NÓS, FÓBICOS SOCIAIS, SOMOS UM POUCO "FANTASMAS DA ÓPERA"?

 

T

"The Phantom of the Opera is there... inside your mind..."

("O Fantasma da Ópera está lá... dentro da sua mente...")

 

(do musical de Andrew Lloyd Webber, "The Phantom of the Opera")

 

 

Sempre fui fã de musicais, principalmente os de Sir Andrew Lloyd Webber. Lembro-me do fascínio ao assistir "Jesus Cristo Superstar" quando tinha 14 anos... "é a evolução das óperas", comentava papai. E, realmente, marcou uma nova era na história da música. Mas o que mais me tocou foi mesmo "The Phantom of the Opera", tanto pela música, nada mais do que sublime, quanto pela intrigante história. Acompanhando as letras e o desenrolar da trama no livreto do CD, e muitos anos depois, assistindo à belíssima versão cinematográfica, tenho a impressão de que Webber, por assim dizer, "leu minha alma". Está praticamente tudo lá, todos os meus sentimentos, desejos, conflitos, paixões... chego a me perguntar se Lloyd Webber sofre um pouco de fobia social... É certo que tem o honroso título de Cavaleiro da Corôa Britânica e é conhecido no mundo inteiro... mas não costumo vê-lo envolvido em escândalos de tablóides (e os britânicos adoram um escândalo envolvendo celebridades, sabemos bem disso!) ou sendo "arroz de festa" em eventos. Posso estar totalmente enganada, mas parece ser uma pessoa discreta, que não gosta muito de chamar atenção. Seja como for, ele analisou, melhor do que qualquer psicólogo ou psiquiatra nesse mundo, todo o sofrimento de ser "diferente", de não se adaptar à sociedade. Sabemos que a história do Fantasma da Ópera não é invenção de Webber, obviamente, e que variações do mesmo tema são bastante comuns (vide "O Corcunda de Notre Dame", "Edward Mãos de Tesoura" e até mesmo "Frankenstein"). Mas, ele conseguiu dar um enfoque, a meu ver, bem mais profundo, e com inúmeras camadas de significado. Toda vez que assisto, tenho a impressão de estar assistindo a uma versão romanceada de minha vida! Como já fiz com o filme "Inteligência Artificial", passarei a analisar alguns aspectos que mais me chamaram a atenção no Filme-Musical, pois se fosse analisar todos os ângulos que consigo perceber, acabaria escrevendo vários volumes!

Como sempre, há os dois lados da moeda, pois me indentifico tanto com o Fantasma quanto com sua amada, Christine Daaé. Vou também analisar algumas letras (traduzidas livremente por mim) que tocaram fundo no coração e até desempenharam papel decisivo em certos momentos de minha vida. O autor das letras é Charles Hart.

Para início de conversa, creio que convém fazer o comentário, óbvio para quem assistiu ao filme ou a alguma versão da obra, de que o "fantasma" não é realmente um espírito, mas sim uma pessoa de carne e osso que vive nos subterrâneos do Teatro da Ópera parisiense. E por que razão ele criou esse personagem misterioso, assustador e que, ao mesmo temo, intriga e fascina? Pela necessidade de usar uma máscara... não apenas aquela de couro ou plástico que cobre parte de seu rosto, mas adotar uma personalidade singular que lhe desse meios de sobreviver na socidade que sempre o rejeitou, desde ou seu nascimento. O Fantasma, do qual nem sabemos o nome verdadeiro, nasceu com uma deformidade horrível na face, que causou horror até mesmo à sua própria mãe. Segundo o musical, a máscara foi a primeira peça do vestiário do bebê de rosto monstruoso. Sabemos que a sociedade teme o que é diferente, o que sái dos padrões determinados e aceitos, o que não se encaixa no paradigma. O Fantasma acaba virando atração circense (e isso me faz lembrar o robôzinho David, do filme Inteligência Artificial). As pessoas riem dele, debocham de sua condição que deveria, ao contrário, despertar piedade. Chamam-no de "filho do diabo", ligando à deformidade ao maligno. Nada mais comum de acontecer em nossa sociedade, mesmo que não a nível tão grotesco e radical. Também nasci "diferente"... mas a minha "deformidade" não estava à vista, não era por fora, só eu a podia ver com todos os seus detalhes horripilantes e assustadores... Mesmo assim, a sociedade sempre me rejeitou: sou odiada por muitos, amada por alguns poucos, muitos riem de mim... muitos não acreditam que eu tenha um problema (cabe então comentar que, para certas pessoas, o meu distúrbio é um fantasma, ou seja, uma lenda criada em minha cabeça, que não existe de verdade. E sabemos o quanto os fóbicos sociais sofrem quando parentes, amigos e até profissionais da saúde os acusam de estar exagerando o problema, rotulando a condição de "mera frescura"). Além do mais, ainda existe muito tabu e preconceito ligado às doenças psicológicas. A maioria dos fóbicos sociais esconde sua condição até das pessoas mais íntimas... muitos ainda associam tais distúrbios à possessão demonîaca, "encosto" e outros problemas de ordem espiritual. Eu, por minha parte, já fui até procurar um exorcista para ver se me livrava do problema, em vão.  E porque o mundo não consegue nos suportar do jeito que somos, temos que usar constantemente máscaras para que possamos sobreviver no ambiente que nos é hostil. Tentamos "ser como todo mundo". Lembro do tempo da primeira faculdade, quando resolvi vestir a "máscara" de pessoa extrovertida, sociável, alegre, divertida... mas chega um ponto em que a máscara nos é arrancada... ou então nós mesmos a deixamos cair, pois não é possível viver a farsa o tempo todo. Somos o que somos: por detrás da máscara, ainda está a deformidade do fantasma e, no nosso caso, a fobia implacável. E, também, quantas vezes me senti "invisível" ou seja, um fantasma, completamente ignorada numa roda de amigos ou numa reunião social qualquer (e isso ainda acontece! Hoje mesmo estava na escola de meu filho e as outras mães todas juntas, conversando como velhas amigas... enquanto eu estava quieta num canto, tentando interagir com Joe e outras crianças para "disfarçar" a falta de socialização com as outras mães... De vez em quando tentava entrar na conversa, fazer um comentário qualquer, mas sequer me ouviam... e lembro da mesma cena se repetindo inúmeras vezes ao longo de minha vida. Creio que o episódio mais marcante dessa "invisibilidade" foi quando comecei na nova escola primária e me dirigi ao grupinho que conversava com minha melhor amiga, que, como eu, era nova por lá (e tínhamos vindo da mesma escola onde cursamos o jardim de infância). Então, de certa forma, sou fantasma sim, tal e qual o da ópera (será coincidência o fato de que cresci ouvindo óperas praticamente o tempo todo e que meu pai é um fã incondicional deste gênero musical? Aliás, pelo fato de gostar de óperas, gênero este que não é apreciado pela maioria das pessoas, papai sempre foi considerado um "excêntrico", "retrógrado", "doido"... enfim,  um verdadeiro "Fantasma da Ópera" - literalmente).

Na versão de Webber, uma jovenzinha, estudante de balé, apieda-se do Fantasma e o esconde no subterrâneo do teatro parisiente, onde vive com sua mãe. Ambas passam a protegê-lo das maldades do mundo... assim como meus pais, de certa forma, fizeram comigo, pois nunca fomos muito sociáveis, nem tivemos muitos amigos... passamos a maior parte do tempo em nosso pequeno "mundinho", o  "Asteróide B612 do Pequeno Príncipe", nosso apartamento. Lá cresceu o Fantasma, longe do mundo que o rejeitava e podia machucá-lo. O teatro passou a ser seu mundo, seu domínio, sua área de segurança, onde passou a se sentir todo-poderoso a ponto de, mais tarde, exigir o melhor balcão sempre reservado para si e uma gorda pensão dos administradores do teatro. Como Quasímodo, o fictício "Corcunda de Notre Dame", ou "O Homem Elefante", história verídica, por uma terrível ironia do destino, a monstruosidade externa era compensada por uma incrível genialidade. Segundo a bailarina que sempre o ajudou, o Fantasma era arquiteto, engenheiro, mágico, exímio músico e compositor, ou seja, um verdadeiro gênio. À deformidade externa, correspondia uma beleza interna insondável e apaixonante... E ele tinha plena consciência disso, e sabia usar todas as suas habilidades da forma mais surpreendente e magnífica. Obviamente, queria mostrar seu gênio ao mundo, que sempre amou os gênios... mas a aparência exterior era o impecílio implacável, o "muro" cercando aquele ser especial de forma tão cruel. Ele sabia, também, que poderia conquistar, seduzir e até mesmo manipular as pessoas... se estas não vissem sua aparência distorcida, mas sim o seu cérebro privilegiado. Aqui, uma pausa para reflexão... Foi exatamente o que pensei a vida inteira, e que realmente aconteceu inúmeras vezes, principalmente após o advento da internet (fico até pensando como seria a vida do Fantasma se tivesse um computador conectado à grande rede lá no subterrâneo do teatro!): Se as pessoas, de alguma maneira, pudessem conhecer primeiro o meu interior, as minhas idéias, a minha sensibilidade, ou seja, o que está dentro do meu cérebro, sem a interferência da aparência externa (rubor facial, tremores, gagueira, gestos desajeitados e bruscos, gafes, etc) iriam me admirar e até mesmo amar. E realmente consegui exercer toda a minha capacidade de seduzir através da internet, tanto que consegui até marido! E também conquistei muitos amigos e pessoas que me admiram pelo que sou no interior (pois a maioria delas nunca me viu, a tela do computador é, de certa forma, uma das minhas máscaras).

