FOBIA SOCIAL
REFLEXÕES SOBRE O FILME "INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL"

Quando assisti a esse esplêndido filme do Stephen Spielberg pela primeira vez, estava no último mês da gravidez de meu único filho. O filme mexeu muito comigo, ainda mais no estado em que me encontrava, gerando uma nova vida... o filme fala sobre vida e morte, os "dois lados da moeda". Na época, lembro que muitas pessoas comentaram o quanto se sentiram emocionadas assistindo ao filme. Realmente, ele toca fundo na alma, como se diz... explora muitos aspectos básicos da psiquê humana, desnuda muitos dos nossos medos mais primitivos e relembra as eternas perguntas que sempre nos fazemos: Quem somos nós? O que estamos fazendo aqui? Há mesmo vida depois da morte? O que é o amor? Enfim, essas perguntas "transcendentais" que acompanham o ser humano desde a criação do mundo. A história mexe com tantos arquétipos... Na minha interpretação pessoal, depois de assistir outras vezes, descobri inúmeras camadas de significados, muitos aspectos que poderiam ser abordados e dar margens a longas "elucubrações". Vou me deter em alguns deles, os mais significativos, pois creio que existam muitos outros, pois cada vez que vemos uma obra de arte (e este filme o é!), descobrimos uma nova perspectiva, um novo matiz, um significado que nos escapou das outras vezes. É maravilhoso que seja assim e que exista essa riqueza nas obras de arte. E, na maioria das vezes, nem mesmo o artista que a produziu consegue abrir um leque tão vasto de significados, pois, como sempre digo, nosso coração é como uma harpa, cada obra de arte toca uma determinada corda, de um determinado jeito, e isso nunca se repete, e cada indivíduo vibra as cordas de forma diferente.... será mesmo? Esta é uma das indagações de "Inteligência Artificial"... Creio que é esse "desnudamento da nossa alma" que mexe tanto com tanta gente que assiste à película. Quando assisti pela primeira vez, fiz muitos paralelos entre o filme e minha relação com meus pais. Agora que tenho um filho, faço também comparaçõs com o meu relacionamento com ele.
A primeira cena do filme nos mostra um ambiente de desolação, bem pós-apocalíptico: Em consequência do superaquecimento da terra, as geleiras do pólo norte derreteram, dizimando praticamente todas as cidades costeiras no mundo inteiro. O que vimos logo de início são as águas.... as águas que são o princípio de tudo pois, segundo a Bíblia, antes da criação do mundo, o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Que águas são essas? Não sabemos, mas a água sempre foi o símbolo da vida, pois sem ela nada vive, pelo menos não da maneira que conhecemos. E passamos os nove meses iniciais de nossas vidas imersos na água. A água limpa, purifica, mas também pode nos arrastar para o desconhecido e para a morte, num verdadeiro paradoxo morte-vida. Mas, vontado ao enredo, parte da população da terra foi dizimada por fome, guerras, enfim, vive-se num mundo triste e desolado. Mas a tecnologia é de ponta e o mundo sobreviveu. Afastadas das "cidades submersas", as pessoas seguem suas vidas... Devido à carestia, o número de filhos que cada casal pode ter é limitado, o que gera uma espécie de "carência afetiva global". Será que, mesmo não vivendo nesse mundo pós-apocalíptico, também já não estamos numa era de carência afetiva? Constatamos como o número de pessoas com problemas emocionais, stress e depressão, etc, aumenta a cada dia, de forma alarmante. No passado não era assim, havia os que se consumiam de "melancolia" (quando ainda não era diagnosticada como depressão), mas não creio que fosse na proporção de hoje em dia.
Como resolver o problema da falta de amor e carinho que só famílias grandes proporcionam? Neste mundo futurístico, onde existem robôs com aparência humana e até com reações semelhantes á dor, etc. Um cientista resolve criar um robô "perfeito". E o que é a perfeição nesse caso? Um menino (ou menina) com capacidade para amar, e amar incondicionalmente, enternamente... e... alguém que nos fosse "submisso", alguém que pudéssemos, de alguma forma, controlar e manter sempre a nosso lado. Quem não quer ser amado dessa maneira? Quem não quer um robô assim? Ah!!! Como se dizia antigamente, "isso dá pano pra manga"! E como dá! Os fóbicos sociais são, talvez, os seres mais solitários dessa terra pois, como dizia Sartre, o nosso "inferno são os outros". O outro nos aterroriza, então só nos resta estarmos sós, evitando contatos o máximo possível. Mas por que o outro nos aterroriza? Porque pode nos magoar, rir de nós, perceber que não somos perfeitos, ficar decepcionado conosco. Mas, na mesma proporção que fugimos de nossos semelhantes, temos uma necessidade imensa de sermos aceitos e amados... do jeito que somos, ou seja, incondicionalmente. O que nós fóbicos sociais não daríamos para ter um robô assim, programado para nos amar, que nunca fosse nos criticar, dando-nos sempre só carinho, amor e compreensão e, em troca, só esperasse também amor? Qual fóbico social não daria tudo para ser amado eternamente, livre finalmente do medo da rejeição, do medo de que os outros se cansem de nós? O mais próximo que cheguei de uma relação assim foi com meus dois cachorros (e vou discorrer sobre o tema em outra página) pois eles nos amam do jeitinho que somos, não importa se trememos, se gaguejamos, se somos feios ou bonitos, gordos ou magros, sem distinção de raça, crença, idéias, nada de nada. Eles nos amam como somos e pronto! Muitos comentam que amor incondicional só o de mãe. Mas, na prática, sabemos que não é bem assim... há mães que choram e ficam com raiva ao descobrirem que estão grávidas de um menino, ao invés da tão sonhada menina. Há as que jogam seus filhos numa lata de lixo, há as que os matam de pancadas. Mesmo a mãe mais perfeita, pelo que já pude observar, se tem mais de um filho, sempre mostra preferência por um deles, mesmo que seja de forma muito discreta ou até mesmo inconsciente. Então, onde está o amor incondicional? É tão difícil encontrar seres humanos com essa capacidade de amar sem limites e condições.... Todos não amamos muito, mas... sempre existe um "mas": "Eu te amo muito mas.... você bem que poderia mudar nesse ou naquele aspecto"... Muitos amam "por causa de", mas pouquíssimos amam "apesar de"...
A maioria dos fóbicos sociais, por razões óbvias, não têm filhos, pois é complicado até arranjar um namorado, quanto mais casar ou ter filhos. Nisso posso dizer que sou uma das poucas privilegiadas em meio aos que sofrem desse distúrbio. Mas.... existe sempre o outro lado da moeda. Vejo muito em fóruns e listas de discussão fóbicos sociais (e outras pessoas com problemas afetivos e/ou nervosos) comentando que todos os seus problemas se resolveriam se encontrassem um companheiro ou companheira... outros dizendo que um filho curaria seus males. Também pensei assim por muitos e muitos anos, pois casei relativamente tarde, já com 36, e meu filho nasceu quando ia fazer quarenta e um. Ter marido não "curou" o problema da fobia. Muito pelo contrário, ainda mais sendo de um país diferente, tendo uma família complicada e que não aceitou nosso casamento. Ter que falar uma língua estrangeira 24 horas por dia, viver num lugar sem amigos, parentes ou sequer conhecidos, sem referências, cultura estranha e nem sempre compatível com nosso temperamento, isso tudo é muito complicado para qualquer um... e muito mais ainda para um fóbico social... (também vou falar mais sobre isso na parte dedicada à "Minha História"). Mas, então, ter um filho ou filha seria a solução de todos os males!!! Teria uma criança para me fazer companhia, que iria me amar, que iria depender de mim, que estaria "sob o meu controle". Será mesmo que é assim? Hoje em dia sei que não... muito pelo contrário... mas 10 entre 10 fóbicos sociais, principalmente as mulheres, pensam que ficarão curadas no dia que tiverem filhos, seja pela companhia proporcionada pela criança, seja pelas alterações hormonais da gravidez (pois é sabido que o organismo feminino muda muito na gestação e muitas das mudanças são permanentes... muitas pessoas adquirem alguns males na gravidez, outras tantas ficam livres de alguns problemas, entre eles alguns de origem nervosa. Minha mãe sempre diz que o tempo mais tranquilo de sua vida - ela sofre de ansiedade generalizada - entre outros problemas psíquicos - foi quando estava grávida de meu irmão e, depois, de mim). Uma coisa eu digo: Nenhuma pessoa têm o "poder" de nos curar! Não existem mágicas! Pelo contrário, pois se o nosso problema "são os outros", marido, esposa e filhos são "outros" em nossa vida, estarão lá também a nos julgar, e não vamos poder depender deles para tudo o tempo todo! Pode ser que, no futuro, a medicina encontre um medicamento, ou um tratamento qualquer que cure a fobia por completo. No mais, temos que NOS ACEITARMOS do jeito que somos e procurarmos viver da melhor forma possível com nossas limitações.
