2) Sim, podemos
considerar que esse “hoje” começou em
1789, quando o Bispo e o Rei cederam o assento ao fabricante
de vinhos ou cortiça e aos futuros especuladores
financeiros. Nesse período, que evoluiu da guilhotina
à Internet, surgiram diferentes idéias sobre
por que fazer poesia. Para alguns, ela é uma ferramenta
para mudar o mundo; para outros, é um severo exercício
estético, que se justifica na própria escritura;
alguns querem que a poesia altere o comportamento social,
influencie outras mídias ou o idioma, e outros acham
que a poesia, realmente, não serve para nada. Em
sua opinião, por que escrevemos poesia, atividade
que consome tempo, inteligência, esforço e
que não interessa a quase ninguém, além
de nós mesmos?
- Exatamente. Romantismo é um produto da mesma configuração
de que faz parte o Iluminismo. Um de seus componentes. Possível
a partir do momento em que destamparam a panela –
que aliás continua sendo destampada, o processo não
se encerrou, e nele a rebelião individual desempenha
um papel decisivo — com a queda dos absolutismos e
do poder temporal da Igreja. Queda dos absolutismos, não
— redução considerável, não
simplifiquemos as coisas. Poesia consome tempo? Pois então,
é um bom modo, bem prazeroso, de consumir tempo.
Olha, se poesia não me proporcionasse um certo nível
de prazer, de satisfação pessoal independente
de resultados como a repercussão, eu não mexia
um dedo sobre o teclado ou segurando a caneta para fazer
isso. Em segundo lugar, “nós mesmos”
é bastante gente. Dirigimo-nos a pessoas que partilham
um código, ou um mesmo repertório, sei lá.
E, é evidente, a poesia se projeta, tem um resultado
exterior à subjetividade do autor, embora saia de
dentro dela. Em caso contrário, seria um solipsismo,
escrever para o próprio umbigo, para sua imagem no
espelho. Seria paranóia aguda, galopante, alguém
se pôr a escrever para ser Dante, Camões ou
Baudelaire, isso, citando exemplos mais evidentes de autores
cuja poesia se projetou, constituiu cultura, portanto, produziu
realidade. No entanto, concordo, tanto quanto concordava
a primeira vez que o li, décadas atrás, com
o trecho de Octavio Paz, em O Arco e a Lira, em que ele
diz que a poesia, sendo histórica, produz história.
3) Como é
o seu processo criativo? A escrita automática, método
de composição do surrealismo, ainda é
válida?
- Claro. Com a ressalva que Aragon já havia feito
no Traité du Style, nos anos 20, de que um imbecil,
se fizer escrita automática, irá escrever
imbecilidades. Procedimento algum, em si, garante nada.
Mesma coisa que com alucinógenos, conforme já
repeti inúmeras vezes: o fato de Henri Michaux ter
produzido obra importante sob efeito de mescalina não
significa que alguém, por tomar mescalina, vá
escrever Miserable Miracle. Quanto a meu processo criativo,
é mesmo espontâneo. A frio, do tipo “vou
escrever um poema”, não dá, não
sai nada. Tem que haver entusiasmo, no sentido grego da
palavra, como embriaguez ou possessão, ou, no mínimo,
inspiração. Um dos poemas que saíram
publicados naquela edição de Azougue em que
figuro, Ruínas Romanas, eu estava lá, e me
vi impelido pela emoção a tirar um bloquinho
do bolso e ir escrevendo. Nem reparei, mas estava fazendo
um comentário à quantidade de autores, de
grandes poetas, que já haviam estado lá e
escrito sobre essas ruínas — alguns, eu nem
conhecia então. Aliás, tudo o que fiz em poesia
saiu mais ou menos assim, de impulso. Note bem, não
se trata de adesão a “escolas” ou cartilhas,
mas do seguinte: aquilo de que André Breton fala
no Primeiro Manifesto, das imagens poéticas que batiam
na janela, comigo é assim, uma frase, no caso desse
poema de que estou falando, a frase “quantos poetas
já não estiveram aqui?”, daí
para a frente, o texto vai saindo espontaneamente, quase
por si só, por sua conta. Aliás, essa experiência,
poesia como voz do outro, nem é patrimônio
exclusivo do surrealismo, basta ver o que, por exemplo,
Derrida escreve a respeito naquele seu ensaio sobre Edmond
Jabés em A Escritura e a Diferença.