Temos então dois pontos de vista, a princípio conflitantes, mas que se complementam, na prática: Existe a "feiúra interna": a Fobia Social que faz com que os fóbicos se tornem "criaturas da noite", "habitantes do subterrâneo", mesmo que sejam belos no exterior (não sou nenhuma modelo, mas também não sou horripilante... muitas pessoas dizem que sou atraente e que tenho boa aparência, embora sempre me veja como um "monstro" no espelho....). Por outro lado, temos a "feiúra externa": os rubores faciais, as tremedeiras, etc, encobrindo uma beleza interna quase insondável (a maioria dos fóbicos sociais com quem tive contato, seja pessoalmente, seja por meio de comunidades e listas de discussão da internet, eram pessoas geniais, super inteligentes, mentes brilhantes e privilegiadas, artistas da melhor qualidade, verdadeiros gênios!). Então, onde está a feiúra, onde está a beleza? Quem estabelece o que é feio ou belo? Quais são os padrões? Nada é o que parece, o feio se torna belo, o belo se torna horripilante, dependendo de como é visto e julgado.

O Fantasma se apaixona por uma órfã, também interna do teatro e estudante de balé, paixão essa platônica e, de certa forma, impossível, pois o Fantasma sabe que nunca poderá ser amado... e também tem muito medo de amar, de se entregar a alguém, de perder o controle da própria vida, de perder o muro de segurança que criou em torno de si. Passa então a treinar Christine para ser a cantora perfeita, a intérprete de sua música, o seu "rosto" perante o mundo (pois Christine, além de ser dotada de uma voz angelical, é também belíssima). Ele a deseja também como homem, pois nunca pode experimentar os prazeres da carne. Surge então a necessidade de capturá-la, de trazê-la para o seu mundo subterrâneo onde, com o tempo, ela vai descobrir sua beleza e genialidade e, consequentemente, apaixonar-se por ele. Soa familiar, não? Já comentei sobre o assunto no artigo Inteligência Artificial. Sempre pensei que era a única a ter pensamentos tão distorcidos e, de certa forma, psicóticos, de "raptar" uma pessoa para que pudesse me conhecer "como sou verdadeiramente", por trás das máscaras e também da "feiúra" causada pela Fobia. Como a bailarina que protege o Fantasma comenta, seu gênio chegou a tais proporções que, de certa forma, virou loucura. O Fantasma não tem limites nem freios, faz o que tem vontade, pois se sente todo-poderoso nos limites do mundo que criou para si. Como nunca viveu em sociedade, não desenvolveu a habilidade de lidar com ela, e acaba perdendo o controle da situação, magoando e machucando todos que se interpôem entre ele e seu objeto de desejo (Christine e, também, "ser como todo mundo"). Sinto que isso também acontece comigo, consideradas as devidas proporções (pois não vou sair por aí assassinando quem não gosta de mim ou raptando pessoas que quero conquistar, pelo menos não na prática, embora o pensamento possa alçar altos vôos de vez em quando). Praticamente todas as vezes que tentei me inserir na sociedade e me comportar "como uma pessoa normal", acabei metendo os pés pelas mãos e magoando seriamente muita gente. Assim que comecei a tomar o Rivotril, a Fobia Social quase que desapareceu completamente (embora esse "efeito milagroso" só durasse um par de anos mais ou menos...). Então, passei a fazer parte de muitos grupos, principalmente na Paróquia da qual fazia parte. Cheguei até a ser presidente de algumas associações leigas, eleita por unanimidade, por causa da minha capacidade de interpretar muito bem passagens Bíblicas e pelo domínio do assunto religião (aliás, quando este é o assunto, posso falar por horas e horas, dar até palestras para um público considerável!). Mas... os Movimentos religiosos não ficam só discutindo passagens Bíblicas ou aspectos doutrinários e nem rezando o tempo todo... há também as festinhas, as confraternizações e, como em todo agrupamento humano, fofocas, partidos, antipatias, rivalidades, invejas... Deixei-me enredar de tal maneira, sem saber lidar com os limites, que acabei fazendo verdadeiros escândalos em reuniões, tentando ser a "justiceira", defendendo o direito de alguém (mas à custa de ofender outros de forma muito grave). Muitos Movimentos foram até encerrados por minha causa, o que me faz até hoje sentir um tremendo sentimento de culpa. Uma vez, esbarrei no ônibus com uma pessoa que havia magoado uma amiga minha e, ali mesmo, na frente de todo mundo, comecei a berrar e a insultá-la de todas as maneiras, saltando do ônibus logo em seguida e deixando a pobre coitada mortificada e cheia de vergonha. Comigo sempre foi assim, um extremo ou outro: Ou me encolho num canto e choro, sem coragem para enfrentar situações de stress ou manter uma discussão, ou então "parto para a ignorância", ofendendo as pessoas de maneira totalmente desmedida, gritando, esmurrando portas e paredes, fazendo escândalos em público... não primo pela boa e utilíssima virtude da temperança e, por conta disso, acabo fazendo coisas que fariam tremer até a pessoa mais extrovertida. Passei também a não suportar gracejos na rua, ou qualquer irregularidade. Uma vez, um operário assobiou enquanto eu passava: olhei para ele com cara emburrada e disse para ir assoviar para a mãe dele. Outra vez, reclamei ao berros de um guarda de trânsito que estava deixando os carros passarem com o sinal vermelho - enquanto eu esperava um longo tempo para atravessar. Geralmente faço isso sem nem pensar, e continuo meu caminho, retirando-me da cena e evitando o inevitável confronto. Ou me escondo ou explodo! Assim também o Fantasma da Ópera! Ele se torna implacável... as pessoas imploram que ele tenha compaixão, mas ele retruca que o mundo nunca teve compaixão dele. Também penso assim, embora saiba que não é uma boa solução ser cruel com o mundo para me vingar do jeito com que fui tratada, ou melhor dizendo, maltratada. É grande a tentação de "destruir" (mesmo que seja com palavras apenas), as pessoas que nos fizeram mal. Mas o Fantasma sabe que não é possível viver assim, que desse jeito não estará seguro nem em sua fortaleza, nos subterrâneos... será caçado como um animal, mesmo lá em seu refúgio...

Agora vou analisar Christine, a paixão do Fantasma, seu alter-ego, por assim dizer, pois são, ao mesmo tempo, opostos e semelhantes - e por isso mesmo, sentem atração mútua. Também tenho muito de Christine... A sua característica principal é um amor e uma devoção tremenda pelo pai, já falecido. Os "freudianos de plantão" diriam que ela era um caso típico de Complexo de Electra (a versão feminina do Complexo de Édipo, a filha que é, inconscientemente, apaixonada pelo pai). Christine não esquece seu pai tão amado, acende velas em frente ao seu retrato, ele é seu ídolo, seu santo, seu deus. Não consegue superar a dor de estar separada dele. Ela o idealizou (como sempre fazemos com quem está distante), passou a ser o paradigma, o ser perfeito, o exemplo a ser seguido, o modelo a ser imitado. Não consegue se desvencilhar de sua memória ou aceitar sua partida. O Fantasma se aproveita disso e ataca o ponto fraco... Como o pai de Christine havia prometido a ela, ainda tão criança e sozinha nesse mundo, que enviaria, depois da morte, o "Anjo da Música" para guardá-la e protegê-la, o Fantasma finge ser esse Anjo... e, de certa maneira, ele o é. O que os une: a solidão, a carência afetiva, a necessidade de amar e ser amado. Já comentei em outras partes dessa página o quanto fui e ainda sou apegada a meu pai, numa relação de amor e ódio intensos e além de todos os limites plausíveis. Ele sempre foi meu ídolo, meu exemplo, meu tudo. As colegas da escola ficavam espantadas de quanto eu falava em papai o tempo todo, "papai gosta disso, papai gosta daquilo, papai explicou isso". Mas, ao mesmo tempo, queria soltar essas amarras pois ele era tão semelhante a mim... e eu queria ser diferente! Não queria ser tratada como excêntrica, antipática, anti-social e egocêntrica, como papai sempre foi. Realmente, nós fóbicos sociais, somos terrivelmente egocêntricos, mesmo quando negamos tal "defeito". Se o mundo não gira em torno de nós, é melhor não pertencer ao mundo - pensamos. Papai também passou toda a juventude, antes de se casar, no "subterrâneo", no porão da casa dos pais, afastado de tudo e todos, "imerso na música" (como o Fantasma da Ópera!). Como já dizia a letra da fantástica música "Sampa", de Caetano Velozo, "Narciso acha feio o que não é espelho". Papai e eu somos almas gêmeas, mesmo que eu tenha tentado negar esse fato durante a vida toda e também tentado com todas as minhas forças ser o oposto dele, ou pelo menos bem diferente, pois ao mesmo tempo que o semelhante fascina, também assusta e repugna. É a "síndrome do espelho", que também assola os fóbicos sociais. O espelho é inimigo e, ao mesmo tempo, amante. Quem é mais bela do que eu? Ao mesmo tempo, o espelo me joga na cara o quanto sou feia e inadequada. A personalidade da maioria dos fóbicos sociais é um bocado complexa, e na maioria das vezes dividida, desestruturada, conflitante. Vivo me contradizendo! Creio que seja outra das nossas maiores características, a contradição. Há espelhos por todos os lados no cenário do Fantasma da Ópera... tal como Alice no País do Espelho, ele, com um truque de mágica, faz Christine passar por um deles para chegar até seu mundo... e é através dos espelhos que consegue escapar - e aparecer em diversas partes do teatro. Ele se locomove através dos espelhos e os usa para controlar e proteger seu mundo. Mas, é tão duro enfrentar o espelho que, no final, ele os estilhaça... mas estou me adiantando na história! De qualquer modo, sinto que cada vez me assemelho mais a papai... faço os mesmos comentários que ele faria vendo um programa ou um filme, por exemplo, e reclamo das mesmas coisas.

