Pausa para realizar sonhos... mesclados com pesadelos
Minha queridíssima madrinha de Crisma tinha três irmãs. Sempre as vi como as fadinhas da Bela Adormecida do desenho de Walt Disney, até o tipo físico de cada uma delas e o comportamento era igualzinho. E, realmente, foram minhas fadas-madrinhas nessa vida. A mais magrinha (e um pouco geniosa) foi a primeira a nos deixar, faleceu de repente. Logo depois, a baixinha e gordinha, a mais alegre e engraçada, teve um derrame que a deixou para sempre entrevada e com dificuldades na fala. Minha madrinha passou o resto da vida no hospital e depois em casa cuidando dela, com auxílio de uma enfermeira aposentada. Por ironia do destino, faleceu antes da irmã entrevada, que ficou só sob os cuidados da dedicada enfermeira, sempre sofrendo muito. Todas três era já bem idosas, já com mais de 90 anos quando faleceram, mas, mais uma vez, lamentava a minha falta de sorte pois as pessoas que mais me amavam - e que eu também amava, sempre me deixavam... sempre sentia que tinha chegado nesse mundo um pouco tarde demais, todos os parentes mais amigos e carinhosos bem velhinhos... sem falar em vovó, a única que conheci! Mas minha madrinha sabia do meu grande sonho de conhecer os EUA e quis me deixar esse último presente para que me lembrasse dela e de que guardasse no coração o seu carinho e amor. Fez um testamento determinando que, quando a última das irmãs falecesse, o apartamento seria herdado e dividido entre seus três afilhados: um rapaz que eu não conhecia, um dos meus tios, ambos afilhados de batismo e eu.
Coisa complicada, como dizia meu pai, várias pessoas herdarem algo que não pode ser partido ou dividido em várias partes. Só restava vender e dividir a quantia, ao final do inventário. Mas, como costumo sempre dizer, o diabo gosta muito de heranças e costuma fazer uma festa: irmãos passam a se odiar, parentes brigam, pai e mãe se xingam, amigos se atracam. Nunca vi um caso de herança que não semeasse discórdia e muito sofrimento para todas as partes envolvidas. Com esta, não foi diferente, houve toda a sorte de brigas, discussões, ofensas, insultos e desentendimentos. Terminado o inventários, meu tio conseguiu um candidato a comprador que oferecia um preço razoável. O apartamento, embora em boa localização, não tinha garagem, o que sempre desvalorizava um bocado. O outro herdeiro não concordou e se recusou a assinar os papéis e a batalha começou. Queria ele mesmo cuidar de tudo, achava que sempre se poderia conseguir um preço melhor e ficava enrolando, enrolando. Depois de algum tempo, meu tio ameaçou entrar com uma ação de "dissolução de condomínio" - isso significava que o imóvel seria leiloado pela Justiça e o que fosse arrecadado (sempre uma mixaria), seria dividido entre as partes. Precisei praticamente implorar para que ele esperasse um pouco, enquanto tentava convencer o outro cabeçudo. Meses de muito stress, choro, raiva, revolta, nervosismo. Era só o que me faltava! Seria provavalmente a única chance de realizar meu grande sonho e a coisa ia de mal a pior. Finalmente, depois de uma verdadeira novela estilo dramalhão barato, chegou-se a um acordo, o apartamento foi vendido a preço de banana e cada um recebeu sua parte. Isso foi quase no fim da faculdade, de mistura com todo o nervosismo de final de curso, aulas-práticas no Colégio e tudo o mais. Resolvi depositar a maior parte do dinheiro numa caderneta de poupança para, mais tarde, pagar a excursão, comprar dólares para gastar na viagem, etc. Com o restante, comprei uma televisão maior para meu quarto, um aparelho de som dos mais modestos, Diskman, vídeo cassette e, claro, alguns CDs para incrementar a coleção. Planejava viajar em julho, depois da formatura. Como era preciso arranjar tudo com antecedência, comecei a comprar alguns dolares aos pouquinhos (pois era sempre perigoso ir às casas de câmbio carregando muito dinheiro) para gastar na viagem.
