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"Filosofar é reaprender a ver o mundo"

   
Maquiavel

 

              Maquiavel (1469-1527) nasceu em Florença. Em seu tempo a Itália era toda dividida em principados, onde cada um possuía seu próprio "exército". Esses principados, fracos diante de Estados Europeus poderosos, são geralmente invadidos. Com isso toda a Itália vê-se ameaçada pelos estrangeiros.

              É com a finalidade de unificar a Itália, tornando-a um país forte, que Maquiavel escreve "O Príncipe".

              Ao contrário de Platão, Aristóteles, Santo Agostinho ou Tomás de Aquino, que constróem modelos ideais de bons governantes e de uma sociedade justa, Maquiavel funda a "ciência política" que vai procurar a verdade efetiva, ou seja, "como o homem age de fato" e não "como ele deve agir". Essas são boas teorias políticas, mas a prática é sempre outra bem diferente. Maquiavel simplesmente fez da prática uma teoria. Em seu livro ele expõe "o que se faz e não se costuma dizer".

              Assim no livro "O Príncipe" Maquiavel funda uma nova moral centrada nos critérios de avaliação do que é útil à comunidade: moral é o que visa o bem da comunidade. Nesse sentido às vezes é legítimo o recurso ao "mal" ( o emprego da força pelo Estado, o recurso à guerra, a prática de espionagem, o emprego da violência e etc...)

 

 

"O Príncipe" de Maquiavel

 

                      As Formas de se Chegar ao Poder

 

              O Poder conquistado pela violência

 

              Maquiavel expõe duas maneiras para se tornar príncipe: "Chegar ao principado pela maldade, por vias celeradas, contrárias a todas as leis humanas e divinas; e tornar-se príncipe por mercê do favor de seus conterrâneos." (pág.35)

              Para a exposição do primeiro modo Maquiavel apresenta dois exemplos, os quais não descreverei aqui, mas que são na essência o seguinte: Tendo alguém conquistado um principado pela violência e sem favor de ninguém, deverá  eliminar de um só vez todos aqueles homens poderosos e ricos que provavelmente viriam a lhe prejudicar. Maquiavel insiste em dizer que,"ao apoderar-se dum Estado, o conquistador deve determinar as injúrias que precisa levar a efeito, e executá-las todas de uma só vez, para não ter que renová-las dia a dia. (...) E, os benefícios devem ser realizados pouco a pouco, para que sejam mais bem saboreados."  O príncipe deverá  ainda viver com seus súditos e somente assim "poderá incutir confiança nos homens e conquistar-lhes o apoio beneficiando-os."(pág.38)

 

              O poder conquistado pelas eleições

 

              Para se chegar ao poder pelo segundo modo há ainda outra distinção: ou se chega pelo favor do povo ou pelo favor dos mais ricos. Maquiavel faz questão de enfatizar essas duas "tendências" afirmando que existem em todas as cidades, pois enquanto os grandes querem oprimir o povo, este, no entanto, quer somente não ser oprimido pelos grandes.

              Tendo em vista o domínio do povo, como já foi dito, os ricos se unem, escolhem um representante e o fazem príncipe. Este, apesar de satisfazer os interesses de sua classe e consequentemente oprimir o povo, não terá autoridade suficiente para governar, pois aqueles que o colocaram no poder parecem ser seu igual e, portanto, nada pode fazer além da vontade deles. Este príncipe deverá se guardar contra qualquer ataque daqueles que ali o colocaram porque os grandes muito facilmente se ofendem quando não estão de acordo com qualquer atitude deliberada do príncipe. Deverá então, tal príncipe, logo que tomar o poder, procurar a amizade do povo. Conforme Maquiavel, "ser-lhe-á fácil isso, uma vez que se tenha ocupado em protegê-los." (pág.40) Porque os homens, quando recebem algum benefício de quem só esperavam o mal ficam logo mais amigos.

