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O
Homem é Espírito e Matéria
Discurso pronunciado na solenidade
de inauguração do dólmen
de Allan Kardec, no Cemitério do Père-Lachaise,
em Paris, no dia 31 de março de 1870,
em comemoração ao primeiro aniversário
de morte do Codificador
Pelo Sr. A. Desliens
Senhores, há um ano, neste mesmo dia,
um desses grandes espíritos que aparecem
através dos séculos para guiar
a Humanidade em sua marcha ascendente rumo ao
conhecimento da verdade, escapava prematuramente
de seu invólucro corporal. Ia colher,
na verdadeira pátria das almas, a recompensa
de seus trabalhos conscienciosos, de seu devotamento
perseverante, se suas lutas incessantes e fecundas
pelo triunfo da verdade e pela prática
do bem. Ele mesmo ia explorar esse mundo espiritual,
que pressentia desde a juventude e que descrevia
com lógica, clareza e eloqüência
inimitáveis, tão logo experiências
mais diretas lhe permitissem constatar a sua
realidade.
Qual moderno Cristóvão colombo,
pelo estudo do mundo material visível
que tinha sob os olhos, ele advinhara a existência
de um mundo espiritual invisível que,
do homem a Deus, continuava a cadeia initerrupta
que se eleva do átomo ao homem.
Antes dele, muitos outros haviam reconhecido
que em todos os reinos da Natureza as espécieis
se sucedem em virtude de leis maravilhosamente
simples, desde os infinitamente pequenos até
os infinitamente grandes. Muitos haviam reconhecido
que é por graus insensíveis que
se passa do infusório invisível
ao eleffante, do átomo imperceptível
aos maiores globos celestes.
Desde os filósofos da antigüidade
até os cientistas dos nossos dias, e
mesmo os Pais da Igreja, os pensadores de todas
as épocas, tomando por bússola
a lógica e a razão, imaginaram
que se estendia muito além da Humanidade
a harmoniosa gradação que haviam
observado do lado de cá. A distância
infinita que existe entre a molécula
infinitesimal e o ser humano, preenchida tão
racionalmente por todas as espécies inferiores
ao homem, implicava, necessariamente, acima
do homem e até Deus, na existência
de uma série de seres superiores, sem
os quais a Criação não
teria passado de uma obra imperfeita e truncada.
Conseqüentemente, esse mundo superior deverá
compor-se de uma variedade tão grande
de seres quanto a daqueles que constituem o
mundo humanimal.
O homem, síntese perfeita da criação
visível e sensivel, devia ser o intermediário,
o ponto de contato, o elo de transição
entre o mundo material inferior e o mundo espiritual
superior. E, com efeito, independentemente da
forma, todas as crenças religiosas afirmam
mais ou menos a existência dos seres desse
mundo imaterial, imiscuindo-se nas questões
humanas commo agentes secundários entre
o Criador e a criatura. Negar sua existência
e sua intervenção salutar ou pervesa
nos atos da vida terrena, seria negar evidentemente,
os fatos sobre os quais repousam as crenças
de todos os povos, de todos os filósofos
espiritualistas, até os sábios
da mais remota antigüidade, cujos nomes
chegaram até nós.
Mas, cabia ao nosso século ilustrar-se
pela descoberta e exploração desse
mundo desconhecido; cabia a Allan Kardec vulgarizar,
condensar, coordenar e popularizar as leis que
governam o mundo espiritual e os meios de se
entrar em relação com os seres
que o habitam.
Por certo, alguns Espíritos eminentes,
missionários do progresso, quais faróis
destinados a espalhar a luz vivificante do saber
sobre os seus contemporâneos, haviam tentado
levantar a ponta do véu que lhes ocultava
os segredos do futuro e, mesmo através
de nuvens espessas, conseguiram entrever a verdade.
Mas a conservaram preciosamente no foro íntimo,
mal ousando aprofundá-la e não
a transmitindo senão a raros discípulos,
ciuja superioridade e discrição
apreciavam. Nenhum deles foi capaz ou teve a
ousadia de reunir os elementos esparsos das
leis entrevistas; nenhumbuscou o fato brutal,
na experimentação direta, a prova
material e física da existência
desse mundo e de suas relações
com o nosso.
Allan Kardec fez o que até então
ninguém fizera. Estudou os fatos, analisou-os
metodicamente e, de suas observações
laboriosas, resultaram ensinamentos conscienciosos,
condensados em obras imortais, sábia
e claramente escritas, por meio das quais ele
vulgarizou no mundo inteiro, me alguns anos,
a mais prodigiosa descoberta do nosso século.