4) Acredita que
a poesia tenha relação com estados alterados
de consciência, com a experiência visionária?
- A questão não é “acreditar”
— a questão é aquilo que é. Baudelaire
escreveu aquela quantidade de paginas sobre haxixe, a troco
de quê? Falava de um meio de passar o tempo, só?
Experiências visionárias? E Mallarmé,
aquelas enormes crises, ele ouvindo o refrão, la
penultiéme est morte, e aí escrevendo, ou
melhor, transcrevendo O Demônio da Analogia, obviamente
o tipo do texto que, digamos assim, baixou, que certamente
nem ele conseguiu entender o que significava, como traduzir,
decodificar, e que até hoje é tido como obscuro,
hermético. E Ginsberg ouvindo a voz de William Blake?
E o próprio Blake? E...? Podia escrever páginas
e páginas sobre episódios de criação
poética como revelação, êxtase,
algo baixando. É claro que não estou fazendo
nenhuma condenação a priori da escrita a frio,
pensada. Apenas estou dizendo como as coisas são,
ou foram, ou têm sido, historicamente, e não
só para mim.
5) Mircea Eliade,
autor de Técnicas Arcaicas do Êxtase, foi uma
influência intelectual marcante entre os poetas de
seu círculo literário? Você tem interesse
pelo esoterismo e por tradições iniciáticas?
- Sim e sim, as duas partes da sua pergunta. Com tudo o
que se escreveu depois sobre mito e sobre xamanismo, Mircea
Eliade me parece ainda insuperado. Há, nele, um fundamento
filosófico, ontológico, que é a idéia
da relação entre o homem e o mundo como algo
vivo, animado e sagrado, nas sociedades tribais, no mundo
arcaico. Quanto a esoterismo e tradições iniciáticas,
trato disso em minha narrativa em prosa, Volta. Nunca fui
adepto, de fazer parte de uma seita ou grupo, a exemplo,
digamos, de Yeats e a Ordem da Aurora Dourada. Interessa-me
o movimento oposto, da experiência poética
se tornar mágica, de, no contexto da criação
poética, acontecerem antevisões, revelações,
o acaso objetivo. Esoterismo e poesia se aproximam por ambos
terem como fundamento um modo de pensar analógico,
oposto à razão da herança cartesiana
ou aristotélica.
6) Fale um pouco
sobre o seu livro de estréia, Anotações
para um Apocalipse (1964). Como ele foi recebido na época?
- É uma série de poemas em prosa, escritos
automaticamente, e um manifesto, em um tom bretoniano, mas
que vale, penso, por antecipar o que vinha pela frente,
a rebelião contracultural, e mais coisas, e falar
de Ginsberg e outros em primeira mão, aqui no Brasil.
Recepção? Amigos gostaram. Tanto o meu livro,
Anotações para um Apocalipse, quanto os do
Piva, Paranóia e Piazzas, fora daquele ambiente,
ninguém entendeu nada, silêncio total. Crítica,
nem pensar. Levamos uns 15 ou 20 anos para ser lidos.
7) Como os poetas
do modernismo receberam a tua poesia? Tomaram posição
a respeito? Faço essa pergunta porque, em minha opinião,
o teu trabalho, como o de Piva, não tem nada a ver
com o modernismo dos anos 30 e 40... Claro, há certos
paralelos com Murilo Mendes e Jorge de Lima, na imagética,
em especial. Mas a impressão que eu tenho é
que a poesia de vocês existiria mesmo sem o modernismo,
pois descende de outras fontes, do romantismo, do simbolismo,
de Breton, dos beats, da contracultura dos anos 60... o
que você pensa a respeito?