Mas, independente até mesmo de sabermos que não será a solução, ainda assim precisamos desesperadamente ser amados e vivemos na busca desse "ser perfeito" que vai ser "tudo para nós", a razão da nossa existência... Quando era adolescente, tinha umas idéias muito bizarras (obviamente e, graças a Deus, não passaram só de idéias!!!). Por anos e anos tive uma paixão totalmente platônica por um rapaz que trabalhava perto do nosso prédio. Não tinha coragem de me aproximar dele e, de qualquer forma, era um "playboy", lindíssimo e sempre rodeado de garotas também lindas, sofisticadas e modernas - tudo o que eu não era! Mas.... se no exterior eu me achava feia e desajeitada, sempre tive total convicção de que minha mente era brilhante e de que, lá no fundo, se uma pessoa realmente me conhecesse "do jeito que sou por dentro", iria invariavelmente se apaixonar por mim. E, sempre naquela de viver "pensando na vida", construía verdadeiros "filmes" na minha cabeça: "E se houvesse uma maneira de raptar o rapaz e trancá-lo num quarto, num lugar ermo, só nós dois, ele totalmente dependente de mim e me conhecendo aos poucos, totalmente sob o meu controle? Com certeza, pensava, iria acabar totalmente apaixonado, pois eu era uma pessoa amável - se alguém pudesse ver além das aparências - mesmo que fosse forçado a isso contra sua vontade". Essa idéia, ao mesmo tempo que me dava prazer, me aterrorizava!!! "Isso é coisa de psicopata", pensava. E realmente é, isso não podemos negar. Vivia assombrada com esses pensamentos e me sentindo muito culpada por eles, achando que era a única pessoa a ter tais idéias grotescas e que minha mente era mesmo muito doente e distorcida. Para minha total surpresa, anos depois, li um livro e depois um filme baseado no mesmo, chamado "O Colecionador". O enredo do filme é justamente esse, sem tirar nem por: Um cara se apaixona por uma moça que só vê de longe e decide raptá-la e levá-la para um lugar deserto, e passa seus dias tentando convencê-la a amá-lo.... Como não consegue, muito pelo contrário, só inspira horror e ódio, reage de forma violenta, guiado pela total frustração de seus desejos, e o resultado é a morte da amada, por fome, medo, exaustão, etc. O título se refere à uma comparação com os colecionadores de borboletas, que desejam capturar sua beleza mas, o preço é a morte do objeto de desejo. E de que vale uma beleza, ou uma pessoa amada, morta? Senti um certo alívio ao perceber que não era a única "doida" nesse mundo a ter tais idéias, mas, ao mesmo tempo, frustrada de saber que não sou "única no mundo", "singular" como imaginava (e vou falar mais sobre isso ainda nessa página). Depois, quase no mesmo tema, temos também o filme baseado no livro de Stephen King, chamado "Misery" e também outro denominado "Encaixotando Helena". Ao que parece, segundo afirma o livro do Eclesiastes, não existe mesmo nada de novo debaixo do sol...
Voltando ao filme "Inteligência Artificial", o robô-menino com capacidade de aprender a ponto de se tornar quase humano, e de amar incondicionalmente, vai viver com uma família que tem um filho muito doente, congelado até que se encontre uma cura para seu mal, se é que encontrariam um dia. A esposa, a princípio, é totalmente contra e se ressente da idéia do marido: o filho é insubstituível. Mas, aos poucos, vai pensando melhor, vê o próprio filho dentro de uma câmera, imóvel, inconsciente, e vai se apegando ao robô, que é o "menino perfeito", o sonho de qualquer mãe. Mais uma vez, temos o "outro lado da moeda": Qual de nós, fóbicos sociais, que achamos sempre que somos cheios de defeitos, não iria querer ser um robô assim, sem falhas, sem poder decepcionar os seres queridos, sem defeitos, totalmente estável e programado para agir de forma correta em todas as situações, etc. Seria uma idéia interessante.... Mônica, a mãe, acaba se apegando ao robô, que ainda está com eles em fase experimental. Ela precisa pronunciar certas palavras e tocar na nuca de David, o robô, para que este finalmente a chame de mamãe e passe a amá-la incondicionalmente. E é o que faz. Mas... isso gera problemas. David simplesmente a adora e quer estar perto dela o tempo todo, tanto porque sua presença é tudo para ele quanto pelo fato de que precisa aprender, por meio dos gestos e do comportamento dela, como se comportar cada vez mais e mais de forma humana. Mas ela se exaspera com isso, quem gosta de ser observado o tempo todo, mesmo que com amor e admiração? Já passei por isso e sei o quanto é incômodo, nenhum fóbico social gosta de ser observado... e que ninguém se iluda pensando que vai gostar só porque é o marido ou o filho, ou o ser que mais ama no mundo, seja quem for. Não. Ser observado é algo que nos incomoda profundamente, e ter uma pessoa sempre nos seguindo e nos avaliando, mesmo que de maneira, na maioria das vezes, positiva, acaba por nos deixar quase à beira da loucura - literalmente. Esta cena do filme me fez lembrar muito minha relação com meu filho que está agora com 3 anos e meio, e justamente na fase de querer aprender - e uma criança só pode aprender por meio de observação. É natural que seja assim, mas um verdadeiro martírio no meu caso. Como não temos condições de mantê-lo numa escola durante várias horas por dia, ele fica comigo o dia inteiro, pois meu marido faz extraordinário e chega já no final do dia, e trabalha também nos sábados de manhã. Então, é praticamente Joseph e eu mais de 14 horas por dia, e a relação é um bocado difícil, a ponto de me causar ataques de histeria onde começo a gritar, berrar pedindo que ele suma da minha frente, que desapareça, dizendo que não o quero mais perto de mim. Ao mesmo tempo vêm o sentimento terrível de culpa ao pensar que, com esse comportamento, estou provavelmente traumatizando meu filho e criando outro futuro neurótico. Mas é insuportável esse convívio contínuo, alguém praticamente o tempo todo ao seu lado fazendo mil perguntas, olhando atentamente tudo o que você faz, querendo interagir com você durante todos os minutos do seu dia e você sendo obrigada a aguentar esse convívio, mesmo naqueles dias nos quais acorda querendo se isolar, na fase do "não estou pra ninguém!". Na teoria, ter alguém quase que totalmente dependente de você é a cura para todos os seus males... na prática, é um inferno em vida, algo enlouquecedor. E, no meu caso, a coisa se agrava por não ter parentes nem amigos por perto que possam interagir com meu filho por algumas horinhas e "me dar uma folguinha". Nada nesse mundo é como imaginamos, essa é toda a tragédia da minha vida, pois sempre penso que a vida vai ser como nos filmes e, na prática, é tudo completamente diferente. Quanta frustração isso me causa, a ponto de me levar ao desespero! Chega uma hora em que Monica tranca David no armário por um tempo, para se livar dele... mas, obviamente, não posso fazer o mesmo!!!!
Mas, mesmo com as imperfeições inerentes à vida, a relação deles vai evoluindo (como é também o caso aqui com meu filho), e a essa altura David começa a pensar e faz uma indagação que, quando ouvi no filme, foi como um soco na barriga, pois resume praticamente todo o drama da minha vida. Ele iria viver indefinidamente, provavelmente por milhares de anos pois, no final das contas, era não passava de uma máquina sofisticadíssima, mas... e quanto à sua mãe? Pergunta à Monica se ela vai morrer um dia. Ela, desconcertada, responde que sim. Então David indaga: "Mas, se eu fui feito para te amar incondicionalmente e para sempre, e se vou viver para sempre, como vai ser quando você morrer? Vou ficar sozinho?". Monica tenta amenizar a sombra da morte que passa a pairar sobre suas cabeças e diz que ainda vai viver muito. "Quanto?" - pergunta David. "Uns 50 anos...". David comenta com seu ursinho de pelúcia eletrônico que cinquenta anos é muito tempo, mas o boneco discorda... O que são cinquenta anos para alguém que vai viver para sempre? Como amar incondiconalmente, e da forma mais profunda, seres mortais? O mesmo drama foi apresentado também no filme "Highlander" pois o personagem principal era imortal (a não ser que lhe cortassem a cabeça) e viu sua amada esposa envelhecer e morrer... ficou com medo de amar novamente. O tema também é muito comum na literatura sobre vampiros. Viver para sempre é algo que todos desejam desesperadamente, pois todo ser humano tem medo da morte. Mas, só seria vantagem se todos fossem imortais. Fora isso, o imortal é condenado à solidão eterna e, o pior de tudo, ter que assistir a morte de todos os seres amados. De que adianta amar tanto se, um dia, aquele ser tão amado partirá da nossa vida para sempre e teremos que seguir nosso caminho sem ele? Esta é uma questão que vem me atormentando a vida inteira, é uma verdadeira obsessão, martelando quase que dia e noite em minha mente (é a "Ansiedade Generalizada" se manifestando, pois é outro dos meus problemas, além da Fobia Social).
