| Tocandira
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Senso comum e reflexão
A filosofia surge na Grécia fundamentada na
investigação, que se faz possível somente por
intermédio da razão. Surge independente da tradição,
do costume e de qualquer crença. O homem não possui a
sabedoria, cabe-lhe buscá-la. Por isso o nome
Filo-sofia, amor à sabedoria. Esse nome supõe que o ser
humano não possui a sabedoria (sofia), mas está sempre
a procurá-la, a perseguí-la. A filosofia é pois a
busca constante do saber, através da razão.
Mas, há um saber que não necessita ser procurado, pois
é um saber que adquirimos em nosso cotidiano. É o saber
adquirido sem esforço algum, espontaneamente. É todo
aquele saber que nos é dado pelos sentidos (visão,
tato, olfato, paladar e audição). É também todo
aquele saber que nos é dado pela força do hábito,
pelos costumes ou tradições. É um saber necessário
para nossa sobrevivência, porém é um saber
não-refletido. É a todo esse saber que se chama de
senso comum. Por exemplo: sabemos que o fogo queima; que
a água apaga o fogo; que um objeto grande é sempre mais
pesado do que um objeto pequeno; sabemos que precisamos
trabalhar, estudar, casar, ter filhos e etc.... São
conhecimentos que obtemos do mundo exterior que podem ser
verdadeiros, mas também podem não passar de impressões
falsas da realidade.
Habituamo-nos a ver, todos os dias, o Sol nascendo no
leste e se pondo a oeste. Esse fato observado pela visão
leva-nos a ter a impressão de que realmente o Sol gira
em torno da Terra. Até o século XVII toda humanidade
aceitou a teoria Geocêntrica como verdadeira baseada
naquilo que a experiência lhe mostrava. A contestação
dessa teoria e sua posterior substituição pela teoria
Heliocêntrica só foi possível devido aos gênios de
Nicolau Copérnico, Giordano Bruno e Galileu Galilei.
Estes procuraram provar que o Sol que todos viam se
movendo estava na verdade parado e que a Terra que todos
percebiam parada, na verdade, movia-se.
Portanto, o conhecimento que adquirimos pela nossa
experiência diária pode nos fornecer apenas certas
impressões e opiniões da realidade. São conhecimentos
irrefletidos, ou seja, aqueles conhecimentos que achamos
verdadeiros apenas por força do hábito. Conhecimentos
que só podem conduzir-nos à verdade se refletidos. Por
isso não devemos ignorá-los como se não tivessem valor
algum. Tais conhecimentos, tais experiências passam a
ter valor a partir do momento em que começamos a
raciocinar. Somente a reflexão poderá nos dar a certeza
de algo, sobre o qual possuíamos apenas certa impressão
ou opinião. Refletir, portanto, é interrogar-se sobre
aqueles conhecimentos tidos como evidentes pelo senso
comum. Refletir é problematizar aqueles conhecimentos
tidos como óbvios pelo senso comum. Refletir é
questionar aqueles conhecimentos tidos como verdades
incontestáveis pelo senso comum. Enfim, a reflexão
ocupa-se de todo conhecimento do senso comum submetendo
os dados da experiência ao raciocínio. |