Ricardo Reis, aluno que foi de jesuítas  » 
Depois virão as inclinações da mocidade, os autores de cabeceira, os apaixonados temporários, os Werther  »  para o suicídio ou para fugir dele
Para dar só um exemplo, aí temos o Alberto Caeiro, coitado, que, tendo morrido em mil novecentos e quinze  » , não leu o Nome de Guerra  » , Deus saberá a falta que lhe fez, e a Fernando Pessoa, e a Ricardo Reis, que também já não será deste mundo quando o Almada Negreiros  »  publicar a sua história
Por um pouco veríamos aqui repetida a graciosa aventura do senhor de La Palice  » , o tal que um quarto de hora antes de morrer ainda estava vivo, isto diriam os humoristas expeditos
Provará pois o homem de tudo, Conspiração  »  sejas
Tanto mais, ah, tanto mais que há uma recomendação de Coimbra  » , um insistente conselho, Leia a Conspiração  
» , meu amigo, é boa doutrina a que lá vem, as fraquezas da forma e do enredo desculpa-as a bondade da mensagem, e Coimbra  »  sabe o que diz, cidade sobre todas doutora  »
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, densa de licenciados  »
Ricardo Reis logo no dia seguinte foi comprar o livrinho  » , levou-o para o quarto, aí o desembrulhou, sigilosamente
uma mulher de gabardina e boina, descendo uma rua ao lado duma prisão
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Estão já lidos sete capítulos, a saber, Em véspera de eleições, Uma revolução sem tiros, A lenda do amor, A festa da Rainha Santa, Uma greve académica, Conspiração, A filha do senador  »
trancado no Aljube  »  »
Ela o diz, como Joana de Arco  »  à proporção, O papá esteve para ser preso há dois dias  »
porém tudo acabará em felicidade, para as partes, desde que tomemos a sério o autor da obra, ora ouçamo-lo, A situação do país merece à imprensa estrangeira referências entusiásticas  » 
Perante isto, que é apenas uma pálida sombra do que podia ser dito, tem de concordar, Carlos, que foi uma loucura irresponsável meter-se em greves académicas  » 
Lá na aldeia, por acaso também no distrito de Coimbra  » , outro lavrador, pai da gentil menina com quem este Carlos há-de vir a casar-se mais para o fim da história, explica numa roda de subalternos que ser comunista é pior que tudo  » 
Em mais quatro capitulos e um epílogo, a suave mas valquíria  »  Marília  »  salva o estudante da prisão e da lepra política, regenera o pai que definitivamente abandona o vezo conspirativo, e proclama que dentro da actual solução corporativa o problema resolve-se sem mentiras, sem ódios e sem revoltas  » 
em conclusão, a nação deve ser uma coisa assim como uma casa onde há muitos filhos e o pai tem de dar ordem à vida para todos criar  » 
Ricardo Reis fechou o livro  » , leu-o depressa
Neste oásis de paz assistimos, compungidos, ao espectáculo duma Europa caótica e colérica, em constantes ralhos, em pugnas políticas que, segundo a lição de Marília  » » , nunca levaram a nada de bom
Com o que não podemos concordar é que venha Lloyd George  »  dizer que Portugal está demasiadamente favorecido de colónias, em comparação com a Alemanha e a Itália. Ainda no outro dia pusemos dorido luto pelo rei Jorge V deles, andámos por aí, para quem nos quis ver, homens de gravata preta e fumo no braço, senhoras de crepes, e aparece agora aquele a protestar que temos colónias a mais, quando na verdade as temos a menos, haja em vista o mapa cor-de-rosa  » , tivesse ele vingado, como era de justiça, e hoje ninguém nos poria o pé adiante, de Angola à Contracosta tudo seria caminho chão e bandeira portuguesa.
Pessoa, profético, sobre o advento do Quinto Império  » 
que Quinto Império será então esse  » , esbulhados, enganados, quem nos irá reconhecer como imperadores, se estamos feitos Senhor da Cana Verde  » , povo de dores, estendendo as mãos, que bastou atar frouxamente
Talvez Fernando Pessoa lhe responda, como outras vezes, Você bem sabe que eu não tenho princípios, hoje defendo uma coisa, amanhã outra, não creio no que defendo hoje, nem amanhã terei fé no que defenderei, talvez acrescente, porventura justificando-se, Para mim deixou de haver hoje e amanhã, como é que quer que eu ainda acredite, ou espere que os outros possam acreditar, e se acreditarem, pergunto eu, saberão verdadeiramente em que acreditam, saberão, se o Quinto Império foi em mim vaguidade, como pode ter-se transformado em certeza vossa, afinal, acreditaram tão facilmente no que eu disse, e mais sou esta dúvida que nunca disfarcei, melhor teria feito afinal se me tivesse calado, apenas assistindo. Como eu sempre fiz, responderá, Ricardo Reis  »
Ó Lídia  » , leva o café com leite ao duzentos e um  » 
como agora aconteceu na Mouraria  » »
o Ramón mora na Rua dos Cavaleiros  » 
mulheres vestidas de berrante encarnado, saia, blusa e xale  » »
Ricardo Reis acompanhou o funeral até ao Paço da Rainha  » 
Sumiu-se o préstito na esquina da rua, pela direcção que leva certamente irá para o Alto de S. João  » , salvo se virar ali adiante, à esquerda, a caminho de Benfica  » , uma estafa, para onde de certeza não vai é para os Prazeres  » , e é pena, perder-se um edificante exemplo das igualdades da morte, juntar-se o Mouraria ao poeta Fernando Pessoa  »