Muitos dizem que todas as mulheres escolhem os maridos com base na figura paterna... querem uma imagem do pai para que possam continuar com ele a vida inteira, mas de forma diferente. Uma pessoa que seja como o pai mas, ao mesmo tempo, que possa ser amado como homem. É duro dizer isso, mas creio que se aplica inteiramente ao meu caso. Meu marido é em alguns aspectos muito semelhante a papai... tanto que, quando comento seu comportamento com mamãe, ela sempre diz "igualzinho ao seu pai!!!". Geralmente reclamo da timidez de Arthur, de sua falta de iniciativa, de sua passividade, de sua ingenuidade e falta de esperteza, de sua incapacidade de lidar com negócios e saber agarrar as oportunidades num emprego, quando surgem. Mas, se os dois compartilham os mesmos "defeitos", também há as mesmas qualidades: o gosto pela música, a sensibilidade, a capacidade de amar... se bem que Arthur é uma pessoa "mansa", passiva, enquanto papai, semelhante a mim nesse ponto, sempre foi colérico e contestador. Seria Arthur, então, um "papai melhorado"? Delírios da minha cabeça, talvez...

Papai sempre gostou muito de escrever (exatamente como eu!) e, uma vez, fiquei muito impressionada com uma frase em sua agenda: "A maior tragédia desse mundo é não ter ninguém com quem compartilhar o belo". Papai sempre sofreu por ter que ouvir suas óperas, sinfonias e concertos sozinho... Mamãe era só novelas, meu irmão detestava música clássica. Eu, quando jovem, também não queria saber muito de óperas e afins, talvez até por medo de me tornar muito semelhante ele. Só com o tempo fui aprendendo a apreciar e a amar... É verdade que tivemos a oportunidade de compartilhar muitos momentos de beleza... assistimos a filmes "belíssimos" juntos (papai gosta muito de usar o superlativo "belíssimo"), apreciamos muitas obras de arte juntos, fomos muitas vezes ao Teatro Municipal chorar nos mesmos trechos e nos arrepiarmos nos mesmos momentos de uma certa melodia ou cena de filme. Mas, mesmo assim, papai se sentia só, e hoje sofro muito por não estar perto dele, agora que entendo como se sentia, pois me sinto do mesmo jeito. Arthur, embora aprecie arte, não vai tão a fundo quanto papai e eu... Ele é fã de rock, e conhece tudo (costumo até a chamá-lo de "Enciclopédia do Rock"). Por ele, assistiria a tudo quanto é show the rock. Mas, detesta musicais... já assisti a alguns aqui nos EUA... sozinha... e como é triste vibrar e se arrepiar num momento sublime de alguma peça musical e não poder trocar olhares de cumplicidade, concordar com um gesto, sorrir da compreensão mútua. Também não é apreciador de filmes... fico espantada como ele não assistiu nem aos clássicos do cinema que todos já assistiram, mesmo que de passagem, pela TV ou algo parecido, tais como "A Noviça Rebelde" e "E o Vento Levou". E logo eu que sou apaixonada por filmes... também vou ao cinema sozinha (pois ele alega dor nas costas e desconforto geral por conta das cadeiras... mas as dos estádios onde assistimos a show de rock são muito mais incômodas e ele nunca se queixou, mesmo em shows de mais de 3 horas de duração...). Quando assistimos em casa, em vídeo, ele quase sempre dorme no meio do filme. Quando chega aquele momento "de arrepiar", olho para ele, ansiando por compartilhar o belo, e ele está no sétimo sono... Muitas vezes até me enfureci com isso e o acordei com brutalidade, gritando e me lamentando, dizendo que era um absurdo dormir e perder uma das coisas mais sublimes da vida, pois a beleza é que faz a vida valer a pena. Mas ele só comenta, calmamente, que acordou muito cedo... O Fantasma quer desesperadamente que Christine o salve da solidão que o faz sofrer tanto... mas será que ela está disposta a pagar o preço?

Uma das cenas mais fortes, e lindas, do filme, é quando o Fantasma leva Christine (que passa através do espelho), para o seu mundo no subterrâneo do teatro. O gênio a hipnotiza e, com sua magia, faz corredores lúgubres, úmidos e cheios de ratos, transformarem-se à sua passagem. Tudo é dourado, tochas se acendem, estátuas ganham vida... e Christine, que antes era sempre apresentada como praticamente uma menina, recatada e assexuada (mesmo usando roupas sensuais no ensaio de balé logo no início do musical), calvalga pelos corredores, rampas e escadarias, conduzida pelo fantasma, e a camisola-"pegnoir" vai revelando formas, as pernas aparecem, com meias e ligas, a menina vai se transformando numa mulher cheia de desejo e sensualidade à flor da pele. É incrível como o produtor do filme passa toda essa transformação para o expectador de maneira tão sutil... e com a música inebriante, tema principal do Fantasma da Ópera. Ele a conduz e domina inteiramente, ela se comporta quase como uma sonâmbula, talvez ebriagada pelo desejo que a consome e pela magia do lugar (ou hipnotizada pelos poderes mágicos do Fantasma). Ele então a carrega para um barco, que se assemelha em tudo ao que leva a Lady of Shalot a Camelot (esta também sob um encantamento... mas o destino é a morte). Vou analisar este poema e também o quadro em outra oportunidade. Uma das poucas diferenças é que o barco da Lady of Shalot leva um crucifixo na proa, enquanto que o de Christine leva um crânio (e, paradoxalmente, é a Lady of Salot que está cercada de morte, enquando que Christine está despertando para uma nova vida). E mais uma vez vemos um rito de passagem cujo meio é a água (já comentei um bocado sobre a importância das águas no artigo sobre o filme Inteligência Artificial). A água está sempre presente, é preciso atravessá-la para renascer, para passar a outra realidade, é o começo e o fim de tudo. Sob o comando do Fantasma, Christine canta, e seu canto vai iluminando o ambiente, braços erguendo candelabros emergem das águas, transformando o mundo de trevas do Fantasma num exuberante palácio de luz e beleza. Já fora do barco, o Fantasma coloca Christine em frente a um manequim, cópia sua, vestido de noiva (mais uma vez me lembrei dos robôs de Inteligência Artificial... o Fantasma vivia fazendo bonecos e robôs, na tentativa de ter companhia, de fazer um mundo paralelo, de faz de conta, onde ele podia ditar as regras e ser amado e admirado). Mas o choque é muito grande para Christine e esta desmaia... e é carregada pelo fantasma para uma cama-berço luxuriante... Que mulher não quer, em certos momentos, ser tratada assim como um bebê, ser totalmente dominada, estar totalmente à mercê de um homem? Mas o Fantasma a respeita e a deixa dormir, até ser despertada pela caixinha de música que tem um macaquinho na tampa tocando pratos. Vou falar mais sobre essa caixinha de música neste artigo, pois também tem grande significado. Ao despertar, Christine vê o Fantasma e, ao se aproximar dele, não resiste e lhe arranca a máscara. Ele se enfurece, perde totalmente o controle e Christine fica apavorada, seja pela monstruosidade do rosto, seja pelo comportamento descontrolado do mesmo.

O Fantasma é a "Criatura da Noite", vive nas trevas, nas sombras, cercado de escuridão (tanto exterior quanto interior). Também nesse aspecto, identifico-me, de certo modo, com o Fantasma. Talvez seja esse o motivo de ter tanta atração por romances góticos, principalmente histórias de vampiros, que são, em sua essência, seres da noite pois nem podem sobreviver à luz do sol. Mais uma vez, há um conflito. A luz do sol faz com que me sinta mais segura mas, ao mesmo tempo, sempre me senti mais confortável trocando a noite pelo dia e, se deixar a natureza falar mais alto - e já fiz a experiência algumas vezes - meu corpo invariavelmente adota um padrão de dormir o dia inteiro e ficar acordado a noite toda. Costumo ser muito mais ativa durante a noite. Na parte da manhã, sou praticamente "um zero à esquerda", pareço "não funcionar direito". Será só uma predisposição natural? Será que tem a ver com o fato de ter tido tantas experiências ruins durante a noite (como a morte de vovó e o infarto de papai) e, então, de certa forma, precisar "ficar em vigília" durante a noite? Já percebi que a grande maioria das pessoas introvertidas prefere a noite... O fóbico social vai se sentir muito mais seguro e confortável nesse período onde todos os outros estão dormindo, pois terá a certeza de que ninguém vai telefonar ou aparecer para uma visita de surpresa - coisa que os fóbicos sociais simplesmente não suportam. Durante a noite, há a segurança de que não vamos precisar interagir com ninguém (contanto que estejamos em nossa casa e não numa "farra" qualquer) pois enquanto velamos, o mundo dorme, ou seja, é como se não existisse. Acordados durante a noite, sentimos o silêncio da solidão... mas uma solidão que não chega, na maioria dos casos, a fazer sofrer... é uma solidão da qual necessitamos, é a segurança de que não seremos contactados contra nossa vontade, é a certeza de que podemos ser nós mesmos pois, como diz o velho ditado, "à noite todos os gatos são pardos". A escuridão não discrimina, pois nela não podemos distinguir as diferenças, as peculiaridades de cada um e, por conseguinte, seus defeitos. O Fantasma quer compartilhar a "música da noite" com Christine, quer levá-la, nem que seja à força, para seu mundo de trevas. 