Mas o diabo ainda não tinha se dado por vencido, as heranças realmente atiçam o fogo "lá de baixo". Na época da formatura, o assunto em pauta era a recém-eleição de Collor para Presidente da República, o primeiro eleito pelo povo depois de anos e anos de ditatura militar. A cerimônia foi logo um ou dos dias depois da posse, e assim que cheguei no teatro, todos estavam comentando que havia rumores de que o novo presidente havia bloqueado todas as cadernetas de poupança e contas correntes, que a moeda seria mudada mais uma vez e que os preços estavam congelados por tempo indeterminado. Difícil de acreditar em tal coisa, só podia ser boato. Este mesmo presidente, enquanto candidato, havia acusado o seu maior rival, Lula, de querer justamente bloquear poupanças e contas bancárias e foi um dos motivos de ter ganho a eleição pois garantia que não faria o mesmo. Relaxamos e aproveitamos a cerimônia, tentando não pensar mais no que parecia tão inacreditável. Mas, ao chegar em casa e ver o noticiário, ainda sem acreditar totalmente, vimos que era tudo verdade, que este era o plano econômico do novo governo numa tentativa (malograda) de parar a inflação galopante. A "ficha custou um bocado a cair". Parecia inacreditável. Aos poucos, fomos assimilando e tento que amargar as consequências. A certa altura, deixaram as pessoas idosas retiraram boa parte do dinheiro, mas os outros só poderiam tirar uma pequena porcentagem, o resto ficaria retido por vários anos e, considerando-se a inflação e a desvalorização da moeda, isso queria dizer que, quando o dinheiro fosse finalmente liberado, não valeria praticamente nada. Foi um grande choque. Muitas pessoas perderam investimentos da vida inteira, dinheiro suado, guardado para comprar uma casa ou iniciar um negócio. Houve até suicídios. Como sempre, quem sofreu foi a classe média e a pobre, que tinha seu pequeno pé-de-meia nos bancos. Os ricos, tinham investimentos em dólar ou contas na Suíça e, para os políticos e os "grandes", a informação "vazou" antes do bloqueio e tiveram tempo de salvar tudo. Era muita falta de sorte! O único dinheiro que tinha, deixado por minha madrinha para realizar meu sonho, praticamente tudo perdido! Começava a achar que o dinheiro tinha sido amaldiçoado pelos outros herdeiros por contas das brigas que o inventário provocou. Fiquei muito deprimida, me sentido roubada, traída, meus direitos violados. Mas, não havia nada a fazer a não ser ir se conformando aos poucos. O presidente não durou muito no cargo, mas o dinheiro ficou bloqueado de qualquer jeito e perdendo seu valor a cada dia. Retirei a percentagem "liberada" para comprar dólares e não me arriscar mais a perder até esse pouco que restou (mais o que eu já havia trocado). Corri todas as casas de câmbio da cidade, ninguém tinha dólar para vender, o "dolar paralelo" estava banido por tempo indeterminado, trocar dólares, só por meio de bancos e com passagem e passaporte na mão. Era demais!!! Cheguei em casa com o bolo de dinheiro que não consegui trocar, joguei tudo no chão e, se minha mãe não me segura, teria jogado boa parte pela janela gritando "esse dinheiro é maldito!!! esse dinheiro é maldito!!! Tive uma crise de choro, seguida de estado de prostração. Todos os caminhos estavam fechados, parecia que o mundo estava conspirando contra os meus sonhos, nunca herdara nada e, no dia que herdava, acontecia uma coisa dessas! Meus pais ficaram penalizados, conversaram e papai disse que, com algum esforço, poderia pagar, se a agência aceitasse pagamento parcelado em duas ou três vezes. Nessa época ele estava ganhando uma aposentadoria razoável pois foi antes de outro presidente, com outro plano maluco, decidir congelar os salários dos funcionários públicos (somo se o salário deles fosse o principal responsável pela inflação...) e está congelado até hoje, depois de mais de 10 anos... Mas sempre pude contar com meus pais tentando aliviar minhas dores e frustrações! Estava destinado que sempre deveria tudo a eles... Na hora de escolher a agência, fiquei em dúvida. Havia duas consideras as melhores. Uma era já conhecida de meus tios e tias, e se especializava mais no pessoal idoso. Outra era mais para crianças e se especializava na Disney, a Stella Barros, mas como o trajeto seria Nova York, Washington, Miami e Orlando, pensei que evitaria a criançada e que seria coisa para adultos. A outra tinha um problema.... durante as viagens de ônibus e mesmo no avião, os guias organizavam um monte de brincadeiras com direito a prêmios e também concursos de "Miss Simpatia", "Mr Agência tal e tal" e por aí afora. Os idosos curtiam muito essas brincadeiras mas eu achava a coisa bastante ridícula e, além de tudo, ia me sentir muito pouco a vontade com todos esses joguinhos, tendo que participar, etc, lembrava o tempo de escola e nunca fui boa nesses coisas, que sempre me deixaram em pânico. Optei então pela outra pois nunca ouvira falar de ninguém que tivesse ganho faixa de Miss ou Mr Stella Barros. Negócio fechado, passada a maratona stressante de conseguir um visto no Consulado Americano, tudo pronto. Quer dizer, ainda faltava comprar um "enxovalzinho" para a viagem, alguns sapatinhos novos, um tênis "de marca" (apesar de ter lido dicas sobre viagens dizendo que nunca se deveria usar sapatos novos em passeios) e alguns bermudões de linho pois estava toda empolgada com a idéia de que poderia andar pelos EUA "com as pernas de fora" sem que ninguém ficasse chocado (ou enojado) com minha brancura, já que qualquer americano era mais "branquela" do que eu.
Na minha cabeça, um milhão de sentimentos diferentes se misturavam. Havia, obviamente, a excitação de realizar o sonho de uma vida inteira mas, ao mesmo tempo, pensava que era bom demais para ser real... não me imaginava lá em Nova York (que era a "menina dos meus olhos"), andando pela Quinta Avenida, vendo a Estátua da Liberdade "ao vivo e a cores", subindo até o topo de uma das torres do World Trade Center! E conhecer a Disney com todas aquelas atrações, brinquedos, bonecos! Muitos amigos sempre me mostravam fotos das lojas, dos brinquedos, da paisagem, era demais!!! Mas havia o pavor de viajar de avião (que não superei até hoje). Sempre que entro em um, penso que será o meu fim, que o avião vai cair e fico sempre na expectativa do pior. Só pensar nisso me dava aquele frio na barriga já tão meu conhecido... Mas pensava também na perspectiva de conhecer gente legal na excursão, quem sabe até um romance! Imagine se apaixonar e trocar o primeiro beijo no alto do Empire State! Era demais, coisa de filme! Ao mesmo tempo pensava, e se o pessoal não gostasse de mim? E se me sentisse pouco a vontade? Cada um iria compartilhar o quarto com outras três pessoas, duas camas de casal, iria ter que dormir com outra companheira de viagem, e se fosse antipática, e se não fosse com minha cara (ou vice-versa)? No meio disso tudo, havia mais dois sentimentos conflitantes: ao mesmo tempo que sentia um alívio por viver aquele sonho e poder esquecer um pouco do curso de treinamento de professores no curso e da prova de aula no final do ano e espairecer (além de voltar para o curso com o "status" de alguém que já tinha ido aos EUA e isso contava pontos pois era, obviamente, a melhor maneira de treinar o Inglês - e tive até que faltas às primeiras aulas e justificar pois a excursão era do fim de julho ao meio de agosto, 22 dias), aquele pensamento de que iria fazer a prova de aula não se afastava da minha cabeça por muito tempo e já sabia que ia "me assombrar" a viagem inteira, fazendo com que minha felicidade nunca fosse completa pois sempre havia uma "sombra" de algo no futuro, como um balde de água fria nos meus sonhos.
