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"Filosofar é reaprender a ver o mundo"

   

  Immanuel Kant

Origem e começo

“Mas embora todo o nosso conhecimento comece com a experiência, nem por isso todo ele se origina justamente da experiência.”  

É  muito comum passarmos nossos olhos (sem determinação subjetiva) ou tocarmos em algo sem que tenhamos percebido um determinado objeto. Pode-se dizer que isso aconteça freqüentemente, mesmo que já tenhamos conhecimento de um certo objeto e, mais ainda, quando não o conhecemos. Por mais que os nossos sentidos toquem tais objetos não os percebemos nem mesmo os reconhecemos como existentes.

Admito que Kant não esteja muito preocupado com isso. Mas, em todo caso, em mim, pelo menos, tal colocação serviu como início de uma reflexão. Na verdade isso é uma curiosidade que há muito me persegue e que agora Kant parece cutucar, a saber: se é o objeto que provoca nossa sensação (desse modo todo objeto possuiria um sentido próprio e apenas por abstração nós o definiríamos) ou se somos nós que percebemos o objeto, de alguma maneira, quando e como queremos (dessa forma o objeto só teria sentido na medida em que nós o definíssemos). Ao mesmo tempo em que essa formulação parece estar ligada de alguma forma ao pensamento de Kant, parece também estar um pouco distante dele. Em todo caso tentemos nos aproximar mais do pensamento de Kant verificando a questão do começo e da origem do conhecimento que a meu ver pode ser colo­cada da seguinte maneira: 

Quando vemos, ou melhor ainda, quando temos em mãos um objeto totalmente desconhecido, podemos dizer que nele reconhecemos, pela experiência, somente algumas propriedades como: a dureza, o peso, a cor, etc... Contudo, para sabermos ou termos ciência do que seja um objeto necessitamos de conceitos, que nos são fornecidos pelo entendimento. Esses conceitos são: força, substância, divisibilidade e etc... Não há dúvida, portanto, de que todo nosso conhecimento a respeito de tal objeto começou com a experiência, pois foi com a experiência, através da nossa sensação que pudemos obter todos aqueles primeiros dados do objeto. No entanto, conforme Kant, esse conhecimento não teve origem na experiência. A origem de todo conhecimento foi a priori. Voltando um pouco ao início, quando possuíamos o objeto desconhecido em nossas mãos, quando olhávamos para esse objeto não podemos negar que já aí o reconhecíamos como sendo algo. Ou seja, antes mesmo de começarmos a conhecer o objeto, já possuíamos as condições que possibilitavam a existência de um tal objeto, que não deixava de ser completamente desconhecido para nós. E, conforme Kant, essas condições que possibilitam a existência do objeto, são em verdade o que nós mesmos colocamos nele, isto é, conforme as próprias palavras de Kant, “das coisas conhecemos a priori só o que nós mesmos colocamos nelas”. A origem do conhecimento estará aí nessas condições de possibilidade dos objetos. 

Só foi possível percebermos um objeto desconhecido, na medida em que o colocamos num espaço e o reconhecemos como fora de nós. Resta dizer que quando digo que “o reconheço como fora de mim”, não quer dizer que reconheço o objeto em si mesmo, mas apenas o múltiplo desordenado que dele chega a mim. “Reconheço” também não é a palavra certa. Na verdade eu intuo o objeto como fora de mim. Porque o que “possuímos” a priori e que origina uma tal intuição é uma representação. Essa representação, que é a priori, e que possibilitará conhecermos o objeto (não como coisa em si, mas como fenômeno). Essa representação é também uma intuição pura que acontece, pode-se dizer, instantaneamente com a percepção do objeto. É ela que irá nos fornecer a forma do fenômeno, pois é ela mesma o espaço e o tempo. Portanto a origem do conhecimento de um objeto é totalmente independente da experiência, logo, a priori. É também necessária e universal, pois as representações a priori “encontram-se” em todos os indivíduos e não será possível obtermos representações a posteriori de objetos sem que tenhamos, necessariamente aquelas outras representações que possibilitam o conhecimento dos objetos como fenômenos.

