Artigos e Textos

DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM
UM OUTRO OLHAR

Maria Ana Tafner Pereira

Vivemos no século de inadaptações escolares, que tendem a aumentar cada vez mais face à expansão e democratização do ensino.

A democratização do ensino implica que as crianças sejam ou se tornem iguais. Essa ideologia igualitária é um logro, ela quer ignorar a disparidade entre as crianças desde o ingresso no ensino fundamental. Há uma uniformização, uma rigidez dos programas.

As dificuldades de aprendizagens projeta-nos, não só em problemas pedagógicos, mas também em problemas econômicos e sociais.

Vivemos numa sociedade altamente competitiva em que o diploma é sinônimo de sobrevivência social. No âmbito escolar, professores e alunos são vistos como instrumento de produção e matéria-prima, e o êxito escolar é cobrado tanto pela família quanto pela sociedade, não se levando em conta que estamos lidando com pessoas, e principalmente negligenciando a estória e a experiência de cada um. Aponta-se como dificuldade de aprendizagem toda e qualquer situação de fracasso escolar, não se levando em conta o contexto. Tudo o que foge ao padrão, é de responsabilidade do aluno.

As aprendizagens escolares surgem para crianças como fantasmas repressivos que vão resultar numa multiplicação dos fracassos escolares. A escola por sua vez, não pode fazer milagres, ela é o reflexo de um sistema social que limita e condiciona, mas por outro lado, a escola também não se mobiliza para refletir e rever suas práticas.

Não há dúvida que desde que a criança nasce até o momento em que ela entra para a escola, inúmeras desigualdades biossociais irão afetar o seu desenvolvimento motor, perceptivo e cognitivo, o que irá refletir nas aprendizagens da leitura, da escrita e do cálculo. Para que a criança aprenda é preciso que sejam respeitadas várias integridades: o desenvolvimento preceptivo-motor e a maturação neurobiológica, além dos aspectos psicossociais tais como: oportunidades de experiência, exploração de objetos e brinquedos, assistência médica, cultura, etc., e muitas dessas crianças chegam ao primeiro ano escolar sem o desenvolvimento de determinados aspectos essenciais tais como: consciência da sua lateralidade (que é essencial para a orientação e para o desenvolvimento da linguagem) a noção do seu corpo, isto é, do seu eu integral, e outros tantos aspectos do comportamento emocional que são necessários para as aprendizagens escolares.

A aprendizagem escolar está muito ligada a uma atitude seletiva da sociedade, que se reflete na própria prática pedagógica do professor e na ansiedade dos pais. Se a criança ou adolescente, não alcançar o êxito escolar, logo se suspeita de alguma disfunção cerebral ou de algum problema de maturação do sistema nervoso. Essa visão patológica do problema de aprendizagem merece várias reservas, e não podemos em momento algum negligenciar os fatores sócio-econômicos e sócio-culturais dos sujeitos envolvidos, devendo-se levar em conta o contexto em que o aluno está inserido, sua história pessoal e familiar.

Há de se levar em consideração ainda, o respeito à crise que o sujeito atravessa nesse período chave de sua evolução, em plena crise edipiana, ele deve renunciar à sua posição de “criancinha” protegida, garantida pelo meio familiar, e se tornar um ser social, confrontado a lei do grupo. É a idade em quem ele deve relaxar sua ligação com a mãe. A separação implica num trabalho de luto, um doloroso trabalho psíquico de remanejamento das posições subjetivas. Em vez de ser o objeto que satisfaz o outro, a criança deve se tornar um sujeito por inteiro, do status de objeto que satisfaz o outro, deve passar ao status de sujeito desejante.

A resolução edipiana , a superação da angústia da castração, são etapas obrigatórias do desenvolvimento. A amplitude da crise varia de uma criança para outra, bem como o tempo de resolução, e qualquer que seja a forma como a criança enfrenta esse período, não ficará sem efeito sobre o despertar de sua inteligência lógica e sobre o interesse que dispensará às aprendizagens escolares.

O fracasso escolar da adolescência está quase sempre relacionado à retomada da crise edipiana. O adolescente deve superar a prova da separação, mas a crise se complica com novas recolocações do ego, calcado, mais freqüentemente nas imagens parentais, é posto em questão e os estudos, valorizados pelo meio, são a contrapartida do desejo de emancipação.

Ao profissional, cabe levantar e analisar todos esses aspectos e intervir de forma adequada, quer junto à família, quer junto à escola, buscando promover o desenvolvimento integral do sujeito, a resignificação do aprender e o despertar do desejo de aprender, muitas vezes adormecido, face às decepções proporcionadas pelas situações do fracasso escolar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORDIÉ, Anny. Os atrasados não existem. Psicanálise de crianças com fracasso escolar. Artmed editora, 1996.
FONSECA, Vitor da. Introdução às dificuldades de aprendizagem. Artmed editora, 1995.
BOSSA, Nádia Aparecida e OLIVEIRA, Vera Barros (Orgs). Avaliação Pp. do adolescente. Editora Vozes, 7ª edição, 1998.
LAJONQUIÈRE, Leonardo de. De Piaget a Freud - Para repensar as aprendizagens - A Psicopedagogia entre o conhecimento e o saber. Ed. Vozes, 2003.



 

 
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