| O TRABALHO | |||||
O "Trabalho" de Gurdjieff n�o � uma religi�o, no sentido convencional, e o pr�prio Gurdjieff n�o � "seguido" como um personagem religioso. Melhor entend�-lo como um pensador, criador de uma escola de pensamento com vida pr�pria e que evolui na busca do homem de aten��o: aquele que desperta para novos padr�es de compreens�o atrav�s do estudo e da reflex�o, e para novos n�veis de consci�ncia, atrav�s da medita��o. |
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� um sistema cosmol�gico e psicol�gico elaborado por dois pensadores russos no in�cio do s�culo XX: G. Gurdjieff e P. Ouspensky, cujas ra�zes procedem das antigas tradi��es e ensinamentos orientais. Os principais elementos da escola do quarto caminho s�o a CONSCI�NCIA e a AUTO-LEMBRAN�A. � um caminho de auto-desenvolvimento, uma maneira de aprender sobre n�s mesmos e de mudarmos a n�s mesmos. E, esperan�osamente, um caminho para Deus ou o que quer que seja ap�s esta vida. O nome "quarto" caminho implica que existem tr�s outros caminhos:
A linha de trabalho difundida por Gurdjieff � conhecida como o QUARTO CAMINHO, provavelmente � o caminho mais dif�cil a ser seguido, uma vez que nos � imposto pratic�-lo em meio a vida cotidiana - no dia-a-dia, sem renunciar ao mundo. No Quarto Caminho � importante manter uma rela��o ativa e direta de comprometimento com as circunst�ncias vari�veis da vida, que nunca s�o fixas e habituais. Deve-se ter capacidade de adapta��o �s diferentes condi��es da vida pondo em pr�tica todos os conhecimentos do Trabalho Em Si. AUTO-OBSERVA��O e LEMBRAN�A DE SI s�o chaves para a evolu��o neste caminho. O homem do Quarto Caminho deve estar conectado, sintonizado com a vida. Deve realmente compreender o significado de ESTAR NO MUNDO SEM SER DO MUNDO. Deve entender que o melhor caminho � o caminho do meio, do centramento, do alinhamento dos centros (f�sico, energ�tico, emocional e intelectual), da harmoniza��o entre o interno e o externo, e aceitar o convite para o verdadeiro DESPERTAR, permitindo assim a manifesta��o do EU SUPERIOR.
A auto-lembran�a � um estado de consci�ncia no qual estamos atentos ao que estamos fazendo. Usualmente esquecemos de n�s mesmos. Ficamos absorvidos pelo que estamos fazendo. Por exemplo, entramos no nosso carro e damos a partida, ent�o, esquecemos de n�s mesmos, (talvez relembrando algum acontecimento passado). Somente quando j� estamos em casa � que nos lembramos de n�s mesmos novamente. Voc� "descobre" ent�o que esteve "dormindo" enquanto dirigia para casa. A auto-lembran�a n�o � uma atitude intelectual, mas uma maneira de ser n�s mesmos, de observa��o de n�s mesmos. A auto-lembran�a � freq�entemente acompanhada de um sentimento de estranheza, como se estiv�ssemos vendo as coisas pela primeira vez. A auto-lembran�a � importante no quarto caminho porque � uma modo de romper o ciclo mec�nico no qual vivemos. Uma das m�ximas da auto- lembran�a �: "Onde quer que se esteja, o que quer que se fa�a, lembrar-se da pr�pria presen�a e reparar sempre no que se faz". A consci�ncia objetiva � a meta, a culmin�ncia da auto-lembran�a. Um dos principais objetivos do "trabalho" � a mudan�a do nosso "n�vel de ser" atrav�s do autoconhecimento. Sem autoconhecimento n�o podemos ter metas sobre n�s mesmos em rela��o a mudan�a de nosso ser. O verdadeiro autoconhecimento � diferente das id�ias e quadros imagin�rios que fazemos a respeito de n�s mesmos e s� pode surgir atrav�s de muita auto-observa��o pessoal. Isso significa que temos que ver como falamos, agimos, quando temos emo��es negativas, quando e com que estamos nos identificando, quando mentimos e tamb�m, conhecer nossas formas particulares de imagina��o. Resumindo: temos que observar as coisas que nos mant�m "adormecidos" e nos impedem de "acordar". Despertar do sono � o mais alto objetivo do "trabalho" no Quarto Caminho. S� o homem desperto � senhor de si mesmo.