Quando nasci, segundo os padrões da época (e também sobre a perspectiva dos adolescentes, que acham todas as pessoas mais velhas do que eles anciãs), minha mãe já estava "velha" para ser mãe... com 35 anos. Achava meus pais muito velhos (e algumas pessoas ainda pioravam a situação, perguntando, quando saía com meu pai, se ele era meu avô - e isso acontece também com meu marido e meu filho, pois a maioria das pessoas da idade dele - e também da minha - já têm netos). E como sempre "pensava muito na vida", desde muito cedo me veio esta indagação e preocupação: Meus pais já eram velhos, iam morrer logo... e o que seria de mim? Como iria viver sem eles, que eram as pessoas que mais amava nesse mundo? Como me sustentaria, já que não consigo ter um emprego e dependo deles? Como iria viver sozinha? Não ajudou em nada o fato de meus pais serem acometidos de doenças bem graves quando eu ainda era pré-adolescente. Papai teve um infarto que o deixou na UTI por uma semana (e muitos pensavam que ia morrer) quando eu tinha 13 anos. Minha mãe teve um problema sério no braço, que nenhum médico conseguia diagnosticar, mas que suspeitavam ser câncer ósseo ou um tumor canceroso no pescoço. Como sou "temporão", como se chamava naquela época, meu único irmão é 15 anos mais velho do que eu e, com exceção de uns dois ou três, todos os primos e primas já eram adolescentes quando nasci e quase todos já estavam casando quando tinha cerca de 8 anos, inclusive meu irmão, que casou quando eu tinha 9. Minha avó, a única que ainda vivia quando nasci, deixou esse mundo (e morava conosco, morreu em casa, até hoje tenho a impressão de ouví-la chamando meu nome quando estava em agonia...) quando eu tinha 17. Vivia sobressaltava. Não conseguia dormir direito, ficava tensa à noite inteira (pois meu pai havia passado mal durante a noite e vovó também havia falecido no meio da madrugada) e só relaxava e conseguia dormir quando o dia amanhecia. Vivia tendo ataques de choro e, quando mamãe perguntava o porquê de tanto desespero e choradeira, sempre respondia: "Estou chorando porque vocês vão morrer e vou ficar sozinha!". E isso acontecia o tempo todo, eu vivia falando na morte de meus pais, tentando fazer planos, procurando desesperadamente uma solução para o meu problema, tanto da solidão que isso me traria, quanto da parte financeira, ou seja, como iria me sustentar. Os parentes nunca tiveram muitas afinidades comigo, pelo contrário, havia muitos atritos e diferenças. Meu irmão, praticamente o meu oposto em tudo. É uma ótima pessoa e que me ama muito, mas nunca conseguiríamos viver juntosm, pois temos comportamentos totalmente divergentes, ele é uma pessoa totalmente sociável e também temos idéias diferentes às minhas com relação a quase tudo nesta vida. Comportamentos praticamente incompatíveis. Mamãe, que sempre teve um ótimo senso de humor, tentava fazer graça com a situação, dizendo que eu os estava sempre "matando", outros diziam que eu lhes estava causando mau-agouro. O fato é que chorei a minha vida inteira a morte deles, de forma antecipada, só agora venho tentando com todas as minhas forças não sofrer tanto por antecipação, pois vejam só nesse caso: Já estou com 43 anos, nesses anos todos chorei a morte de meus pais, tendo praticamente como certo de que iriam estar mortos antes de eu alcançar a maturidade, e eles estão vivos até agora, já com oitenta e poucos anos, mas relativamente muito fortes, considerando-se as mazelas que a idade sempre causa a todos. Nunca em minha vida pensei que eles viveriam tanto!
Creio que a minha relação com meus pais, de acordo com os padrões estabelecidos pela sociedade, sempre foi um bocado doentia. Uma relação de dependência absoluta, tanto psíquica, quanto emocional e financeira. Vivíamos uma relação de amor intenso que oscilava muitas das vezes para o ódio intenso também (pois é muito fácil ir de um pólo a outro). O fato de meu pai também ser fóbico social e minha mãe ter ansiedade generalizada (e, desconfio, uma certa agorafobia - medo de sair de casa - também) fez com que, depois de nos mudarmos do bairro simples, quando eu tinha 7 anos, vivêssemos quase que totalmente isolados. A casa ainda era muito frequentada por parentes e amigos quando minha avó estava viva, pois era a mais comunicativa de todos, mas depois de seu falecimento, as visitas de parentes foram rareando, rareando... e meus pais quase nunca saíam de casa, a não ser para os aniversários dos netos e de alguns poucos parentes. Então, éramos só nós três, basicamente. Compartilhávamos tudo, meus pais sempre foram meus melhores amigos, meus confidentes, as pessoas que melhor me compreendiam (mesmo que de forma imperfeita). Minha relação com minha mãe sempre foi um tanto mais complicada porque ela sempre foi muito "castradora" (como os psicólogos diriam). Já comentei em outra página (Como Nossos Pais) que ela não me deixava depilar as pernas, usar maquiagem e nem sequer soutien até eu completar uns 15 anos mais ou menos... e ainda dizia que menina maquiada com menos idade do que isso ficava parecendo uma puta. Meu pai, uma pessoa também muito intensa e passional, como eu, era o meu objeto de quase idolatria. Era praticamente tudo para mim. Mas também tínhamos brigas terríveis e meu pai tinha o péssimo e irritante hábito de fazer "greve de silêncio". Quando estava aborrecido com alguém, simplesmente ignovara a pessoa por completo, como se esta fosse invisível, e não lhe dirigia uma palavra ou sequer um olhar. Quantas vezes não vivi a agonia de ver meu pai sem falar comigo ou sequer me dirigir um olhar por dias e dias, e eu, também geniosa, não queria tomar a iniciativa. Era uma verdadeira guerra de pessoas ultra-temperamentais. No fim, eu sempre acabava cedendo e fazia um comentário qualquer sobre um assunto de jornal ou de TV, e papai respondia. Respirava aliviada, me sentindo a pessoa mais feliz do mundo, era como se um peso de toneladas tivesse sido tirado de meus ombros. Enquanto mamãe vivia me cobrando isso e aquilo (que me arrumasse melhor, que me pintasse mais - depois de mais velha - que andasse com elegância, que não fosse tão chata, que não "debulhasse" o dinheiro de papai, etc), ele nunca me fez qualquer cobrança, a ponto de achar que era muito omisso. Sempre que pedia seu conselho, ele dizia que fizesse o que achasse certo e que acataria e respeitaria minhas decisões. Só uma única vez em todos esses anos, na frente de uns parentes que estavam forçando a barra com relação ao assunto, queixou-se do fato de eu não arranjar um emprego. Fora isso, sempre me deu uma boa mesada e nunca reclamou da maneira como eu usava o dinheiro (com CDs, vídeos, livros, santos, etc). Dizia sempre que não considerava sua pensão de aposentadoria como dinheiro dele, mas sim da família. Quantas vezes na vida ouvi desaforos de parentes me dizendo que eu esbanjava o dinheiro de meu pai (e logo eles que, na maioria, já tinham visitado o mundo inteiro e passavam todos os fins de semana e feriados nas regiões dos lagos, em praias diversas ou em cinemas com namorados e namoradas.... enquanto eu posso contar nos dedos da mão as vezes que viajei e os fins de semana que fui à praia ou ao cinema. Aliás, meu companheiro de cinema foi papai até o tempo da faculdade e mesmo depois, algumas vezes) então, ia até papai e perguntava se a maneira com que eu gastava o dinheiro que ele me dava o desagradava, pois se alguém podia e tinha o direito de reclamar, era somente ele e mais ninguém. Mas ele sempre dizia para não ligar para isso, que o dinheiro era meu e que eu deveria gastar como quisesse. Muitos dizem que esse comportamento "me estragou". Pode ser que sim, pode ser que não... Não creio que, se me fosse negada uma mesada, tivesse motivação para arranjar um emprego e ter meu próprio dinheiro... tanto que agora minha família vive na pobreza e continuo sem trabalhar fora, preferindo até passar fome a ter que sofrer o padecimento de me submeter a um processo de seleção e depois ter que interagir com chefes e colegas de trabalho.
O meu pavor de ver meus pais morrerem sempre foi tão grande que, de certa forma, sinto-me um bocado aliviada de morar agora tão longe deles, pois não creio que suportaria, ou enlouqueceria de vez ou morreria também, junto com eles. Como não temos condições financeiras de fazermos viagens frequentes ao Brasil, e meus pais já sendo bastante idosos, toda vez que os visito, na hora da despedida, penso que é a última vez que os verei, e choro durante a viagem inteira, incluindo as quase 14 horas de vôos, mas pelo menos os deixo vivos e nos falamos ao telefone quase todos os dias. Tento colocar na minha cabeça que, como estou muito longe, eles já estão mortos para mim, de certa forma, e então penso que não vou sofrer tanto quando eles se forem, mas não tenho tanta certeza assim.... Mas, de qualquer jeito, os medos só mudaram de país e de alvo. Meu marido é 10 anos mais velho do que eu e, com isso, já fico pensando que tem maiores possiblidades de morrer primeiro, ainda mais que mulheres costumam viver mais (basta ver a quantidade de viúvas com relação a de viúvos). Pronto, aí vivo com medo de que meu marido morra e eu fique sozinha no mundo, pois meu filho vai crescer e vai ter sua própria vida, provavelmente casar, ter sua família, e aqui nos EUA os filhos não costumam morar com os pais depois que completam 18 anos. Vivo numa verdadeira "contagem regressiva" minha vida inteira! É um bocado desgastante, deixa os nervos em frangalhos, mas é algo que não consigo controlar, é mais forte do que eu, não consigo parar de pensar nessas coisas.