E, como todo dia acaba chegando, chegou o dia da partida. Resolvi fazer o tipo "garotona", indo de macacão e boina de feltro combinando. Chegando no aeroporto (com bastante antecedência, como sempre) vi um bando de crianças pequenas fazendo uma algazarra tremenda e a guia usava uma camiseta da minha agência. Felizmente era outro grupo que só ia para a Disney! Acabei encontrando o meu grupo, com dois guias: um rapaz e uma senhora muito simpáticos e, tirando alguns poucos casais e uma ou duas senhoras, só tinha adolescentes, alguns do RJ mas a maioria vindo de outros estados para fazer a conexão. Já fiquei me sentindo meio insegura, nunca fui muito boa em relacionamento com adolescentes... Enfim, o negócio era tentar ser o mais simpática e aberta que pudesse pois iria conviver com aquele bando por 22 dias! Como havia muitos grupos da mesma agência partindo para os EUA em roteiros diferentes, haviam nos dado fitas coloridas, uma cor para cada grupo, para que as malas fosse para o destino certo na hora do "check in". O bom era que tudo isso ficava a cargo dos guias, não precisava me preocupar com esses detalhes burocráticos, a não ser mostrar meu passaporte à Polícia Federal e depois o visto na Imigração, ao chegar aos EUA. Os guias até guardavam os passaportes da gente e, no caso dos adolescentes, administrava o dinheiro que levavam para compras. Muito estranho entrar por aquele "tubo" que vai dar à porta do avião e a gente pensa "vou entrar nessa lata e ela vai subir comigo dentro?". Mas já não tem jeito de voltar, o negócio é relaxar e aproveitar.... se puder. Durante a decolagem, sempre entro em pânico, agarro os braços da cadeira com todas as minhas forças, rezo o Credo, o Pai Nosso, o Ato de Contrição e peço perdão pelos meus pecados. Depois, aquela sensação de "perda de peso", o chão se afastando, tudo muito estranho mas as luzes da cidade lá embaixo são um espetáculo e tanto. Tenho mania de ficar sempre checando o rosto dos comissários de bordo para ver se parecem preocupados com algo ou se estão calmos e todo barulho diferente que o avião faz me causa sobressaltos. E é sempre assim, acho que nunca vou me acostumar! Mas, nesse caso, dos males o menor, pelo menos não sofro de claustrofobia! Assim como nas duas faculdades e nos cursos que fazia, resolvi que o melhor era me enturmar logo para conseguir uma turminha boa para dividir o quarto comigo. A menina ao meu lado era do RJ também, Barra da Tijuca, passaporte diplomático (ou seja, filhinha-de-papai-rico na certa). Foi simpática comigo e notei que já estava enturmada com a maior parte da garotada. Embora não tivemos nos falado muito durante o longo vôo, ela gostou de mim e disse que ia pedir aos guias para ficarmos juntas. Pelo menos já tinha uma conhecida no grupo e que não me era hostil, embora parecesse um pouco esnobe... A aterrissagem foi outra tortura pois o avião ficou dando voltas e mais voltas entre terra e mar e as meninas só comentavam, alarmadas "está gastando combustível para um pouso de emergência, vamos cair!!". Depois, o meu amigo especialista em aviões me explicou que fazem isso só esperando vaga para pousar, pois o aeroporto Kennedy é muito movimentado. Mas quase entrei em pânico, não sei se as meninas realmente pensavam isso ou se estavam só querendo me assustar. Quando finalmente pousamos, senti a cabeça rodar e uma tontura semelhante a que se tem quando se sái de um barco, aquele "balanço" incessante e que me acompanharia para o resto da viagem.