"O primeiro tra�o caracter�stico dos grupos, seu tra�o mais essencial, � que estes n�o s�o constitu�dos de acordo com o desejo ou prefer�ncias de seus membros. Os grupos s�o constitu�dos pelo Mestre, que do ponto de vista de suas pr�prias metas, escolhe os tipos de homens capazes de se tornarem �teis uns aos outros. NENHUM TRABALHO DE GRUPO � POSS�VEL SEM UM MESTRE. E o trabalho de grupo sob um mau mestre s� pode produzir resultados negativos. O segundo tra�o importante do trabalho dos grupos � que estes podem estar em rela��o COM ALGUMA META DA QUAL OS QUE COME�AM O TRABALHO N�O PODERIAM FAZER A M�NIMA ID�IA E ESTA N�O LHES PODE SER EXPLICADA ANTES QUE TENHAM COMPREENDIDO A ESS�NCIA, OS PRINC�PIOS DO TRABALHO E TODAS AS ID�IAS QUE A ELE EST�O LIGADAS. Mas a meta em dire��o � qual v�o e a que servem sem conhecer � o princ�pio de equil�brio sem o qual seu trabalho n�o poderia existir. A PRIMEIRA TAREFA � COMPREENDER ESSA META, ISTO � A META DO MESTRE. Quando tiverem compreendido essa meta - embora, no in�cio, isto s� possa ser feito parcialmente - seu pr�prio trabalho tornar-se-� mais consciente e, por conseguinte, poder� dar melhores resultados. Mas, como j� disse, acontece muitas vezes que a meta do Mestre n�o pode ser explicada no in�cio. ("Fragmentos de Um Ensinamento Desconhecido", P. D. Ouspensky )
O Trabalho n�o diz: "N�o tens direito a ser negativo." Um dos sinais pelos quais se pode distinguir entre um ensinamento falso e um ensinamento verdadeiro � que o ensinamento falso insiste que se fa�a algo que n�o se pode fazer ou estabelecer como regra. � sinal de um ensinamento falso, por exemplo, obrig�-lo a prometer algo, ou a jurar, ou fazer um voto de sil�ncio, e assim sucessivamente. Um homem - um homem comum - n�o pode cumprir uma promessa em todas as circunst�ncias, porque n�o � uma pessoa, mas, ao contr�rio, v�rias pessoas. Uma pessoa, um "Eu" nele, pode prometer ou at� amarrar-se por um juramento. Outros "Eus" nele, entretanto, n�o querer�o reconhec�-lo. Supor que um homem pode prometer alguma coisa � supor que j� � uno, uma unidade - quer dizer, um homem que s� tem um "Eu" real, permanente, que o controla e, assim, uma s� vontade. Mas um homem tem muitos "Eus" e muitas vontades diferentes. Suponhamos que o Trabalho estabele�a uma regra deste teor: "N�o deve ser negativo. Deve jurar que n�o ser� nunca negativo. Se n�o cumprir esta promessa, ter� que abandonar o Trabalho." Se o Trabalho dissesse isso, significaria que pressup�e que o homem pode fazer. Mas o Trabalho diz que o homem n�o pode fazer e que isso � preciso perceber por meio da observa��o de si. Se prossegue imaginando que pode fazer, se continua pensando que sempre recorda e cumpre seu prop�sito, ent�o n�o haver� lugar em voc� para o Trabalho e o Trabalho n�o poder� ajud�-lo. N�o sentir� seu desamparo interior. Se come�a a sentir seu desamparo interior de um modo correto, sentir� a necessidade do Trabalho, para que o ajude. Como o Trabalho pode ajud�-lo? S� pode ajud�-lo se voc� come�ar por obedec�-lo. Sentir a necessidade do Trabalho � sentir que precisa de algo para servir de guia. Se deixa que algu�m o guie, � melhor que o obede�a. � preciso que trate de obedecer ao Trabalho. Entretanto, se n�o entende nada, n�o pode obedecer ao Trabalho. Por isso � necess�rio pensar naquilo que o Trabalho ensina, para que fique gravado claramente em sua mente. � preciso que pense, por si mesmo, com seus pensamentos mais genu�nos e pessoais, naquilo