- Penso um monte de coisas! Modernista, remanescente da
semana de 22, havia Sérgio Milliet, bela figura,
mas, no início dos anos 60, não tomamos conhecimento,
freqüentava o bar ao lado (ele e a turma dele no Paribar,
eu e minha turma mais no Leco ou La Crémerie, lugar
mais agitado), mas ainda assim era muito burguês,
muito establishment para nosso gosto. Não nos interessou
qualquer interlocução pessoal com modernistas
e afins, embora não tivéssemos dúvidas
quanto à importância de Drummond e admirássemos
Murilo. Bandeira, nunca gostei, simplesinho demais. Guilherme
de Almeida, o então Príncipe dos Poetas Brasileiros,
de enorme prestígio, nem chegar perto, de jeito nenhum,
representava tudo o que não suportávamos,
oficialismo, academicismo, restauração do
beletrismo etc. Idem os demais corifeus do retorno dos modernistas
ao academicismo, Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo.
O contexto literário imediato era dado pela Geração
de 45. Nem foi preciso romper, nos afastarmos, tomar posição
contra, bastou saírem Paranóia e Piazzas do
Piva, e o meu Anotações para um Apocalipse,
e eles imediatamente esfriaram conosco.
Agora, você tocou em uma questão importantíssima
ao falar em simbolismo. Pelo seguinte — na França,
em especial, modernismo estava dentro do simbolismo! Houve
aquilo que Breton denominou de correia de transmissão
entre simbolismo e surrealismo. Vanguardas recolheram um
legado simbolista. Veja bem: Jarry (e Jarry já é
tudo, em sua obra colossal, está tudo lá,
ele produziu século XX como ninguém) era simbolista,
freqüentava Mallarmé e os outros, foi quem proclamou
como fundamentos da nova literatura Rimbaud, Lautréamont,
Mallarmé. O primeiro tradutor de Jarry, para o italiano,
foi Marinetti... Apollinaire, o ideólogo do novo,
idem, freqüentava Jarry, o admirava. Os surreais adotaram
como referências, a exemplo de Jarry, a Lautréamont
e Rimbaud. Os formalistas, Eliot e Pound inclusive, a Corbière
e Laforgue. Linha direta, conexão, em todos esses
casos, e em outros.
Aqui não, o pessoal de 22 maravilhou-se com futurismo
e vanguardismo, mas não reparou em nosso próprio
simbolismo, no que havia de moderno em Kilkerry, na poesia
em prosa de Cruz e Souza. Não sabiam de Sousândrade,
e olha que em seus momentos simultaneístas, em muito
de Oswald, até lembram Sousândrade. Não
perceberam o anti-beletrismo de Lima Barreto. Nacionalistas
que não souberam olhar a seu redor, algo muito estranho,
que associo a uma certa caretice modernista, especialmente
em Mário de Andrade, um discurso como: sim, vamos
inovar, mas espere aí, até certo ponto, devagar,
loucura, isso não, como ele diz em seus primeiros
textos críticos. Isso posto, muito do que Mário
fez, gostamos. E, sem dúvida, Oswald, o mais inquieto
e criativo de 22.
8) Dentro da tradição
da poesia em língua portuguesa, com quais autores
você sente mais afinidade?
- Comecemos pelos portugueses mesmo. Ah, mas como líamos
Fernando Pessoa! E Sá Carneiro. Menos, mas devíamos
ter lido mais, Almada Negreiros. Portugal, como tem bons
poetas, os surrealistas, António Maria Lisboa, Mário
Cesariny. Os de hoje, olha, Herberto Helder, que bom que
saiu aqui, coloco-o em um primeiro time mundial. Dos brasileiros,
meu poeta é Jorge de Lima, já falei várias
vezes, que para Invenção de Orfeu ser reconhecido
como monumento literário mundial, tem que ser primeiro
lido e reconhecido por nós. Murilo, também.