Na hora de pegar as malas nas esteiras rolantes, a maior confusão! No final, as malas de 3 pessoas não apareceram, duas eram de adultos e a outra era da menina que viajou ao meu lado. Começou a chorar sem parar, parecendo desesperada. A guia tentando acalmá-la, dizendo que iriam descobrir o paradeiro logo e tentar resolver o problema, mas nada a consolava. Realmente, deve ser terrível chegar num lugar sem ter nenhuma roupa limpa para trocar, nem mesmo roupas de baixo! Depois disso, embora não tenha acontecido comigo, passei a só viajar levando alguns essenciais e peças de roupas extras na bagagem de mão, por via das dúvidas. Depois, soube-se que, na agência, tinham dado a ela a fita de identifação com a cor errada e a mala tinha ido parar em Miami, por conta das várias excursões da mesma agência embarcando quase na mesma hora. Depois de muita espera, imigração, etc, pegamos o ônibus para Manhattan. Eu estava excitadíssima com tudo e não queria perder um detalhe, mas mesma garota, Sonia, sentada a meu lado, estava sendo uma grande estraga-prazeres, o tempo todo chorando, resmungando, emburrada, sem querer conversar e nem ver nada. Só queria mesmo a sua mala. Entendia bem o problema dela, realmente devia ser horrível, mas não podia me dar ao luxo de ficar me preocupando com problema dos outros na "viagem da minha vida" e onde cada minuto perdido era muito dinheiro posto fora - que meus pais não podiam se dar ao luxo de perder assim. A viagem foi um bocado longa, pois o ônibus estava fazendo hora para não chegarmos muito cedo no hotel, mas valeu a pena pois passamos pelo Queens e foi uma beleza ver aquelas casinhas, todas parecendo iguais, tudo arrumadinho, realmente parecia outro mundo! Estava contando em passar pela ponte de Brooklin e chegar em Manhattan em grande estilo mas, os ônibus e caminhões, ao que parece, passam pelos túneis subterrâneos por baixo da água e, de repente, sem que eu esperasse, lá estava, ao longe, os arranha-céus, destacando-se, imponentes e, de certa forma, surreais e inacreditáveis, as duas torres gêmeas, monumentais. Cheguei a dar um gritinho de excitação, era difícil acreditar que aquilo era verdade, que eu estava mesmo ali, em frente àquele cenário sempre visto em filmes. Creio que fiquei boquiaberta até chegarmos no hotel Hilton, bem no centro da cidade, quase em frente ao Radio City Music Hall. Sonia, sempre "grudada em mim", só emburrada e choramingando, mas tentava não prestar atenção. No lobby do hotel, uma desagradável surpresa: o "check in" era as 11 da manhã e ainda eram 9, duas horas de espera, exaustas e famintas! Pelo menos concordaram em guardar as nossas malas. Depois de um bom tempo andando pra lá e para cá, algumas meninas sentadas pelo chão com cara de enfado, comi um chocolate que tinha levado, pois o "café da manhã" no avião (aquelas comidas que sempre parecem "amostras-grátis", embora sejam muito bem pagas a julgar pelo preço das passagens) tinha sido servido antes das 5 da manhã! Achei aquilo mal organizado penso que deviam ter nos previnido sobre isso antes. Eu nunca havia viajado, nunca me hospedara em hotel, nada sabia sobre horas de "check-in, check-out", etc. Como alguns reclamavam da fome, a guia resolveu nos levar para ver se havia alguma lanchonete por perto. E lá fomos nós, andando pela Quinta Avenida! A princípio, fiquei um pouco chocada com a largura, pois sempre imaginei algo no estilo da Avenida Presidente Vargas no RJ e, em comparação, parecia só uma ruazinha de mão dupla bastante estreita. Só depois é que soube que as ruas eram geralmente assim nas grandes cidades pois é tudo muito antigo, não é tudo construção nova como na Florida. Os prédios também, tirando os arranha-céus na "ponta" da ilha, era tudo baixinho e de tijolos avermelhados. Mas, mesmo assim, era fascinante! Acabei comendo um "bagel", que me pareceu muito "maçudo" mas pelo menos matou a fome. E fomos andar um pouco e explorar algumas das lojas nos arredores. Eu sempre evitava andar sozinha, tinha medo de me perder, mesmo as ruas sendo numeradas! Visitamos uma loja da Hallmark e fiquei maravilhada com os bichinhos de pelúcia, enfeites de Natal minúsculos que se mexiam e acendiam luzes e tantas outras coisas lindas. Mas, Sônia estava conosco e só ficava dizendo "quero voltar para o hotel, esse lugar é uma porcaria, não quero saber de nada, só da minha mala". A essas alturas, já estava xingando por dentro. Era muita falta de sorte, estar num lugar daqueles e ter que aturar alguém só puxando a gente de volta para o hotel. De qualquer jeito, já era hora do check in. Sonia pediu para ficar no mesmo quarto comigo e dividimos com duas primas adolescentes, mineiras, que pareciam amáveis (não as tinha visto antes). O hotel era um bocado luxuoso - no Hall e corredores, mas os quartos denunciavam a o luxo decadente: banheiros velhos, móveis precisando de reparos. Mas o ar-refrigerado funcionava muito bem... até demais! Totalmente gelado de fazer a gente tremer! Enfim, cada um foi cuidar de suas coisas e as outras meninas emprestaram uma camiseta para Sônia trocar. A guia só dizia para ela "coitadinha, depois a gente sái para comprar umas calcinhas..." pois a perspectiva é que a mala só chegasse no próximo dia - na melhor das hipóteses! Ela continuava a choradeira, dizendo que o pai, militar, já estava fazendo e acontecendo na agência e ligava para casa chorando a toda hora.
