Psicóloga da linha "Gestalt" (com 28 anos mais ou menos):
Depois de decepções amorosas terríveis e traumatizantes e toda a pressão e tortura de dar aulas num curso de Inglês audio visual (conforme conto na "minha história"), resolvi ligar para uma parenta que estava fazendo faculdade de medicina e ver se ela conhecia algum profissional que pudesse me ajudar. "Estou pirando!", disse eu. Ela me indicou o consultório de uma psicóloga, professora dela, que trabalhava com guestalterapia, conceituadíssima. Mas foi avisando: "Não se espante que ela é doidinha! O tratamento vai parecer muito maluco, mas garanto que ela é muito capaz e tem feito um trabalho excelente, principalmente com crianças e adolescentes. Vá com mente aberta e siga as instruções dela à risca, garanto que não vai se arrepender!".
E lá fui eu. Na primeira visita, ela foi logo explicando o método, que "tinha um pouquinho de tudo", mas se concentrava em "vivência", onde a pessoa encenava "como num teatro" as situações que a incomodavam, desenhos, técnicas de relaxamento, energização, massagem e muita conversa. Já tinha percebido a "mesa de massagem" a um canto da sala e isso já fez com que me sentisse um bocado desconfortável pois não gosto de gente estranha me tocando e essas tentativas de me fazer relaxar geralmente me deixam mais rígida e tensa ainda. Mas, pensei, deve ser para outros tipos de pacientes. Notei também um monte de desenhos pendurados num mural, parecendo de crianças. O ambiente era aconchegante e a gente sentava em almofadões no chão, em estilo meio "hippie". Gostei do ambiente (tirando a mesa de massagem) e achei que sentar nos almofadões ia ser algo mais descontraído (embora eu nunca me sinta muito à vontade sentada em almofadas ou no chão por causa dos problemas de coluna). A primeira visita foi basicamente contar um pouco dos meus problemas: nervosismo intenso, pavor de falar em público, misantropia (que era como eu definia, na época, o meu "medo de gente), isolamento, decepções amorosas, depressão, etc. A psicóloga, por sua vez, explicou em linhas gerais no que consistia o tratamento (sem dar muitos detalhes), preço, horários, etc. As sessões deveriam ser , no mínimo, duas vezes por semana. O ideal seria três, mas reclamei de falta de tempo e de recursos financeiros para tal empreitada. Entramos num acordo e tudo parecia bem. Mas notei logo que ela falava muito palavrão... uma média de um palavrão para cada três frases. Conheci muita gente assim, que usa palavrão quase como um hábito, assim como algumas pessoas não conseguem encerrar frase alguma sem dizer "né?" ou então "certo?". De qualquer jeito achei que não era muito apropriado para uma profissional, mas como minha parenta já tinha me avisado que ela era meio maluquinha, não me espantei muito, embora me sentisse pouco a vontade com aquele palavriado "chocante".
Na segunta consulta, passamos um tempo quase todo conversando sentadas nos almofadões. Ela só perguntou se estava tudo bem e fui contando meus problemas... Como sei que os psicólogos têm fama de culpar os pais por tudo que acontece de errado na nossa vida, fui logo contando alguns problemas e conflitos com meus pais (mãe superprotetora, pai autoritário, tios e tias que não entendiam o meu problema de nervoso, etc). No meio de uma
frase ela me interrompeu, quase que gritando:
- Quero que sua família se f.... quero saber é de você!".
Fiquei totalmente sem graça e sem ação, meio que desarmada. Já tinha começado dando um fora, o ramo da psicanálise que gosta mais de "culpar os pais" é o Freudiano, e este parece ser um dos rivais... Deu então a conversa por encerrada e disse que ia me levar para uma "viagem". Comecei a ficar com muito medo pois pensei que iria aplicar hipnose, e sempre tive horror a ficar inconsciente, não sei bem porquê. E também nunca acreditei que alguém pudesse me fazer chegar a um estado de hipnose como via na TV, a pessoa só fechando os olhos e relaxando por alguns minutos e ficando totalmente à mercê do hipnotizador (embora eles digam que a gente não faz nem fala nada que não queira nessas sessões...). Ela me mandou deitar num colchonete, fechar os olhos e
relaxar. Colocou uma fita com músicas de relaxamento e começou a falar...
- Relaxe seu corpo, beeeeem devagar, começando pelos dedos dos pés, subindo....se sentir uma parte do corpo muito tenta, enrijeça-a mais ainda e solte para relaxar... respire fundo, expire e inspire devagar...".