E se tenho pavor de que meus entes queridos morram, tenho mais ainda de morrer. Creio que é natural ao ser humano ter medo da morte, mas será que todos são tão obcecados com isso quanto eu? Praticamente penso nisso o tempo inteiro e, mesmo sendo muito religiosa e sendo considerada por todos como uma pessoa de muita fé, tenho minhas crises e minhas dúvidas (como, aliás, muitos santos tiveram!). E se não existir nada depois da morte? Que garantias reais temos de que existe alguma coisa, já que ninguém nunca voltou dos mortos para nos contar como foi (a não ser Jesus, mas e se tudo for mesmo um "conto de fadas" como meus tios costumavam dizer?). Nunca tive visões nem ouvi vozes, nunca vi nada de extraordinário nessa vida, que não tivesse uma explicação científica. Supostamente, "conversei" com alguns médiuns que diziam estar incorporando espíritos, mas nunca me convenceram muito. E se não houver nada? Não consigo suportar a idéia de deixar de existir, pois, na minha cabeça, sou a única no mundo, de certa forma, pois ninguém está dentro de minha mente, os outros são os outros, quando eu caminhar para a morte, vou caminhar sozinha, se não existir nada além, cessarei de existir, de pensar, de sentir, e nem perceberei isso! Mais ou menos como quando fiz uma plástica no busto e tive que tomar anestesia geral. Num minuto estava conversando com o anestesia, no outro estava acordando no quarto, 5 horas depois. Aquelas cinco horas simplesmente não haviam existido! Nem sonhos nem nada! Então, é um pavor que toma todo o meu ser e me esmaga, por assim dizer. E, mais uma vez, vivo na "contagem regressiva". Sou assaltada, o tempo todos, por pensamentos macabros. Os momentos felizes da vida são todos "envenenados", ficam sob a sombra desse fantasma invencível. Se fico na expectativa de algo bom, como por exemplo o dia do meu casamento ou o nascimento do meu filho, quando o momento passa, vêm-me logo o pensamento: se esse momento foi tão esperado, chegou e passou, assim também chegará a morte e morrerei pois o tempo não pára e quanta coisa esperei na vida, e que parecia que só ia acontecer num futuro muito distante, já aconteceu há anos. E conforme vou ficando mais velha, parece que o tempo passa mais depressa, então, num piscar de olhos, vai ser o momento final. Fico sempre pensando a cada dia "mesmo que eu viva até os oitenta e poucos anos, já estou com quarenta, então, já estou na metade do caminho", e vivo fazendo essas "contas de quanto falta para morrer" desde criança! Isso, é claro, se não for atacada por alguma doença mortal a qualquer momento. Mas só o pensamento já algo de enlouquecer, creio que não suportaria... Assim, a idéia de seres imortais sempre me atraiu muito. Como gostaria de ser o robôzinho David (apesar da dor de ver todos os entes queridos morrerem)! Creio que seja por isso também que sempre fui fascinada por literatura sobre vampiros, se bem que são, supostamente, seres das trevas e não consigo me imaginar vampira... imagine se uma fóbica social iria ter coragem de atacar alguém para morder o pescoço e sugar todo o seu sangue! Mas até a Bíblia me traz conforto nesse aspecto, ainda que de uma maneira "torta". Se tudo for verdade, haverá um "final dos tempos", o Apocalipse, e as pessoas que ainda estiverem vivas vão ser arrebatadas aos céus por Jesus, que voltará em Glória sobre as nuvens para buscar os eleitos. Fico então desejando com todas as minhas forças que o fim do mundo esteja mesmo perto, pois assim serei arrebatada direto e não precisarei passar pela morte, e hoje em dia se fala tanto em final dos tempos.... bizarramente, é algo que me traz certo conforto...
Voltando ao filme, por uma ironia do destino, assim que a relação entre Monica e David se estabiliza, ela recebe a notícia de que foi descoberto um tratamento para o filho de carne e osso e este vem para casa, ainda que tendo que recorrer a cadeira de rodas ou a armações nas pernas para andar, entre outras deficiências. A princípio, a família não faz distinção entre os dois, como se David fosse um irmão mais novo do outro menino. Mas o menino, obviamente, tem ciúmes de David e começa a tratá-lo como um brinquedo sofisticado que está ali para o entreter (o que era antes feito pelo ursinho de pelúcia mecânico, que é agora companheiro de David). É doloroso ver a mãe colocando o filho humano para dormir na mesma cama que antes era usada por David (que não dormia, mas ficava lá e gostava de receber a atenção da mãe, uma história antes de fechar os olhos, o beijo de boa-noite e a mãe o cobrindo de forma carinhosa). Agora todos os gestos se repetiam, mas quem os recebia era o menino humano. Há uma total inversão de papéis: o que era perfeito (o robô), passa a ser o imperfeito, o "não tão necessitado de atenção", afinal, o humano ali era o filho verdadeiro (e, assim sendo, mesmo que cheio de imperfeições, um "filho e menino de verdade"). E David ouve a mãe contar justamente a história de Pinóquio, o boneco de madeira que desejava com todas as suas forças ser um menino de verdade e teve seu pedido realizado pela bondosa Fada Azul.
E lá vou eu analisar vários aspectos desse pequeno trecho do filme, sob inúmeros ângulos:
Uma das primeiras lembranças que tenho da minha infância, além daquelas do Natal, é de chegar ao nosso quarto (até os 15 anos de idade dormi no mesmo quarto com meus pais, primeiro por falta de espaço, pois havia meu irmão, ainda solteiro, e minha avó, num apartamento só de dois quartos. Depois, por um certo medo de dormir sozinha num quarto e também por certo comodismo) e ver outra criança pequena dormindo no meu berço. Não me lembro de nada antes disso, de como o bebê tinha chegado e quem o tinha colocado ali. Mas, me senti totalmente "invadida" no meu espaço. Hoje em dia sempre comento com pais que têm mais de um filho para nunca cederem o berço do filho menor para o maior, desalojando-o com a desculpa de que já está muito crescido, etc, etc. Sei que é dispendioso, mas, se a criança maior já estiver pronta para uma cama, desfaça-se do berço e compre um novo para o bebê. O berço é o mundo de um bebê ou de uma criança pequena, é o seu espaço sagrado, seu domínio, seu território. Nada fere mais uma criança pequena do que ver seu espaço ser tomado por outro bebê, é algo que fica marcado na memória para sempre (haja vista o fato de ser uma das minhas primeiras lembranças e isso já foi há quase quarenta anos atrás). Quando vi aquela cena no filme, David olhando para sua cama, agora com novo ocupante, logo me lembrei desse momento do passado. E se tivesse parado por aí, já seria bastante ruim, mas foi muito, muito mais além. A filha de amigos muito íntimos nossos, devido a grandes traumas relacionados ao tempo de bebê (e não a culpo por isso, claro, pois ela não tem culpa), passou a ser a "queridinha da família". Vovó só passava o dia inteiro tecendo elogios à ela, contando suas façanhas, realçando sua esperteza. Ela merecia, pois já havia sofrido demais, agora só poderia receber carinho na vida. Eu, de minha parte, como o robô, era a "criança perfeita", a certinha, sem grandes traumas de infância, sem grandes tragédias pessoais e, por conseguinte, não era carente de tanta atenção. Senti muitos ciúmes, é claro, ainda por cima porque só na adolescência me foi contado os traumas que a menina havia passado em sua tenra idade. Conforme fomos crescendo, era de grande interesse de ambas as famílias que nos tornássemos "grandes companheiras". Sem "dourar a pílula", ela era insuportável. Super-hiperativa, tenho quase certeza de que deveria sofrer de déficit de falta de atenção (coisa da qual não havia conhecimento na época, e nem tratamento, como agora). Não ficava sentada numa cadeira por mais do que dois segundos, era um verdadeiro furacão ao meu redor... e eu que sempre fui uma criança "devagar", de certa forma. Além disso, era uma criança cruel, talvez por conta da permissividade. Sempre por conta do trauma, todos se compadeciam dela, principalmente os pais, é claro, e não a recriminavam por nada de nada. Podia aprontar as maiores crueldades, fazer as maiores travessuras, todos só sorriam e lhe passavam a mão na cabeça. Outro erro que muitos pais cometem quando filhos passam por tragédias pessoais ou familiares. Na verdade, nunca houve companheirismo entre nós. Como os pais dela tinham mais posses, eu ficava fascinada com seus briquedos, e isso me atraía à sua casa. E também porque ela tinha um cachorrinho e eu sempre amei cachorros e queria muito ter um também. Mas pagava caro por isso. Ela fazia de mim um brinquedo, como o menino fez de David seu "objeto de distração". Quebrava meus brinquedos de propósito, com a cara mais deslavada desse mundo, e eu que tinha um apego muito grande pelas minhas coisas e nunca estragara nem um brinquedo, livro ou disco! Alguns bonecos caros, importados, que me haviam sido presenteados por um tio, eram "dissecados" em um segundo! E, o que era pior, eu reclamava com meus pais e eles não faziam nada e ainda me diziam para não brigar com ela de jeito nenhum. Isso me dava muita revolta. Quando era uma festa de aniversário ou alguma reunião com outros coleguinhas dela, aí então era pior: ou era ignorada completamente ou ridicularizada. Há outra cena no filme que lembra essa situação: o menino humano está à beira da piscina da casa com coleguinhas, e todos se aproximam de David, para examinar aquela "coisa rara" e começam a fazer troça dele por ser tão certinho, por não querer "aprontar" como os outros, por não saber fazer bagunça ou se recusar a fazer travessuras de mau gosto. Também sempre fui ridicularizada por não "entrar no jogo", por não ser como todo mundo, por não se juntar às travessuras, por assim dizer. Ser certinha demais é como ser uma peça de museu, ou um robô raro de última geração: objeto de exame minucioso, curiosidade e, depois, escárnio, pois sempre ridicularizamos aquilo que não compreendemos. A "travessura" da parenta que mais me machucou foi quando uma tia me deu um "globo de neve" de presente de Natal. Não existiam no Brasil, era importado, uma verdadeira raridade. Um globo de pástico cheio de água e com flocos imitando neve quando era agitado, um Papai Noel lá dentro, com trenó e renas, e, ao fundo, uma luz que piscava em várias cores. Fiquei fascinada, era a coisa mais linda e preciosa que já vira na vida. Mas, a menina sempre nos visitava no Natal... Mamãe me aconselhava a esconder meus novos brinquedos, mas sabem como é criança, quer brincar com os brinquedos novos o dia todo e também exibir para os amigos. E todo Natal, ela destruía o meu novo brinquedo. Nesse ano não foi direrente. Mostrei o globo de neve, ela o segurou com as duas mãos e as soltou, totalmente de propósito e, quando o globo caiu no chão e rachou, a água se esparramando toda pelo chão - meu precioso globo perdido pra sempre - disse com a cara mais cínica desse mundo "ah, escorregou, que pena!!". Tive vontade de esganá-la, mas sabia que meus pais nunca me deixariam tocar sequer um dedo nela e nem mesmo reclamar ou xingar... Amarguei por anos e anos a perda daquele globo de neve, mas agora "estou vingada" pois aqui nos EUA temos globos por todos os lados e já tenho uma imensa coleção - cada um mais lindo do que o outro, e tocam música, se movimentam, maravilhosos!