Após quinze anos de trabalhos perseverantes,
depois de haver consagrado todo o seu ser a
esta empresa gigantesca, depois de ter sacrificado
sue repouso, sua saúde e sua vida à
edificação da Doutrina, suas forças
traíram sua coragem e ele caiu fulminado
no momento qm que, dando a última demão
à primeira parte da obra, seus trabalhos
iam entrar numa nova fase com numerosos elementos
de sucesso.
Combatendo mais que nunca pelo triunfo das
verdades demonstradas pelo Espiritismo, ele
morreu em plena atividade, em todo o vigor e
pujança de sua inteligência: a
lâmina havia consumido a bainha!
O homem desagregou-se! O corpo, privado de
vida, foi restituído à terra,
mas a alma que o animava foi receber a recompensa
da missão digna e nobremente cumprida.
Livre das preocupações terrenas,
liberta das mesquinhas paixões que nos
pertubam cá embaixo, ela retornava ao
mundo dos Espíritos como o exilado regressa
ao seu país natal, como o prisioneiro
escapa da cela em que estava encerrado. É
por isso que não lamentamos por ele,
certos que estamos de sua felicidade, mas pela
Sra.Allan Kardec, por nós mesmos e pelos
espíritas do mundo inteiro o golpe terrível
que o subtraiu à nossa afeição
comum.
Com efeito, não é para os que
se vão, como Allan Kardec, que a morte
é cruel!... Anjo da libertação,
ao lhes tocar com as asas, abre-lhes horizontes
desconhecidos, reservando seus rigores para
os que ficam em volta da lareira deserta, para
a companheira de toda uma existência de
devotamento e afeição, para os
amigos e discípulos do pensador laborioso!...
Ó mestre venerado! Como nos foram salutares
os teus ensinamentos! Tuas obras se constituíram
em precioso auxílio para nós todos!
Graças a ti e às verdades que
nos fizeste tocar com o dedo, sabemos, de fato,
qeu não abandonarás tua companheira,
que a susteentarás com teus conselhos
diários; que nos inspirarás e
nos instrirás, a fim de mantermos a Doutrina
na via prudente e sábia em que a colocaste.
Pelo estudo do Espiritismo, plas idéias
do futuro na squais crescemos ao teu lado, sabíamos
que o túmulo entreaberto só se
fecharia sobre a matéria em decomposição,
e que a inteligência, já planando
nos espaço, abandonaria conosco o campo
de repouso, para continuar, no mundo dos
Espíritos e com os novos meios de ação,
o aperfeiçoamento da obra que empreendeste.
E, realmente, por tua solicitude para com nossos
fracos esforços, pelos eflúvios
benfazejos que nos propocionava o teu concurso
incessante, não tardaste a demonstrar
que, se nos havias deixado materialmente , ao
menos teu Espírito não nos tinha
abandonado.
Por que, então, nós, espíritas,
nos encontramos aqui neste primeiroaniversário
de tua partida terrestre, se sabemos perfeitamente
que não te encontras aqui e neste lugar
jamais estarias? Por que este monumento, que
tua modéstia nunca iria reivindicar?
Se aqui nos encontramos, respeitosamnete inclinados
em torno das vestes corporais que abandonaste
quando não mais te serviam, é
porque, a despeito do que disseram, não
somos esses místicos que, esquecendo
completamente a vida terrena, vivem exclusivamente
para o céu; é porque sabemos,
por tuas sábias instruções,
que devemos o que somos a esta matéria,
sem a qual não sentiríamos o desejo
de nos subtrair-mos às necessidades que
ela impõe, nem nos esforçaríamos
para avançar na senda da perfeição
infinita!...
Efetivamente, não é por ela e
para ela que procuramos superar os obstáculos
que reaparecem incessantemente sob os nossos
passos? Não é ela que nos grita,a
cada vitória alcançada,, sob todas
as dormas e por todos os meios: Marcha, marcha!...
Deus anda criou d einútil. Dando inteligência
à matéria, deu-lhe também
os meios de chegar até Ele. Contudo,
se devemos reconhecer na matéria em geral
um auxiliar indispensável a todos os
nossos progressos e se, nessa qualidade, ela
tem algum direito parante nós, que sentimentos
nos devem animar em presença desse corpo,
dessa ferramenta maravilhosamente organizada,
através da qual damos impulso a todas
as faculdades de nossa alma, exprimimos todos
os pensamentos, todas as aquisições
de nosso ser inteligente!