A essas alturas notei que minhas pálpebras estavam começando a tremer... e segui o conselho dela, apertei-as bem forte e tentei relaxar... mas ainda assim estava com o corpo todo teso. E passei a reparar na minha respiração... e a pensar que ela estava me observando esse tempo todo e que estava vendo o movimento do meu peito, da minha barriga... com isso, a respiração ficou toda entrecortada, ainda mais que sempre tive fôlego bastante curto. Mas ela continuou dizendo:
- Imagine agora que você é uma flor... pense no lugar onde esta flor que é você está, se há outras flores por perto, como você se sente sendo flor. Imagine o sol batendo nas suas pétalas, suas raízes profundas no solo, o vento balançando sua haste".
Nessas alturas relaxei mais pois percebi que não era hipnose, só um exercício de imaginação. Depois de uns minutos em silêncio, mandou que abrisse os olhos, me deu uma caixa de lápis de cor e um papel e pediu que desenhasse o que visualizei. E comentou que eu tinha que "aprender a respirar" pois respirava terrivelmente mal. Quanto ao desenho, expliquei que tinha imaginado dois tipos de flores diferentes, identificando-me com elas. Ela disse que não tinha importância, que desenhasse as duas e fosse explicando o que tinha imaginado. Desenhei uma rosa no meio de uma roseira, os espinhos embaraçando as hastes umas com as outras. Indiquei uma rosa no meio, igual às outras, como sendo eu. Ao lado, fiz um risco dividindo o papel e desenhei a rosa na redoma, explicando que era a do Pequeno Príncipe. Expliquei que, no primeiro caso, sentia-me uma rosa ameaçada pelas outras pois os espinhos delas podiam me machucar... e ao mesmo tempo os meus espinhos podiam machucá-las e essa situação me apavorava, sentia-me desamparada e sufocada em meio às outras rosas. No caso da redoma, era quando me sentia protegida, mas ao mesmo tempo, isolada e sozinha, sentindo-me triste por esse isolamento mas me sentindo confortável com os cuidados recebidos e agradecida pela redoma. Ela comentou que eu desenhava muito depressa, "como se quisesse acabar logo e me livrar daquela tarefa". Lembrei-me que, realmente, quando estava sendo avaliada ou observada, tendia a fazer as coisas muito depressa e isso geralmente levava ao desastre, como nas aulas práticas no curso de Inglês, quando eu levei vários cartazes com desenhos e, na pressa de mostrar todos o mais rápido possível, acabei derrubando tudo e embaralhando a ordem, ficando totalmente perdida. Realmente era um problema e eu precisava fazer algo para reverter isso, tentar fazer as coisas lentamente (instintivamente já tinha reparado isso, e sempre repetia comigo mesmo que, da próxima vez, iria fazer tudo lentamente, sem pressa, mas na hora H sempre acabava me afobando). Sorri do comentário, pois era bem verdadeiro, e ainda comentei que era um milagre eu não ter mandado ela olhar para o outro lado enquanto eu desenhava, pois me sentia desconfortável quando alguém me observava desempenhando alguma tarefa. Ela disse, muito secamente:
- Você não ia me MANDAR olhar para o outro lado, você ia PEDIR, cuidado com o que diz!!!".
Fiquei totalmente sem graça, devo ter ficado muito vermelha. Mas ela prosseguiu: riscou todos os espinhos das rosas, um por um (e eram muitos!) sem deixar nenhum, nem na rosa que me representava e nem nas outras. Depois me disse:
- Pronto, resolvi o seu problema, nem você nem as outras rosas têm espinhos agora", desenhe o que você pensa ser uma solução, além dessa.
Desenhei duas rosas, cercada de muitas outras, que se curvavam na direção oposta a essas duas, todas elas sem espinhos. Disse que as rosas no meio representavam a mim e um companheiro, um namorado, marido, o que fosse. Ela comentou que eu tinha afastado as outras rosas completamente! Aí pediu para eu encontrar uma solução para a rosa na redoma, já que ela tinha riscado os espinhos das outras rosas... Obviamente ela queria que eu riscasse a redoma, mas isso nem me passou pela cabeça em momento algum. Disse a ela:
- Você não vai gostar do que vou desenhar... pode parecer meio chocante...".
Ela disse que não tinha problema. Deixei a redoma e coloquei outra rosa dentro, que seria o meu companheiro. Ela arrancou o papel das minhas mãos, gritando:
- C......... ISSO É MUITO FORTE!!!!!!".
