Marina Reis Botelho
Resumo: Este artigo tem como objetivo
levantar algumas questões acerca
da adolescência como vivida atualmente
para auxiliar no trabalho terapêutico
com adolescentes na clínica.
Palavras-chave: adolescência,
contemporaneidade, atendimento psicológico.
Como se dá o trabalho clínico
com adolescentes?Em que momentos os
pais devem estar presentes no atendimento
dos filhos? Como está a demanda
de adolescentes para a Clínica
psicológica? Como podemos guiar
a transferência nas primeiras
entrevistas?Como a adolescência
é vista segundo alguns autores
e porque é objeto de tantos estudos
e pesquisas nos dias atuais? Afinal,
podemos considerá-la como uma
fase do desenvolvimento humano, ou,
ela é simplesmente um sinônimo
de crise? Adolescência e puberdade
são sinônimas?
Este é mais um trabalho de discussão
de quais podem ser as questões
trazidas pelo adolescente e com o que
elas estão relacionadas. Para
isso é preciso saber como estão
vivendo hoje, o que buscam, como se
relacionam e com quem se relacionam.
Segundo Ariès, até o século
XVIII, a adolescência foi confundida
com a infância, pois a idéia
de infância estava ligada à
idéia de dependência, ou
seja, só se saía da infância
ao se sair da dependência.Além
disso, a vida privada individual era
muito partilhada com os que conviviam
no mesmo espaço doméstico.
Pais e filhos viviam todos os atos da
vida cotidiana às claras.
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* Estagiária de Psicologia da
Clínica Processus Trabalho apresentado
na reunião dos profissionais
da Clínica, no mês de outubro
de 2005, coordenada por Dalila Oliveira.
Nunca se dormia sozinho, sempre várias
pessoas dormiam no mesmo quarto e era
difícil ter objetos pessoais
e conseqüentemente um cantinho
próprio; tudo era muito bem dividido.
Com o tempo, a infância vai se
definindo mais e a adolescência
começa a se definir.
A preocupação do estudo
da adolescência desponta no início
do século XX. A família
vai perdendo gradualmente as funções
que a caracterizavam como uma microssociedade.
A socialização dos filhos
abandonou em larga medida a esfera doméstica.
Antes, por exemplo, na sociedade pré-1950
o poder dos pais sobre os filhos era
inquestionável: os filhos não
tinham qualquer direito a uma vida privada.
O tempo livre dos adolescentes não
lhes cabiam, mas sim aos pais que os
encarregava de muitas tarefas. Eles
vigiavam as relações de
seus filhos e mostravam uma grande resistência
quanto às amizades extrafamiliares.Quando
os filhos ficavam longe dos pais, nem
por isso essa obrigação
deixava de existir, passava a ser delegada
a outra pessoa: em 1930 as cartas enviadas
aos alunos deviam apresentar do lado
de fora a assinatura dos pais, autorizando
os filhos a recebê-las.Assim,
tais práticas institucionais
davam aos pais o poder de decidir sobre
o futuro dos filhos, principalmente
o profissional.
É também a partir dos
anos 50 que ocorreu o “boom”
da produção tecnológica
e as universidades recebem um contingente
muito grande de mulheres.As mulheres
entram para as fábricas e começam
a trabalhar fora de casa. Eclode o movimento
feminista e os homens começam
a se sentir ameaçados, vai havendo
uma mistura de papéis do homem
e da mulher que até então
estavam muito bem estabelecidos.
Na educação muitas mudanças
ocorreram. O latim já não
era mais estudado, e em 1961, a filosofia
é excluída do ensino médio.Assim,
toda a capacidade crítica se
torna defasada.A geração
de 1970 vai perdendo as referências.Com
o avanço tecnológico a
sociedade é convidada a se informatizar
e a divulgação de marcas
se torna essencial, o mostrar o que
se tem tinha grande prevalência.Ao
final dos anos 80, havia uma grande
capacidade intelectual, mas muito pouca
capacidade de crítica.
Desse modo, há um grande dilema
para os pais e para a sociedade: se
fazem da família uma instituição
coercitiva demais, os filhos se afastam;
mas por outro lado, a família
não pode existir no dia-a-dia
sem um mínimo de regras.A adolescência,
grande temática desse século
XX se encontra envolta de tudo que vem
acontecendo na história e sofre
conseqüências das mudanças
nos papéis familiares e nos papéis
da sociedade.