Há uma frase inteligente de Roland Barthes, em O
Prazer do Texto, quando ele diz que Proust é uma
matexis para ler Flaubert. Ou seja, começar pelos
contemporâneos, os mais próximos, para aí
remontar aos clássicos. Quanto a mim, já cheguei
ao simbolismo, nesse trajeto. Em termos, também não
vamos exagerar, pois houve uma primeira formação
romântica, para todos nós.
9) Você
trocou cartas com Allen Ginsberg, durante o seu trabalho
de tradução de poemas do autor norte-americano,
reunidos na coletânea Uivo, Kaddish & Outros Poemas.
Fale um pouco sobre esse diálogo.
- Quando se acertaram os direitos de tradução,
consultei-o sobre algumas dúvidas que tinha, ele
foi muito atencioso, respondeu a minhas consultas. Tenho
as cartas. Depois que saiu Uivo, Kaddish & Outros poemas,
mandei-lhe, e ele me mandou os livros dele que saíram
desde então, inclusive essas edições
da poesia reunida e diários pela Harper & Collins,
com cartões para o dear translator friend. Queria
trazê-lo para o Brasil, na época em que estava
na Secretaria de Cultura, mas não havia mais condições,
ele já estava mal de saúde.
10) Como tradutor,
além de Ginsberg, você publicou os Cantos
de Maldoror, de Lautréamont, Escritos
de Antonin Artaud, poemas de Octavio Paz. Estes são
os poetas que marcaram a sua formação literária?
- Os poetas, não — alguns dos poetas —
tem muito mais, é claro. Dei sorte, as ocasiões
em que me convidaram para traduzir algo, Lautréamont,
Artaud, Ginsberg, eram autores com os quais, de algum modo,
convivia, que, para mim, tiveram valor de revelação.
Foi coincidência, acaso objetivo.
11) Fale um pouco
sobre o processo de criação de seus livros
Dias Circulares (1976) e Jardins da Provocação
(1981).
- Dias Circulares, quando, pela segunda vez, em 1976, o
Massao Ohno enunciou o fatídico chamado, “Willer,
quero te publicar!”, reuni o que tinha, poemas em
prosa e alguns com versos espalhados pela página,
fiz um novo manifesto, e apresentei-lhe tudo isso. Em Jardins
da Provocação, há poemas temáticos,
mas também escritos espontaneamente, direto, que
coexistem com os em prosa, assim como no meu próximo
livro, Estranhas Experiências. Há, continua
havendo, notas da véspera, como as passei.
12) Em Jardins
da Provocação, você incluiu, junto com
os poemas, um manifesto em que fala sobre o poder mágico
da palavra poética, com o enfoque da semiologia e
da teoria literária. Afinal, qual é a relação
entre poesia e magia? Concorda com Huidobro, de que a poesia
inaugura um mundo próprio, com sua própria
fauna e flora?
- Concordo. A poesia produz realidade. É possível
uma teoria literária aberta, incorporando a magia,
o pensamento mágico. É só abrirem-se
as cabeças desse pessoal, alguém realmente
querer ir além do cientificismo.
13) Você
está trabalhando em um novo livro de poemas, Estranhas
Experiências e no ensaio A Poesia Surrealista. Comente
essas obras.
- Estranhas Experiências é a reunião
dos poemas mais recentes, pretendo ainda selecionar e acrescentar
poemas dos livros anteriores, arquiesgotados. A Poesia Surrealista
vai de Baudelaire até, digamos, Claudio Willer &
friends. — até hoje, portanto. É um
livro que caminha devagar... devagar... uma coisa é
dar umas palestras, seminários, oficinas sobre surrealismo,
outra é pôr tudo no papel, com algum rigor,
buscando um certo grau de precisão de informação,
sem brincar em serviço.