uma mulher vistosa, assim alta, de olhos pretos, bem vestida, devia ir de xale de merino, Havia tantas, homem, uma chusma, quem era essa, Era a amante do Mouraria, uma cantatriz  » » »
mas então as tais roupas encarnadas, Acho que ainda devem vir do tempo dos mouros, são vestes de mafarrico, moda cristã não pode ser  »
Começaram a correr boatos de estar em preparação um golpe militar, em que estariam envolvidos os generais Goded e Franco  », mas os boatos foram desmentidos, o presidente Alcalá Zamora encarregou Azaña de formar governo, vamos ver o que isto dará, Ramón, se vai ser bom ou mau para a Galiza  » 
Aqui é só estas trintas ruas entre o Cais do Sodré  »  e S. Pedro de Alcântara  » , entre o Rossio  »  e o Calhariz  » , como uma cidade interior cercada de muros invisíveis que a protegem de um invisível sítio, vivendo conjuntos os sitiados e os sitiantes
este ar de Espanha que vento trará, que casamento  » 
O pior mal é não poder o homem estar no horizonte que vê, embora, se lá estivesse, desejasse estar no horizonte que é, O barco onde não vamos é que seria o barco da nossa viagem, Ah, todo o cais, É uma saudade de pedra  » , e agora que já cedemos à fraqueza sentimental de citar, dividido por dois, um verso do Álvaro de Campos  »  que há-de ser tão célebre quanto merece, console-se nos braços da sua Lídia
Tinham-se encontrado num café de bairro, de gente popular  » 
Fernando Pessoa voltou atrás, tornou a sentar-se, Veio-me agora uma ideia, era você disfarçar-se de domador, bota alta e calção de montar, casaco encarnado de alamares  » , Encarnado, Sim, encarnado é o próprio, e eu vinha de morte, vestido com uma malha preta e os ossos pintados nela  » 
de repente entraram-me três famílias espanholas, duas de Madrid  »  e uma de Cáceres  » 
Não tarda muito que entre em cena o gracioso Clarín de Calderón para dizer, Escondido, desde aqui toda la fiesta he de ver, entende-se que seja a festa espanhola vista de Portugal, pues ya la muerte no me hallará, dos higas para la muerte  » 
no mesmo tom em que dizem Los rojos diriam Los gallegos, tirando o ódio e pondo o desprezo  » 
mas diz o autor de Conspiração que vamos em bom caminho  » , a Deus graças, capital e trabalho, provavelmente para decidir quem calcetará a estrada é que se reuniram em jantar de confraternização, nas termas do Estoril  » , os nossos procuradores e deputados.
bodo a trabalhadores do Douro  » 
por estes dias discursará um ministro a preconizar a criação duma sopa dos pobres em cada freguesia  »  »
Verifiquei no Alentejo a importância da beneficiência particular na debelação da crise do trabalho  »  , o que, traduzindo para português de todos os dias, quer dizer, Uma esmolinha senhor patrão por alma de quem lá tem
Porém, melhor que tudo, por vir de mais subida instância, logo abaixo de Deus, foi proclamar o cardeal Pacelli  »  que Mussolini é o maior restaurador cultural do império romano  » » 
Ai como é diferente o carnaval em Portugal. Lá nas terras de além e de Cabral, onde canta o sabiá  »  e brilha o Cruzeiro do Sul, sob aquele céu glorioso, e calor, e se o céu turvou, ao menos o calor não falta
O céu está como tem estado, chuvoso, mas, vá lá, não tanto que o corso não possa desfilar, vai descer a Avenida da Liberdade  » 
Estes carros armados rangem, bamboleiam, pintalgados de figuras, em cima deles há gente que ri e faz caretas  » , máscaras de feio e de bonito, atiram com parcimónia serpentinas ao público, saquinhos de milho e feijão que acertando aleijam, e o público retribui com um entusiamo triste
Um xexé veio meter-se com ele, armado com o seu facalhão de pau e o bastão
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neste mesmo instante apareceu-lhe, vindo do lado do Carmo  » , um cortejo de carpideiras, tudo homens vestidos de mulher com excepção dos quatro gatos-pingados que transportavam ao ombro o esquife onde ia deitado um outro homem que fazia de morto, com os queixos atados e as mãos postas  »
ia continuar o seu caminho, Chiado acima  »
Era uma figura vestida de preto  »  », com um tecido que se cingia ao corpo, talvez malha, e sobre o negro da veste o tratado completo dos ossos, da cabeça aos pés  »  »  »
lembrara-se do que lhe dissera Fernando Pessoa, seria ele. É absurdo, murmurou, nunca faria tal coisa, e se a fizesse não viria juntar-se a estes vadios, talvez se pusesse à frente dum espelho, isso sim, porventura vestido desta maneira conseguiria ver-se  » 
viu-a subir a Calçada do Sacramento  » 
Atravessou o Largo do Carmo  »
, enfiou, quase a correr, pela Rua da Oliveira  », escura e deserta
um esqueleto a andar, igualzinho àquele em que aprendera na Faculdade de Medicina
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subiu as Escadinhas do Duque  » 
depois atravessou o largo  » 
meteu pela Travessa da Queimada
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viu o vulto entrar numa taberna, recebido com gritos e palmas.Olha a máscara, olha a morte, e espreitando, estava a beber um copo de vinho, ao balcão
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é assim no carnaval, nada parece mal  »