A parte da tarde era, quase sempre "livre", mas a guia resolveu nos acompanhar num bom passeio pelas redondezas. Fiquei maravilhada ao assistir uns minutos de uma Missa na Catedral de São Patrício, com um tenor cantando no melhor estilo de musicais da Broadway. Mas passei mais tempo, como já é típico, na lojinha de souvenirs, onde havia santos espetaculares mas tudo bastante caro, acabei comprando uma imagem do santo padroeiro que custou um bocado caro e era uma das mais "baratinhas", de chumbo, com pedestal em mármore verde vindo da Irlanda, da qual o santo é padroeiro. Depois fomos ver o deslumbrante Rockfeller Center e comemos um "ajantarado" em mesinhas naquela parte de fora. Fazia bastante calor! Pedi uma macarronada "penne" e, para minha surpresa e decepção, era carregada na pimenta (só depois é que vim a perceber que a maioria das comidas americanas leva pimenta preta, até sanduíches e Hambúrgueres!). No mais, visita à loja FAO Schwartz, o paraíso dos brinquedos! O pior é a vontade que se tem de comprar tudo! À noite, fomos assistir ao musical Cats, pois a Broadway era bem na esquina! Fiquei deslumbrada com o espetáculo, nunca vira nada como aquilo, impressionante. Pena estar me sentindo tão cansada, sonolenta e com a vista meio turva, além da leve tonteira. A essas alturas Sônia já parecia estar se sentindo melhor pois ficou muito excitada com a roupa colada no corpo de alguns dos dançarinos do musical e comentava isso com algumas garotas com quem se enturmou durante a tarde, também cariocas da Barra, três irmãs, duas adolescentes com cara de "devassas" e uma menininha de 6 anos (também com a mesma cara) viajando sozinhas. Sonia e as três, começaram a usar palavrões e termos chulos e fiquei chocada de ver que a criança tinha o mesmo vocabulário sujo e imitava os trejeitos "lascivos" das irmãs. Meninas mimadas, provavelmente podres de ricas, mas sem nenhuma educação. Enfim, foram para o quarto delas e Sônia e eu fomos para a nossa cama, nem sinal das mineiras, que só chegaram já bem mais tarde da noite (soube depois que a meninada toda ficava no Lobby conversando, paquerando e tentando entrar na pequena discoteca do hotel, onde não era permitida a entrada de menores de idade e os guardas tinham que chamar o guia a toda hora para tirá-los de lá). Sônia começou a fazer beiçinho e fez que ia chorar de novo. Como estava exausta e, francamente, sem nenhuma paciência para ficar tentando consolar, deitei-me e fingi dormir. Ela, deitada ao meu lado, chorava o tempo todo e eu lá firme, fingindo estar no sétimo sono, com a esperança de que ela se cançasse com o tempo e adormecesse. Mas começou a soluçar cada vez mais alto e me sacudiu, dando um verdadeiro ataque histério, disse que eu fosse chamar a guia pois ela não conseguia respirar e colocava a mão no peito. Sem saber o que fazer e sem esperanças de consolá-la, resolvi me vestir e ir chamar a guia. No banheiro, tremia dos pés a cabeça trocando a roupa, tanto de frio por conta do ar-refrigerado quanto pelo nervoso junto com a exaustão. Era só o que me faltava!!! Fui até o quarto que, segundo ela, era o da guia (pois, na confusão, esqueci de anotar os números dos apartamentos dos guias, coisa que a gente deve sempre fazer!) mas ninguém atendeu (soube no dia seguinte que ela estava cuidando da menina de 6 anos que estava tendo uma febre e dores de garganta). Voltei para o quarto e tentei eu mesma consolar a menina, dizendo que no dia seguinte a mala chegaria, que o melhor era tentar relaxar e dormir. Por fim, acabou dormindo mesmo... As duas outras meninas chegaram e também "se jogaram na cama", mas eu não consegui pregar o olho. Por conta do frio, meu nariz escorria como uma bica e dois lenços já estavam encharcados. Além disso, Sônia era um bocado gorda, e se espalhava na cama, empurrando-me cada vez mais para fora da cama. Acabei só com um espaço de dois palmos para tentar dormir e além disso, roncava muito alto. Impossível dormir naquele pequeno espaço, pensei até em dormir no chão, mas aí teria que desistir do cobertor e estava muito frio (havia um botão no telefone que controlava a TV e também a temperatura do Ar condicionado, mas só tinha "frio" e "mais frio", as meninas, não sei porquê razão, gostavam do "mais frio" e eu tinha que ficar trocando depois que elas dormiam pois durante o dia era uma guerra, eu trocando e elas destrocando o tempo todo. Por fim, levantei-me e tentei empurrar Sônia para o outro lado da cama e ganhar um mínimo de espaço. Com os braços não consegui nem movê-la e tentei até empurrar com os pés, mas, como um "gigante adormecido", ela não moveu um músculo. Eu, sempre "boba", não quis acordá-la e passei uma noite agoniante, toda espremida num cantinho da cama, espirrando e fungando e me sentindo um lixo. Não foi para isso que meu pai pagou tão caro! Não foi com isso que sonhei!
O guia sempre nos acordava por volta das 5 e meia da manhã, embora o ônibus para as "city tours" só acabasse partindo às 8 da manhã. Como aquele pessoal demorava a se arrumar, tomar café da manhã e tudo o mais! Eu era sempre uma das primeiras a estar pronta e a entrar no ônibus, pois queria mesmo é passear, ver tudo, aproveitar a viagem ao máximo. A "tour" foi ótima, embora passasse pelos lugares muito rapidamente e a gente quase nem conseguisse ver (ainda mais se estivesse do lado "errado" no ônibus), só paramos mesmo umas duas vezes e assim mesmo muito rapidamente, para fotos. Por fim, a subida ao World Trade Center (depois de 2 horas na fila esperando para entrar no gigantesco elevador) e a vista de toda Manhattan e também de New Jersey e outras cidades, inesquecível. Cheguei bem perto das paredes de vidro mas logo me afastei pois senti nervoso: o prédio parecia balançar - e balançava mesmo, pois é assim que tem que ser, para