14) Você
define sua poesia como lírica, no sentido de expressão
do sujeito, do eu lírico, e também quanto
à temática amorosa. A vocação
subjetiva, herdeira da rebelião romântica,
contrapõe-se à materialidade cabralina, centrada
na visão objetiva das coisas. Sua opção
de mergulhar no mundo interior, nos sonhos e obsessões,
afastaram-no da crítica social, sátira política?
Acredita ser possível conciliar o mergulho existencial
com a reflexão do estar no mundo, ou concorda com
Piva de que “todo ato individual é anti-social”?
- Concordo, sim. O que Piva diz não é antagônico
com estar no mundo. E insisto: eu nunca programei como iria
escrever. Lembro a frase famosa de Octavio Paz: o poeta
não se serve das palavras; é o seu servidor.
Crítica social, sátira, faço mais em
meus ensaios. Na criação, na leitura, até
na crítica, e muito, muito mesmo no ensino, é
preciso recuperar a dimensão da emoção,
da magia e encantamento, assim tornando-as (criação,
crítica, ensino) menos assépticos, menos burocráticos.
O que essa gente faz é desestimular leitores.
15) Em seus “poemas
da loucura”, o romântico alemão Hoelderlin
antecipou recursos da poesia moderna, como a estética
do fragmento e o texto não-linear. O psicanalista
Isaías Mehlson, a esse respeito, fez um interessante
comentário, afirmando que “o inconsciente é
uma consciência não-discursiva”. Essa
ruptura com a lógica narrativa e sintática
está presente em diversos experimentos de vanguarda,
como o Lance de Dados de Mallarmé, o futurismo, o
dadaísmo. Já a poesia surrealista foi acusada
por certos críticos, ligados à poesia concreta,
de ser uma tentativa de restabelecer o verso, ou seja, o
discurso e a sintaxe. O que você pensa a respeito?
- Eu cito essa visão fenomenológica do inconsciente
de Isaías Mehlson em alguns lugares. Hölderlin
louco e Gérard de Nerval em surto são modernos
justamente por produzirem obra não-discursiva. Agora,
veja que interessante, com relação a críticas
ao surrealismo: há duas vertentes de crítica,
dizendo exatamente o contrário. Uma crítica
de um marxismo mais soviético, acusando-o de irracionalismo,
e (isso até mesmo em um crítico da envergadura
de Antonio Candido, e confesso que não entendo como
é que pode, ao mesmo tempo ele apontar a importância
de Clarice Lispector e, com relação a Rosário
Fusco, fazer esse tipo de afirmação) reduzindo-o
a sintoma de uma crise burguesa. E a outra crítica,
acusando-o justamente do contrário, de racionalismo,
em Haroldo de Campos, que o chamava de filho bastardo da
lógica, ou em Leila Perrone Moisés, que chegou
a indigitar Breton como sendo racionalista ou cartesiano
ou algo assim, tempos atrás em um artigo no Jornal
da Tarde que eu precisava recuperar).