 

Chistine no barco guiado pelo Fantasma da Ópera

 

"The Lady of Shalot", quadro de John Waterhouse

 

Mas existe outro homem na história, formando o triângulo amoroso. Raoul, amigo de infãncia de Christine, um nobre rico, lindo, gentil, educado, romântico.... e apaixonado por ela (agora que a viu novamente depois de tantos anos e a ouviu cantar na ópera). Ele e o Fantasma vão disputar o amor de Christine... que passará a viver um terrível dilema de como escolher entre os dois homens que ama. Raoul é o modelo do Príncipe Encantado, o marido ideal, "certinho", correto, íntegro, sério. Christine sabe que a vida ao lado dele será a de um casal "normal": um romance que, com o tempo, torna-se estável e, por isso mesmo, não necessita de grandes arroubos diários. Com Raoul, não há perigos nem surpresas, o que, por um lado, é muito bom pois é a garantia de uma vida calma, cheia de luz mas... rotineira e, de certo modo, enfadonha. Christine se tornará a esposa, vai cuidar da casa e dos filhos que virão e, apesar de todo o tédio causado pela esmagadora rotina da vida mediana, vai ser feliz porque poderá contar com algo bastante necessário: a estabilidade. Raoul é o porto-seguro, o farol no mar, indicando a direção para que ela não se afogue nas águas, para que seu barco não navegue à deriva e se perca no mar insondável. Ser "certinho" não significa que Raoul é um covarde, muito pelo contrário... luta com o Fantasma pelo amor de Christine, a ponto de arriscar a própria vida inúmeras vezes... mas até as lutas são um pouco "mornas"... Com ele, há o amor eterno e incondicional... enquanto que com o Fantasma, temos a paixão desenfreada... mas também incondicional e, por que não, eterna. Mas... as paixões estão sujeitas aos ventos da incerteza, então Christine tem que optar. O Fantasma também a atrái, física e emocionalmente. É o gosto que todos temos pelo perigo, pelo proibido... é a ânsia de se perder, de se deixar queimar no fogo de uma paixão avassaladora... é a realização de todas as fantasias inconfessáveis, principalmente, é claro, as eróticas. Christine sabe que a vida ao lado do Fantasma será totalmente imprevisível, incerta, cheia de perigos e trevas mas, ao mesmo tempo, impregnada de mistério... e o mistério, o desconhecido,  é um bocado sedutor. No final das contas, não importando a escolha, Christine não vai deixar de sofrer, pois precisamos dos dois lados da moeda, e por isso vivemos numa eterna busca irrealizável pela felicidade. Temos necessidade do estável, do seguro, do previsível mas, ao mesmo tempo, ansiamos pela aventura, por soltarmos as amarras, por saborearmos a vida sem censuras ou restrições. Que vida o Fantasma pode proporcionar a Christine? Uma vida de fantasia... mas ela terá que pagar o preço: tornar-se como o Fantasma, banida da sociedade, vivendo nas sombras, nos subterrâneos... sua única companhia será o Fantasma, que terá que ser tudo para ela. Com Raoul, ela será uma "pessoa normal", poderá viver uma vida padrão, sem grandes surpresas. O Fantasma promete protegê-la, mas como pode fazê-lo, sendo ele mesmo tão vulnerável por trás da capa e da máscara do homem forte e poderoso?

Num belíssimo duo, Christine e Raoul declaram seu amor no terraço do teatro. Raoul promete livrá-la das trevas que tanto a assustam (mas que, a despeito de tudo, a atraem), e protegê-la do Fantasma (e, quem sabe, de si mesma também). Segue a tradução livre de minha autoria:

 

All I Ask of You (Tudo o Que Lhe Peço)

C

Chega de falar em trevas

esqueçe esses medos.

Eu estou aqui, nada pode lhe machucar,

minhas palavras vão lhe aquecer e acalmar.

Deixe-me ser sua liberdade,

deixe a luz do dia secar suas lágrimas

Estou aqui, com você, a seu lado,

para lhe guardar e proteger.

 

Christine:

Diga que  vai me amar cada momento que eu estiver acordada

Vire minha cabeça com conversas de verão

Diga que precisa de mim agora e para sempre

Promete-me que tudo o que diz é verdade

É tudo o que lhe peço

 

Raoul:

Deixe-me ser seu refúgio,

deixe-me ser sua luz;

você está segura,

ninguém vai lhe encontrar

seus medos ficaram para trás.

 

Christine:

Tudo o que eu quero é liberdade,

um mundo onde não haja mais noite;

e você, sempre a meu lado

para me abraçar

e para me esconder.

 

Raoul:

Então diga que vai compartilhar

comigo um amor, uma vida;

deixe-me guiá-lae para longe de sua solidão.

Diga que precisa de mim com você, a seu lado,

onde quer que vá, deixe que eu vá também,

É tudo o que lhe peço.

 

Christine:

Diga que vai compartilhar comigo

um amor, uma vida

Diga a palavra e eu lhe seguirei.

 

Juntos:

Compartilhe comigo cada dia, cada noite, cada manhã.

 

Christine:

Diga que me ama...

 

Raoul:

Você sabe que sim.

 

Juntos:

"Me ame"

É tudo o que lhe peço. (Os dois, então se, beijam)

 

 

Alguns meses após conhecer meu marido na internet, quando já estávamos na fase da "paquera virtual", enviei-lhe, num e-mail, a letra dessa música (no original em inglês). Nós ainda não havíamos nos declarado explicitamente. Arthur me "devolveu" a letra, com "papel de carta decorado", analisando praticamente verso por verso - e aplicando a situação ao nosso caso. Comentou que se sentia o "meu Raoul" e que parecia que esse diálogo entre os dois era justamente o que queríamos dizer um ao outro. E, realmente, era verdade. Sempre precisei de alguém para me "salvar", para me "livrar das trevas" e me "guiar para longe da solidão". Pouco depois, ele compôs uma poesia para mim, um "acróstico", onde cada verso começava com uma letra de meu nome. Fez uma página na internet, com fundo musical de Mozart e a foto de um farol que ficava bem perto de onde morava. Nos versos, perguntava se eu me sentia sozinha e dizia que, se era o caso, ele estaria sempre lá para me confortar, como o meu "farol", como a luz me guiando na escuridão. Mas, será que Arthur tinha mesmo condições de fazer tais promessas? Sabemos que juras de amor são assim mesmo... quando amamos, juramos que seremos tudo para a pessoa amada. Realmente, Arthur se esforça ao máximo, mas ele também é uma pessoa tímida, medrosa, creio até que sofra de um caso leve de fobia social. Então, muitas das vezes, ao invés de ser o farol a iluminar meu caminho, só consegue mesmo é me levar para as trevas ainda mais densas. Volta e meia me revolto por causa disso, digo que ele me enganou, traiu, prometeu o que não podia cumprir... Mas ele se esforça e, como me aceita do jeito que sou, tenho que tentar aceitá-lo também do jeito que é, pois amor não é só sentimento, mas sim um ato de vontade. No início, deixamos nos guiar pela emoção... mas a vida não é um romance de cinema o tempo todo (infelizmente!). Então, para manter um casamento sólido, é preciso passar para a próxima etapa e aprender a "amar por querer amar" (o que em nada diminui o amor, diga-se de passagem!).

 

 

A Rosa:

 

Logo no início da história, após à estréia brilhante de Christine na ópera, o Fantasma lhe deixa uma rosa vermelha. Ela a carrega consigo quando tem aquele colóquio amoroso com Raoul e, enlevada pelo beijo de amor, deixa a rosa cair no chão, e esta jaz, abandonada, contrastando com a brancura imaculada da neve que cai mansamente. O Fantasma presencia toda a cena e, totalmente desconsolado, vê seu amor ser desprezado e até esquecido. Comenta então, amargamente: "Ele passou a te amar quando te ouvir cantar...". E sabemos que todo o talento de Christine é obra do intenso treinamento que recebeu do seu professor, o próprio Fantasma, o "Anjo da Música".

