Mudanças e mais mudanças:

Conforme já comentei anteriormente, no mudamos para um "lugar de edifícios altos" (pois no bairro onde morávamos os prédios eram de, no máximo, 4 andares e morávamos no segundo andar). Ficava deslunbrada com aqueles "arranha-céus" de 8 andares. Meu pai comprou o prédio "no buraco" assim que nasci. Levou 7 anos para ficar pronto e fomos um dos primeiros a se mudar, algumas partes do prédio ainda em construção, tijolos aparentes aqui e ali, paredes de corredores ainda por pintar, e por aí afora. No início eramos só 3 moradores, se não me falha a memória. Não havia crianças da minha idade, só uma adolescente filha dos vizinhos de cima e mesmo depois que o prédio "se populou", ou as crianças eram muito pequenas ou já muito grandes, praticamente ninguém na minha faixa etária. E tinha um grande problema, não havia espaço para se brincar, o prédio cercado de ruas por todos os lados, como uma ilha, com trânsito intenso e barulhento - e muita poluição. Até hoje brincamos que acho que não existe no mundo um lugar mais barulhento... Bom, mas estávamos "subindo na vida", estávamos num bairro melhor e mais perto do centro da cidade, com condução fácil para tudo quanto é lado da cidade. Nunca aprendi a andar de bicicleta, difícil achar lugar para treinar... e meu triciclo ficou só na saudade... Nos 30 anos que lá morei, só tivemos 3 vizinhos daqueles com quem se pode contar para tudo, amigos de verdade... e que logo se mudaram para outros lugares. Com o tempo, foi se mudando gente que mal nos cumprimentava quando esbarrava nos corredores e todos me dizem "é assim mesmo, vida urbana, todos com pressa, todos individualistas, voltados para si mesmos. Como senti falta daquele ambiente caloroso do nosso antigo bairro! E começou uma espécie de "maldição" da minha vida: era a gente se apegar a algum vizinho e fazer uma boa amizade para ele logo se mudar... e ficarmos novamente sozinhos...

Lá fui eu para a nova escola, na rua em frente. Não lembro de muita coisa desse tempo e por isso acho que não sofri muito pois a gente tende a recordar mais os maus do que os bons momentos, infelizmente. Fiz amizade com algumas colegas e tinha uma "amiga preferida". Era aquela fase das meninas se identificarem com outra, que vira quase como um "ídolo". Uma menina linda, loira de olhos azuis, com um nome difícil de pronunciar e incomum (para aumentar o encanto) e muito extrovertida - protegida por todos e de certa forma mimada por conta de um acontecimento trágico de sua vida - tinha perdido a mãe de leucemia muito novinha ainda. Passei a admirá-la muito e a seguia para todos os lados. Mas era diferente da minha amizade com a Kátia, onde era mais um sentimento mútuo. Esta nova colega se relacionava bem comigo, mas eu era mais uma "seguidora" , uma "admiradora" do que uma amiga. De qualquer jeito, foi uma época boa e não me lembro de episódios relacionados à fobia, a não ser o fato de ser a "campeã do queimado". Não sei se hoje em dia ainda existe este jogo, a gente se dividia em dois times, um para cada lado (não importava o número de participantes contanto que fosse o mesmo em cada time), aí uma pessoa de um time jogava a bola tentando acertar alguém do outro time, se a bola batesse em alguém, a pessoa ficava "queimada" e saía do jogo e assim seguia até ver quem ficava até o fim. Eu era campeã pois sempre fui muito boa em fugir de uma bola, tinha horror de levar uma bolada (uma vez tinha levado uma na cabeça na pracinha do antigo bairro, passando perto de onde os meninos jogavam pelada) e de me machucar! Aliás, desde a mais tenra idade sempre tive medo de cair, de me machucar, de me sujar e por conta disso nunca me arrisquei em "brinquedos radicais", nunca aprendi a nadar, nunca andei de patins, de bicicleta, etc, etc, etc. Muitos dizem que não vivi!