 

              O campo da sensibilidade

Conforme Kant, do conhecimento brotam dois troncos, talvez até com a mesma raiz. São eles: o entendimento e a sensibilidade. Pelo entendimento pensamos os objetos, porém, o pensamento sempre se refere à sensibilidade. No momento, já que aqui pretendemos desenhar um quadro geral da “Estética Transcendental”, o que nos interessa é a sensibilidade, que é a fonte do conhecimento pela qual nos é dado o objeto. Melhor ainda, o que vai nos interessar aqui além da sensibilidade em geral, será mais particularmente a sensibilidade pura. 

A sensibilidade pura “contém” representações a priori e são essas representações que perfazem as condições sob as quais nos são dados objetos. Sim, porque tais representações contém, na medida em que os objetos nos sejam dados, intuições puras de espaço e tempo. A intuição é o meio pelo qual os objetos são representados. Aliás, o modo mais imediato pelo qual o conhecimento se refere aos objetos é a intuição. À intuição pura pertence a mera forma do fenômeno. Isto é, o objeto dado pela sensação é disforme, não tem nenhuma organização lógica. Somente com o a priori (espaço e tempo) é que o objeto dado torna-se uniforme. Contudo não é preciso que haja um objeto real da sensação para que tenhamos uma intuição pura, pois ela é a forma da sensibilidade que temos a priori na mente. Portanto, até aqui, não encontramos nada pertencente à sensação. 

Porém, na intuição sensível ou empírica tudo está mesclado de sensação. A intuição sensível “contém” a matéria do fenômeno (cor, dureza, peso, etc...), portanto, tudo que nos é fornecido a posteriori. A matéria do fenômeno é particular e contingente, ao contrário da forma do fenômeno que é universal e necessária. Essa intuição sensível também provoca representações em nossa sensibilidade e essas representações são chamadas por Kant de a posteriori, pois elas somente nos são dadas na medida em que os sentidos (interno e externo) ou a sensação nos forneçam o objeto dado.

 

              Idealidade transcendental 

O espaço e o tempo não são simplesmente um ideal. Como se disséssemos: espaço e tempo não estão nas coisas, mas no sujeito. Na verdade é isso,  mas é um pouco mais que isso. Essa idealidade; assim dita: idealidade do tempo e do espaço; seria uma idealidade que supostamente se aplicaria à coisa em si ou mesmo à representação (sentido empirista) do objeto dado. 

Ao contrário, quando Kant diz idealidade transcendental do tempo e do espaço, significa que o tempo e o espaço são necessariamente a priori e se relacionam aos fenômenos, mas nunca às coisas em si mesmas. Tempo e espaço são, portanto, condições subjetivas, não das coisas em si mesmas, nem dos objetos dados pelos sentidos (interno e externo) , mas condições subjetivas da nossa intuição. A subjetividade não é somente determinante ela é também determinada. É nisso que consiste o transcendental. Quer dizer, tempo e espaço são formas que são colocadas no objeto dado enquanto intuição. Na verdade não há intuição sensível sem objeto dado e vice-versa, mas acredito que a frase esteja cor­reta, pois pretende ressaltar que espaço e tempo são formas da intuição pura colocadas não no objeto dado enquanto sensação, mas no objeto dado enquanto intuição sensível. Essas formas, como são a priori, podem ser representadas antes mesmo dos objetos.

 

              Realidade empírica 

Não podendo conhecer as coisas em si mesmas, mas apenas os fenômenos, estes valem como objetivos. Isto é, se pudéssemos conhecer as coisas em si, esse conhecimento seria como se as coisas fossem muito bem interiorizadas por nós e, portanto, objetivas. Mas como só conhecemos os fenômenos, esse conhecimento tem somente validade objetiva. Por isso, tempo e espaço não são determinações objetivas, como se os fenômenos externos determinassem o tempo e o espaço. Se assim fosse, tanto o tempo quanto o espaço subsistiriam por si mesmos e não poderiam preceder os objetos como suas condições. Tanto é que, mesmo sendo a condição de possibilidade dos objetos, tempo e espaço não aderem aos próprios objetos, mas apenas ao sujeito que os intui. O dado bruto, se é que assim podemos dizer, é organizado pelo a priori, que é, na verdade, a condição formal desse dado bruto, ou do a posteriori. A realidade, portanto, conforme nos aparece, não é simplesmente uma construção nossa como uma ilusão, não é também simplesmente algo dado é o resultado de uma aplicação de formas a priori ao que é dado. 