 

Quantos significados esconde uma simples rosa? Incontáveis! A metáfora da rosa sempre esteve presente em minha vida, de várias maneiras. Primeiramente, a rosa do Pequeno Príncipe, que li ainda na pré-adolescência e que me marcou tanto. Ele vivia totalmente sozinho em seu pequeno asteróide, até o dia em que nasceu uma linda rosa, que passou a ser sua companheira, seu amor, seu complemento. O Pequeno Príncipe tinha tanto medo de perder sua rosa que passou a guardá-la numa redoma (No filme, "O Show de Truman", este vive, sem saber, numa gigantesca redoma que simula o mundo. No "Rapaz na Bolha de Pástico", como o nome já diz, este está sempre separado do mundo pelas paredes plastificadas que o protegem contra as doenças - pois não nasceu sem a capacidade de desenvolver anticorpos. E temos também a rosa encantada no filme "A Bela e a Fera", que está intimamente ligada à vida da desta última e, por conta disso, também é conservada com todo o cuidado do mundo numa redoma de vidro). Quantas rosas e redomas, não é mesmo? A rosa sempre foi associada ao amor, à beleza, à perfeição... e os fóbicos sociais querem desesperadamente ser perfeitos... mas têm medo de não serem aceitos pelo mundo, que pode, por isso, machucá-los. Precisamos desesperadamente da "redoma" (que pode ser nossa casa, nosso quarto, a companhia de alguém no qual confiamos inteiramente, enfim, tudo que nos proteja do mundo, para que haja uma linha... a redoma é o muro, o muro é a redoma, não existe diferença. Queremos a proteção, estarmos rodeados pelo muro mas, ao mesmo tempo, é uma situação insustentável pois a mesma redoma que nos protege, também acaba por nos sufocar. É muito triste ver o mundo lá fora e não poder participar dele "como todo mundo").

 

Na parte relativa a Tentativas de Tratamento, conto um episódio que se passou numa sessão de psicoterapia com uma terapeuta da linha Gestalt. Ela me pediu para imaginar que era uma rosa e depois desenhar o que me veio à cabeça. Pensei logo na rosa da redoma do Pequeno Príncipe, e foi um dos meus desenhos. O outro era de uma rosa no meio de muitas outras com agudos que a sufocavam e feriam. A terapeuta riscou todos os espinhos e então me perguntou o que eu deveria fazer com a outra rosa na redoma. Ela esperava que eu riscasse a redoma mas, ao invés disso e para total choque da psicóloga (que, inclusive, reagiu com muitos palavrões, dizendo que "isso era muito forte"...) desenhei outra rosa ao lado daquela primeira, ambas dentro da redoma. Na época não atribuí a tudo isso significado revelante mas, com o tempo, compreendi muito bem. Eu não queria de maneira alguma sair da minha redoma  (ou destruir o muro que me cercava), isso era impensável - e ainda é. Mas, sentia-me muito só, precisava de alguém para compartilhar a vida comigo e a única saída, a meu ver, era trazê-la para dentro da redoma. De certa forma, foi o que fiz com meu marido, pois praticamente não temos amigos, não vamos a reuniões, a festas, não socializamos, sequer batemos papos com amigos ao telefone. As visitas e telefonemas são raros e, geralmente, breves. Nada de grandes compromissos. Somos agora os três "dentro da redoma". Mas me preocupo com meu filho, pois não quero essa mesma vida para ele (meu marido parece não se importar, sendo ele mesmo muito tímido e, creio eu, um caso mais brando de Fobia Social). A saída é levá-lo para a escola, o que já venho fazendo... ele também tem se mostrado tímido, mas, pelo menos por enquanto, parece gostar de se socializar, é o mais extrovertido e falador de nós três, mesmo tendo só quatro anos. Mas não deixo de sentir um enorme sentimento de culpa por ter trazido meu marido para a "redoma" comigo...

 

A rosa abandonada no chão também me fez lembrar as vezes em que me apaixonei sem ser correspondida... (e foram muitas!). Quantas vezes me sacrifiquei, enchi a pessoa amada de presentes, até aceitei dar "cola" em provas da faculdade (indo contra meus princípios e também vencendo o medo terrível de ser pega em fragrante), fiz inúmeros favores, movi céus e terras... só para ver a pessoa usufruir de tudo que lhe dei com outra (muitas das vezes outro homem, para piorar ainda mais as coisas!). Que sofrimento "fazer a cama para outro se deitar"! Cheguei a pensar que era uma maldição que acompanharia minha vida para sempre, mas felizmente, se realmente existia, foi quebrada pelo meu marido, o meu "Raoul", meu Príncipe Encantado...

 

 

 

A "Fera" do filme "A Bela e a Fera" da Disney, olhando para a rosa na redoma. A Fera também é uma criatura condenada ao isolamento e à rejeição, exatamente como o Fantasma da Ópera.

 

 

 

A Bela e a Fera em frente à rosa na redoma. Bem poderiam ser Christine e o Fantasma!

 

 

 

BAILE DE MÁSCARAS (A MASCARADA):

 

Os donos do teatro onde vive o Fantasma (e também Christine) decidem fazer um Baile de Máscaras. E é justamente neste baile que Christine e Raoul ficam noivos, mas ela prefere esconder a aliança, por medo da reação do Fantasma. É claro que este aparece na festa, pois o mundo das máscaras é seu ambiente natural. Em meio aos mascarados, pode finalmente ser um pouquinho "como todo mundo".

 

Masquerade (Mascarada - trecho)

Mascarada

Rostos de papel numa parada

Mascarada

Esconde sua  face para que o mundo nunca lhe encontre

Mascarada

Cada face um tom diferente

Mascarada

Olhe em volta, há outra máscara atrás de você.

 

 

 

Quem nunca usou uma máscara, mesmo que invisível, nessa vida? Ou, melhor dizendo, será que se passa um dia sequer no qual não usemos várias máscaras conforme as pessoas com as quais estamos lidando? Não quero dizer com isso que somos falsos, mas sim que desempenhamos praticamente o tempo todo um papel, temos um comportamento - e, por asim dizer, uma "persona" diferente - com cada uma das pessoas com as quais interagimos (e até mesmo com animais...). Quando estamos totalmente sós, conosco mesmos, somos a mesma pessoa e nos comportamos do mesmíssimo jeito de quando estamos, por exemplo, com nossos pais, nosso marido, nosso filho? No meu caso particular, sei que uso inúmeras "máscaras". Não chega a ser um caso de múltiplas personalidades, pois aí já implicaria num quadro psiquiátrico dos mais sérios (esquizofrenia, por exemplo - muitos fóbicos sociais têm medo de serem esquizofrênicos... eu mesma já tive esse temor antes de consultar psiquiatras. Mas são doenças totalmente distintas. O esquizofrênico ouve vozes e vê coisas que estão apenas em sua imaginação, mas não consegue distinguir esta da realidade e, nos casos mais graves, podem assumir personalidades diferentes, mas sem que tenham nenhuma noção disso, o que não é,  nem de longe, o nosso caso). Creio que seja normal o ser humano assumir essas "máscaras" diferentes, pois observo esse comportamento em todo mundo. Por exemplo, um pai falando com o filho, toma uma atitude distinta: expressões corporais (principalmente as faciais) e até o timbre e a intonação da voz são peculiares. Já quando está numa roda de amigos, expressões, voz, etc, tudo muda, muitas das vezes até radicalmente. Com algumas pessoas, somos doces, serenas, com outras somos coléricas, cheias de má-vontade, com outras somos tímidas, recatadas, envergonhadas, com outras tantas assumimos um comportamento infantil. Na maioria dos casos, quando em público, os fóbicos sociais tentam a todo o custo vestir uma máscara que teima em não caber no rosto, ou seja, da pessoa "normal", sociável, equilibrada, calma, extrovertida... e acaba vendo a si mesmo com a máscara do palhaço, do "Cavaleiro de Triste Figura" (como o Dom Quixote de La Mancha), do desajeitado, derrotado, infeliz, feio, acabado. Nem sempre estamos conscientes dessas "mudanças de máscara", mas elas estão sempre lá. Lembro muito bem que tomava uma atitude diferente quando estava fazendo psicoterapias, e creio que seja por isso que fiquei tão revoltada quando a psicóloga de Gestalt começou a imitar meus gestos e expressão facial. Foi como olhar uma versão caricata de mim mesma. A psicóloga, ao fazer isso, arrancou a máscara, por assim dizer, deixando exposta a "farsa". E a reação de minha parte foi de ódio e revolta, justamente como o Fantasma reagiu quando Christine lhe arrancou a máscara.

 