Pulei uma série ou duas, assim como já tinha acontecido na outra escola, onde tinha me achado "muito inteligente" para o Jardim de Infância e veio a notícia de que a escola não teria mais o Primeiro Grau, a partir do ano seguinte seria só creche para bebês e crianças abaixo da idade escolar. Que golpe! A diretora desta escola, ao contrário da outra, era um doce de pessoa e sempre tratou os alunos com o máximo de carinho e respeito, uma pessoa admirável. A essas alturas eu já estava apaixonada pelas histórias da Bíblia e queria estudar em "colégio de freiras". A minha amiguinha conhecia um muito bom, convento e escola de freiras bem tradicionalistas e rigorosas. As duas filhas de uma prima de meus pais tinha estudado lá e isso ajudou a decidir. Lá fui eu e minha amiga para o novo colégio, e me sentia segura pois era legal já ir para um colégio novo tendo uma colega e na mesma turma!

Primeiro dia de aula, chego na escola trazida pelo ônibus escolar (mais uma vez! e agora o ônibus era uma verdadeira tortura para mim pois era a primeira a ser pega, às 6 e meia da manhã, e dava a volta praticamente pela cidade inteira, quase duas horas dentro do ônibus sem fazer nada e sem conversar com ninguém, vendo todos os dias as mesmas paisagens. Mas o motorista e a moça encarregada de tomar conta das crianças, sua esposa, eram muito alegres e amáveis, o que amenizava um pouco a monotonia da viagem). Todos os dias as turmas todas se reuniam num auditório, as cadeiras arrumadas por turma, e a madre superiora, numa mesinha no palco, rezava o terço conosco, ensaiava as canções para as missas comemorativas e dava verdadeiros sermões... e muita bronca nas meninas que não se comportavam (aqui vale dizer que a escola era frequentada só por meninas, só alguns anos depois se tornou mista e assim mesmo só tinha um menino em nossa turma). A madre, realmente terrível! Carregava consigo um sininho de prata e o tocava a todo momento, seja para pedir silêncio, seja para chamar a atenção.. e quando estávamos na sala aula, servia para saber que ela estava chegando... e era hora de ficarmos quietinhas nos nossos lugares. Muitas vezes ela batia com o sino na mesa com toda força, quando estava de mal humor (o que era quase sempre). Vivíamos tensas nessa "hora do auditório" pois a madre implicava com quase tudo. As meninas todas tinham que trazer o cabelo preso, com rabo de cavalo e grampos para evitar piolhos, que eram um problema na escola. Eu usava franja e colocava uns grampos bem frouxos de um lado e de outro. Outra transgressão minha: tinha as unhas compridas e pintadas (o que sempre foi uma das minhas poucas vaidades até começar a aprender a tocar piano e ter cortá-las praticamente rente ao sabugo - e com isso desisti dos esmaltes, que não pareciam atraentes em unhas curtinhas). Mas a madre fazia "vista grossa", eu era uma "queridinha" dela pois nas reuniões com os pais, minha mãe sempre comentava com ela que podia me perguntar qualquer coisa de religião que eu sabia tudo (e era bem verdade!) e eu tirava notas altas, quase todo semestre amealhava algumas "medalhas de honra ao mérito" que eram dadas às primeiras alunas da turma. Mesmo assim, era um terror. De repente a madre apontava para um dos grupos e dizia "você!! Venha aqui!!!". Todas começavam a se entreolhar e ninguém se levantava. A madre insistia "você mesma!!! É!! Você que olhou agora para trás!" VENHA CÁ!!! Depois de muita hesitação, a "vítima" não podia mais evitar a humilhação. Subia para o palco e levava a maior bronca. Algumas vezes por causa de um cabelo solto, ou de ter esquecido que era dia de "uniforme de gala", ou, como no caso de uma grande amiga minha, por levar o material escolar numa pasta tipo "007" que era "coisa de homem" segundo a madre. Também se levássemos brinquedos para a escola, eram devidamente "confiscados" e ficavam lá na mesinha da madre. E tinha outro problema, a madre muitas vezes fazia a pergunta em voz muito baixa (já era muito idosa na época e devia estar perdendo a audição) e coitada da aluna que perguntasse "o quê?". A madre começava a berrar: "Quê!!!! Quê!!! ISSO É PERGUNTA QUE SE FAÇA??? ISSO É PERGUNTA DE RETARDADO!!!! Aí a gente tinha que responder qualquer coisa quando não se entendia pergunta, pois já sabia o que viria se perguntasse "o quê?" (quando a própria madre fazia isso o tempo todo...)