Para Aberastury, as modificações
psicológicas e corporais que
ocorrem neste período levam a
uma nova relação com os
pais e com o mundo, o que só
é possível se há
a elaboração lenta e dolorosamente
do luto pelo corpo de criança,
pela identidade infantil e pela relação
dos pais da infância. O desprender-se
do “mundo infantil”, requer
tempo e o apoio do mundo externo. Porém,
a adolescência gera também
muitas modificações nos
pais. A adolescência não
é somente um período conturbado
para o adolescente, mas para todos que
se relacionam com este, principalmente
os pais.Também os pais sofrem
o conflito dos filhos, pois têm
que se desprender do papel anterior
de pais de jovens e aceitar a velhice
e a morte. A adolescência dos
filhos desperta uma avaliação
crítica nos adultos, que, para
esta autora, faz rever os méritos
dos pais e suas impossibilidades. Os
pais já não têm
como negar a sexualidade dos filhos,
pois a maturidade biológica já
se deu.
Segundo relato de duas adolescentes
no Pátio Savassi em BH, “Tudo
que eu faço pra minha mãe
é errado, ela tá meio
fora da época. Porque cada época
é uma época. Então,
os nossos pais viveram em épocas
diferentes, eles foram mais presos,
assim, e agora, nós somos mais
espontâneos do que eles, e a gente
tem ações diferentes do
que eles tiveram. Eu brinco com a minha
mãe que ela está na idade
medieval, ela ainda pensa muito... a
minha mãe tem uma mentalidade
muita antiga, Deus me livre...”
Para Outeiral, a adolescência
é basicamente um fenômeno
psicológico e social. Sendo um
processo psicossocial, a adolescência
gera diferentes peculiaridades conforme
o ambiente social, econômico e
cultural em que o adolescente se desenvolve.
Além disso, este autor relata
que existe uma confusão entre
os termos adolescência e puberdade.
Para ele, são termos diferentes,
mas estreitamente ligados. Puberdade
é um processo biológico
que inicia entre 9 e 14 anos aproximadamente
e se caracteriza pelo surgimento de
uma atividade hormonal que possibilitam
a formação do que se chama
de “caracteres sexuais secundários”.
Ou seja, na adolescência, o indivíduo
se vê obrigado a assistir e a
sofrer uma série de transformações
que se dão em seu corpo, e, conseqüentemente
na sua personalidade. O adolescente
vive a perda do corpo infantil, com
uma mente ainda infantil e com um corpo
que vai se fazendo adulto e que ele
ainda desconhece. A puberdade estaria
concluída em torno dos 18 anos,
assim como o crescimento físico
e o amadurecimento gonadal. Já
o término da adolescência,
assim como seu início, é
bem mais difícil de determinar,
já que se leva em conta uma série
de fatores socioculturais.
Como se pôde perceber, a adolescência
nem sempre existiu.Com as mudanças
ocorridas na família, na sociedade
e nos valores durante os séculos
é possível perceber que
a adolescência foi sendo construída
e hoje ainda idéias associadas
à adolescência como dependência
e independência e a importância
dos pais continuam sendo essenciais
no estudo desse tema.
Para Rabello, estamos vivendo mudanças
radicais que transformaram o cotidiano
e os valores.Ela diz: “Filhos
da tecnologia, da televisão e
da cultura de consumo”.Crianças
e adolescentes parecem encarar com naturalidade
a realidade atual, já que não
conheceram um mundo sem telefone, carro
ou computador.
Acredito que as mudanças foram
muitas e que os adolescentes ainda continuam
mudando numa velocidade ainda maior.Criam
novos rituais, novos hábitos,
e, esses são alguns dos motivos
da importância do estudo do adolescente
na contemporaneidade.
Talvez o trabalho da Psicologia se dê
principalmente durante este tempo de
luto do adolescente com seu corpo infantil
e os conflitos com este corpo e também
com os pais. Temos que estar atentos
para não permanecermos também
na “idade medieval” ou então
meio perdidos, sem saber o que fazer,
como muitos pais hoje se encontram.
Nesse aspecto a Psicanálise tem
muito a acrescentar, pois os adolescentes
querem ser escutados e olhados, buscam
identificações. A transferência
se dá a partir do momento em
que o psicólogo agir de modo
a despertar no adolescente a confiança
deste no trabalho que irá ser
desenvolvido. O psicólogo se
torna então, responsável
por fazer com que seu cliente tenha
interesse em realizar com essa parceria
um trabalho de ajuda e, conseqüentemente,
de compreensão de si. As primeiras
entrevistas são muito importantes,
pois é o momento em que as expectativas
do cliente em relação
ao psicólogo são muitas
e o manejo da transferência se
torna objetivo principal do psicólogo
para com seu cliente.
Referências Bibliográficas:
ABERASTURY, Arminda. Adolescência.
Artes Médicas, Porto Alegre,
1990.
ARIÈS, Phillipe .A História
Social da Criança e da Família.LTC,
Rio de Janeiro,1981.
OUTEIRAL, José. Adolescer. Revinter,
Rio de Janeiro, 2003.
RABELLO, Lucia. Crianças e adolescentes
na sociedade de consumo. Nau, Rio de
Janeiro,1999.
Entrevista com adolescentes realizada
no Pátio Savassi na cidade de
Belo Horizonte.