva": o jogo de extremos e a escolha do autor
("condição desta escrita libertina");
a centralidade do sexo e a tangência do sagrado ("ato
profanatório ou excesso amoroso e orgiástico");
e, por fim, a recusa ao sentido (a incompreensão
como "um tipo de violência exigida pelo verso
novo contra o comodismo"). Como a crítica, na
época, reagiu a essa novidade poética?
Ela não reagiu. Não saiu nada. O Pasolini,
depois de cineasta famoso, publicou um livro que foi ignorado.
Ele mesmo teve que fazer uma resenha, com pseudônimo,
para chamar atenção da crítica e ter
o trabalho reconhecido.
Existia um projeto poético? Em que ele se diferencia
de suas experiências pessoais?
Não tinha projeto poético. Tinha a vivência
poética. Minha vida e minha poesia são uma
coisa só.
A poesia portuguesa do século XX tem muitos autores
influenciados pelo surrealismo, bem mais que a brasileira.
Que autores portugueses lhe interessam?
Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Mario Cesariny
de Vasconcelos, António Maria Lisboa, enfim, vários
autores que se aproximaram bem mais do surrealismo que os
autores nacionais. Aqui, só o Murilo Mendes tinha
uma vertente surrealista muito forte.
De 1975 a 1985 você publicou cinco dos seus oito livros.
Nessa fase se acentua o surrealismo e com ele aparece o
refúgio na natureza, o batuque, os primeiros xamãs.
É fortíssima a defesa ecológica, a
crítica aos valores predatórios da civilização
capitalista. Esse grito de resistência, muito claro
nos manifestos do início dos anos 80, está
hoje diluído nos versos curtos dos cantos xamânicos
da fase mais recente ou não?
A crítica era contra o provincianismo que acompanha
todos esses movimentos, sou totalmente a favor da globalização,
não sou brasileiro, sou um cidadão do mundo.
Essa poesia xamânica, da fase mais recente, está
também presente no Vinte Poemas com Brócoli,
de 1981. Esses manifestos estão mais atuais do que
nunca, e hoje acredito que estão mais envolvidos
com a poesia.
Após uma fase blasfematória (1960), acentuou-se
a surreal (1970/80) até chegarmos à mística
(1990 até o presente). Novamente, recorro ao prefácio
do Alcir, para ressaltar que "os elementos mais relevantes
de um período permanecem em todos os outros, havendo
aspectos de continuidade e coerência marcantes em
todo o conjunto". O culto, o ritual, os tambores são
hoje suas ferramentas fundamentais para a realização
poética?
Não. Foram nos anos 80 e 90, atualmente estou
meio devagar com isso.
Com exceção do Ciclones (1997) e da reedição
de Paranóia (2000), seu trabalho não aparecia
em livro há 20 anos (a Antologia Poética,
editada pela L&PM, é de 1985). Mesmo ausente
do mercado editorial, como você conseguiu continuar
sendo referência para os jovens poetas?
Isso mostra que não sou poeta marginal, mas marginalizado.
E isso significa que a minha poesia tem uma dinamite própria
e alcança gerações que eu nunca esperava
que fosse alcançar.
Em 40 anos de poesia, não é possível
aproximá-lo de nenhum grupo ou corrente literária
brasileira. Sua "linhagem poética" remonta
a Blake, Rimbaud, os surrealistas, os beats. Você
não veio de "escola" alguma. Você
acredita estar fazendo "escola", ou seja, existe
uma poesia hoje inspirada em Roberto Piva?
Tem vários poetas jovens que escrevem influenciados
por mim. Não posso falar sobre o modo de vida deles,
muitos não conheço pessoalmente, conheço
apenas a poesia, mas vejo influências.
Sei que você evitaria apontar este ou aquele poeta.
Mas, você acompanha a produção atual?
O que você acha da poesia feita no Brasil pela geração
surgida nos últimos 10 ou 15 anos?
Acompanho alguma coisa. Gosto de muita coisa e também
não gosto de outras. Os poetas do Rio de Janeiro,
por exemplo, sempre deixam uma impressão favorável.
Acho que estamos num bom momento de produção
poética.
E qual sua avaliação da poesia feita hoje
pela sua geração, ou seja, a de poetas com
40 anos de estrada e uma dezena de livros debaixo do braço?
Tem várias pessoas ainda produzindo e vejo qualidade
nesses trabalhos, como o Willer, o Franceschi, entre outros.
De poeta marginalizado nos anos 60, ao reconhecimento como
uma das mais importantes vozes da poesia brasileira contemporânea.
A pequena circulação dos seus livros reflete
o horizonte curto do nosso segmento editorial, ou a crítica
demorou para reconhecer seu talento? Como tem sido a recepção
dessa "obra reunida"?
De modo geral, parece que ainda não me entenderam
direito. A não ser um pequeno grupo de críticos.
A obra reunida tem sido bem recebida, mas não sei
se isso significa entendimento. Acho que falta mais leitura
por parte da crítica, mais conhecimento, principalmente
na grande imprensa.
|