Pois bem. Então, vamos distinguir entre pensamento
lógico, fundado no princípio da identidade,
de que, A sendo A, e B sendo B, então, A não
pode ser B, e pensamento analógico, enxergando as
correspondências (no sentido de Baudelaire, mesmo)
entre A e B. Recentemente, em palestra no congresso internacional
“O Surrealismo: Atualidade e Subversão”,
realizado no campus da Unesp em Araraquara, entre 14 e 16
de agosto, mostrei como a ensaística de Breton recorre
muito mais ao pensamento analógico do que lógico
(até no Segundo Manifesto, em pleno furor marxista,
ele se permite tecer considerações sobre a
mesma conjunção planetária que teria
presidido ao nascimento dele, de Eluard e de Aragon —
olha, se recorrer à astrologia não é
pensamento analógico, então não sei
o que é). Permiti-me apontar como exemplo de leitura
surrealista o capítulo em Volta, a minha narrativa
em prosa, sobre Nadja de Breton, mostrando como essa leitura
é aberta, ao contrário daquela que utiliza
paradigmas, teorias literárias, forçosamente
fechadas, pelo modo como vou atrás de sincronias,
correspondências, acasos objetivos por sua vez tomados
como reais. Quanto à poesia surrealista, ela é
plural, inclui muita coisa tendente ao que faziam e viriam
a fazer os construtivistas. Agora, é sempre regida
pela analogia. Até perguntei, no meu artigo na Cult,
por que, então, quando registramos sonhos, eles se
parecem com obras surrealistas, enquanto poesia concreta,
na sua manifestação mais típica, nem
em pesadelos...
16) Ainda é
possível o surrealismo hoje?
- Acho que, em primeiro lugar, as pessoas têm que
ler surrealismo, aqui no Brasil — tem muita gente
dando opiniões as mais disparatadas, sem saber direito
do que se trata. O fundamento, a idéia da contradição
entre poeta e sociedade, do prosseguimento da rebelião
romântica, continua valendo. Movimentos e ações
coletivas inspiradas no surrealismo, acho perfeitamente
possíveis, e seria muito bom se acontecessem. Percebo,
hoje em dia, um tipo de cultura ou de movimentação
underground que tende ao surrealismo, incorporando, é
claro, a beat e outras tendências rebeldes e marginais.
Isso está acontecendo, neste momento, nos Estados
Unidos, com o grupo de Chicago. Algo disso, vejo em um projeto
como o da revista Azougue — também em nossa
revista eletrônica, do Floriano Martins e minha, Agulha,
www.agulha.cjb.net , entre outros lugares, os quais vejo
como registros, estações retransmissoras,
não exclusivamente surreais, é claro. Neste
número da revista Cult, que saiu enquanto respondo
a suas perguntas, trato de burocratização
do conhecimento. Surrealismo continua um grande antídoto,
um instrumento de combate.
17) O sonho das
vanguardas era unir o “mudar a vida” de Rimbaud
ao “mudar o mundo” de Marx. Como você
vê a atual crise das utopias?
- Olha, “crise das utopias”, tem muita gente
falando nisso pelo encerramento do ciclo dos regimes fechados,
burocráticos, de planejamento central, da esfera
do “socialismo real”, enfim, do modelo soviético.
Mas essa nunca foi minha utopia, nem esta é minha
crise, pois jamais esperei qualquer coisa desse tipo de
regime, sempre os achei autoritários. Sou anarquista,
e minhas utopias estão no mesmo lugar onde sempre
estiveram. A rebelião individual, inspirada em Rimbaud
e tantos outros, continua um caminho, talvez o caminho pelo
qual seja possível seguir.
18) Além
do naufrágio do stalinismo, que colocou em crise
as outras propostas de esquerda também, você
não vê uma crise mais ampla, no sentido de
ausência de uma proposta ética, espiritual
ou humanista? Não houve um retrocesso em relação
às rebeldias libertárias da década
de 60? A sociedade neoliberal, com suas longas jornadas
de trabalho e o ideal yuppie não trocou a contestação
pelo conformismo, o peiote pela cocaína, droga de
executivos que querem produzir mais?
- Sim, houve retrocesso. Mas na mesma proporção
em que contracultura teve algo de modismo, de cultivo de
uma exterioridade, de estereótipo, padronização,
massificação, como se puxar um fumo ou tomar
um alucinógeno ou escolher um repertório musical
fosse, em si, mudar alguma coisa. O retrocesso já
estava dentro, contido naquele período. Agora, neste
momento, há crise, talvez esgotamento do projeto
neoliberal. Mas quero saber o que irão propor em
seu lugar. Não pode servir como defesa ou justificativa
dos regimes fechados. Propostas éticas, espirituais,
humanistas, existem. A questão é se irão
adquirir caráter coletivo, como irão se projetar
em forma de movimentos, de algum modo de ação.