que o Trabalho est� sempre lhe dizendo. Se pensar dessa maneira, profunda, �ntima e pessoal, ver� que o trabalho lhe diz mais sobre o que tem de fazer do que sobre o que n�o tem de fazer. Agora, bem, as pessoas muitas vezes perguntam: "Que � que tenho que fazer?" Por esse lado, o Trabalho s� diz duas coisas definidas: "Lembre-se de si mesmo" e "Observe-se a si mesmo." Isso � o que voc� deve tratar de fazer. Por outro lado, o Trabalho diz muitas coisas sobre o que n�o deve fazer. Diz, por exemplo, que deve tratar de lutar contra a identifica��o, de lutar contra a mecanicidade, contra a conversa mec�nica e equivocada, contra todo tipo de considera��o interior, contra todo tipo de auto-justificativa, contra as diferentes imagens de si mesmo, as formas especiais de imagina��o, a antipatia mec�nica, contra todas as variedades de auto-compaix�o e auto-valoriza��o, os ci�mes, os �dios, com a vaidade, a falsidade interior, a mentira, o auto-convencimento, os preconceitos, etc. E fala expressamente de lutar contra as emo��es negativas em seu conjunto. �s vezes se encontra no Trabalho uma pessoa ansiosa e desejosa de saber exatamente o que fazer. Em geral as pessoas que fazem essa pergunta s� prestam aten��o exterior e n�o interior. Como sabem, o Trabalho come�a com a aten��o interior. A observa��o de si � aten��o interior. Uma pessoa deve come�ar por ver a si mesma, a que se assemelha e o que lhe acontece - por exemplo, � preciso que veja por meio da aten��o interna suas pr�prias emo��es negativas, em lugar de ver s� as das demais pessoas por meio da aten��o exterior. � preciso que veja o que significa identificar-se com suas emo��es negativas e o que significa n�o identificar-se com elas. Uma vez que o veja, j� conseguiu a chave para entender o aspecto pr�tico do Trabalho. As primeiras etapas do Trabalho se chamam, �s vezes, "limpeza da m�quina". Uma pessoa que constantemente diz: "Que deveria fazer?", depois de haver ouvido o ensinamento pr�tico do Trabalho algumas vezes, assemelha-se a um homem que tem um jardim cheio de ervas daninhas e diz, ansiosamente: "Que deveria plantar nesse jardim?, Quais plantas poderiam crescer nele?". Mas a primeira coisa que tem a fazer � limpar o jardim. Por isso o Trabalho enfatiza o que n�o deve ser feito - quer dizer, aquilo que � preciso deter, aquilo ao que n�o se deve ceder, o que se deve impedir, o que n�o se deve alimentar mais, o que se deve limpar na m�quina humana. Porque entre n�s n�o h� ningu�m que tenha m�quinas lindas e novas quando entra nesse Trabalho, e sim m�quinas oxidadas, sujas, que necessitam de limpeza di�ria e, por certo, uma limpeza radical no come�o. Uma das maiores formas de sujeira s�o as emo��es negativas e o abandono habitual a elas. A maior sujeira no homem � a emo��o negativa. Uma pessoa habitualmente negativa � uma pessoa suja, no sentido do Trabalho. Uma pessoa que sempre pensa coisas desagrad�veis das demais, que n�o simpatiza com ningu�m, que tem inveja, que sempre tem algum motivo de queixa, alguma forma de compaix�o de si mesma, que sempre sente que n�o � tratada com justi�a, tal pessoa tem a mente suja no mais verdadeiro e pr�tico dos sentidos, porque todas essas coisas s�o formas de emo��es negativas e as emo��es negativas s�o sujas. Agora, bem, o Trabalho diz que tens o direito a n�o ser negativo. Como se assinalou antes, n�o se diz que n�o tens o direito de ser negativo. Examinando a diferen�a ver-se-� como ela � grande. Sentir que