E esta menina não foi a única a me "colocar na sombra". Conforme já disse, era uma das mais novas na família, o que me dava certa vantagem. Era, de certa forma, especial, a queridinha, a menorzinha. Mas aí, veio essa a filha de amigos de meu pai e também uma parenta que era um pouco mais velha mas que era a mais favorita de meus tios - que não faziam nenhum esforço de tentar fingir que gostavam de mim tanto quanto dela. E havia outros membros da família "dignos de pena" por terem sido vítimas de alguma doença ou trauma na infância, e esses eram sempre os queridinhos que conseguiam tudo que queriam. Só me restava meu pai. Minha mãe fazia parte desse "time", pois embora negue até hoje, sempre favoreceu meu irmão por conta de ter tido pólio na infância e de coxear de uma perna. Sei que é horrível dizer tal coisa, mas quantas vezes em minha vida desejei que um carro passasse por cima das minhas pernas ou de meus braços para que fosse tão amada quanto esses seres desafortunados. Eu sofria também, tinha meu "defeito", mas era dentro da minha mente, totalmente invisível. Por fora, vendia saúde e nem era tão feia assim... então, pra quê atenção extra, pra quê paparico! Os outros precisavam mais de atenção e de caridade. Para eles, tudo, para mim, nada. E o fato de meu irmão ser tão mais velho e ter se casado quando eu ainda era uma criança pequena contribuiu ainda mais para que perdesse minha posição de "mascote" da família (que, mesmo às duras penas, vinha mantendo de certa forma). A esposa de meu irmão era muito jovem, praticamente uma menina, e minha mãe caiu de amores por ela e a tratava como filha. Todas as atenções se voltaram para ela, eu só era a "chata que atrapalhava o namoro dos dois pedindo para brincar o tempo todo". E ela trocava confidências com mamãe, conversas que não eram para ouvidos de crianças como eu. Para mim, isso demonstrava uma total falta de confiança em mim e na minha capacidade de compeensão (afinal, não haviam sempre me dito que eu era uma "pequena gênio"? Que era muito madura para a minha idade? Que sabia tudo?). E o casal teve filhos muito cedo também, tornei-me tia com 11 anos de idade. Sempre amei meus sobrinhos de todo o meu coração, e fiquei radiante de alegria durante a gravidez e o nascimento dos pequenos. Era uma das poucas meninas da minha idade que já tinha sobrinhos! Isso me dava um certo ar de importância no colégio (e para alguém tão pouco importante, tudo era grande lucro). Mas... por conta disso, tive que, de certa forma, deixar de ser criança. Havia crianças "de verdade" agora, eu já era crescida. A sobrinha podia levar meus brinquedos para casa e nunca mais devolver, pois eu já era muito grande para brincar de bonecas (era o que me diziam, e olha que adoro bonecas até hoje e sempre que posso, compro uma para enfeite!). Logicamente (e naturalmente, é claro), as atenções se voltaram todas para a nova e jovem família. Eu, "passei para escanteio", por assim dizer. Na época, nem cheguei a perceber o quanto isso estava me afetando, acho que só hoje em dia, relembrando os fatos do passado, é que percebo o quanto mexeu comigo, com minha auto-estima, psiquê, etc. Mas é preciso tentar, com todas as forças, não ter ressentimentos, pois só nos trás mais amargura e, no final das contas, não resolve o problema. Desabafar é bom, mas, depois disso, perdoar e tocar o barco da vida adiante.
O irmão humano começa a ridicularizar David por não se comportar como ele: de forma totalmente imprópria, enchendo a boca de comida e cospindo tudo pra todos os lados, etc. David, na tentativa desesperada de ser como o outro, imita seus gestos e acaba tendo que ir para uma oficina mecânica a fim de consertar os circuitos estragados pela comida (pois ele não podia se alimentar, só ficava sentado à mesa observando os outros). E não é o que acontece conosco quando queremos ser o que não somos, quando queremos ser "como todo mundo" e vamos contra a nossa própria natureza? De certa forma, "quebramos", os "defeitos" aparecem, há um "curto-circuito" pois não podemos ser o que não somos sem que, na tentativa, nos machuquemos muito e soframos mais ainda por descobrir que é inútil.
Há um acidente envolvendo David e seu irmão humano, ainda nessa cena da piscina. Os outros meninos querem "testar" os limites do robô e tentam machucá-lo, para ver como ele irá reagir. Ele, num impulso involuntário e instintivo agarra-se ao irmão humano, repetindo muitas vezes: "me proteja, me proteja!!", mas os dois acabam caindo na piscina e o irmão quase morre afogado. Os pais, desesperados em salvar o filho de verdade, esquecem-se de David, que fica lá no fundo da piscina, deitado, de braços abertos. Realmente, ser protegido é o que um fóbico social mais deseja.... Quer com todas as forças arranjar "protetores", alguém em quem possa confiar e do qual possa depender totalmente. Muitas vezes sinto uma necessidade avassaladora de ser abraçada por alguém, que vai me dizer que está tudo bem, que vai cuidar de mim, que eu não devo temer nada. Mas a vida não é como nos filmes, e até nos filmes ocorrem acidentes e desejos são frustrados. Essa necessidade, às raias do absurdo, que temos de proteção, pode muito bem levar os outros para o fundo, a nossa carência afetiva é tão grande que pode afogar, por assim dizer, os nossos entes queridos. A partir desse momento, os pais começam a temer pelo filho humano, e pensam que, se David tem capacidade de amar, pode ter também a de odiar, o que é bem verdade pois já comentei aqui que, muitas das vezes, a linha entre amor e ódio é um bocado fina, um véu muito tênue os separa. Não era o caso, David só queria proteção, mais nada. Não odiava seu irmão, só queria ser também um menino de verdade para ser amado daquele mesmo jeito. Quantas vezes na vida os fóbicos desejam "ser como todo mundo", ser uma "pessoa de verdade", por assim dizer. Passamos a vida toda nessa busca desesperada de uma solução, seja por tratamentos, medicamentos, religião, o que for, na ânsia de que possamos mudar e nos transformarmos numa "pessoa normal". Mas... será que queremos mesmo ser pessoas como todas as outras? Será que não existe uma certa vantagem e até conforto em ser "único", "diferente dos outros", singular, por assim dizer?