aguentar os ventos. Mas era impressionante, quase nem se via as pessoas lá embaixo, menores do que formigas. Do lado de fora, era preciso virar a cabeça toda para cima para ver o topo e difícil de tirar fotos naquele ângulo, parecia que as torres se perdiam no céu. Pena que os "guias negligentes" nem avisaram que havia uma escada que dava para o terraço, a vista deveria ser ainda mais impressionante, apesar dos ventos fortes! Sempre achavam que a gente tinha que descobrir tudo por conta própria, mas era tanta confusão e tanta coisa ao mesmo tempo, difícil até de raciocinar, além da emoção intensa que sentia. Outra tarde livre, resolvi descansar um pouco no hotel pois me sentia um trapo, antes de explorar a Quinta Avenida e ir até o Lincoln Center, comprar algumas encomendas de CDs e vídeos, livros, partituras, procurar algumas coisas na minha "lista de compras" e também alguns presentes para meu pai, pois o Lincoln Center abriga o Metropolitan Opera House, e uma lojinha onde vendem tudo quanto é vídeo de óperas. Acabei descobrindo que, passando tão pouco tempo numa cidade, é melhor não aceitar encomendas e nem fazer listas enormes de coisas a procurar pois se perde um tempo enorme com isso e se acaba não passeando! De qualquer jeito, fui na famosa loja de CDs Tower Records, 3 andares com tudo que se pode imaginar em termos de música! Acabei comprando um bocado de CDs e a bolsa ficou um bocado pesada. No final, resolvi pelo menos entrar no Central Park para dar uma olhada, mas estava meio deserto, só com alguns "tipos estranhos" e voltar para o hotel para descansar um pouco pois as costas doíam terrivelmente, meus pés estavam cheios de bolhas que depois viraram buracos fundos por conta do novo tênis, isso tudo combinado com a falta de sono, era para nocautear qualquer um, praticamente me arrastava pelas ruas. Estava ansiosa para chegar no hotel pois a essas alturas todas as meninas deviam ter saído e eu poderia dormir em paz por algumas horinhas. Chegando no quarto, uma surpresa desagradável: estava tudo uma bagunça só e o banheiro encharcado (pois o chuveiro era na banheira e as meninas resolveram botar a cortina para fora achando que podia "ter micróbios", com isso, a água escorria toda para o chão, é claro). Passei mais de meia hora tirando tralhas de cima da minha cama para enfim, me deitar um pouquinho e, quem sabe, cochilar um pouco. Mal fechei os olhos, Sônia e as três irmãs chegaram no quarto, a primeira já toda alegre pois a mala havia chegado de Miami (as outras duas pessoas tiveram a mala extraviada e nunca recuperaram). Fingi que estava dormindo para ver se elas "se mancavam" e ficavam quietas ou então saíssem de novo. Qual o quê! Faziam a maior algazarra e a criança até pulava em cima da outra cama, parecia que estavam fazendo de propósito só para me infernizar. Acabei desistindo de tirar meu cochilo e tentei ser gentil, mas o nível da conversa era tão baixo e as meninas perceberam que eu não era "do nível delas". A partir daí, começaram a debochar de mim e a fazer de tudo para me atormentar o tempo todo. Sônia deitava-se na cama qual um "pachá" e dizia para mim "Maria, pega isso pra mim, pega aquilo, agora quero aquela lata de refrigerante" (chamavam-me Maria porque, nas etiquetas e nos documentos, só constava o primeiro nome, o nome do meio só a primeira letra e o sobrenome pois é assim nos EUA, pouco se usa o nome do meio). Acabei não aguentando e estourando com ela, gritando "pera lá!!! Não sou sua empregada não!!!". As outras fizeram "UUUUUUUU" em coro, como quem diz, "olha a bobona se fazendo de valente", mas concordaram que Sônia era muito folgada mesmo e que queria explorar todo mundo. Os deboches continuaram, até que decidi arrumar algumas coisas na mala e contar meu dinheiro, guardado na "doleira", uma bolsa de pano com elástico que a gente usa na cintura, por baixo da roupa, por precaução. Depois fui tomar um banho. Quando estava me saindo do chuveiro, escutei as meninas gritando "Maria!!!!!" "Maria!!!!". Pensei que, no mínimo, o quarto estava pegando fogo e saí, enrolada na toalha. Estavam ao telefone tentando ligar para casa "a cobrar" mas discaram qualquer número no hotel e caiu no restaurante ou coisa parecida. Tive vontade de mandá-las desaparecerem, não podia nem tomar um banho em paz! E meus pés ardiam terrivelmente por conta das bolhas. Mas, toda hora era assim, alguma queria ligar para casa e aí acharam melhor que eu falasse com a telefonista, mais essa para me "alugarem"!
Como não conseguia ter paz e cansada da conversa e agitação do grupo, cujo assunto era só sexo, homens, etc, resolvi descer e ficar um tempo no lobby do hotel e passeando pelo subsolo, onde havia muitas lojinhas de souvenir, delicatessem e coisas no gênero. No restaurante, podia-se ver e ouvir um pianista, ótima música. Mas a paz não durou muito pois a meninada toda resolveu fazer o mesmo, talvez só para me espezinhar, mas falavam alto e faziam a maior algazarra e eu é que ficava com vergonha pois os outros hóspedes deveriam estar achando que eram todas umas selvagens. Depois de um par de horas, resolvi que, já que não havia ninguém no quarto, o melhor era subir e tentar dormir um pouco, pois iria, junto com o grupo de "maiores de 18 anos", conhecer o cassino em Atlantic City e o ônibus só iria sair bem mais tarde. Deitei na cama, respirando aliviada por estar "enfim só" e poder ter um pouco de paz e talvez dormir um pouco, pois contando com a noite da véspera do embarque (na qual não dormi de nervoso e excitação), esta já era seria a terceira noite sem nem dar um chochilo! Mas, creio que de tão cansada, não conseguia relaxar e o cérebro não "desligava", trabalhava sem parar relembrando os passeios e tudo o mais. Depois de uns 10 minutos, toca o telefone. Era uma das 3 irmãs perguntando se Sônia estava no quarto pois não conseguiam encontrá-la. Eu, sempre tentando ser educada... Tento relaxar mais uma vez e, mais uns 10 minutos, toca o telefone novamente, agora era Sônia procurando uma das irmãs. 