              Com muita facilidade se manterá no poder aquele que for eleito pelo povo. O príncipe apesar de assim eleito deverá temer ao povo e aos grandes, porque estes constituem a minoria, mas são astutos e traiçoeiros, aqueles apenas o abandonarão, mas como são muitos, são as vezes imprevisíveis. Portanto, basta a este príncipe não deixar o povo ser oprimido pelos grandes e manter sempre a confiança do povo e assim, "jamais será enganado por este e verá que reforçou os seus alicerces." (pág.4l)

              Deve-se fazer sabedor os príncipes, tanto os eleitos pelo povo quanto os eleitos pelos grandes, que não poderá conservar como amigo aquele que o colocou no poder, pois nunca satisfará  o que desejavam que fizesse. Por outro lado não poderá usar de força contra eles, pois, além de ter certas obrigações para com eles, poderá necessitar de seus favores.

              Ainda mais: supondo melhorar o Estado atual, os homens mudam de senhor quando quiserem e para isso são capazes de "tomar armas contra o senhor atual." Mas o príncipe, por mais cruel que seja, não sendo odiado pelo povo, não deverá  temer tais revoltas e por isso Maquiavel finaliza um dos capítulos de seu livro dizendo: "Concluo, portanto, afirmando que a um príncipe pouco devem importar as conspirações se é amado pelo povo, mas quando este é seu inimigo e o odeia, deve temer tudo e a todos. Os Estados bem organizados e os príncipes prudentes preocuparam-se sempre em não reduzir os grandes ao desespero e satisfazer e contentar o povo, porque essa é uma das questões mais importantes que um príncipe deve ter em mente." (p g.79)

 

                      Da Atitude do Príncipe Para Com o Povo

 

              Um príncipe deve desejar ser sempre tido como piedoso e não como cruel. Contudo, não deverá  se importar com a fama de cruel desde que mantenha o povo unido. Portanto, um príncipe deve agir moderadamente para não causar demasiada confiança nem tampouco excessiva desconfiança.

              Conforme Maquiavel: "Nasce daí esta questão debatida: se será  melhor ser amado que temido ou vice-versa." (p g.70) Ele próprio respondendo a essa questão diz ser tão difícil reunir ao mesmo tempo as duas qualidades, que será  melhor, então, ser temido. O príncipe haverá  de tomar ainda o cuidado para não ser odiado pelo povo, o que para Maquiavel é muito fácil se evitar: basta ao príncipe não se apoderar dos bens e das mulheres de seus cidadãos e se necessário for, poderá até derramar sangue de alguns, sem que isso cause ódio, pois conforme afirma Maquiavel, "os homens esquecem mais depressa a morte do pai do que a perda de seu patrimônio."

              O príncipe deverá  procurar evitar ser odiado pelo povo. Agindo assim estará  seguro em seu posto e em sua vida, pois pode-se dizer que o não ser odiado é uma arma contra as conspirações porque "quem conspira julga sempre que vai satisfazer os desejos do povo com a morte do príncipe; se julgar, porém, que com isso ofenderá o povo, não terá  coragem de tomar tal partido, porque as dificuldades com que os conspiradores teriam que lutar seriam infinitas." (p g.78)

              Maquiavel lamenta o fato de haver príncipes que não se preocupem "com o fato de serem odiados pelo povo." Falando sobre as defesas e fortificações que um príncipe deveria adotar ou não, diz: "Mas ainda a melhor fortaleza que possa existir é o não ser odiado pelo povo, pois que, se tiveres fortificações e fores odiado por ele, elas não poderão salvar-te, pois não faltam nunca aos povos rebelados príncipes estrangeiros que desejem ajudá-los." (p g.90)

              Sabendo, portanto, que a crueldade pouco importa e que o que importa realmente é não ser odiado, o príncipe deverá  saber ainda "parecer ser efetivamente piedoso, fiel, humano, íntegro e religioso" mesmo que não possa, devido às circunstâncias, ser nenhuma dessas coisas. Pois um príncipe sendo forçado a agir contra a caridade, a fé, a humanidade e a religião nunca será julgado em tribunal por tais feitos, pois o que importa é o êxito bom ou mau. E mesmo tendo a minoria observado tais crueldades contrapondo à sua aparente bondade, nada conseguirão, "porque o vulgo é levado pelas aparências e pelos resultados dos fatos consumados, e o mundo é constituído pelo vulgo, e não haverá lugar para a minoria se a maioria não tem onde se apoiar." (p g.75)

 

                        (Texto elaborado a partir do livro "O Príncipe" de Maquiavel

                                              da coleção Os Pensadores)

 
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