David é então jogado fora, é deixado pela mãe numa floresta, com a recomendação de que se afaste sempre dos humanos e procure os seus semelhantes pois, há um depósito de lixo de robôs avariados bem perto dali. É o isolamento, quando decidimos nos afastar dos "normais" por considerarmos que não há condições de convívio com eles. Parece ser a melhor solução para todos. No isolamento da floresta, não machucaremos ninguém nem seremos machucados. A nós, resta se unir a outros rejeitados pela vida, por esse ou aquele motivo, os banidos, os diferentes... Foi isso o que fiz a vida inteira, desde os tempos de escola, quando só fazia amizades com colegas que também eram tímidas, desajeitadas ou, de alguma maneira, sofriam de carência emocional e eram rejeitados pelos outros colegas da "turminha legal". O robô-menino parte então em busca da Fada Azul, que pode realizar seu sonho de se tornar um menino de verdade, como fez no caso de Pinóquio. E, de certa forma, é também uma busca do criador, pois David quer saber qual a sua origem, quem o fez, onde e por quê. E o que mais fazemos a vida inteira senão procurarmos o Criador, tentando entender o porquê de estarmos nesta terra, que muitas vezes se nos apresenta como uma floresta escura ou como uma cidade cheia de entretenimentos que podem anestesias nossas mentes para que não pensemos na busca? O criador de David comenta, quando finalmente se encontram, que "A Fada Azul é parte da falha humana de desejar o que não existe". Ele queria saber até que ponto o robô tinha adquirido comportamento humano, e o que, talvez, nos torne mais humanos é justamente o fato de vivermos correndo atrás de nossos sonhos. Fiz isso a vida inteira e ainda faço. Não tenho certeza de que o objeto de desejo não exista, pode ser que sim, pode ser que não. Por enquanto, realmente não encontrei nenhuma solução concreta para o problema da Fobia Social (além da aceitação), tem sido a busca da minha vida e de milhares de outras pessoas que sofrem do mesmo problema, mas as soluções parecem sempre fugir de nós. Quando pensamos ter encontrado a Fada Azul que vai realizar nosso desejo de ser como todo mundo, seja na forma de um novo e revolucionário medicamento, seja na forma de um tratamento experimental que tem mostrado ser eficaz em muitos casos, acabamos descobrindo que não é bem assim, que os remédios não cumprem tudo o que prometem, ou algumas vezes o fazem mas por um tempo bem limitado. E, se colocamos todas as nossas esperanças numa cura que pode nunca acontecer, podemos nos machucar muito seriamente pois quanto maior a expectativa, maior a decepção. Tenho visto muitas pessoas que sofrem de problemas comportamentais ficarem ainda piores depois de algum tempo de entusiasmo total com um novo medicamento que, por alguns meses, dá a impressão de que a pessoa está curada. Como dizia a música do Roberto Carlos, "é preciso ter cuidado pra mais tarde não sofrer, é preciso saber viver!". Depois de tantas tentativas frustradas de "ser uma pessoa como as outras - ser um menino de verdade", vem a depressão ainda maior. Talvez não seja só um efeito colateral de alguns remédios os pensamentos suicidas que passam a assolar tantos fóbicos depois de tentar tratamentos. Já tive muitos pensamentos suicidas, principalmente quando estava tomando Aropax. Mas, como já disse e repito, o maior medo que tenho na vida é justamente da morte. Então, suicídio está fora de cogitação! E, no final das contas, não soluciona nada pois, se não existir nada além da vida, deixaremos de "ser", e se existir, teremos que arcar com as consequências do ato criminoso de sermos nossos próprios assassinos. Devo confessar que todas as vezes que comecei a berrar que iria me matar, era só uma tentativa desesperada de chamar a atenção... é como as pessoas que sobem nos prédios e ficam lá, vêm os bombeiros, a TV, junta uma multidão, mas a pessoa acaba sendo salva. Quem está tão transtornado a ponto de querer morrer, simplesmente vai lá e se joga, não fica esperando chegar corpo de bombeiros e câmeras de TV...
Antes de encontrar a Fada Azul, David tem um encontro consigo mesmo... e com seu criador. Encontros esses, pra lá de desconcertantes! O menino-robô entra na fábrica onde foi feito e se depara com um outro David, igualzinho a ele em tudo. É o maior choque da vida de David, que pensava ser singular, único no mundo no seu gênero! Assim como os fóbicos sociais, David é um "Narciso às avessas": ver sua imagem refletida lhe enche de repugnância e medo. É o que acontece conosco, temos pavor de nossa própria imagem. Num acesso de fúria e desespero, ele despedaça seu "igual", só para descobrir a sala onde existem centenas e centenas de "Davids" e sua contraparte feminina, todos na linha de montagem, alguns inacabados, outros já na caixa para entrega. É demais para David, que resolve se jogar nas águas que cercam o prédio (este se situa na "cidade proibida", uma Manhattan do futuro, deserta e submersa pelas águas, onde só se vê a ponta de alguns arranha-céus, o braço da Estátua da Liberdade ainda erguendo a tocha e, por ironia do destino - pois o filme foi feito antes dos atentados - as duas torres do World Trade Center, que só aparecem por cima das águas, mais ou menos, a partir justamente da parte que foi atingida pelos aviões). Mais uma pausa para reflexão nesse ponto! Existe uma espécie de paradoxo quando um fóbico social encontra outra pessoa que sofre do mesmo problema e dois sentimentos totalmente conflitantes se instalam em nossa mente. Pelo menos é o que acontece comigo. Até começar a acessar a internet, e consequentemente participar de listas de discussões e foruns, nunca tinha me deparado com um outro fóbico social. Quer dizer, havia meu pai e também alguns parentes, mas eles negavam a condição de fóbicos e nunca elaboramos muito o assunto. E, de qualquer jeito, eles deveriam ter a fobia em menor grau do que a minha, pois conseguiram um emprego e não caíram em depressões e crises de ansiedade exageradas como no meu caso. Nos foruns especializados, encontrei centenas de outros fóbicos e descobri que compartilhávamos os mesmos pensamentos (até o medo doentio da morte, tanto própria quanto dos entes queridos!), que sofríamos os mesmos preconceitos, que passávamos praticamente pelas mesmas situações (na escola, na tentativa de arranjar um emprego...), que sofríamos as mesmas incompreensões por parte de todos, a começar pela família, que todos minimizavam nossos problemas, nos chamavam de preguiçosos ou até vagabundos, que tínhamos os mesmos problemas com o uso dos remédios e as mesmas decepções com as terapias (com exceções aqui e ali, é claro). Muitos fóbicos me enviam mensagem dizendo que se sentem muito aliviados ao lerem esse relato da minha vida, pois assim têm o conforto de saberem "que não são os únicos", que existem milhões e milhões de fóbicos sociais nesse mundo (creio que vi uma estatística dizendo que um terço da população das áreas urbanas sofre do problema). Realmente, há conforto nisso, pois pelo menos, sabemos que nosso cérebro não é uma aberração da natureza, que existem milhares de pessoas com os mesmos problemas e passando pelas mesmas dificuldades (e isso também aumenta as esperanças de uma chance de cura ou de, no futuro, maior conscientização da sociedade com relação aos fóbicos). Que alegria, não somos ETs como pensávamos! Foi bom saber que não sou a única a ser chamada de preguiçosa ou amante da vagabundagem, entre muitas outras coisas. MAS.... sempre tem um "mas", não é mesmo? Ainda não ouvi nenhum fóbico comentar sobre isso, mas acontece comigo: bem lá no fundo, ergue-se uma ponta de frustração e decepção... Quer dizer então que não sou única no mundo, especial, como pensava? Sim, ser único muitas vezes traz sofrimento, mas também nos assegura a individualidade, a singularidade, a certeza de que somos criados individualmente, que somos todos "obras-primas" irrepetíveis. Mas, sob essa nova perspectiva, vemos que não somos nada especiais, muito pelo contrário, somos totalmente comuns! E onde fica a individualidade se temos os mesmos pensamentos, a mesma visão do mundo, os mesmos medos, as mesmas reações? Fico imaginando uma fábrica lá no céu, à semelhança com a do filme, com um setor dedicado à fabricação de fóbicos sociais, e todos eles programados para ter o mesmo comportamento e os mesmos pensamentos, apenas com variações aqui e ali, causadas mais por fatores de ordem ambiental. Confesso que isso me assusta e me deixa ainda mais confusa. E, se há em alguma dimensão uma "fábrica de fóbicos sociais", deve haver uma razão para sermos fabricados assim e postos no mundo desse jeito, não é verdade? E, se existe uma razão e fomos "fabricados" assim de propósito, será mesmo que podemos nos curar? Sei lá... sinto um pouco de saudades do tempo em que pensava ser singular, a "única no gênero", dava um certo ar de importância, de ser especial... e os fóbicos sociais sentem a necessidade de serem especiais! Vivemos em conflito, pois queremos, por um lado, "ser como todo mundo", mas, ao mesmo tempo, queremos "nos destacar", queremos ser "o centro do universo"... vaidade, seu nome é fobia social, o fóbico é um vaidoso às raias do absurdo. Não admite erros, quer ser perfeito e sofre porque não consegue ser. E que vaidade resiste a isso? Veio-me agora à mente a decepção e a raiva da bruxa-madrasta da Branca de Neve quando perguntou ao espelho se existia no mundo alguém mais bela do que ela e o espelho, depois de anos e anos respondendo que não, declara que ela deixou de ser a mais bela, que agora a mais bela era Branca de Neve... Espelho, espelho meu, existe alguém mais fóbico do que eu??? É interessante participar dos fóruns de discussão... os fóbicos praticamente não interagem entre si, só "monologam", raramente respondem a um outro fóbico de forma direta. A Fobia Social continua, mesmo no ciberespaço. E há muito ciúmes e quase que uma "disputa" para ver quem é o mais fóbico, o mais desafortunado. Nada que se diga agrada totalmente. Se comentamos, para incentivar e animar outros fóbicos, que somos casados, muitos vêm até nos xingar e dizer que não somos fóbicos porcaria nenhuma, pois eles nem amigos têm, quanto mais amigos, namorados e maridos ou esposas!!! Se, ao contrário, vamos lá nos queixar da vida e dizer que não há solução, não há cura, que devemos aceitar nossa condição, dizem que os estamos botando ainda mais pra baixo, que lhes estamos privando das últimas esperanças que ainda conseguem ter. Chega a ser patético. Costumo chamar os fóruns e listas de discussão sobre fobia social e outros distúrbios de ansiedade de "purgatório dantesco": Não chega a ser o inferno, mas há muitos gemidos, lamentos, choros, e o ambiente é pra lá de lúgubre...
