| Tocandira
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"O Contrato Social" de Rousseau
O homem da natureza
Tendo em vista que as idéias provêm dos sentidos, Jean
Jacques Rousseau poderá afirmar que também os animais
possuem idéias chegando até mesmo a combiná-las. Nesse
ponto o homem "só se diferencia da besta pela
intensidade" de idéias que possui. Mas há outra
distinção entre homem e animal, que é a
"faculdade de aperfeiçoar-se". Enquanto o
homem, através dessa faculdade, desenvolve durante sua
vida uma série de outras, o animal, depois de alguns
meses, "é o que será por toda a vida."
Portanto, para o homem selvagem, a natureza só lhe
oferecia o instinto. "Perceber e sentir será seu
primeiro estado", tem conhecimento apenas de alguns
bens e teme alguns males. "Os únicos bens que
conhece no universo são a alimentação, uma fêmea e o
repouso, os únicos males que teme, a dor e a fome."
Poucas coisas ele conhece e poucos são seus desejos, por
isso não tem necessidade de raciocinar. Isto é, para
tanto seria necessário desejar usufruir de alguma coisa,
e como poderia ele desejar se tudo o que precisava a
natureza lhe oferecia? E ainda, como poderia desejar ou
temer o que não conhecia? "Só se conhecia e se
desejava o que se encontrasse ao alcance da mão, de tal
forma que, ao invés de aproximar o homem de seu
semelhante, suas carências afastavam-nos. (...) Assim,
errante nas florestas, sem fala ou domicílio fixo, sem
necessidade do outro e sem desejo de prejudicá-lo, o
homem primitivo, sujeito a raras paixões, tinha somente
'sentimentos' e 'luzes' próprias a seu estado; sentia
apenas necessidades verdadeiras, só olhava o que
acreditasse ter interesse em ver e, assim, nem a
inteligência nem a vaidade desenvolviam-se."
É nesse estado que se encontrava o homem da natureza.
Disperso pela floresta, não percebendo a distinção
entre ele próprio e as coisas que o cercavam, não tinha
consciência do próprio ser e de seu relacionamento com
o mundo.
O homem natural
Os homens uniram-se, primeiramente, em bandos e
associações livres, todavia essas associações duravam
somente enquanto havia necessidade. A língua universal
era composta por gritos inarticulados, muitos gestos e
ruídos imitativos. Decorreram-se centenas de séculos;
quanto mais o homem esclarecia o espírito, mais se
aperfeiçoava. Abandonando as cavernas constróem
choupanas de ramos. A convivência numa mesma habitação
de homens e mulheres, pais e filhos, faz nascer no homem
um sentimento de amor conjugal e amor paterno.
Nas regiões frias os homens "reuniam-se em torno de
uma fogueira comum, aí se fazem festins, aí dançam. Os
agradáveis laços do hábito aí aproximam,
insensivelmente, o homem de seus semelhantes e, nessa
fogueira rústica, queima o fogo sagrado que leva ao
fundo do coração o primeiro sentimento de
humanidade." O mesmo acontece em regiões quentes,
onde as fontes são pontos de encontros e reuniões. O
homem, tendo contatos através da fonte, com as moças,
sentiam-se atraídos um pelo outro. "Olhos
habituados desde a infância aos mesmos objetos, uma
atração desconhecida tornou-os menos selvagem,
experimentou o prazer de não estar só (...)
Acostumaram-se gradativamente uns aos outros e,
esforçando-se por fazer entender-se, aprenderam a
explicar-se."
O
homem social
No estado natural a propriedade e os animais eram os
únicos bens reais do homem e isto não gerava a
desigualdade. A propriedade nasceu da mão-de-obra. O
trabalho garantia ao agricultor o produto da terra até o
final da colheita. Como as colheitas se sucediam
tornava-se a terra propriedade.
A desigualdade desenvolve-se com a produção, que no seu
estado natural era para subsistência, passando depois, o
excedente a ser comercializado. Isso gera os ricos e
pobres, a dominação e a servidão. Os homens passam a
produzir excedentes não mais para desfruta-los, mas para
que isso lhes possibilite a aquisição de bens futuros.
Esses interesses particulares formavam a essência do
estado de guerra que produziu efeitos como ricos e
pobres, fortes e fracos, senhores e escravos. Assim se
fez necessário o surgimento da sociedade para apaziguar
essas lutas, constituindo-se um interesse comum.
Porém, serão os ricos que irão propor aos pobres uma
união, pois não viam outro modo de livrar-se dos
pobres, senão empregando a força deles a seu favor.
Propuseram então a instituição de regulamentos de
justiça e paz com os quais todos os ricos e pobres
concordassem. Porém, tais regulamentos serviram apenas
para oprimir ainda mais os fracos e garantir a
propriedade privada. Destruiu-se a liberdade natural e
fixou-se para sempre a lei da propriedade e da
desigualdade; "daí por diante todo gênero humano
foi sujeitado ao trabalho, à miséria e à
servidão". |