O tema da máscara também é bastante comum na arte, temos como exemplo mais tocante a ópera "O Palhaço", onde este, traído pela esposa, sua companheira no número circense, vai para o camarim se arrumar para a encenação e discorre sobre a condição do palhaço que tem que vestir a máscara (ou a maquiagem) e fingir alegria, fazer os outros rirem, quando, por dentro, está chorando desconsoladamente. Mas, como diz o ditado, o show tem que continuar, então lá está o palhaço desempenhando seu papel... mas quando o amante da esposa o chama de palhaço, ele se revolta e diz que não o é, pois nesse caso, ser palhaço assumiu outro significado. Ou seja, o ponto de vista muda tudo mas, de um jeito ou de outro, há sempre uma máscara que, ou usamos voluntariamente, ou inconscientemente, ou somos obrigados a usar. No meu caso, a máscara também se relaciona intimamente com a maneira como sou chamada, não gosto muito do meu nome e certas combinações do mesmo me soam até mesmo detestáveis. Gosto do nome Lucia, soa bonito, suave e até um pouco sensual. Maria é um nome vazio de significado, pois praticamente todos os brasileiros e portugueses têm Maria no nome. Parece até o Fantasma, que no final das contas, não tem um nome próprio, é apenas o Fantasma da Ópera, que não é um nome e sim uma designação. Outra coisa, "Maria" muitas das vezes se torna um nome vulgar, o correspondente do "João Ninguém" ou do "Zé das Couves". Aqui nos EUA, pela dificuldade de se pronunciar no nome "Lucia", e também por conta dos americanos não estarem acostumados com nomes compostos, sendo o nome do meio, em 90% dos casos, só abreviado com a primeira letra em qualquer documento, tive que adotar "Maria". Mas sempre me vêm à cabeça os adolescentes (brasileiros) na excursão que fiz aos EUA cantando "Eu tinha uma galinha que se chamava Marilu... Marilu, Marilu, tinha cara de babaca..." e, com isso, um sentimento de inferioridade terrível. Sinto-me verdadeiramente uma "babaca" com esse nome, é a máscara mais feia que posso vestir, a que me lembra todos os momentos de vexame com a fobia social, as vezes que tremi tanto que não consegui tocar uma peça ao piano num exame, as vezes que minha voz "tremeu" e fiquei com o corpo todo dormente e as mãos tremendo ao apresentar um seminário em classe... tudo parece vir à minha cabeça como um "flash" todas as vezes que me chamam "Maria" ou "Maria Lucia", mesmo meu marido explicando milhares de vezes que o nome aqui não tem a mesma conotação que no Brasil, muito pelo contrário... Ele estranha muito quando meu nome vem "abreviado" numa carta, pois na maioria das vezes, coloca-se só o "M" com o "a" minúsculo acima para abreviar o nome. Arthur nunca tinha visto um nome ser abreviado assim na vida, como se fosse um componente de uma tabela de química... e comento com ele que isso é o maior dos exemplos da insignificância do nome... mas, é difícil se livrar das velhas máscaras..."Maria Lucia" é também muito ruim, lembra meu relacionamento com meus parentes (que sempre fizeram questão de me chamar assim), lembra as festas de aniversário que "roubei" de meu tio, lembra as tias agradando mais às minhas primas e me deixando de lado... Um dia ainda mudo de nome (e, com isso, de máscara também!) pois aqui nos EUA as pessoas podem mudar de nome (e sobrenome) quantas vezes quiserem: é só preencher um papel na prefeitura e esperar deferimento por parte do juiz, não é como no Brasil que a pessoa só pode mudar de nome em casos muito extremos e após um longo processo na justiça (geralmente por conta de embaraço, no caso do nome se assemelhar a um palavrão ou a uma palavra obscena qualquer).

 

Então, lá vamos nós, "rostos de papel numa parada", e sempre há outras máscaras por perto. Também os artistas, se temos o privilégio de os conhecermos pessoalmente, na maioria das vezes nada se assemelham à sua "persona televisiva ou de palco". Sei que existem inúmeros artistas que são muito tímidos, principalmente os músicos, e até mesmo os de rock, famosíssimos... e isso provavelmente explica a tragédia ligada ao consumo de drogas e álcool pela classe artística. É preciso, através da droga ou do álcool (que, de qualquer jeito, também é uma droga), vencer o medo, mudar de máscara para enfrentar o público... mas, essa máscara acaba sempre levando à destruição, à morte. Ouço falar de muitos fóbicos sociais que recorrem à bebida para "se soltarem" e conseguirem se socializar numa festa... algumas estatísticas até dizem que cerca de 80% dos fóbicos sociais acabam se tornando alcoólatras por conta disso. Graças a Deus sempre fui avessa a bebidas e até o gosto me repugna (o que, aliás, costuma ser mais um motivo de chacotas, piadinhas e espanto por parte dos amigos, que rotulam logo de "careta" quem não bebe). Mas, de qualquer jeito, sou dependente de medicamentos como o Rivotril, que é uma das minhas "máscaras". Mas, que ninguém se engane! Um dia, todas as máscaras caem... ou são arrancadas por nós mesmos ou por outra pessoa.

 

Continuando com a história, Christine escolhe Raoul, mas ainda continua presa ao Fantasma e atraída por este. Já comentamos que ela o associa à figura de seu pai falecido, e o Fantasma alimenta esse sentimento e reforça a associação para tirar vantagem dela e, dessa forma, dominar Christine. Esta resolve, então, solucionar de vez o problema, conscientizar-se de que o pai realmente partiu para sempre, que nunca mais o verá nem desfrutará de sua amada companhia. Ela vai tentar fazer o que até hoje não teve a coragem de fazer: dizer adeus, deixar o passado para trás, por melhor que tenha sido, e seguir em frente com sua vida da melhor maneira possível. Em outra das cenas lindíssimas do filme, ela vai até o cemitério visitar o túmulo do pai e "ter uma conversa" com ele. Outro momento que falou ao meu coração:

 

 

 

Christine, levando flores, visita o túmulo de seu pai para se despedir de vez e poder romper com o passado que a escraviza e sufoca.

 

Christine canta:

Wishing You Were Somehow Here Again (Desejando que de alguma forma você estivesse aqui novamente)


Uma vez você foi o meu único companheiro,

você era tudo o que importava.

Uma vez você foi um amigo e pai,

e então meu mundo se desmoronou.

 

Desejando que de alguma forma você estivesse aqui novamente,

desejando que você estivesse perto de mim de alguma forma.

De vez em quando parece até que se eu sonhasse,

de alguma forma você estaria aqui.

 

Desejando poder ouvir sua voz novamente

sabendo que nunca ouviria

Sonhar com você não vai me ajudar a fazer,

tudo que sonhei que poderia!

 

Sinos passageiros e anjos esculpidos,

frios e monumentais

Parecem ser a companhia errada para você,

que era tão caloroso e gentil.

 

Anos demais tentando lutar contra as lágrimas,

por que o passado não pode simplesmente morrer!

 

Desejaria que de alguma forma você estivesse aqui novamente

sabendo que temos que dizer adeus!

Tente perdoar, ensine-me a viver!

Dê-me forças para tentar!

 

Chega de recordações, chega de lágrimas silenciosas!

Chega de olhar para trás e ver os anos desperdiçados!

Ajude-me a dizer adeus

Ajude-me a dizer adeus...

 

 

 

Toda vez que ouço esta música, choro convulsivamente. É praticamente impossível conter o verdadeiro rio de lágrimas. Fico sempre pensando como uma letra consegue, assim, dizer TUDO que sempre quis dizer a meu pai, como pode ler meus sentimentos, até os nunca revelados. É mesmo de arrepiar! Como já comentei nesse artigo e em alguns outros da página, papai foi sempre meu melhor amigo, meu porto seguro, meu companheiro e confidente. Aquele que sempre esteve lá para mim, que mesmo tendo me decepcionado inúmeros vezes, visto que ninguém é perfeito, ainda assim era o meu modelo, meu ídolo, meu ideal. O pai de Christine faleceu quando esta era ainda bem pequena. No meu caso, papai ainda está vivo... mas, agora, longe demais, noutro país... e nem ao telefone nos falamos com frequência (pois papai odeia falar ao telefone e, na maioria das vezes, acaba não falando nada... e agora o estado ainda se agravou por conta da surdez decorrente da idade, pois já está com mais de oitenta anos). Ao mesmo tempo, já comentei no artigo sobre o filme "Inteligência Artificial" que sempre pensei que iria perder meus pais muito cedo, e com isso, sofria por antecipação, chorando a morte deles a vida inteira. Realmente, como diz a música, precisava aprender a dizer adeus... mas sempre tenho a impressão de que nunca aprenderei! A nossa convivência nunca foi fácil, e se tornou quase insustentável nos últimos anos que morei com meus pais. Papai se tornou cada vez mais autoritário, e "tomou conta" das tarefas domésticas da casa, por conta das doenças de mamãe, principalmente a dificuldade em mover o braço direito. Passou a declarar que "a cozinha era dele". Com isso, sentia-me tolhida, invadida em todos os espaços... só me restava meu quarto, que virou um verdadeiro depósito, tão abarrotado de coisas que fui acumulando durante os anos (adoro colecionar toda sorte de badulaques e enfeites, e também estátuas sacras...). O "domínio" de papai, se começava na cozinha, estendia-se por toda a casa (mais ou menos como o subterrâneo do Fantasma). No mesmo feitio de seus irmãos e irmãs (o clã dos solteirões que moravam no mesmo apartamento), não era admissível que se movesse um bibelô um milímetro sequer. E papai passava (e ainda passa) os dias "arrumando", movendo os objetos que alguém , descuidadamente, moveu um milímetro para a esquerda ou para a direita, pois só ele sabe o "lugar perfeito e ideal" para cada objeto. Mas, ao mesmo tempo, não conseguia romper a relação quase visceral que nos unia. Além disso, dependia dele financeiramente e não conseguia nem pensar em procurar um emprego, só esse pensamento já me dava tal desespero a ponto de querer morrer. O que fazer, então? Casar-me parecia a melhor solução, só "mudaria de dono", como se dizia antigamente (e, sinceramente, não me importo nem um bocado de ter um "patrocinador", pouco me importa de onde venha meu sustento, contanto que venha!). Antes de conhecer Arthur, tive um breve relacionamento com um rapaz no nordeste (vou contar mais sobre isso na parte dedicada à "Minha História") e passei dois meses por lá. Nada correu como eu esperava e o "príncipe" era o mais horroroso dos sapos, mas, mesmo assim, fiquei pensando em me mudar, quem sabe numa cidade pequena, numa área mais tranquila e vagarosa do país, conseguisse alguma ocupação? No final, esperanças perdidas, mas a certeza de que seria muitíssimo doloroso dizer adeus a meus pais - mesmo que isso fosse totalmente necessário, de um jeito ou de outro. Havia também o medo terrível de vê-los adoecerem novamente e, depois, morrerem. Como enfrentar tais perdas? Como ver meus pais sem vida num caixão, parecendo mais bonecos de cera do que seres humanos? Não consigo nem imaginar tal hipótese. Então, dos males o menor, era necessário "fugir" para bem longe, a fim de não vê-los caminhar para o destino comum de todo ser humano. A morte deles sempre foi o meu maior "fantasma"! Então, na total incapacidade de enfrentá-lo, só me restava deixar o "campo de batalha". Não quero, com isso, dizer que me casei só para me livrar desse problema - e de tantos outros. Obviamente que não. Mas tudo pesou nas decisões que tive que tomar quando tomei o avião para, quem sabe, não vê-los nunca mais nesta terra.