10 minutos mais tarde, uma das irmãs procurava a outra. Pensei cá comigo que só podia ser de propósito, estavam fazendo isso para me infernizar, provavelmente estavam todas juntas se divertindo às minhas custas. Da quarta vez, não atendi ao telefone, mas este continuou tocando periodicamente. Não queria tentar desligar pois pensava que um dos guias poderia ligar para dizer algo importante, e assim, tremendo e chorando de nervoso e raiva, fiquei só deitada, assistindo um pouco de televisão e já pensando que não iria aguentar essa viagem até o fim e que morreria depois de ter ficado mais de 20 dias sem nem cochilar! Enfim, chegou a hora de ir para Atlantic City e o cassino Taj Mahal, apesar de tudo, adorei o lugar, realmente lindíssimo e luxuoso ao extremo, mas com o inconveniente de que não se podia sentar em lugar nenhum, a não se que se estivesse jogando. Meus pés já não aguentavam mais, mas era só sentar por um segundo em um dos banquinhos em frente a um caça-níqueis e já vinha uma das funcionárias do hotel, que não despregavam o olho da gente, perguntar se eu "precisava de ajuda". O jeito era fingir que se estava jogando. Algumas garotas e rapazes tentaram sentar-se numa amurada e foram convidadas a se levantar... e ainda jogaram água no mármore da amurada para evitar "novas tentativas". A viagem de ida e volta foi bem mais longa do que pensava, pois Atlantic City fica a 4 horas de Manhattan, mas foi bom porque assim consegui fazer amizade com o pessoal mais velho da excursão e fiquei muito amiga de uma senhora mineira, muito simpática e amável. A partir de então, estaríamos quase sempre juntas nos passeios, mas havia um pequeno "inconveniente", ela falava demais, principalmente nas viagens de ônibus e sempre preferi viajar calada, admirando a paisagem. Enfim, era melhor do que aturar aquelas meninas "pestes" e, conversando com ela, a guia e um casal, descobri que tinham ido durante a tarde passear de barco até a Estátua da Liberdade, que eu só vira de muito longe no Battery Park, perdi essa! Mas, também, todas essas atividades no "tempo livre" eram "pagas por fora e tudo ficava muito caro. Já tinha pago 80 dolares pelo Cats e mais 100 pelo passeio à Atlantic City, além disso, sem ônibus a disposição, era um bocado caro ficar pegando taxis pra cá e pra lá, mesmo dividindo com as outras. Na volta, já de madrugada, tentei dormir no ônibus, mas esse parava muitas vezes em postos de pedágio e os solavancos não me deixavam relaxar. Enfim, estava brigando com a insônia, e estava perdendo a batalha feio - e ficando cada vez mais preocupada. Chegamos no hotel às 3:30 e tínhamos que acordar às 5:30. No meio desse stress todo, mais um inconveniente: perdia a chave do hotel à toda hora. Era um cartão de plástico perfurado que se encaixava na maçaneta da porta. Não sei o que acontecia que vivia perdendo e tinha que ir na recepção, dizer nome completo, grupo, isso e aquilo, até conseguir outra chave, que padecimento!
No dia seguinte ainda dei um passeio pelos arredores para me despedir da cidade (pois o avião só partiria para Washington na parte da tarde), com pena de não ter conseguido ver tanta coisa e não visitar sequer um museu! Mas não pude ir longe pois, embora cheios de bandaids e usando sapato de pano macio, meus pés ardiam terrivelmente por conta das verdadeiras "crateras" causadas pelo "tênis bacana". Ao voltar para o hotel, encontrei com as meninas mineiras (minhas outras companheiras de quarto) no lobby e estas me puxaram para uma conversa. Perguntaram o que eu achava de Sônia. A princípio, hesitei um pouco, pois não sabia bem de que lado elas estavam (não as tinha visto muito durante estes primeiros dias), mas disse que ela não me deixava dormir porque roncava muito. Aí as meninas disseram "pois é! mas isso é o de menos! A gente estava hesitando em falar com você pois não sabíamos se você era amiga dela e concordava com aquele tipo de comportamento...". Resolvi então me abrir e comentar sobre a bagunça no quarto, das meninas que viviam com Sônia e as conversas de baixo nível que tinham, além de serem terrivelmente assanhadas. "Pois é!", disseram as meninas, "era por isso mesmo que a gente pouco ficava no quarto e sempre procurava ficar bem longe dela e das outras. Imagine você que elas estavam querendo convidar homens para o nosso quarto enquanto vocês foram a Atlantic City, mas nós não deixamos e elas ficaram furiosas. Os outros meninos da excursão também andam horrorizados e disseram que elas estavam se insinuando um bocado para eles! A gente quer falar com a guia e ver se ela pode transferí-la para outro quarto, mas antes queríamos saber se você concordava e nos daria apoio na hora de falar com ela". Se eu apoiava!!! As meninas falaram com a guia e esta veio falar comigo e realmente concordei que Sônia e sua turminha eram impossíveis e insuportáveis. Esta disse que tinha uma boa solução: que ia convencer Sônia, com muito jeito, a dividir o quarto com as 3 irmãs pois havia lugar para 4 e elas estavam sozinhas. Realmente era uma boa solução para todos, creio eu. Sônia concordou prontamente pois já tinha visto que não "podia me fazer de empregada" o tempo todo e que as mineiras a detestavam. Além disso, ela estava "unha e carne" com as outras. Respirei aliviada e embarquei para Washington com "alma nova", pensando que finalmente conseguiria descansar um pouquinho e ter uma cama de casal só para mim, pois, embora eu tivesse me oferecido para alternar, as primas disseram que já estavam acostumadas a dormir juntas e que não era problema. Melhor pra mim!