David afunda nas águas e acaba dentro de um módulo de transporte, como um feto no útero. Tudo começou nas águas, agora David tem que submergir nas águas para renascer como menino de verdade. Ele encontra um parque temático no fundo do mar e lá está a tão procurada Fada Azul, bem à sua frente. E faz seu pedido, uma, duas, mil vezes, fica lá pedindo por dois mil anos, até haver uma nova era do gelo. Tudo congelado, alienígenas chegam para saber algo sobre o ser humano, o que os faz diferentes, o que é a alma que dá vida ao corpo. Conseguem "ressuscitar" pessoas a partir de fragmentos de ossos, unhas, etc, mas os seres ressuscitados só vivem um dia e morrem novamente. Agora, sim, David é o único no mundo, é singular em tudo, pois não mais existe a humanidade. Então, se ser humano significa pensar e sentir, ele se torna um ser humano, já que não existem outros no mundo inteiro. Finalmente é um menino de verdade e seu sonho é realizado. Mas não podemos esquecer do amor incondicional de David, que não guardou ressentimento de ter sido preterido e abandonado pela mãe. Quando lhe perguntam qual é o seu maior desejo, não vacila em dizer que deseja mais do que tudo no mundo passar um dia com sua mãe, tendo seu amor, finalmente, correspondido sem restrições, incondicionalmente e na condição de único filho. O ursinho de pelúcia, que o acompanhou durante toda sua aventura em busca de seus sonhos, guardou uma mecha dos cabelos de Monica e, dessa forma, os alienígenas conseguem trazê-la de volta... por apenas um dia, que deveria ser o mais feliz na vida de David, o dia pleno, o dia perfeito, o dia que teria que valer por uma eternidade. David finalmente tem a mãe só para si, e até consegue comemorar seu aniversário, com bolo, velhinhas e tudo, pois, como não nasceu, nunca teve um aniversário e, consequentemente, uma festa. Mais um momento de intensa emoção para mim. De certa forma, também nunca tive um aniversário, mesmo que tenha nascido como qualquer criança pois, afinal de contas, mesmo sendo fóbica, não sou um robô! Vocês já ouviram falar de alguém que tenha "nascido no dia errado"? Muito bizarro, não é mesmo? Mas foi o que aconteceu comigo, ou pelo menos, é o que todos sempre pensaram, inclusive minha mãe que, há uns anos atrás, perguntou se eu não podia, aqui nos EUA, mudar o dia de meu aniversário (porque comentei que aqui as pessoas podem mudar o nome quando e quantas vezes quiserem, é só ir na prefeitura, preencher uma ficha, receber o deferimento por parte do juiz e posso virar Diana, ao invés de Maria Lucia, e poder assinar todos os meus documentos como Diana, e ter este nome em todos os meus papéis de identidade. Daí mamãe pensou, erroneamente, que se poderia fazer o mesmo com a data do nascimento... obviamente que não, pois o nome é coisa circunstancial, de escolha, e ninguém escolhe o dia que vai nascer. Uma vez nascido, não pode nascer outra vez em outra data!).
O "grande problema" foi ter nascido justamente no dia do aniversário de um tio, já na faixa dos quarenta na data do meu nascimento, mas que, até falecer com mais de 80, sempre fez QUESTÃO ABSOLUTA de comemorar seu aniversário, com pompa e circunstância. Não abria mão disso e, para ele, era o "acontecimento do ano". Minha mãe sempre conta que, assim que nasci, às 8 horas da noite, papai ligou para os irmãos e irmãs para contar a feliz novidade. Eles estavam todos comemorando o aniversário desse tio, e receberam a notícia com certo desapontamento... afinal de contas, o dia "já tinha dono", e um dono que fazia questão absoluta da data para si próprio. O que fazer então? Papai, que sempre foi muito ligado aos irmãos (mesmo que o tenham maltratado um bocado quando criança), ficou "entre a cruz e a caldeirinha". Ninguém "reclamou" ostensivamente, e sempre afirmaram que era ótimo compartilhar o aniversário... mas só mesmo nas aparências, pois o ressentimento era praticamente tangível, estava no ar, pesado como chumbo sobre minha cabeça de criança. E criança adora festejar seu aniversário, não é mesmo? Creio que não exista nada mais natural... Bom, alguns fóbicos dizem que têm horror, pois se tornam o centro das atenções, todos cantando parabéns e batendo palmas, etc, etc. Mas.... ao mesmo temo, queremos ser "especiais", não queremos? Queremos ser lembrados com amor, não é verdade? Queremos ser homenageados, certo? Quem não gosta de ser paparicado de vez em quando? O aniversário é o nosso "dia especial", é o dia da celebração de nossa vida, é o dia que começamos a fazer parte desse mundo, pois antes, já vivíamos, é verdade, mas lá no aconchego e na proteção do útero materno... Mas, se eu pensava assim, mais ainda pensava o tal tio! Mamãe sempre diz que meu primeiro aniversário foi festa "só minha", festejada no nosso bairro, com os amigos de lá, os vizinhos com quem eu brincava todos os dias e que estimava tanto. Mas, obviamente, não posso me lembrar dessa primeira festa. As seguintes foram sempre no apartamento de meu tio (que vivia com os outros tios e tias solteiros), uma festa "para os dois aniversariantes". Realmente havia dois bolos, cada um com uma vela, cantavam "parabéns" duas vezes... mas meu tio me empurrava para o lado e assoprava a velinha dos dois bolos, ou então fazia isso pra deixar uma prima - que era a queridinha dele e dos outros da casa - assoprar no meu lugar. Imaginem a minha frustração! Sempre ficou bem claro em minha cabeça que a festa era dele... eu só estava "pegando uma carona" (embora todos jurassem de pé junto que isso não era verdade). Está certo que ganhava muitos presentes - e sempre muita coisa boa e que me alegrava muito. Mas sempre ficou aquela tristeza de não ter minha própria festinha lá no nosso bairro, comemorando com meus amiguinhos, coleguinhas de escola, vizinhos queridos, etc. Por quê não poderia ser assim? Simplesmente porque, nesse caso, a família não estaria presente, já que meu tio não abriria mão de sua festa e todos teriam que optar, pois não podiam estar em dois lugares ao mesmo tempo. E a escolha, é fácil de adivinhar... meu tio, é claro, afinal, ele "nasceu primeiro", já era aniversário dele quando nasci, a data "já tinha dono". Daí mamãe dizer que "nasci no dia errado", pois já estava "ocupado", e por uma pessoa que não abriria mão de sua festa. E ainda havia o agravante da prima que era a queridinha de todos, só alguns meses mais velha do que eu. Ela morava na zona sul, e o pessoal de lá é conhecido por começar o dia mais tarde e ter vida noturna. Assim, era quase sempre a última a chegar na festa. Só que, enquanto ela não chegava, todos só ficavam me perguntando "onde está sua prima?? Onde está sua prima? Que demora!!", como se ela é que fosse a outra aniversariante. E quando finalmente chegava, TODOS BATIAM PALMAS!!! Exultavam de alegria. Eu estava sempre em segundo plano. Além dos presentes, havia outra coisa agradável na festa: os salgadinhos e doces eram deliciosos. Para não se darem ao trabalho de ficar servindo os inúmeros convidados (o apartamento, de três quartos, ficava apinhado, pois é uma família bem grande), as tias fingiam que era "um grande privilégio" servir... e delegavam essa tarefa a mim e minha prima. Ou seja, era serviçal na minha própria festa de aniversário! E havia algo pior: as tias diziam que era muito mal educado ficar se servindo antes de servir todos os convidados. E, então, lá ia eu com as bandejas cheias de croquetes, empadinhas e outros salgadinhos apetitosos e tinha que me limitar a ficar olhando e servindo... e vendo as bandejas ficarem vazias sem conseguir provar coisa alguma! De vez em quando me rebelava contra isso e, enquanto servia, ia me servindo também, mas as tias me chamavam a atenção, era muita falta de educação fazer isso (vejam bem, eu tinha quantos anos? 5, 6, 7....). Além dos empurrões que recebia na hora do "parabéns", o que mais me doía era quando chegavam amigos do tio, muitas das vezes colegas de trabalho, e que não tinham a menor idéia de que havia outro aniversariante. Aí vinham me pedir desculpas, totalmente sem-graças, por não ter me trazido um presente. E isso acontecia com frequência.
