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O
Espiritismo no Brasil
(Por Ricardo Hon�rio)
O Espiritismo surgiu no Brasil
no último quartel do Século XIX,
mais especificamente no ano de 1865, quando
foi criado o primeiro Centro Espírita
do Brasil, na cidade de Salvador-BA, denominado
Grupo Familiar do Espiritismo, por intermédio
do professor de latim Luís Osório
Teles de Menezes1. Naquela época, o Espiritismo
era objeto de interesse de uma pequena elite
intelectualizada e versada na língua
francesa, e que por isso tinha acesso às
obras espíritas oriundas da França,
berço da Doutrina Espírita e seu
codificador, Allan Kardec.
Nos primórdios do Espiritismo
no Brasil, a Doutrina Espírita gozava
de um status elitista, em virtude de suas idéias
racionalistas decorrentes da atmosfera Iluminista
em que se formara. As idéias secularizadas
e adogmáticas encantaram uma corrente
intelectual que fugia dos princípios
do catolicismo e defendiam um estado laico.
Entretanto, a desistência
desses intelectuais de se manterem na defesa
dos ideais racionais-positivistas, muitos deles
por pressão do catolicismo que se debatia
contra o avanço do protestantismo no
mundo, fez com que os postulados científicos
e filosóficos do Espiritismo fossem arrefecidos,
fazendo emergir a face religiosa e a popularização
da fenomenologia espírita, equivocadamente
comparada às práticas afro-brasileiras
da umbanda e do candomblé2.
Atualmente, o Espiritismo no
Brasil apresenta bem demarcadas suas áreas
de estudo e desenvolvimento: a científica,
que mantém a observação
e análise dos fatos mediúnicos
ou paranormais, que defende a comunicabilidade
entre as dimensões material e espiritual
da criatura humana, por intermédio do
Livro dos Médiuns; a filosófica,
que preceitua normas de conduta moral, o aprimoramento
intelectual e o desenvolvimento afetivo como
metas do crescimento humano, tendo por base
três princípios filosóficos
fundamentais: a existência de Deus, a
Imortalidade da Alma e a Solidariedade Humana,
por intermédio do Livro dos Espíritos;
e, por fim, a religiosa, que defende os princípios
do Cristianismo original, tendo como lema a
expressão “fora da caridade não
há salvação”, através
do Evangelho Segundo o Espiritismo. Ainda fazem
parte das obras da codificação
espírita, os livros O Céu e o
Inferno – A Justiça Divina Segundo
o Espiritismo e A Gênese Segundo o Espiritismo.
Apesar de Allan Kardec ter
afirmado que “Seu verdadeiro caráter
é, pois, o de uma ciência e não
de uma religião...” o que vemos
hoje é o Espiritismo ser procurado por
grande número de pessoas por sua religiosidade,
em detrimento de suas faces científica
e filosófica. O que se percebe é
que essas pessoas estão mais interessadas
no conteúdo da mensagem religiosa e menos
na filosofia e na ciência. Ao que parece,
o Espiritismo ecoa no imaginário das
pessoas como um novo símbolo de salvação.
Não a salvação escatológica
dos textos bíblicos, e sim, uma salvação
imediata. Não só a salvação
da alma, mas, e principalmente, a salvação
do homem enquanto homem.
Tomando por base o comportamento
de algumas pessoas que se dizem espíritas,
faz-nos reconhecer em determinados conceitos
de religião, geralmente combatidos pelos
religiosos, um ponto de razão que os
justifica. Em Marx, por exemplo, temos que “A
religião é o produto de uma sociedade
irracional e opressiva, um conjunto de ilusões
necessárias para que o homem possa suportar
as correntes que o escravizam.3” Para
alguns, o Espiritismo funciona como o ópio
imprescindível para suportar a opressão
das vicissitudes da vida, sem o devido compromisso
moral para com seus ensinamentos.
Kardec denomina esses como
sendo os espíritas imperfeitos, pois,
apesar de compreenderem a parte filosófica
e admirarem a moral, não a praticam.
“Insignificante ou nula é a influência
que lhes exerce nos caracteres. Em nada alteram
seus hábitos e não se privariam
de um só gozo que fosse.5”
Para esses, o Espiritismo representa,
apenas, o conforto da perda, a garantia de uma
proteção e a certeza de um futuro.
A sua realização não é
interior e subsiste tão somente na fenomenologia
que a alicerça. E assim, prescinde do
empirismo da metodologia mediúnica, das
elucubrações filosóficas
e, principalmente, da prática diária
de seus ensinamentos.
Referências Bibliográficas
1 Sá, Vera Borges de. Tese de Doutorado.
Religião e Poder: Introdução
à História do Espiritismo no Brasil.
UFPE, 2001, p. 162
2 Ibid., p. 160
3 Alves, Rubem. Enigma da Religião.
Ed. Papirus. Campinas, 1988, p. 34
4 Ibid., p. 3
5 Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns.
FEB, 1985, p. 41
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