 

Quando Arthur e eu nos casamos, no civil, aqui nos EUA, eu estava com uma passagem de ida e volta e o plano era passar apenas 2 meses nos EUA, pois pensávamos que eu precisaria voltar e, do Brasil, iniciar o processo de imigração. Foi essa a informação que nos deram no Departamento de Imigração e também no Consulado Brasileiro: era um processo que levava anos e anos, eu voltaria para o Brasil, Arthur entraria com um pedido de imigração de esposa e só nos restava esperar. E, nesse meio tempo, teria tempo de "me despedir" de meus pais (será?). Mas, faltando uma semana para minha volta, fomos até o Dep de Imigração para nos certificar de que estávamos fazendo tudo certo... e estava tudo errado. Eu precisava ficar, pois o processo de imigração era todo feito aqui nos EUA, e precisava tirar impressões digitais, passar por entrevistas, exames médicos, etc. Se voltasse para o Brasil, nada era garantido. Então, resolvi perder a passagem de volta e ficar até conseguir o Green Card. Até que o processo foi rápido, e o consegui em menos de 3 meses. Aí, então, voltei ao Brasil algumas vezes para ir trazendo "minha mudança" aos poucos e, também, ir amenizando a despedida e me acostumando a viver longe de meus pais. Voltei lá três vezes, a última foi quando meu filho estava com 3 meses e Arthur tinha conseguido um emprego em outro estado. Fiquei com meus pais por 4 meses, mas a relação foi um bocado difícil pois, aqui nos EUA, acostumei-me mais ainda a viver isolada, quieta no meu canto. Mas meus pais queriam, naturalmente, exibir o novo netinho para todos os amigos, vizinhos e parentes, e começou a verdadeira maratona de visitas e telefonemas - o que quase me levou a loucura, literalmente. A essas alturas, o dinheiro para viagens já havia acabado, e a nossa situação financeira aqui nos EUA era nada menos do que desesperadora. Então, como foi difícil me despedir deles, como doeu, no corpo e na alma, vê-los acenando para mim, com a cachorrinha nos braços, pensando que, talvez, seja a última imagem deles que vou ter na vida. É quase demais para suportar, chorei quase a viagem inteira até aqui.

 

Mas, se perder os pais é a coisa mais natural desta vida, por que essa incapacidade total que tenho de lidar com isso? É certo que todos sofrem, uns mais, outros menos, com a perda dos pais... mas no meu caso é algo que simplesmente não consigo suportar. Mesmo estando tão longe e pensando que, de certa forma, eles já estão "mortos" para mim,  pois não não convivo mais com eles e não os vejo há quase 4 anos, tremo só de pensar que já estão tão idosos e que, como todo momento chega, queiramos ou não, vai chegar o momento em que eles não estarão mais neste mundo, e nem poderei mais ouvir suas vozes ao telefone, ou pelo menos saber que, mesmo que muito longe, ainda estão lá e que posso contar com eles. Como diz a música, papai precisa tentar me perdoar (mas sei que ele perdoa...) e também precisa me ensinar a dizer adeus... mas será que ele mesmo sabe? Mamãe também tem um medo irracional da morte, não consegue sequer conceber a idéia de que um dia vai ter que partir, e também não aceita que papai um dia tenha o mesmo destino. O que será dos dois quando um se for primeiro, pois já vivem juntos há quase sessenta anos?

Realmente, preciso desesperadamente ter forças para tentar viver sem os dois, não posso deixar o passado me sufocar e nem posso ficar todos os dias chorando a morte deles (como já  fiz desde criança). Quanto tempo desperdicei chorando... poderia muito bem ter gasto este tempo dizendo que os amava. Mas eles sabem que os amo, mais do que posso aguentar. Será que algum dia vou aprender a viver sem eles? Será que algum dia vou aprender a dizer, definitivamente, adeus? Dedico essa canção a meus pais amados, "desejando que, de alguma forma, estivessem aqui novamente"...

 

O Fantasma, sempre se aproveitando desse ponto fraco de Christine, chama por ela, fingindo ser seu pai. Raoul a impede de cair na armadilha: "Ele não é seu pai!", afirma. É preciso mesmo separar o marido do pai, dar adeus ao passado que não pode voltar e que só nos faz sofrer. O marido é o presente que precisa ser vivido em plenitude. O pai tem que ser uma fase superada da vida, uma boa e cara recordação... mas apenas isso. Creio que é nesse momento que Christine começa a realmente temer o Fantasma, pois cái na realidade e percebe que o estava idealizando, na associação que fazia entre este e o "Anjo da Música" que o pai, com pena da menina que ficaria só nesse mundo, havia prometido lhe enviar antes de morrer. Na cabeça de Christine, pai e anjo acabaram se confundindo, e o Fantasma assumiu ambos os papéis, ele, que sempre foi o mestre das máscaras. Raoul concebe um plano para capturar o Fantasma, usando Christine como isca, mas o Fantasma é mais esperto e ela acaba sendo novamente raptada por ele e levada para seu mundo subterrâneo. Raoul, valentemente, vai resgatá-la, seguido depois por guardas e funcionários do teatro. Acaba preso numa armadilha e cabe a Christine decidir seu destino. Ela tem o poder sobre sua vida ou morte. Se fica com o Fantasma, este poupa a vida de Raoul, se não, ele morrerá. É a hora da escolha final, é o "point of no return", o beco sem saída, a decisão sem volta. Mas Christine ainda hesita entre o sonho e a realidade da vida. Decide, então, mostrar ao Fantasma que este não é o ser monstruoso que pensa ser (pois ele próprio é seu pior inimigo) e que, de certa forma, o ama e entende. "Triste criatura das trevas, que tipo de vida você experimentou? Que Deus me dê coragem para lhe mostrar que você não está sozinho". Dizendo isso, ela o beija apaixonadamente, enquanto Raoul, preso à distância, observa a cena sem compreender muito bem. Agora o Fantasma pode, também, aprender a dizer adeus pois sabe que, de certa forma Christine estará sempre com ele, pois parte de seu coração lhe pertence. Chorando, ele solta Raoul e diz aos dois para que o deixem só. Os dois partem no barco, que desliza suavemente pelas águas, já não tão escuras e ameaçadoras, cantando suas juras de amor (trechos de "All I Ask of You"). O Fantasma tem pouco tempo para desaparecer antes de ser capturado pelos guardas e funcionários enfurecidos mas, antes disso, quebra todos os espelhos. Sempre a metáfora dos espelhos!

 

O filme se passa em "flashback". Raoul, já muito velhinho e numa cadeira de rodas, vai a um leilão no antigo (e agora em escombros) teatro e resgata o macaquinho de corda. É ele que recorda toda a história. No final, vai até o túmulo onde jaz Christine. Podemos ver, inscrito na lápide, "esposa e mãe". Essas duas palavrinhas já nos indicam o tipo de vida escolhido por ela. Sera que foi feliz na vida rotineira e trabalhosa de cuidar de casa e filhos, tendo que deixar para trás seus sonhos e fantasias? Não existe nada que nos desiluda mais do que a vida de casada. Muitos fóbicos sociais (e pessoas que sofrem de carência afetiva em geral) acreditam piamente que encontrar um companheiro, casar e ter filhos, vai ser a cura para todos os seus males, a solução para todos os seus problemas. Por experiência própria posso dizer que isso está muito longe da realidade! As responsabilidades que o casamento traz destroem a possibilidade de sonhar... fazem a vida se afastar cada vez mais do "ideal hollywoodiano" que sempre imaginamos. Principalmente quando os filhos ainda são pequenos. Impossível se emocionar com uma canção ou apreciar as cores de um lindo por-do-sol quando a realidade nos dá um soco no estômago... o filho grita do banheiro "mamãe!!!! acabei!!!!!", e nos sentimos os seres mais miseráveis desse mundo pois agora nem temos mais o direito de sonhar em paz. É certo que marido e filhos têm suas alegrias e compensações... mas também muitos outros probemas. Alguém consegue imaginar o Fantasma da Ópera, aquele gênio temperamental, trocando fraldas sujas ou indo todos os dias levar o filho para a escola? Pois é...