Dizemos, portanto, realidade empírica do espaço e do tempo porque todos objetos dados pela sensação possuem validade objetiva. Aí consiste essa realidade, porque todo objeto dado pela sensação já está submetido à condição do tempo e do espaço.

 

              Breve comparação entre espaço e tempo 

“Todos os fenômenos em geral, diz Kant, são no tempo e estão em relação de tempo”. O tempo se relaciona tanto aos fenômenos externos quanto aos internos, o tempo é condição a priori imediata dos fenômenos internos e condição a priori mediata dos fenômenos externos. Daí Kant vai tirar outra conclusão: Que o espaço é condição a priori apenas dos fenômenos externos e o tempo a condição a priori de todos fenômenos em geral. Porque, no caso dos fenômenos internos, posso relacioná-los no tempo, mas não preciso do espaço para isso. Logo, o tempo tem um campo de ação mais amplo que o espaço.

 

              O campo do entendimento 

Como dissemos acima, nosso conhecimento provém de duas fontes: da sensibilidade que fornece o objeto e do entendimento pelo qual o objeto dado é pensado. O conhecimento surge da reunião dessas duas capacidades. O entendimento é radicalmente distinto da sensibilidade. Os conceitos pelos quais pensamos os objetos só são possíveis se acresci­dos de intuições. Por outro lado as intuições para serem compreensíveis devem conter os conceitos do entendimento. “Intuições e conceitos constituem, pois, os elementos de todo o nosso conhecimento, de tal modo que nem conceitos sem uma intuição de certa maneira correspondente a eles nem intuição sem conceitos podem fornecer um conhecimento.” Podemos dizer, portanto, que enquanto a sensibilidade fornece a matéria do conhecimento o entendimento fornece a sua forma. Assim é que na ausência de um conteúdo dizemos de um conhecimento que é vazio. O  conteúdo é aquilo que a intuição traz para a forma do conceito. Somente a intuição refere-se imediatamente ao objeto, o conceito por sua vez refere-se imediatamente à representação do objeto. Tendo em vista que o entendimento se utiliza de tais conceitos para julgar através deles, Kant conclui que o juízo é o conhecimento mediato de um objeto pois é uma representação de uma representação do objeto. Kant reduz dessa forma todas ações do entendimento a juízos e diz que o entendimento em geral pode ser representado como faculdade de julgar. 

Os conceitos puros do entendimento seriam vazios sem uma matéria, sem o múltiplo da intuição pura a priori, contidos no espaço e no tempo. Kant chama de síntese a essa ligação entre a matéria vinda da sensibilidade e a forma vinda do entendimento. A síntese, conforme ele, é “a ação de acrescentar diversas representações umas às outras e de conceber a sua multiplicidade num conhecimento.”  

É nisso que parece consistir a lógica transcendental, pois, conforme Kant, essa lógica reporta a síntese pura das representações a conceitos. Assim, “o primeiro e1emento que nos tem que ser dado a priori para o conhecimento de todos os objetos é o múltiplo da intuição pura; a síntese deste múltiplo, mediante a capacidade da imaginação, constituí o segundo elemento, mas sem dar ainda um conhecimento. Os conceitos que dão unidade a esta síntese pura, e que consistem apenas na representação desta unidade sintética necessária, constituem o terceiro elemento para o conhecimento de um objeto que aparece, e repousam no entendimento.” Tais conceitos puros originários da síntese constituem as categorías. A categoria da quantidade, por exemplo, assim como todas as outras, possui três elementos: unidade, pluralidade e totalidade.  O conceito de um número, como por exemplo o número 12, pertence à categoria da totalidade. E como Kant explica no item V da “Introdução à Crítica da Razão Pura”, o conceito de 12, assim como o de qualquer outro número, só pode ser conseguido na medida em que nós nos reportemos à intuição correspondente. Portanto, o conceito de 12 é um conceito que só podemos conseguir sinteticamente. Podemos dizer, inclusive, que a razão fornece a universalidade (unidade), a experiência fornece a particularidade (pluralidade) e a ciência através da síntese fornece a singularidade (totalidade).

 
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