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Peter Greenaway -
Você está procurando me fazer as perguntas
certas da maneira mais correta possível. Na minha
trilogia inacabada, todos os filmes tratam de certa forma
do mesmo assunto. A Última Tempestade
(1991) é sobre os usos e abusos da sabedoria e O
Bebê Santo de Macon (1993) sobre os usos
e abusos da religião. O terceiro é um projeto
que será basicamente sobre necrofilia e sobre a busca
e a localização da alma. Na história
européia, a alma viajou da barriga, onde os romanos
a localizavam, para o coração, onde os cristãos
acreditavam ser a sua localização. Acho que
agora ela está localizada mais para cima e simultaneamente
em algum lugar fora do corpo. A história deste filme
acontece durante a Guerra dos 30 Anos, quando a Europa estava
cheia de cadáveres e um anatomista procurava pela
alma nos corpos mortos. Ele acreditava que a alma podia
estar fisicamente localizada em um órgão como
o baço ou em uma parte do cérebro. Estava
determinado a achar a sua localização exata.
Acreditava que assim poderia erradicar a maldade através
de uma operação cirúrgica. Mas as pessoas
à sua volta também estavam muito interessadas
em achar a alma, então elas o enganavam. Homens e
mulheres trapaceavam com ele nessa procura. Não elaborei
nada mais além disso.Também
estou interessado em necrofilia. Queria fazer um filme que
se passasse neste período e sobre os problemas desta
guerra. Como a guerra é conduzida por homens mais
velhos, e temos um número extraordinário de
ótimos atores velhos na Inglaterra, eu gostaria de
utilizá-los neste filme. Todo o elenco estaria acima
de 65 anos e teria que fazer tudo com próteses, já
que seria extremamente difícil abrir inúmeros
cadáveres com o tipo de orçamento que temos.
Assim, a maior parte do filme seria filmado no escuro. Daí,
você pode imaginar o que os financiadores pensaram
sobre um filme sobre necrofilia com todos os atores com
mais de 65 anos e todo filmado no escuro. Não foi
possivel levantar o dinheiro ainda. Mas o filme já
está no rascunho e o faremos mais cedo ou mais tarde.
Mudando de assunto
para o seu recente lançamento, o herói, o
pai, no filme 8 Mulheres e Meia, tem 55
anos de idade. Eu estou quase certo que você está
perto dessa idade.
Estou com 57.
No roteiro, você
descreve Philip Emmenthal como um homem muito bonito e atraente
que te diz mais do que o próprio ator que você
escalou para o papel. Então quão autobiográfico
é este filme?
Eu sou basicamente
um inglês, natural de Londres e criado de forma burguesa.
Se eu realmente criei um alter ego, ele será maior
do que a vida e maior do que nós mesmos podemos nos
ver. As circunstâncias e as aventuras que o meu alter
ego estará sujeito vão ser mais fantásticas
do que aquelas que eu poderia criar para mim mesmo. Algo
assim parecido com a relação Fellini/Mastroianni.
Fellini não podia trepar com todas as mulheres que
ele desejava, então colocou em Mastroianni essa possibilidade.
iExistem algumas cenas
em 8 Mulheres e Meia que são um
pouco chocantes.
Como por exemplo?
Bem, antes de mais
nada, o pai e o filho fazem sexo juntos. Então existe
uma fala no roteiro, que eu não sei especificar se
está no final do filme, sobre um personagem que ama
as vaginas e que gostaria que ele pudesse extirpá-las,
dessa maneira ele poderia observá-las todas às
vezes que ele quisesse. (Philip, depois de uma de sua mulheres
cometer suicidio: “É tão terrivel perder
a mais bela vagina que eu já vi na vida. Isto não
pode ser verdade. A vagina de Palmira é grande e
me acaricia e perfuma como se eu estivesse no céu.
Ela me segura como se fosse um polvo. Eu me pergunto se
poderia extirpá-la e mantê-la? Num congelador,
talvez...”).
Mas isso não
foi filmado não.
Em um certo sentido
essas cenas não deveriam ser chocantes no ano 2000,
mas aqui nos EUA, toda vez que uma atriz faz uma cena de
nudez acontece uma entrevista coletiva. A pergunta que sempre
se faz é: “Como é atuar pelado?”.
Sendo assim, você não acha estranho que mostrar
o sexo de forma tão aberta seja considerado pouco
convencional ou ofensivo para muita gente?
Eu presumo que
você está perguntando isso apenas retoricamente
porque já sabe a resposta. Vocês têm
um background puritano. O fato de serem protestantes ou
mesmo calvinistas tem a ver com todos estes problemas e
dificuldades. A melhor forma de responder a isto seria:
eu sou europeu. Vemos todas essas questões de uma
perspectiva diferente. Fui treinado como pintor. Tenho muita
familiaridade com o corpo nu, feminino ou masculino. Tenho
uma postura discursiva e estou certo de que o corpo humano
está no centro disso. Sua fisicalidade é importante
e positiva. Acredito que esta fisicalidade perderia sua
perspectiva sobre todos os outros sentidos. Estas são
as posições mais polêmicas, tanto quanto
a enorme curiosidade sobre situações e políticas
que envolvam os gêneros masculino e feminino.
