"Quarta-feira e sábado são dias em que Deus Nosso Senhor desce à terra consubstanciado em toucinho e feijão-frade. Estivesse aqui o padre Agamedes e haveria de clamar heresia, apelar para a santa inquisição, contra nós que dissemos que o Senhor é um feijão e um coirato, mas o mal do padre do padre Agamedes está na pouca imaginação, habituou-se a ver Deus na pastilha de farinha triga e nunca foi capaz de o inventar doutra maneira, tirando a barba grande e o olho escuro do Pai, e a barba pequena e o olho claro do Filho, com esta diferença de cores que caso de fonte e de fetos terá havido na sacra história. Mais sabe daquelas transfigurações dona Clemência, esposa e cofre de virtudes desde Lamberto ao último Berto, que às quartas-feiras e sábados preside à composição das esmolinhas, guiando e vigiando a espessura da fatia do toucinho, escolhido o menos entremeado, melhor ainda se só gordura, mais alimenta, passando por escrúpulos de pura caridade de evitar as guerras da inveja infantil, Tens mais do que eu, Tenho menos do que tu. É uma cerimónia linda, derretem-se os corações de santa compaixão, nenhuns olhos ficam enxutos, nem os narizes, que é Inverno agora e sobretudo lá fora, encostados ao prédio estão os garotos do Monte Lavre que vieram à esmola, vede como padecem, e descalcinhos, doridos, olhais como as meninas levantam um pezinho e logo o outro a fugir do chão gelado, poriam os dois no ar se lhes crescessem em vida as asas que se diz teriam depois de mortas se tivessem a sensatez de morrer cedo, e como puxam o vestidinho para baixo, não de pudor ofendido, que por enquanto os rapazes não reparam nessas coisas, mas de ânsia friorenta. É uma fila à espera, cada qual com a sua latinha na mão, todos de nariz no ar, fungando o ranho, a ver quando enfim se abre a janela do andar e a cesta pendurada por um cordel desce do céu, devagarinho, a magnanimidade nunca tem pressa, era o que faltava, a pressa é que é plebeia e sôfrega, só não engole os feijões-frades mesmo assim porque vêm crus. Põe o primeiro da fila a sua latinha dentro do cesto, eis a grande ascensão, vai e não tardes, o frio rapa ao longo da parede como uma navalha rebarbada, quem é que pode suportar isto, ora suportam todos em nome do que há-de vir, e então surge a cabeça da criada, lá vem o cesto com a latinha cheia ou meia, para ensinar aos espertos ou novatos que o tamanho da lata não influencia a dadora desta catedral da beneficiência. Julgar-se-ia que quem viu isto viu tudo. Pois não é verdade. Dali ninguém arreda pé até que o último receba o seu quinhão e o cesto seja recolhido até sábado. Falta que venha dona Clemência à janela, toda recatada em agasalhos, a fazer o seu gesto de adeuzinho e benção, enquanto o fresco e amorável coro infantil agradece em diversas línguas, salvo os dissimulados que movem os lábios e basta. Ai senhor padre Agamedes, o bem que me faz à alma, e se alguém jurar que de hipocrisia Dona Clemência fala, muito enganado está, que ela é que sente a diferença que na alma lhe vai às quartas e sábados, em comparação com os outros dias. E agora reconheçamos e louvemos a cristã mortificação de dona Clemência, que tendo ao seu alcance, em tempo e meios de fortuna, o conforto permanente e assegurado da sua alma imortal, a ele renuncia não dando toucinho e feijão-frade todos os dias da semana, é esse o seu cilício. Além disso, senhora dona Clemência, essas crianças não podem ir mal habituadas para a vida, havia de ser bonito quando crescessem, aonde é que chegariam as exigências." (pp. 193-95)
José Saramago, in Levantado do Chão (1980)