Filho de peixe, peixinho é? No caso de Ademir da Guia , sim!
Filho do maior zagueiro do futebol brasileiro, Domingos da Guia, Ademir da Guia herdou do pai o jeito humilde, calado, a técnica refinada e os segredos do futebol.
Se o pai era chamado de "Divino Mestre" pela crônica da época. Ademir da Guia, por sua vez, ficou conhecido como "Divino". Apelido mais do que justificado.
Ademir era um nobre com a bola nos pés - resume Luís Pereira. Os adjetivos não são exagerados. De 1961 até 1976, ninguém ousou tirar a camisa 10 que parecia sob medida para aquele jogador alto, passadas elegantes, de carapinha loura e toques refinados.
Com suas passadas largas e ritmo cadenciado, ele parecia jogar em slow motiozn, só que não era bem assim.
Nem Pelé usaria tão bem aquela camisa 10 verde quanto Ademir da Guia. E aqui não cabe discussão. Adeptos incondicionais da controvérsia, os torcedores do Palmeiras só são capazes de ser unânimes em duas coisas na vida: no ódio ao Corinthians e no amor a Ademir da Guia. Tamanha reverência poderia ser explicada pela longevidade (16 anos de Parque Antártica), pela quantidade de títulos oficiais (12 conquistas incluindo cinco Paulistas e dois Brasileiros) ou pelos 866 jogos de Ademir da Guia com a camisa do Palmeiras, o recordista. Mas o talento de Ademir da Guia vai além das simples estatísticas.
Filho de Domingos da Guia, um dos maiores zagueiros do Brasil em todos os tempos, começou a jogar no infantil do Bangu, mas foi levado ao Palmeiras logo no começo dos anos 60. Assinou seu primeiro contrato em agosto de 1961, três dias antes do aniversário do clube. Um presente e tanto. Ele parecia lento com suas passadas largas, mas o ritmo da equipe estava sempre acelerado. Em meio à Era Pelé, só o Palmeiras de Ademir conseguia beliscar títulos. Foi assim em 1963 e 1966. Quando o Santos perdeu fôlego, o Palmeiras se tornou o melhor time do Brasil.
O sucesso que teve no Palmeiras, porém, nunca encontrou equivalência fora do Parque Antártica. Foi convocado escassas 12 vezes para a Seleção Brasileira e seu único Mundial foi o de 1974, quando passou todo o tempo no banco de reservas e só entrou na última partida, a decisão de terceiro lugar contra a Polônia. Foi substituído e o Brasil perdeu. Mágoa? Talvez, mas Ademir é um cavalheiro e diz que do futebol só guardou felicidade.
- Sou feliz com tudo o que conquistei. O Palmeiras me deu um jogo de despedida em 84, prestígio e um busto no Parque Antarctica. Preciso de mais reconhecimento? - encerra, com sua humildade.
Não ficou rico, mas teve o reconhecimento da torcida do Palmeiras. É um dos raros jogadores a ganhar estátua no Parque Antártica. "Sem Ademir da Guia o Palmeiras é menos Palmeiras", definiu o treinador Rubens Minelli ainda nos anos 60.
Ademir da Guia seria um pouco menos do que foi se não houvesse um homem chamado Dudu jogando ao seu lado. Os dois formaram o que muitos amantes do futebol consideram a dupla ideal, uma espécie de Pelé-Coutinho do meio-campo. A raça e a combatividade de Dudu eram complementadas à perfeição pela maestria e sensibilidade de Ademir da Guia. Os dois foram protagonistas do Palmeiras por 12 anos.
- Ademir merecia muito mais do que teve. Às vezes nem ele tinha idéia da sua importância para o clube - conta o eterno parceiro Dudu.