Eu já quase tremendo, sem saber o que dizer nem fazer. Ela perguntou se eu não achava que "tinha um grande potencial não aproveitado dentro de mim". Respondi que não sabia (o que sempre a deixava irritada) pois não sabia exatamente o que ela queria dizer com isso (hoje creio que sei: neste ponto ela estava com a razão. Eu era sexualmente, socialmente e profissionalmente reprimida. Havia muito o que podia fazer, pois era inteligente e gostava de estudar. Pintava, desenhava, tocava piano, estudava línguas, já estava na segunda faculdade, realmente havia já uma grande "bagagem", o problema era o que fazer com tudo aquilo e como usar todo esse potencial de forma eficiente e sem medo das críticas negativas e dos julgamentos).
Mas ela não insistiu pois a sessão estava encerrada. Disse para eu levar o desenho para casa e refletir sobre ele pois um dia, mais avançada no tratamento, eu iria desenhar de novo. Atrás do papel, deu-me umas instruções: todos os dias ao acordar, em jejum, beber um copo de água morna e colocar o dedo na garganta, induzindo o vômito, pois isso iria exercitar o meu diafragma e me fazer respirar melhor no futuro. No final me deu um abraço que, penso, foi muito demorado (com certeza para que eu me acostumasse com contato e me sentisse mais à vontade).
Achei aquela história do vômito muito estranha. Na primeira manhã, até bebi o copo de água morna e coloquei o dedo na garganta... mas não tive coragem de induzir vômito. Comentei com uma amiga no curso e ela me disse para não fazer isso de jeito nenhum pois muita gente acabava com bulimia justamente por causa de coisas como essa. Achei que realmente, era melhor não seguir com o exercício... o problema era como explicar à terapeuta que não queria mais tentar aquilo... fiquei ensaiando desculpas até a próxima consulta. Além desse "dever de casa", ela passou alguns outros, nas outras sessões, mas não me recordo quais foram. Só lembro que a maioria não era assim tão radical, era só refletir sobre certa frase que eu tinha dito na sessão, ou ficar repetindo mentalmente alguma frase de pensamento positivo determinada por ela, algo assim. Mas os deveres de casa eram sempre outro motivo para stress, e ainda por cima me lembravam o tempo da escola! Depois de "velha", voltar a fazer deveres de casa...
Mas ela nem comentou nada sobre esse exercício do vômito. Começamos com a conversa nas almofadas, como sempre. Comentei que me sentia muito infeliz porque todo rapaz pelo qual me apaixonava era gay e que achava que não havia "vida inteligente" no mundo masculino hetero, que todos os rapazes que não eram gays pareciam medíocres, sem nenhum senso artístico, sem educação refinada, sem cavaleirismo, sem capacidade intelectual, etc. Ela fez o seguinte comentário:
- Você fala isso porque não conhece o meu marido, e ele não é gay não!".
Pensei cá comigo que o comentário tinha sido um pouco abusado e que, se fosse mais ousada, poderia ter respondido "Por quê você diz isso, vai me emprestar o seu marido?". Aliás, notei que ela mencionava o marido à toda hora, sempre exaltando suas qualidades. Os palavrões continuavam a torto e a direito durante a conversa. Como toda psicóloga que se preza, ela sempre perguntava "por quê isso, por quê aquilo", lembrando aquela neurologista com quem conversei na infância. Uma vez me perguntou:
- Por quê você só tem se apaixonado por gays?".
Respondi que não sabia. Ela se irritou muito e disse para eu nunca mais responder "não sei" a uma pergunta, pois isso não era verdade: eu sabia sim! Deveria responder "não sinto", pois era essa a verdade. Cada vez me sentia menos à vontade, e agora tinha que me policiar em tudo que dizia, uma verdadeira tortura. Passei a detestar as sessões e nem dormia de nervoso na véspera, sem saber o que me esperava ou o que iria acontecer (pois cada vez era uma novidade "estranha"). Não me recordo quantas sessões fiz, com certeza menos de cinco. Numa delas, ela cruzou os dedos das mãos na frente do peito e começou a mexer com os dedos, de forma exagerada e me olhando com cara de deboche. A princípio não percebi o que ela queria dizer com esse gesto. Como insistisse, ainda mais exageradamente, percebi que eu estava fazendo aquele mesmo gesto, que é meio que um tique nervoso, como o tremer dos joelhos que já mencionei na minha "história". Às vezes fico mesmo batucando com os dedos, como se estivesse tocando um teclado invisível, seja nas pernas, seja assim com os dedos cruzados, seja na bolsa que está sempre no meu colo. Reclamei com ela, dizendo que agora ia ficar ultra consciente de todos os meus gestos pois ela ficaria imitando, e eu tinha esses tiques, geralmente quando estava falando com alguém, inclusive comentei que minha mãe reclamava que, quando eu estava ao telefone no quarto dela, desarrumava a cama toda e ficava mexendo nos bonequinhos de enfeite e muitas das vezes acabava descolando um chapéu, arrancando uma fita sem querer, etc. Ela comentou:
- Ah, você se vinga da sua mãe dessa maneira!".