Realmente, quando deitei na cama do hotel em Washington, praticamente "apaguei" e só acordei mesmo com o telefone sempre a nos chamar tão cedo. A partir daí a viagem seria mais "normal", mas não sem seus percalços. O guia conhecia a capital dos EUA, mas a guia nunca tinha ido! Como ficávamos mais com ela, no "tempo livre" acabávamos não indo muito longe porque ela não conhecia nada. Depois de Manhattan, achei Washington meio sem graça e o calor era intenso, mas um tipo de calor "seco", a gente não sua muito mas em compensação é difícil de respirar! Ao contar meu dinheiro, logo no primeiro dia, notei que a quantia estava reduzida a menos da metade e que não me restava muito para o resto da viagem (que só estava começando!!!), eu que pensava comprar tantos brinquedos na Disney! Mas onde tinha ido parar tanto dinheiro em dois dias em NY? Como podia ter gasto mais de mil dólares? Na verdade, comprei muitos CDs, uns 15 e também alguns vídeos e livros, teve também as despesas extras com o musical e o cassino, mas era muita coisa! Mas, o cansaço não me deixava calcular direito e, naqueles primeiros dias de confusão, acabei não controlando e anotando todos os gastos (e guardando as notinhas). Comecei a pensar naquele dia que tinha guardado a "doleira" na bolsa e tinha ido tomar banho, deixando-a aberta. Minhas tias haviam me avisado muito a respeito disso, de sempre trancar bolsas ou levar o dinheiro comigo até para o banheiro e não confiar em ninguém, mas aquelas meninas eram "podres de ricas", pra quê iriam querer roubar dinheiro dos outros? Fiquei sempre na dúvida, não sei se foi descontrole total ou roubo mesmo, mas era terrível descobrir que, além de gastos com comida, não poderia fazer e nem comprar grande coisa, ainda bem que a entrada nos parques da Disney fazia parte do "pacote"! Mas não vou me alongar muito nos detalhes dos passeios, pois não vem bem ao caso nessa história. Em Miami, não havia vagas no hotel Hilton e, por conta disso, ficamos no Mariott, um hotel e tanto, muito luxuoso e tudo novinho, uma beleza! O café da manhã (que era oferecido nos hotéis da Florida) era uma delícia, um bufê bastante variado (o que nos poupava bons "tostões" também! Nos "tempos livres", os guias ofereciam vans para nos levar de graça mas em lojas de brasileiros no centro da cidade... fazer o quê, melhor do que ficar no hotel! Engraçado que a maioria das meninas não pensava assim e achava um absurdo, a grande maioria (incluindo Sônia e sua turma) preferia ficar o dia inteiro na piscina do hotel. Que desperdício! Com tanta praia e piscina no RJ, pagar tanto e ir tão longe para passar o tempo todo em piscinas e nem fazer parte nas City Tours! As primas mineiras eram amáveis comigo, mas também me "alugavam" um bocado para telefonemas a cobrar e toda sorte de coisas, além disso, chegavam muito tarde no quarto, ficavam de bate-papo com os outros e vendo as coisas que as colegas tinham comprado, etc, até às 2 da manhã mais ou menos. Eu me recolhia cedo e, por mais que elas falassem baixo e tentassem não fazer muito barulho, sempre ainda conversavam um bocado antes de caírem no sono e me acordavam. Assim, só dormia mesmo umas 4 horas por noite e o cansaço, embora tenha melhorado, continuava, ainda mais que não estava acostumado a esse ritmo intenso e a andar tanto, tendo passado a maior parte de minha vida deitada lendo e ouvindo música. E não eram só as minhas companheiras de quarto que me "alugavam". Durante as refeições, os guias simplesmente "desapareciam" e, como todos sabiam que eu tinha me formado professora de Inglês, apelavam para mim o tempo inteiro para ler menus e para fazer os pedidos... foi assim a viagem inteirinha e, com isso, era sempre a última a comer e tinha que correr muito pois já era hora do ônibus prosseguir.
Mas Sônia e as outras não me esqueceram... espalhavam para toda a garotada que eu "era uma figura" e, sempre que eu passava perto de um grupo, começavam a cantar uma música que estava muito em moda na época para fazer troça com meu nome e me deixar envergonhada: "Eu tinha uma galinha que se chamava Marilu. Um dia, fiquei com fome, e papei a Marilu. Marilu, Marilu, tinha cara de babaca. Marilu, Marilu, botava ovo pela cloaca". Tentei "levar na esportiva" e fingir que não ligava, achando que iriam desistir pois o objetivo era me aborrecer. Mas qual o quê, o "corinho" continuou pelo resto da viagem, deixando-me mortificada e me sentindo muito humilhada de ser tratada assim por um bando de adolescentes. Os adolescentes sempre me detestavam, e foi assim mesmo no tempo que eu também era um deles! Não sei o que há de errado com minha cara ou com o meu comportamento que simplesmente repugna a grande maioria dos adolescentes... creio que nunca vou descobrir! Talvez aquele senso crítico e capacidade de observação tão aguçados nessa faixa etária "detectasse" rapidamente que eu "era diferente", desajeitada, envergonhada, etc. E, ainda por cima, eram muito ingratos pois eu fazia tudo para agradar, ajudava o quanto podia, era amável com eles e até subserviente e condescendente ao extremo. Ou talvez tenha sido muita falta de sorte com o grupo e também com a Agência mesmo, pois os guias, na maioria das vezes, "fazia vista grossa" e a garotada fazia a maior algazarra por onde passavam, incomodando todo mundo. Muitos hóspedes viviam reclamando pois algumas garotas compraram aparelhos de som portáteis logo no início da viagem e ficavam ouvindo Cds no volume máximo até altas horas da noite, não deixando ninguém dormir. Todo tipo de baixaria aconteceu nessa viagem. A maioria das meninas estava caindo de amores pelo guia, que achavam parecido com o Tom Cruise (realmente lembrava um pouquinho) e não cansavam de dar em cima dele descaradamente, embora ele sempre "mantivesse distância" e não escondesse de ninguém que era muito bem casado. Uma moça divorciada, que viajava com as duas filhas, ficou completamente apaixonada por ele e não escondia isso de ninguém. A guia, a qual ela recorria para desabafar, só ria muito, creio que ela tomava aquela atitude de "relaxar e aproveitar", era sempre a que mais dava rizada na viagem inteira.