Não sei se
você viu o filme “The Idiots” de Lars
von Trier, em que os pênis dos atores foram cobertos
com retângulos pretos. No seu filme, os pênis
são apenas uma coisa normal. Tem uma grande fala
na qual o pai diz como o pênis o inspirou a ser um
arquiteto. (Philip: “Contemplando o pênis de
meu pai, eu ficava interessado na engenharia do pênis.
O pênis é uma das máquinas de engenharia
mais impressionantes – estrutura sólida, hidráulica,
propulsão, pistons, compressão, inflável,
sensibilidade ao calor – praticamente tudo que caracterizam
as máquinas. Não existem máquinas feitas
pelo homem que se equiparem a ele.) Como o pênis te
inspirou a tornar-se um diretor?
(Risos). Novamente
uma ironia. Meu filme irritou muita gente porque é
uma espécie de avanço da fantasia sexual masculina.
Penso que se você vai trabalhar com esta fantasia
é melhor escancarar tudo. Organizamos 9 estereótipos
sexuais masculinos que são bastantes explícitos
no seu significado: o desejo de transar com uma freira,
o desejo de transar com uma mulher que está sempre
montando a cavalo etc... É politicamente incorreto
imaginar um cena na qual dois homens, pai e filho, são
capazes de criar um bordel particular. Isso está
quase fora do limite do que é considerado civilizado.
Isto pode ser tanto um sonho sexual de um ou de ambos os
sexos.
Todos os homens de
seus filmes parecem ser normais ou bem dotados. Alguém
poderia pensar que se o diretor tivesse um pênis pequeno,
nenhuma nudez masculina seria tão facilmente exibida.
Você acha
isto?
Sim. Alguém
poderia ter a impressão e intuir, ao observar as
sutilezas dos seus filmes, que você deve ser satisfatoriamente
bem dotado.
Me sinto muito
confortável em discutir assuntos sexuais nessas circunstâncias
e contexto. Acho que venho desenvolvendo em meus filmes
um paradigma e a confiança vai crescendo a cada filme.
O fato de você me fazer esse tipo de pergunta sugere
que existe uma legitimidade que possibilita discutir qualquer
assunto dessa natureza. Talvez com um outro diretor e em
outra circunstância não fosse tão fácil
tratar desses assuntos tão abertamente. Acredito
também que, em outro nível, e fico muito irritado
com isso, o cinema tradicional e ortodoxo de Hollywood lida
com a nudez de forma limitada, apenas do ponto vista do
corpo de uma mulher jovem entre 16 e 30 anos. O que acontece
com o resto das outras pessoas? O que acontece com toda
a massa de homens e mulheres, dos tipos masculinos e femininos
que não estão representados neste contexto?
Nós devemos ir mais além...
Como você reage
quando taxam os seus filmes de misóginos? Isso te
incomoda?
Existe uma tênue
fronteira o tempo todo. Temos que ser bastantes cuidadosos
ao fazer um filme. Me lembro em “O
Cozinheiro...” (1989), o personagem
de Helen Mirren termina o filme literalmente e metaforicamente
por cima. Ela é uma vitoriosa. Mas foi incrivelmente
humilhada para conseguir chegar lá. Será que
a humilhação de Helen Mirren é um argumento
misógeno ou é uma via natural a ser seguida
para se alcançar uma conclusão? Eu tendo,
é claro, a concordar veementemente com a segunda
alternativa.
Em “O
Livro de Cabeceira” (1996) você trata
a homossexualidade e a bissexualidade de forma natural e
esplêndida. Poucos outros diretores seriam capazes
de fazer parecer tão natural e como parte do dia
a dia das pessoas. Isso seria porque qualquer coisa ligado
a sexualidade é algo normal e corriqueiro para você?
Sem dúvida
nenhuma. Eu posso te provocar perguntando o que significa
a perversidade para você?
Coisas que os seus
pais não gostariam que você fizesse.
(Risos). Um outro
comentário curioso e que sempre me surpreende é
sobre os críticos americanos e como eles me vêem
como um fetichista. Posso perceber a maneira como usam esta
palavra, ela tem um significado profundo e pejorativo na
cabeça deles. Por quê devemos acreditar que
o fetichismo é pejorativo? Por quê os americanos
pensam assim?
Nós somos uma
nação muito contida. Nós temos muito
medo do sexo.
Por quê
isso? Poderíamos falar sobre uma herança puritana,
sobre os valores da família etc. Mas isto ainda não
responde realmente a estas questões.
Bem, nossos ancestrais
vieram para cá supostamente para separar a religião
do estado e eles falharam. E como a religião está
sempre envolvida...
Mas isso foi há
muito tempo atrás.
Edmund White uma vez
disse que os franceses achavam os americanos loucos porque
¾ da nossa população acredita piamente
que conversa com Deus. Nós realmente acreditamos
no pecado. Talvez o pecado faça o sexo ser mais prazeiroso
para nós, uma vez que acreditamos que seremos punidos
por fazer alguma coisa proibida e suja.
Talvez.
Bem, eu gostaria de
agradecer...
Foi um prazer..
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