por João Paulo Cursino P. Santos
Em Jornada nas Estrelas, a gente sempre considera
como canônico aquilo que tenha sido apresentado pela série Clássica na
televisão. É para considerar mesmo. Um dos problemas com o uso do termo
"canônico" é que ele significa "sagrado", o que está associado à idéia de
"dogmático". Por esse tipo de associação, acostumamo-nos a, implicitamente,
considerar intocável, imutável, tudo aquilo que tenha aparecido na série
Clássica sobre o universo de Jornada nas Estrelas.
Entretanto, é preciso lembrar que a série Clássica foi escrita sem esse tipo de
preocupação. Os elementos que hoje são canônicos sempre foram meros acessórios
e, naquela época, não se lhes dava qualquer atenção especial: eram criados e
declarados conforme a conveniência do roteiro. Isso acontece ainda hoje, mas,
como há uma base sobre a qual se constroem contradições ou complementaridades,
temos um julgamento em relação a essa base. Não era o caso no tempo da série
Clássica, quando tudo estava sendo feito a partir do nada sem qualquer
preocupação particular com a continuidade.
A melhor forma de se avaliar como eram tomadas as decisões sobre os elementos
acessórios é ler The Making of Star
Trek, publicado por Stephen Whitfield e Gene Roddenberry enquanto a série
ainda estava no ar. Nesse livro, vê-se que o que importava era a coerência dos
personagens, era o quanto um acessório faria ou não sentido na sociedade humana
de um futuro. Não se falava tanto assim em "Federação", senão como uma espécie
de generalização onde a Terra se inseriria, uma comunidade a indicar a união de
povos além das fronteiras do convencional. Não se falava especificamente em
"século XXIII": a série somente seria datada positivamente, sem sombra de
dúvidas, bem mais tarde, pela Nova Geração. O que bastava era que fosse
ambientada "em um futuro", que tanto podia ser dali a duzentos, trezentos, ou
novecentos anos.
Dessa forma, veja-se que a própria série Clássica, "intocável mãe de tudo que é
canônico", está, por diversas vezes, em contradição com o que vemos e
acreditamos a partir das outras séries, e os problemas que criou ou já eram
insolúveis então, ou se tornariam insolúveis no correr dos anos. Vejamos alguns
exemplos:
1. O posto de Spock — É uniformemente aceito, sem questionamentos nem
dúvidas, que um uniforme da Clássica com duas faixas ininterruptas na manga seja
um uniforme de Comandante. Entretanto, submeto três fatos à apreciação de vocês:
(a) Nunca foi dito que aquelas faixas fossem um indicativo de posto.
Nosso bom-senso diz isso, os personagens agem e falam conforme aquelas faixas,
mas nunca afirmaram categoricamente. A dedução tem sido nossa todos esses anos.
(b) Nos episódios "Court Martial" e "Tomorrow Is Yesterday", Spock usa as
duas faixas contínuas, mas é positivamente identificado como um Tenente-
Comandante.
(c) Não há um episódio onde Spock seja positivamente, com absoluta
certeza, identificado com o posto de Comandante.
Em conclusão, podemos afirmar que não sabemos (e não que sabemos) uma série de
coisas: primeiro, não poderíamos, de pronto, associar as duas faixas do uniforme
ao posto de Comandante; segundo, não podemos afirmar que Spock seja um
Comandante full.
Nosso bom senso diz que Spock é, sim, um Comandante; tradicionalmente,
desconsideramos os episódios acima e atribuímos o que ouvimos a "alucinações
auditivas", por assim dizer. Os mais puristas podem até mesmo admitir que Spock
seja, sim, um Tenente-Comandante; e que use as duas faixas contínuas como uma
prerrogativa da função de Imediato, que seria típica do posto acima do seu. Isso
seria bastante lógico e até aceitável, mas não me parece que seja uma
racionalização adotada por ninguém.
2. O século em que se passa a Clássica — Em "Space Seed", diz-se que Khan
foi exilado no espaço no final do século XX. Quando ele acorda de seu longo
sono, pergunta a Kirk "Quanto... tempo...?", e nosso bravo Capitão responde
"Duzentos anos." Façam as contas: com isso, a Clássica estaria no século XXII. O
livro Star Trek Chronology, do casal
Okuda, racionaliza a possibilidade de que o Capitão estaria preferindo não
liberar toda a informação ao desconhecido Khan.
Ora, francamente.
Mais tarde, em "Tomorrow Is Yesterday", um oficial da Força Aérea dos Estados
Unidos captura e interroga Kirk, que responde com evasivas. Então, o oficial
ameaça trancafiá-lo por "duzentos anos". Kirk, com olhar resignado, diz que isso
lhe parece "just about right", ou seja, mais ou menos o que lhe seria correto.
Façam as contas de novo: século XXII. A mesma racionalização acima pode ser
aplicada, é apenas humor etc., mas, outra vez: fala sério.