 Mas mesmo assim, gostava da madre e o terço e os cantos religiosos me encantavam!

Ainda no primeiro dia de aula, chegou a hora do recreio que era num pátio enorme, muito bonito, com um pequeno prédio onde se vendia pão recheado e muitas outras guloseimas, brinquedos (escorrega, balanço, etc) e um caramanchão coberto de jarmineiros que davam ao ar um cheiro estonteante e gostosíssimo. Em baixo dessa cobertura perfumada, bancos de cimento onde as alunas se reuniam para comer as merendas e bater papo. Eu lá, sozinha, avistei aquela minha amiga da outra escola e corri para ela, que já estava lá toda enturmada com um grupo de meninas. Para minha total decepção e tristeza, ela mal me olhou e as outras meninas me ignoraram inteiramente, como se eu fosse invisível. Desiludida, fui me afastando até encontrar um banco vazio onde comer minha merenda, sem entender o porquê daquela rejeição, já que elas ainda nem me conheciam... Como foi que minha amiga se enturmou assim de primeira e eu fui rejeitada sem dó nem piedade? Será que ela falou algo sobre mim? Será que me acharam feia ou desajeitada? Nunca consegui entender... "Mais um tijolo no muro..."

Vendo que minha "amiga" não queria mais saber de mim, procurei fazer amizade com as pessoas que também pareciam "rejeitadas" por um motivo ou outro, as "banidas" do grupo, pessoas tímidas como eu, desajeitadas, deslocadas. Daquele dia em diante (até os tempos de faculdade) passei a sentar sempre nas últimas fileiras, bem longe dos professores pois assim, pensava eu, eles não perceberiam muito a minha presença e não me fariam perguntas ou me chamariam para resolver algum problema no quadro-negro. Fiz amizade com 3 outras meninas: Luciana, Julia e Marcia, duas das quais seriam minhas amigas para a vida inteira, Luciana é madrinha de meu filho, amizade de mais de 30 anos! Marcia se mudou para São Paulo no ano seguinte, mas mesmo assim nunca perdemos o contato e trocávamos muitas cartas. Depois ela voltou mas foi estudar em uma escola Batista mais perto de onde morava (olha a minha "maldição" com os amigos que sempre se mudam!). Luciana era muito desajeitada e com isso levava muitos tombos e passava por muitas situações tragicômicas... e era objeto de troça o tempo todo por causa disso. Nós, que éramos o alvo de deboche da turma, debochávamos dela, coitada! Muitas vezes fui muito cruel com ela, inventando brincadeiras de total mau gosto, mas, com um grande coração, nunca deixou de ser a amiga de sempre por causa disso, é uma daquelas pessoas raras que sabem perdoar e esquecer tudo - em nome da amizade.

A madre também era encarregada de nos dar aulas de religião e catecismo. Fazia uma pergunta para a turma e se ninguém respondesse ela ia chamando uma e outra aluna pelo nome, até obter a resposta - ou a turma ficar sem recreio estudando. Lembro que uma vez perguntou: "Onde está Deus?". Umas responderam no céu, outras em todo lugar, mas a madre dizia que, embora fosse verdade, existia um lugar onde Deus estava em especial. Eu sabia a resposta, mas não me atrevia a falar. Aliás, sempre foi assim em todos os cursos, até a faculdade: nunca fiz pergunta a professor e também nunca me apresentei para dar uma resposta (olha a Fobia Social aí!!!). A turma podia ficar sem recreio (eu inclusive), mas não me atrevia a levantar a mão e responder (afinal de contas, podia ser que eu estivesse errada e aí ia levar uma bronca e ainda piorar a situação - e passar vexame na frente das colegas). Mas a madre, já avisada por minha mãe de que "eu sabia tudo", acabou me chamando. Respondi, sentindo um frio na barriga "Na hóstia consagrada". Ufa! Era a resposta certa! A madre ficou feliz, se derramou em elogios dizendo que eu era uma aluna exemplar e no final das contas salvei o nosso recreio!

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