Quis dizer que não, que era só um tique nervoso, que não tinha nada demais naquilo. Ela disse que os gestos são importantíssimos e que não devemos subestimar o significado deles. Resolvi não tentar contra argumentar mais e deixar por isso mesmo. Depois daquela sessão, fiquei ultra consciente dos meus gestos e levou muito tempo até que conseguisse me sentir um pouco "natural" novamente, sem ficar o tempo todo me observando. E isso ainda piorava o meu problema! Creio que é cruel fazer um fóbico social ficar ainda mais consciente dos gestos que faz, e ainda por cima debochar deles! Mas não creio que essas profissionais que procurei soubessem realmente alguma coisa sobre FS ou de como lidar com pacientes nessas condições. Ao final da sessão, ela me disse que, da próxima vez, iria começar uma atividade nova: a energização. Perguntou se eu queria informações sobre o que era isso. Disse que sim, claro, que me sentia muito mais à vontade se soubesse o que me esperava na próxima sessão. Não explicou exatamente o que era a energização, só disse que era para eu "me soltar" mas que, para isso, teria que ficar só de calcinha, sem sutiã nem nada. Perguntou se eu tinha algum problema com relação a isso. Não respondi nada na hora, fiquei de pensar sobre o assunto (pois, realmente, a coisa me deixou totalmente desconcertada e sem saber o que dizer. Nunca me senti a vontade trocando roupa em frente a outras pessoas, achava meu corpo feio, deformado, indigno de ser exibido, evitava até comprar roupas em boutiques, preferindo sempre lojas de departamentos, pois nas boutiques as vendedoras iam abrindo a cortina da cabine sem cerimônias quando a gente estava se trocando... e muitas vezes até ficavam olhando o tempo todo e isso me deixava muito inibida e sem jeito).
Foi a gota d´água. Muita maluquice para o meu gosto! Resolvi encerrar com a terapia e passei a ensaiar o que iria dizer na próxima sessão (que seria a última) pois sei que ia vir um batalhão de "por quês", a tensão sempre aumentando. Expliquei que não queria mais continuar com a terapia porque não acreditava naqueles métodos e não concordava com eles. Disse que não iria ficar só de calcinhas e que tudo o que ela me pedia para fazer parecia absurdo e me deixava muito pouco à vontade, e que não era isso que eu procurava. Procurei ser o mais firme possível, deixando bem claro que aquele não era o tratamento mais adequado, pois se eu não concordava com alguns dos procedimentos, não iria dar certo fazer tudo pela metade. Ela abriu a agenda onde havia anotando meu nome completo, endereço e telefone no primeiro dia (e onde fazia algumas anotações sobre mim) e começou a riscar meu nome e meus dados, repetidamente, até a página ser um borrão só, e enquanto fazia isso, me "passava um sermão" dizendo que era um atestado de derrota desistir assim de uma terapia que iria me fazer um bem danado, que eu tinha um potencial imenso dentro de mim que não era aproveitado e que, desistindo, eu não estava dando chance a esse potencial de se manifestar, que eu não podia esquecer que o ser humano não é só mente, que o corpo também é muito importante e que deve haver harmonia entre um e outro. Apertou minha mãe frouxamente, se despedindo.
Por quê os terapeutas sempre reagem dessa maneira, a meu ver, infantil, colocando toda a culpa em cima da gente se um tratamento não dá certo - ou se não concordamos com ele - fazendo com que nos sintamos derrotados, fracassados, perdedores, "riscados do mapa". É sempre assim. Se um tratamento não funciona, nós somos os culpados porque não nos empenhamos o suficiente, porque não tivemos a mente suficientemente aberta, porque não fizemos os exercícios, porque não temos coragem de enfrentar a dor de um tratamento que "mexe com a gente", porque não somos persistentes, enfim, porque não queremos, REALMENTE, ficar curados. Fácil culpar o doente, muito fácil...