Ah! Estamos certos de que se trata de um sentimento
de gratidão instintivo para com o companheiro
inseparável de todos os labores, sentimento
que, desde épocas pré-históricas
até nossos dias, tanto nos povos masi
selvagens quanto nos mais civilizados, suscitou
no homem o respeito inveterado pela morte e
a necessidade de consagrar, por meio de monumentos
invioláveis, o pedacinho de solo onde
repousam para sempre os seus despojos mortais!...
E, quando o corpo que jaz sob a lápide
funerária há serviço de
asilo a um desses Espíritos Superiores
que, por suas concepções grandiosas,
revolucionaram sua época, de que profundos
sentimentos religiosos não devemos estar
impregnados em sua presença!
Não foi por meio desta organização
poderosa, hoje fria e inanimada; não
foi pelo exterior desse corpo perecível
que conhecemos Allan Kardec? Contudo, aos que
virem uma deificação da matéria
na homenagem espontânea que lhe prestamos
aqui, diremos:
Não! Allan Kardec não se acha
aqui todo inteiro! Neste invólucro que
repousa aos nossos pés, neste cérebro
extinto, nestes olhos para sempre fechados não
há mais que um instrumento quebrado!
Este mesquinho jazigo não poderia conter
essa inteligência de escol, ese Espírito
tão fecundo, essa individualidade tão
poderosa, para quem o mundo terreno era limitado
demais, e que não parece ter descoberto
o mundo espiritual senão para facultar
um campo mis vasto à sua insaciável
atividade. Nâo! O Espírito não
se acha aqui sob essa laje tumular; ele planasobre
nossas cabeças, num mundo melhor, onde
suas faculdades se exercem em toda a sua plenitude
e onde esperamos encontrá-lo um dia.
Mas Allan Kardec não era apenas uma
inteligência; era também um corpo.
Foi por meio desse corpo que nós o conhecemos,
que nossas inteligências se punham em
relação com a sua. Esta razão
por que hoje nos encontramos reunidos em volta
deste tíumulo.
Assim como seus trabalhos imortais, as marcas
dos homens de gênio pertencemà
História da Humanidade. Delas fazem parte
integrante e, para as reconstituir por inteiro,
para as apresentar semelhantes às futuras
gerações, ávidas por conhecerem
os que lhes abriram novos horizontes a explorar,
é preciso não só o livro,
representação materializada da
inteligência, mas as formas mesmas que
essa inteligência animou.
Os livros continuarão de pé através
dos tempos, para transmitir aos nossos descendentes
o nome daquele que foi o primeiro a ter a ousadia
de penetrar os arcanos da vida imortal, empunhando
o facho da lógica e da razão!
Mas a imagem física dessa alma, o semblante
do homem, esse espelho onde a inteligência
vinha refletir-se, não pertencerá
também à História? A posteridade
não nos cobrará severa conta se,
esquecidos e negligentes, não nos empenharemos
em tornar conhecida a sua vasta fronte, essa
leal fisionomia que transpira benevolência
e amor pela humanidade? Um artista de talento,
o Sr. Capellaro, houve por bem preencher esta
lacuna lamentável. Nos llhe pedimos que
aceite aqui, em nome da Sra.Allan Kardec, em
nome de toda a grande família espírita,
os nossos mais vivos agradecimentos e calorosas
felicitações pelo talento de que
deu prova. com efeito, não é uma
simples imagem do nosso venerado mestre que
temos sob a vista; é o seu pensamento,
é a sua inteligência toda inteira
que irradia em torno deste busto e que fala
aos nossos olhos a linguagem das lamas. Possa
esse bronze, que transmitirá aos séculos
futuros os traços do imortal fundador
da Filosofia Espírita, contribuir para
aumentar ainda mais a reputação
que o Sr. Capellaro adquiriu por seus trabalhos
anteriores.
Caro e venerado mestre:
Se, como não duvidamos , est´s
aqui presente, conquanto invisível para
nós, rogamos que continues dispensando,
à corajosa companheira que não
se intimidou em assumir este pesado fardo para
assegurar a execução de tuas vontades,
e a todos nós, teus amigos e discípulos,
a proteção de que já nos
deste tantas provas.
Com tua lembrança. com teus trabalhos
e com os eflúvios salutares que nos proporcionará
a tua presença, continuaremos, no limite
de nossas forças, a desenvolver e popularizar
a obra que nos confiaste, avançando a
passos lentos, mas seguros, rumo aos tempos
felizes prometidos à Humanidade regenerada.
Tradução de Evandro Noleto
Bezerra - (Extraído do opúsculo:
Discours prononcés pour l'anniversaire
de la mort d'Allan Kardec - Paris, 1870.).
Texto Extraído da revista Reformador
- março 2006