Na adolescência, resolvi me rebelar contra essas festas "compartilhadas" e bati pé firme dizendo que queria ter minha própria festa, no nosso apartamento, e convidar minhas amiguinhas da escola. Que me importavam os parentes com os quais, aliás, nunca tive grandes afinidades? Mas era uma verdadeira "guerra". Então, por um tempo, o tio resolveu inverter as posições e vir comemorar o aniversário comigo. Mas a coisa não mudou muito de figura, pois quando minhas coleguinhas chegavam e me davam o presente, me abraçavam, etc, tanto o tio quando os demais parentes vinham logo avisando que ele também era aniversariante e que também lhe deviam dar os parabéns (pelo menos ele não fazia tanta questão dos presentes!!! Queria mesmo é atenção!). A mesma coisa na hora do bolo, não havia dois, só um para mim e só uma velinha... que era acesa duas vezes pois cantávamos duas vezes. Melhorou um pouco, mas isso ainda me incomodava pois continuava tendo a impressão de que a data não era minha, que estava condenada a ter que compartilhá-la para sempre e nunca ser o "centro das atenções", a "rainha por um dia". Creio que só mesmo a festa de quinze anos foi "mais minha do que dele" (até por razões óbvias, não ficava bem uma pessoa já sessentona passar por debutante né, ainda mais sendo homem!). Mas, meus pais não tinham condições de me proporcionar uma festa como as que praticamente todo mundo tem (quer dizer, as garotas do meu tempo tinham, pois as de agora, na maioria, preferem uma viagem à Disney...). As tias disseram que se encarregariam de tudo: marcaram a Missa. Minhas colegas de escola tiveram convite, vestido de baile, entraram na igreja de braços com os pais ao som de órgão, ficaram lá na frente, na Missa, numa igreja toda iluminada e cheia de flores, e depois festa em salões, com direito até a garçons e valsa. Meu aniversário cái na Quaresma, então as igrejas não podem estar decoradas. Foi uma "Missa comunitária", e, embora meu vestido fosse de "boutique-de-madame-não-sei-das-quantas - sempre indicação das tias", não era naquele estilo "vestido de noiva" das colegas e, de qualquer jeito, parecia ridículo numa Missa onde eu não teria nenhum destaque. Nem no primeiro banco pude sentar, pois era o lugar reservado aos jovens que tocavam violão e cantavam na Missa. E a festa foi só um bolinho em casa, para alguns amigos e parentes. Todos tiveram álbuns de fotografias, com capas de madrepérola, eu tenho umas três fotos tirada numa máquina velha de papai que estava com o flash quebrado. Estão embaçadas e meio tremidas, e nem são da festa nem da Missa, só em pé, do lado de fora do prédio, pois havia mais luz. Meus pais não tinham culpa de serem pobres, mas as tias e tios eram bem abastados e "bancavam" muitos outros sobrinhos... deram uma desculpa totalmente esfarrapada para não me proporcionarem uma festa melhor. Acho que foi despeito do tio, pois desta vez não poderia roubar a cena. De qualquer jeito, não houve propriamente cena...
Quando comecei a faculdade, resolvi então me livrar de vez do tio nos meus aniversários, arranjando uma desculpa qualquer. Algumas vezes recebia os amigos lá em casa para uma festinha, mas dizia a ele que ía sair. Outras vezes saía mesmo, com os amigos. Aí o tio teve uma "brilhante" idéia, resolveu ficar insistindo que queria também sair com a gente, que até pagava o bar ou restaurante para todos. E insistia sem parar, ligando várias vezes durante o dia. Que coisa mais estapafúrdia, imagine eu sair com colegas de faculdade, tudo na faixa de 19-20 anos, e meu tio, a essas alturas já com com quase setenta lá no meio da garotada, repetindo que o aniversário também era dele e reclamando os devidos cumprimentos e "parabéns". Era só o que me faltava! Como ele insistisse muito, certa vez, sempre dizendo que pagaria todos os gastos se eu deixasse que ele fosse junto, menti dizendo que, na verdade, não sairia com os amigos, mas sim com um namoradinho... aí não ficava bem ele ficar "segurando vela", não é. Aceitou e não insistiu mais, mas não creio que tenha se conformado. Por quê não comemorava com os parentes, como sempre fez? Por quê essa insistência em "sabotar" meu aniversário, mesmo à custa de não receber em casa os parentes tão queridos por ele e pelas tias? Creio que se tornou uma obsessão para ele deixar claro que o dia era dele, que eu tinha mesmo nascido no dia errado. Alguns anos mais tarde, já na faixa dos trinta, resolvi enfrentar mesmo, decretar uma guerra, fazer a família tomar uma posição. Ou eu, ou ele! Deixava ele marcar a festa, e depois anunciava que também teria a minha... e que os parentes e amigos escolhessem para onde iriam. Foi uma situação bastante incômoda, até mesmo para meus pais (que se alternavam indo visitar meu tio pela manhã e à tardinha para ficar comigo à noite). No mais, não havia muita dúvida nem conflitos, a opção óbvia era meu tio, pois praticamente todos lhe deviam alguma coisa (ou aos outros tios e tias, que pagavam faculdades dos sobrinhos, davam apartamentos, carros, etc, contanto que se fosse bem puxa-sacos). Até meu irmão e família iam festejar o aniversário dele e, acabada a festa, faziam-me uma "visita relâmpago" pois, de qualquer jeito, era caminho na volta para casa. Isso, é claro, acabou me magoando ainda mais, principalmente depois que me afastei das "turminhas legais" das faculdades... acabava saindo com um dos meus amigos pois não queria ficar em casa esperando visitas que nunca chegariam e que ligariam dando uma desculpa qualquer (minhas tias chegavam a "ameaçar" quem não fosse na festa de meu tio - e faziam isso também no Natal e outras comemorações - ligando para todos e dizendo que, quem não fosse, "estaria de relações cortadas com elas". Conforme disse, todos "deviam" e, por isso, ninguém queria arriscar, seja por medo de não conseguir mais nada no futuro, seja por medo de perder o que tinham conseguido, seja por receio de passarem por ingratos). Ou, talvez, gostassem mesmo mais dele do que de mim, nunca fui uma pessoa, por assim dizer, "agradável". Não puxava o saco de ninguém, não concordava com as pessoas só para agradar, falava boas verdades quando necessário, e isso incomodava muita gente...
Depois, simplesmente resolvi me considerar vencida. Que esquecessem do meu aniversário por completo, incluindo meus pais, que apagassem o dia do calendário, que rasgassem minha certidão de nascimento. Quem me desse parabéns seria xingado, não queria mais saber de nada. O aniversário era dele, pronto, assunto encerrado, eu me rendia, devolvia-lhe o dia, finalmente. Mas, obviamente, só dizia isso da boca pra fora e me sentia triste e aborrecida quando as pessoas me levavam a sério e, realmente, ignoravam meu aniversário. Isso foi um pesadelo que durou a vida inteira. Agora esse tio já é falecido, assim como muitos outros parentes, moro num país distante e tenho meu marido, filho e cachorro para comemorarem comigo. Mas já estou ficando velha, não ligo mais tanto para essas coisas e agora, para mim, o mais importante aniversário é, obviamente, o do meu filho. Ainda é agradável, principalmente agora que Joseph já entende melhor as coisas e fica todo animado de fazer uma surpresa pra mamãe, preparar a mesa, cantar o parabéns, fico feliz de ver o entusiasmo dele, mas o tempo que passou não volta mais, a alegria que não tive quando criança, nunca mais terei, o dia continua não sendo meu, de certa forma... Mais uma vez, é preciso lutar com todas as forças para não alimentar ressentimentos, ainda mais de pessoas que já nem estão entre nós (rezo por elas diariamente). Devo ser como a Alice do País das Maravilhas, tenho que festejar os "desaniversários"...
No final, tanto o robô-menino David quanto eu, conseguimos ter um aniversário. Mas o dia chega ao fim, e a mãe vai dormir... para sempre. David deita-se a seu lado e também dorme pela primeira e última vez na vida. Como diz o filme, pela pela primeira vez, ele vai para onde nascem os sonhos. O final nos deixa pensativos, cabisbaixos, é o filme da nossa vida que se desenrolou na tela. Não há quem fique indiferente. Já comentei que vivi por toda a vida com pavor de que meus pais morressem. Certa vez, no auge do desespero, pensei que tinha resolvido a questão: quando eles se fossem, eu me mataria, assim iríamos todos juntos, não teria que suportar a vida sem eles que, para mim, era totalmente sem sentido. David adormece com Monica, mas eu sigo o meu caminho, tentando enfrentar meus medos de perder os entes queridos e de, um dia, ter que me juntar a eles num mundo que, mais ou menos como nos diz Shakespeare em Hamlet, pode trazer sonhos ou somente o nada. Mas não percamos a fé nem a esperança, para que não caiamos no desespero que não leva a nada.