se tem o direito a n�o ser negativo significa que se est� bem encaminhado para o verdadeiro trabalho sobre si em rela��o aos estados negativos. Ser capaz de senti-lo atrai a for�a que o ajuda. Mantendo-se erguido, por assim dizer, em si mesmo, em meio a toda a desordem da negatividade, e sentir e saber que n�o � necess�rio perder-se nessa desordem. Dizer esta frase de modo correto para si mesmo, experimentar o significado das palavras "Tenho direito a n�o ser negativo", �, na realidade, uma forma de lembran�a de si, de sentir um ind�cio do verdadeiro "Eu" que se levanta sobre o n�vel de seus "Eus" negativos que todo o tempo repetem que tens todo o direito a ser negativo. Todos voc�s t�m ouvido falar dos n�veis, mas alguns n�o t�m compreendido o que significa um n�vel superior no sentido pr�tico. Qual � o n�vel inferior e qual � o n�vel superior em si mesmo? O Trabalho nos far� viver no n�vel superior de n�s mesmos. Por exemplo, suponhamos que voc� comece a considerar-se internamente. Come�a por fazer contas, calculando o que os outros lhe devem, pensando que o tratam mal, preocupando-se com o que os outros pensam de voc�, etc. Esta � uma atividade do n�vel inferior de si mesmo. Quer dizer, voc� n�o pode viver em um n�vel melhor de si mesmo se abandonar-se todo o tempo � considera��o interior. Agora, bem, suponhamos que comece a n�o gostar do sabor interior da considera��o. Ent�o, quando a considera��o interior come�a, voc� se d� conta disso e sente-se incomodado. Por que? Porque j� come�ou a experimentar ao que se assemelha o n�vel superior. Sente-se incomodado por raz�es de contraste. J� viu algo melhor. J� est� em uma posi��o que permita fazer uma escolha interior. Ou em outro momento, se est� em um estado negativo, est� em um n�vel superior ou inferior de si mesmo? Est� em um n�vel inferior e n�o poder� saborear o que � um n�vel superior enquanto continue abandonando-se, sem controle algum, a seus estados negativos. � sempre quest�o de decis�o interior, de escolha interior. Se voc� come�a a se interessar por seus melhores estados e pelo que os produzem, come�ar� a trabalhar praticamente sobre si mesmo. Os estados melhores pertencem aos n�veis superiores de si mesmo. Existem em voc� diferentes n�veis. Voc� pode viver no subsolo ou mais alto. Mas � preciso que veja tudo isso por si mesmo e chegue a reconhecer aonde est� em si mesmo. Pergunte-se: Onde estou eu? Que pensamentos e emo��es o acompanham, que estado de �nimo, quais "Eus"? � preciso aprender n�o s� com quem viver em si mesmo, mas, tamb�m, onde viver em si mesmo. Mais uma nota. Ao ocupar-se de um estado negativo, contemple o "Eu" em voc� e n�o a pessoa com quem voc� est� negativo. A verdadeira causa do estado negativo � o "Eu" que est� falando internamente em voc� e a quem voc� est� escutando. Se voc� permite que esse "Eu" continue falando e lhe presta aten��o, tornar-se-� cada vez mais negativo. Seu �nico fim � faz�-lo negativo e absorver tanta for�a quanto for poss�vel. Todo "Eu" negativo tem um s� prop�sito - apoderar-se de voc� e alimentar-se de voc� �s suas custas. A verdadeira causa dos estados negativos est� em voc� - nos "Eus" negativos que s� vivem persuadindo-o com meias verdades e mentiras para estropiar-lhe a vida. Todos os "Eus" negativos s� desejam destru�-lo, arruinar sua vida. Este � um bom exerc�cio para praticar. Maurice Nicoll, "Comentarios...", Kier, Vol I, p. 166-168. |
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