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A frase estava estampada na frente do CBGB, a Meca do rock alternativo que,
em 1974, era só um barzinho qualquer, o primeiro a aceitar aqueles quatro
malucos com cabelinho tipo Beatles que mal sabiam tocar três acordes
seguidos, para um show onde compareceram dezessete pessoas.
Era uma homenagem ao amigo Jeffrey Hyman, que estava se despedindo. Joey,
como foi chamado a maior parte da vida, perdeu a luta contra o Linfoma, um
tipo de câncer. Nos últimos anos, o ex-vocalista dos Ramones conseguia
conviver razoavelmente bem com a doença que impedia a renovação de seus
tecidos. Mas, no ano de 2000, um acidente (ele escorregou da neve e caiu,
fraturando uma costela) fez com que o corpo de Joey passasse a não ter mais
a mesma residência. Era a tarde de domingo de Páscoa, 15 de abril, 14h40. Em
um mês, ele completaria 50 anos. A família, estava ao lado de sua cama, no
Hospital Presbiteriano de Nova York.
Sua ''outra'' família, a Ramone, separada por brigas nascidas do
convivo de mais de 20 anos, perdeu Joey num momento em que muito se falava
em se recordar de bons velhos tempos: um disco especial de reunião e um
filme sobre uma das bandas que mais influenciaram o rock moderno.
Os Ramones foram pegos de surpresa. Ao funeral de Joey, dois dias
depois, só os ex-bateras Tommy e Ritchie, e o baixista C. J. puderam
comparecer. Dee Dee E Marky estavam viajando em turnê com suas respectivas
bandas. Johnny Ramone, que não falava com Joey há anos, mesmo antes de a
banda se separar, também estava envolvido com outros compromissos.
A BANDA MAIS ADOLESCENTE DO MUNDO:
''Era o rei do punk'', dizia o site oficial da banda, sob fotos de
várias fases do vocalista. Era mesmo. Se os Sex Pistols trouxeram o de
deboche e o niilismo ao rock, se o Clash trouxe o protesto a a política, os
Ramones trouxeram o verdadeiro espírito adolescente ao punk. Uma vida cheia
de amor e fúria, como diria Nick Hornby. Mais do que isso, sem eles, o punk
nunca teria acontecido no EUA. Joey, o cantor, não usava roupas diferentes,
como Johnny Rotten ou Joe Strummer. Também não vociferava frases de efeito
nas rádios. Era só mais um adolescente, de calça jeans furada e casaco de
couro, que tinha romances platônicos e amava música barulhenta.
O ROCK SEM JOEY:
''Joey foi uma daquelas pessoas que estavam no topo, como diria
Frank Sinatra''. Marky Ramone
"Poucas pessoas teriam coragem de ser assim, como Joey Ramone, no
palco''. CJ Ramone
''Eu posso afirmar que o rock com certeza não será o mesmo sem Joey
Ramone. Ninguém era 'cool' como ele: os óculos, o casaco... E ele não mexia
um dedo. Simplesmente ficava lá parado''. Billie Joe, Green Day
Eu cresci escutando Ramones. E conhecer Joey pessoalmente foi um
experiência que me faz ver minha vida toda de novo. Mudou tudo para mim''.
Lars Frederiksen, Rancid
''Quando eu assistir Joey no palco pela primeira vez, em 1977, em
Dublin, percebi que nada era mais importante para ele do que estar ali.
Depois, percebi que também estava me sentindo daquela maneira. Quando os
Ramones deixaram as músicas mais curtas, abriram espaço para outras bandas
de garagem apareceram também''. Bono, U2
O MAIOR ANTI-ASTRO DO MUNDO:
Pare para pensar: Ramones foi uma banda que tinha tudo para dar
errado. Para começar, surgiu no meio dos anos 70, auge do movimento hippie e
das músicas com dez minutos. Uma época em que bandas que não sabiam tocar ou
que tivessem músicas de apenas um minuto não tinham vez. O primeiro disco,
que hoje é considerado genial, tinha, para a época, uma postura para lá de
esquizofrênica. Ramones, o álbum, é ao mesmo tempo político (''Havana
Affair'', ''Bliatzkrieg Bop''); romântico (''I Wanna Be Your Boyfriend'',
''Today Your Love, Tomorrow the world'') e demente (''Now I Wanna Sniff Some
Glue'', ''I Don´t Wanna Go Down to the Basement''). Pior, é tosco. E trazia
um líder de banda que não era nenhum Jim Morrison, Mick Jogger ou Robert
Plant. Era feio, enorme, desproporcional, tímido e fanho. Não gostava e nem
fazia questão de aparecer. Se os Ramones tivessem nascido neste início de
milênio, certamente nunca teriam saído do bairro do Queens. Nossa Juventude,
surpreendente mais conservadora do que há trinta anos, jamais aceitaria uma
banda que não se encaixa em nenhum rótulo: Divertida e pesada, ativista e
irreverente. E sem um vocalista cheiroso e penteado como os Jota Quests e
Sugar Rays da vida. Mas talvez tenha sido este mesmo o maior triunfo de Joey
e os Ramones: a originalidade e sua atraente estranheza.
O carisma de Joey tem uma fórmula simples: ele era um cara comum.
Como milhões de jovens escondidas nos subúrbios do mundo. Mesmo depois que a
banda ficou conhecida, nunca foi chegado a extravagância. Nunca quebrou as
coisas no palco, nem namorou modelos famosas, nem jogou cadeiras de quartos
de hotel. Preferia ficar quieto em seu canto, lendo suas revistas em
quadrinhos, participando de shows e vendo filmes no vídeo.Foi o maior
anti-astro que o rock já viu. E com certeza, o mais querido!
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