Por sinal que "T.I.Y." é um episódio ótimo, cheio de suspense, ação e humor, mas
tem um final completamente furado e, por outras razões, é uma tremenda ameaça à
continuidade — inclusive porque muitos elementos históricos são fundados nele.
Uma referência clássica à Clássica (perdoem-me a redundância) é a expedição a
Saturno comandada por Shaun Geoffrey Christopher, mencionada unicamente nesse
episódio. Da mesma forma — e esta é imbatível — a tão controversa, combatida e
idolatrada referência a uma classe Constitution de apenas doze naves,
feita por Kirk casualmente a Christopher no turboelevador ("Deve ter custado uma fortuna uma nave deste tamanho."
— "Só há doze como esta na frota.").
Aí, muita gente se agarra (eu sou um) à célebre identificação da cerveja
romulana em A Ira de Khan: "safra de 2283". Pensamos: arrá!
Identificou século XXIII! E eu digo: não, senhor. Só está dizendo que o filme é
ambientado em ou após 2283. Pode ser qualquer ano: 2284, 2286, 2293, 2301, 2364
e até, por que não, 3341 ou 5967. E isso se quisermos entender a frase com a
implicação de ser 2283 do nosso calendário. Pode muito bem ser o romulano ou
algum outro. Pode nem ser calendário.
3. A odiada tradução "vulcaniano" — Para informação de vocês, Spock
declara-se um "Vulcanian" (sic) no original em inglês, não uma, mas
várias vezes, em "Court Martial" e, depois, de novo, em "A Taste of Armageddon".
E agora? será que essa tradução é tão errada assim?
4. Teletransporte com os escudos levantados — Impossível, certo? Requer
alguns milagres e malabarismos, equalização de freqüências, habilidades incomuns
de Scotty ou O'Brien, certo? Pois é. No entanto, fizeram isso duas vezes, e
bastante casualmente, em "A Taste of Armageddon", sem nem ao menos atentarem
para o fato de estarem furando os escudos — que, a propósito, não são chamados
de "escudos", shields, mas de "telas", screens. Naquela época,
ninguém ligava muito para esses bloqueios.
Aqui, pode-se aplicar a Velha Máxima do Leandro e dizer que, olha, o fato de não
terem mencionado os malabarismos não quer dizer que não tenham acontecido; pode
ter sido um caso, sim, de exceção a uma regra já estabelecida etc. etc. Verdade,
concordo. Mas isso seria um excesso de uso, aviltador da Velha Máxima, que é
como o vinho: deve ser consumida com moderação e, principalmente — nunca é
demais lembrar, tem gente que não o tem —, bom senso.
É muito bom rever a série Clássica de vez em quando. Por todos os motivos
habituais, mas também por esses. Para, inclusive, refrescar conceitos, voltar às
origens. Para que não nos percamos em tecnicalidades e vejamos que o que
realmente importa não é a continuidade a qualquer preço, mas a qualidade das
histórias: a Clássica era a série que dava menos importância à continuidade,
menos ainda, talvez, do que Voyager ou Enterprise. No entanto, é o
que é e dura. Por quê? Por causa da qualidade das histórias, dos personagens,
atuações e drama. Ninguém liga para a continuidade, que se ajusta se você souber
dar importância ao que é importante.
Dois de meus melhores professores dizem sempre que se deve voltar aos
fundamentos, deixar a perfumaria para lá. O mesmo vale para Jornada nas
Estrelas. É sempre bom voltar a ver a série Clássica, especialmente depois
de um tempo, para recuperar o foco e "rever conceitos" (detesto essa expressão,
mas creio que seja o caso).
Este artigo foi registrado no Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional sob o número 320.480, livro 586, folha 140, está protegido pela lei
no 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, e foi publicado originalmente no Portal
Jornada nas Estrelas Brasil (http://www.jornadanasestrelas.net) em 3 de maio de 2003
sob específica permissão do autor e republicado em
http://www.geocities.com/jpcursino/tosnc.htm em 12 de maio de 2004. A reprodução só é
franqueada a quem obtiver minha
permissão expressa, específica e nas condições ditadas por mim. Eu costumava
autorizar a
reprodução, até que encontrei meu artigo Uma cronologia
de Jornada nas Estrelas na página
de uma organização com a qual nunca havia tido contato. O texto havia sido
adulterado, com
omissão
da autoria e meu nome apenas na "bibliografia". Sob minha insistência, concordaram
em tirar a obra
do ar, mas insinuaram que eu não podia provar ser o autor. Por isso, agora, tudo é
registrado.
Jornada nas Estrelas e tudo que vai dentro são
marcas da Paramount
Pictures, não pretendo violar normas nem direitos, esta página é só diversão, não há
finalidade comercial, etc.
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29 de maio de 2004