À falta de melhor inspiração para a realização dos chamados “filmes de acção” a indústria cinematográfica tem-se voltado ultimamente para o universo da banda desenhada e dos jogos de computador, adaptando para o cinema alguns dos seus personagens mais famosos e que consideram ser capazes de vir a gerar grandes “blockbusters”, ou seja, filmes com o objectivo de, acima de tudo, proporcionarem grandes lucros nas bilheteiras.
Os resultados em termos práticos têm, na sua maioria, e na nossa opinião, deixado muito a desejar, nomeadamente em termos de qualidade de argumento e de caracterização de personagens, ou seja, aquilo que um filme de qualidade deve ter antes de tudo para não se limitar a ser apenas algo com que os espectadores se entretenham durante o tempo de projecção do filme, mas que após o cair do pano rapidamente se esquecem sem deixar grandes recordações.
No entanto, como este tipo de filme é igualmente acompanhado por gigantescas campanhas de marketing em que os objectos e situações mais inverosímeis servem para promover uma coisa que em si pouco conteúdo tem a não ser um desfilar de efeitos especiais, o que até é bem natural, ou não fossem eles versões de jogos de computador com alguma carne e osso à mistura.
E como os resultados de bilheteira estão desta forma assegurados, adivinham-se logo à partida que num curto espaço de tempo surgirá um novo capítulo, a inevitável $equela…
Resolvemos este mês pegar em três filmes que se encaixam facilmente no perfil que antes descrevemos e que pecam, com maior ou menor intensidade, pelos mesmos defeitos:
Constantine (“Constantine”; Francis Lawrence, 2005)
Baseado numa personagem de banda desenhada, “Constantine” conta a história de um detective com poderes sobrenaturais, condenado a vigiar a fronteira entre o Céu e o Inferno.
Este filme como referimos acima não passa de uma tentativa falhada, disso mesmo. Logo pelas cenas iniciais, percebe-se que vai deixar muito a desejar: parece-nos uma enorme falha o começar um filme praticamente copiando outro, já que o início de “Constantine” é uma cópia quase fiel de uma das cenas mais clássicas de “O Exorcista”. Para além desse detalhe óbvio, peca ainda por um argumento com algumas ideias mas que acabam por não ter grande efeito prático e interpretações muito pouco convincentes, nomeadamente do protagonista, Keanu Reeves.
Resident Evil 2: Apocalipse (“Resident Evil: Apocalypse”; Alexander Witt, 2004)
A já esperada continuação de “Resident Evil”, filme decalcado do famoso jogo com o mesmo nome acaba por revelar-se mais um filme para “encher chouriços”, como costuma dizer-se: muita acção e efeitos especiais e uma história muito mas mesmo muito fraca e mal conseguida, muitos furos abaixo do filme anterior, que sempre conseguia criar uma atmosfera mais interessante e de maior tensão. Os pontos negativos são mais que muitos, pelo que achamos que nem vale a pena gastar mais linhas a falar deste filme. “Resident Evil 2: Apocalipse” está já disponível em dvd, assunto encerrado.
Elektra (“Elektra”; Rob Bowman, 2005)
Elektra, a personagem que os espectadores já conheciam de “Demolidor” tem agora direito a ser protagonista de uma nova história centrada em si. A habitualmente fria e impiedosa assassina acaba por desenvolver uma relação de amizade com uma adolescente e o seu pai, sem saber à partida que estes constituem a sua nova missão (ou seja, as suas próximas vítimas), passando a ser a sua protectora das insistentes tentativas que uma organização secreta faz para os eliminar.
Dos três filmes aqui referidos parece-nos ser sem dúvida o mais bem conseguido, nomeadamente a nível de argumento; Não sendo também nada de muito especial ou arrebatador, mas já tem algum conteúdo, envolvendo um pouco mais o espectador na trama que se vai desenrolando, o que é assinalável. Efeitos especiais q.b. e final em aberto, podendo desde já adivinhar-se que vem por aí a sequela…
A partir deste número podem os leitores do Notícias de Arronches contar com um novo espaço designado “Projector” onde se irá falar sobre cinema, procurando sugerir mensalmente aos leitores o visionamento de alguns filmes que nos pareçam mais interessantes entre todos aqueles que vão sendo estreados na altura.
Procurar-se-á mais do que criticar dar uma ideia daquilo com que o espectador poderá contar ao deslocar-se a uma sala de cinema ou ao alugar/comprar um filme em formato dvd para ver em sua casa, uma vez que procuraremos analisar filmes que estreiam a nível nacional, filmes que sejam exibidos no mês em questão no Auditório do Centro Cultural de Arronches, bem como filmes que sejam nessa mesma altura editados em dvd.
Nesta primeira edição, por razões de diversa ordem, iremos apenas falar de um filme que estreou este mês nas salas de cinema nacionais: “SAW-Enigma Mortal (“Saw”; James Wan, 2004).
Estamos perante um “thriller” de altissima qualidade, com duração de 100 minutos. Este filme desenrola-se em torno de um assassino em série, que pretende à sua maneira perversa dar algumas lições de moral.
Acompanhamos o drama de dois homens que acordam acorrentados numa casa de banho, com um cadáver por companhia e um desafio para superar: um deles dispõe de apenas algumas horas para matar o outro, ou ambos morrerão ali mesmo.
Embora a acção do filme apresente algumas semelhanças com “Seven-Sete Pecados Mortais” (“Se7en”; David Fincher,1995) a historia é intrigante, enigmática e bastante bem conseguida, de tal forma que o espectador pode esperar por surpresas mesmo até à surpreendente cena final, já para não falar de diversos planos no mínimo arrepiantes ao longo de todo o filme, pelo que se aconselha alguma prudência a pessoas mais sensíveis a cenas muito “explícitas”.
Um filme com realização de James Wan e participação como actor do próprio argumentista, Leigh Whannell.
Se for apreciador deste género de filmes não deixe pois de ver “Saw-Enigma Mortal”!