 

Raoul deposita o macaquinho em frente ao túmulo, e percebe que lá está também uma rosa vermelha, com um anel que o Fantasma tinha oferecido à Christine quando pensou poder casar com ela. Outra vez a rosa... e esta nos indica que o Fantasma ainda está vivo também... teria se tornado imortal como os vampiros ou o robôzinho de "Inteligência Artificial"? O Fantasma é mais do que uma pessoa, é um mito, e estes nunca morrem. Será que é a única forma de fugir da morte, transformar-se num mito? Quando escrevo essas minhas "memórias", há também a vontade desesperada de deixar algo de mim nesse mundo e pensar que alguém vai ler o que escrevo e me amar, mesmo quando eu não mais existir nesse mundo. Mas, é irônico saber que minhas palavras viverão mais do que eu (talvez...), assim como é cruel saber que macaquinhos de corda vivem mais do que seres humanos (e Raoul comenta, logo no início do filme, olhando a caixinha de música "será que você ainda estará aqui quando todos nós já tivermos partido?". Em "Inteligência Artificial", até mesmo o robô vai para seu sono eterno e o único sobrevivente é o ursinho de pelúcia. Fico sempre pensando na ironia de alguns objetos sobreviverem a seus donos... tenho muitos objetos, principalmente imagens de santos e livros de oração, que pertenceram a parentes já falecidos há muitos anos... alguns têm mais de 100 anos. Parece tão estranho que eles possam ainda estar aqui quando seus donos, muitas das vezes, já foram até completamente esquecidos (e não conheci a maioria deles, só conheço alguns episódios de suas vidas e alguns aspectos de suas personalidades que me foram contados por mamãe). Como é irônico que permaneçam enquanto nós temos que partir... para o desconhecido... Como é doloroso saber que o sol vai continuar a nascer e a se pôr, que as estrelas continuarão brilhando, que o mundo vai seguir seu curso sem a nossa presença... Que apesar de todos nós, amanhã será sempre outro dia...

 

Quando os musicais de Webber viram filmes, há sempre a possiblidades de "Oscars", e é necessário competir com uma música original. Por conta disso, ele sempre compõe uma canção nova, que não fazia parte da versão teatral. Foi assim também com "Evita" e a música, também carregada de muitos significados, "You Must Love Me - Você Tem Que Me Amar". Desta vez, nos créditos, começa a tocar "Learn to Be Lonely", a canção composta especialmente para o filme. E é como se uma espada atravessasse minha alma. A música é um verdadeiro "soco no estômago", pois diz tudo, resume a luta dos Fóbicos Sociais, parece ter sido composta para todos os que sofrem deste distúrbio:

 

"Learn to Be Lonely" - Aprenda a Ser Sozinho

Filho da solidão

Nascido para o vazio

Aprenda a ser sozinho

Aprenda a encontrar seu caminho na escuridão

Quem estará lá para você?

Para lhe confortar e cuidar de você?

Aprenda a ser sozinho

Aprenda a ser sua própria companhia

Alguma vez você sonhou que lá fora no mundo

Haveria braços para lhe abraçar?

Você sempre soube

Que seu coração está  por conta própria.

Então, ria na sua solidão

Filho da solidão

Aprenda a ser sozinho

Aprenda a viver a vida que é vivida na solidão

Aprenda a ser sozinho

A vida pode ser vivida

A vida pode ser amada

Sozinho.

 

 

É duro para um Fóbico Social ouvir essas palavras. Muitos vão ficar chocados e se desesperar mais ainda. Mas, ao mesmo tempo, aí está o segredo da cura, ou seja, de como viver com a Fobia, já que não se pode viver esperando uma cura que signifique desaparecimento completo do distúrbio - nem sabemos se virá um dia e, mesmo que venha, pode ser que seja depois que já tivermos partido... aí, tal cura seria como o macaquinho da caixinha de música tocando em nosso túmulo, ou a rosa que o enfeita. Mas, como Christine mesmo afirma, o túmulo é só um monumento frio que nada tem a ver com o calor da vida.

 

Descobri, há tempos, que a melhor maneira de combater a Fobia Social é não lutar contra ela. Se o inimigo é invencível, é melhor partir para uma trégua e tentar uma convivência o mais pacífica possível. Além disso, quanto mais conhecemos o "inimigo", mais chances temos de dominá-lo e, pelo menos, mantê-lo sob controle. A princípio, a letra da canção parece cruel, e sei que muitos fóbicos sociais vão pensar dessa maneira, mas a realidade nem sempre é como queremos ou sonhamos. Então, só nos resta aceitá-la, ou seja, só nos resta aprender a lidar com a realidade, aprender a ser - e a viver - sozinho, aprendar que não podemos depender de ninguém nesse mundo para a nossa felicidade, pois não vamos poder contar com todos o tempo todo, cada um tem sua vida, suas necessidades, seu caminho, que nem sempre é o nosso.

 

Como sei que sou uma "estranha" até mesmo em meio a outros fóbicos sociais, e que muitos me odeiam por me achar que lhes tiro as últimas esperanças quando digo que tratamentos não ajudam muito, remédios tampouco e que casar e ter filhos não resolve o problema, vou dar um recado a mim mesma, baseando-me na letra da música. Sendo assim, tudo que direi se aplica ao MEU caso em particular. Que ninguém então se sinta magoado, decepcionado ou pense que lhe roubei as esperanças. De qualquer jeito, o recado está dado, e este é o meu "segredo da felicidade":

 

Lucia, você nasceu diferente das outras pessoas, é especial, filha da solidão. Nasceu com uma marca peculiar: ter que conviver com a sensação de vazio por se achar inadequada e rejeitada. Não lute! Aceite! Esta é a sua natureza. Então, para que possa ter uma vida digna, aprenda a ser sozinha, aprenda a fazer companhia a si mesma! É a única solução, a única saída! Não se iluda pensando que existe outra, pelo menos não agora. Você pensava que podia sempre contar com alguém? Que seus amigos, pais, marido, filho, médico, remédio, estariam sempre lá para te confortar nos momentos difíceis e lhe proteger do mundo cruel? Isso é uma ilusão que você criou, aceite a realidade, por mais dura que seja. Só a verdade liberta, você sabe muito bem disso. E a verdade é que nascemos sós e partiremos sós desse mundo... Aprenda a andar nas trevas das suas limitações, e tirar vantagem delas da melhor maneira possível. Viver é saber lidar com as limitações, pois elas sempre existirão! Cada um tem suas próprias, e sempre pensamos que nosso fardo é mais pesado que o dos outros, mas sabemos, bem lá no fundo, que isso não é verdade. Então, ao invés de lutar, de ficar se machucando em busca de soluções e curas fantasiosas, dê uma chance a si mesma, aprenda a gostar da solidão. Deus te fez assim por algum motivo, e cabe a você tirar proveito do que Deus lhe deu, pois Ele é que sabe o que lhe convém. Ele criou o universo, criou você. Ele é perfeito, portanto, não pode ter cometido um erro ao lhe criar assim. Aceite o que Deus lhe deu, mesmo que isso lhe custe. Aprenda a ser sozinha, aprendar a rir da solidão e de seus defeitos. Esse é o segredo da felicidade. Não lamente o que não tem, alegre-se com o que possui - e não é pouco! A vida pode ser vivida sozinha, devemos sempre amar a vida, pois é tudo o que temos. Aprenda a amar sua vida do jeito que ela é, aprenda a amar a solidão. Você tem que confessar que já está acostumada com ela, não é mesmo? A gente se acostuma com tudo! Quando se é jovem, tudo parece injusto, temos pressa para tudo, queremos abraçar o mundo, chegarmos ao topo da montanha mais alta. Mas as fantasias da juventude se vão, e dão lugar à realidade da vida. A vida não é como nos filmes nem nunca será, aceite isso para que possa ser feliz! E, falando nisso, saiba que felicidade, no sentido de ser feliz o tempo todo, não existe, é uma ilusão, existem momentos felizes. Há tempo para tudo, como diz o Livro do Eclesiastes, há tempo para rir e se alegrar, mas também há tempo para chorar e sofrer, é parte da vida. Creia, a vida é bonita e perfeita, mesmo que você não enxergue isso, mesmo que odeie tudo o que lhe digo e mesmo que odeie a vida. Quantas vezes você pensou que ter um marido e um filho fosse a solução para todos os seus problemas e o fim da sua solidão. De certa forma é verdade, você agora não está sozinha... mas tem que confessar que, muitas vezes, até se ressente disso e grita com seu filho "me deixa em paz, quero ficar sozinha!!!". Curioso, não é? Portanto, mande às favas o velho conceito de que "é impossível ser feliz sozinho", confesse que você bem que aprecia os momentos de solidão, de calma e silêncio. Lembre-se de quanto os livros e filmes te fazem companhia... e a música! Quem pode se sentir sozinho ouvindo um concerto de Mozart ou uma sonata de Beethoven? Eles estão lá com você, não é isso que você sente? Uma parte do artista está sempre com você, e você se torna um com ele. Não se esqueça também de Deus, pois Ele é o único que nunca te deixará sozinha, mesmo que você muitas vezes até duvide de Sua existência ou se ressinta de que Ele não te trata bem, ou que te abandonou. Até o Filho de Deus se sentiu abandonado na Cruz! Ah! também confesse que, paradoxalmente, a solidão já te tornou a sua melhor companheira. Não ligue para as teorias preconcebidas do mundo de que não é natural viver isolado ou sozinho, se cada um de nós é único e criação irrepetível, então, na verdade, somos todos sós, pois somente um ser humano totalmente igual a nós nos completaria e só estamos rodeados de semelhantes. De um modo ou de outro, todos estão usando suas máscaras. Mesmo quem parece estar em boa companhia, pode estar muito mais infeliz do que você na sua solidão. Assuma que gosta de ser do jeito que é, não dê a mínima para os que te acham uma "aberração da natureza", uma anormal, uma "Fantasma da Ópera".

 

 

 

Então, Lucia, aprenda a ser sozinha e a amar a vida vivida na solidão...

 

 

 

 

 

 


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