19) A opinião
de um escritor tem importância, hoje, no Brasil? O
que a UBE tem feito no sentido de resgatar o papel do escritor
como consciência crítica da sociedade?
- Escritor consagrado é formador de opinião,
sem dúvida, além de produzir realidade. Jorge
Amado, que morreu há pouco — ele produziu Brasil,
constituiu identidade. Era sócio da UBE, participou
de um congresso de escritores, em Portugal, 89, do qual
eu era um dos organizadores. Bela figura. Olha, diante de
certas políticas literárias meio mafiosas,
acho exemplar o comportamento dele — levar o Campos
de Carvalho para ser publicado na Civilização
Brasileira, apadrinhá-lo, quase — ele, Jorge,
realista, Campos de Carvalho surrealista, ele militante,
o outro nem aí...
A UBE procura defender os direitos do autor, políticas
culturais democráticas, enfim, age em um plano institucional,
além de promover atividades associativas. É
uma entidade plural, com um quadro de sócios grande,
que abrange uma diversidade de escritores, correspondendo
a níveis e registros distintos do que se poderia
chamar de consciência crítica da sociedade.
Acho que o escritor desempenha esse papel através
de sua obra, independentemente de uma entidade tentar resgatá-lo
ou não. UBE pode ser um espaço de convivência,
de diálogo, e instrumento ou meio para manifestações
e tentativas de intervenção política
nessas questões que mencionei acima, a começar
pela democracia e liberdade de expressão. Sempre
foi. Que interessante isso, Jorge Amado e Zélia se
conheceram naquele congresso de escritores de 45, da ABDE,
entidade da qual a UBE é sucessora... Você
vê o que pode rolar (rolou bastante, no que me diz
respeito) em entidades de escritores... Quem pensa que é
de uma austeridade imitando cerimonial de Academia está
enganado. Ao menos, comigo de presidente... Aliás,
nesse aspecto, o informal, o não-oficial, o currículo
da UBE é bom. Uma hora lhe conto umas histórias.
20) Você
participou da Secretaria Municipal de Cultura, na gestão
passada, realizando eventos na área da literatura.
Como foi a experiência de um anarquista vocacional
participar de um órgão do Estado?
- Naquelas condições, com liberdade de trabalho
e o bom diálogo que sempre tive com Rodolfo Konder,
foi bom. Deu para fazer muita coisa, debates, palestras,
apresentações de poetas, etc. Agora, a questão
do Estado — vou aproveitar para fazer um reparo ao
tipo de tese que o sociólogo Sérgio Micelli
anda sustentando, de uma espécie de vocação
ou propensão do intelectual brasileiro a dependurar-se
no Estado. Veja bem, nas mesmas condições,
se houvesse um posto desses na iniciativa privada, eu iria,
provavelmente com salários melhores, menos burocracia.
Ou então, em alguma instituição pública
não-governamental, a exemplo das que existem no Primeiro
Mundo — e até mesmo aqui, pois há que
reconhecer que o SESC, por exemplo, faz um bom trabalho.
Ou, ainda, se eu pudesse me sustentar com o que sei fazer
como escritor, tanto melhor. Digo isso porque, implicitamente,
acaba-se indigitando intelectuais, como se houvesse uma
preferência pelo emprego público, supondo além
disso algum vínculo orgânico, até ideológico,
sem considerar se há ou não alternativas.
Uma delas seria, talvez, a carreira acadêmica, dar
aulas, mas é mais difícil eu me encaixar nas
grades curriculares e estruturas departamentais do que em
cargos como aquele que desempenhei na Secretaria de Cultura.