Eugénio Pacelli (1876-1958) - Cardeal católico, de origem italiana, que foi eleito papa, como Pio XII, em 2 de Março de 1939, quando justamente completava 63 anos. O seu pontificado (1939-1958), um dos mais polémicos da história actual da igreja de Roma, coincide com a consolidação do fascismo na Itália e na Alemanha; o fortalecimento da ditadura salazarista em Portugal; o final da Guerra Civil Espanhola, com a vitória de Franco, a quem abençoou; todo o período da Segunda Guerra Mundial; o pós-guerra e a fase mais tensa da Guerra Fria.
Mesmo aqueles que tentam agir em sua defesa são obrigados a concordar com os seus detractores quanto a dois factos irrefutáveis: o seu silêncio em relação ao Holocausto e o seu irracional anticomunismo. Evidentemente que os motivos apresentados para explicação do primeiro caso não são os mesmos, do mesmo modo que a análise histórica é quase que oposta quanto ao segundo. Muitos dos seus críticos acreditam que ambos os factos estejam directamente relacionados entre si. As suas proclamações mais representativas foram feitas em 1949: uma surpreendente ameaça de excomunhão a todo católico que simpatizasse a qualquer nível com a doutrina comunista e o controverso dogma da ascensão da Virgem Maria.
De acordo com a biografia oficial do Vaticano, Pio XII é "respeitado pelos seus esforços no sentido de que as nações envolvidas na Segunda Guerra Mundial resolvessem em paz as suas disputas, representando a transição entre o antigo papa de estilo monarca e o papa de estilo moderno". Como se sabe, o conflito não surgiu de qualquer disputa, mas a partir duma Alemanha completamente militarizada, comandada por um grupo de fanáticos, que pretendeu dominar o mundo, eliminando dele todos aqueles que eram considerados como inferiores: judeus,ciganos, homossexuais, deficientes mentais, entre outros.
Os seus defensores tentam a todo custo e sem sucesso provar que condenou o totalitarismo, lançou vários apelos à paz e denunciou muitas acções de Hitler e Mussolini. Entretanto, a sua única clara e veemente reacção ocorreu sómente após o bombardeamento da Cidade do Vaticano, pelos alemães, em 1943. Praticamente nada fêz quando ocorreram prisões e massacres de judeus por tropas alemãs, às portas do Vaticano, durante o mesmo ano e no ano seguinte, nomeadamente a carnificina das Fossas Ardeatinas, ocorrida em 25 de Março de 1944. Durante estes anos ocupou-se em lançar as suas principais encíclicas, que nada tinham a ver com a guerra. Duas delas apelavam à interpretação dos textos bíblicos e exigiam cautela na adopção incondicional de conceitos científicos modernos, à revelia das tradições da igreja. O assunto apenas foi tratado ligeiramente, em 1939, data em que publicou a encíclica Summis Pontificatus, que incluia uma condenação à invasão da Polónia. O Holocausto apenas começava.
Eugénio Pacelli, que pertencia à nobreza romana pelo lado materno, já era conhecido, antes do início da Segunda Guerra Mundial, pela alcunha de "il Tedesco". Jamais tentou esconder a sua germanofilia. A sua subida dentro da hierarquia do Vaticano ocorreu justamente através da Alemanha, a partir de 1917, quando foi apontado pelo papa Benedito XV como núncio apostólico na Bavária, servindo de seu mediador nos esforços para pôr fim à Primeira Guerra Mundial. Seis anos mais tarde é promovido a núncio papal para toda a Alemanha, vindo a negociar as concordatas com a Bavária e a Prussia, respectivamente em 1924 e 1929. Neste último ano, retorna a Roma para assumir, já como cardeal, o cargo de secretário-de-estado do Vaticano.
Revela-se um hábil diplomata e abre um precedente com deslocações oficiais ao estrangeiro. Dez anos mais tarde é eleito papa, em substituição a Pio XI, cujo pontificado durou de 1922 a 1939. Já então era muito influente e também não fazia esforços em esconder a simpatia que sentia por Mussolini, "o maior restaurador cultural do império romano", e pelo seu regime fascista, instaurado em 1922. Em 1929, foi assinado o Tratado de Latrão pondo fim a várias diferenças que existiam há longos anos entre o Vaticano e o estado italiano. O primeiro teria recebido em troca uma grande soma em dinheiro, passando a contribuir desde então, através da extinção de partidos políticos e grupos laicos ligados à igreja católica, para a implementação do estado corporativo de partido único em Itália. A seguir, o secretário-de-estado Pacelli conduz pessoalmente as concordatas assinadas com o estado alemão de Baden, em 1932, e o Reich de Hitler, em 1933.
Para alguns historiadores, Pio XI sentiu a gravidade, em todos os sentidos, do que se estava a passar no final do seu pontificado e tentou denunciar e condenar a situação. Mas o seu sucessor, Pio XII, de maneira alguma assumiu a mesma posição. Segundo a historiadora francesa Annie Lacroix-Riz, num famoso trabalho que pode ser encontrado na Internet, no Réseau Voltaire (ver abaixo), Eugénio Pacelli não tinha escrúpulos em revelar em privado aos seus amigos na Alemanha os seus sentimentos antisemitas. Os seus defensores atribuem o seu silêncio ou "política de omissão" a uma posição de prudência, causada pelo receio de que pudessem haver represálias aos católicos na Alemanha. Outros atribuem-na à sua formação diplomática, empregando sempre o princípio do "mal menor", o que pode ser classificado apenas como uma monstruosa e sinistra forma de hipocrisia. Por outro lado, Eugénio Pacelli transformou-se por completo a partir do final da Segunda Guerra Mundial, empenhando-se de maneira tenaz e obsessiva numa campanha para impedir a expansão do comunismo na Itália e em todo o mundo. O seu antisemitismo podia muito bem ser proporcional ao seu anticomunismo.
A polémica sobre a pessoa e o pontificado de Eugénio Pacelli foi reacendida em 2001 com o lançamento do filme Amen, do realizador grego Costa-Gravas. Os católicos reagiram especialmente em relação ao cartaz, que é reproduzido abaixo: "uma imagem vale por mil palavras". De maneira pouco habitual, o filme ainda não foi exibido em Portugal.