Lavínia
Santiago Martins *
Resumo: Com a perda de uma pessoa
que amamos ficamos privados, temporariamente,
dos prazeres da vida. Nos vemos cercados
de obscuridade e nada nos traz mais
nenhum bem. A vida empobrece, perdemos
o interesse, e ficamos perdidos e presos
em uma imensa dor que serve como uma
punição a nós mesmos
por permitirmos, de certa forma, que
aquela pessoa se vá. Até
o dia em que conseguimos elaborar este
luto e perceber que ainda estamos vivos,
e que quem se foi estará sempre
presente em nossas lembranças,
já que não podemos mais
tê-la em presença física.
A perda de um objeto de amor, poderá
causar uma trajetória complicada
no decorrer de nossa vida. Como acontece
com este caso clínico que descrevo,
que só foi possível escrevê-lo
através de um atendimento de
psicoterapia.
Unitermos: Dor, perda, morte,
luto.
“... é
adulto aquele que, qualquer que seja
sua
idade, perdeu alguém”.
Michel Tormier
Iniciei o atendimento de psicoterapia
com Carla¹, 13 anos, em maio de
2005 e desde então a cada semana
vem sendo surpreendente as sessões.
Pr. é a caçula de quatro
filhos, sendo dois homens, um de 27
e outro de 30 e uma menina de 23 anos.
Perdeu a mãe quando tinha apenas
6 anos de idade, decorrente de um câncer,
que nem mesmo pr. sabe bem em qual lugar
do corpo foi, pois a família
não deu maiores informações
a respeito, e mesmo tanto tempo depois,
ela também não procurou
saber. Sua mãe, após descobrir
a doença, não suportou
por muito tempo e faleceu em seis meses.
Seu pai, durante o tempo em que sua
mãe estava doente, começou
a se relacionar com outra mulher bem
mais nova que ele. Quando a esposa faleceu,
o pai casou-se com a namorada levando-a
para morar em sua casa.
Pr. sabia da traição do
pai e disse, em certa sessão,
que compreendia, pois o pai é
homem e não podia ter relação
sexual com sua mãe. Os irmãos
não conseguiram suportar a presença
da nova mulher de seu pai na mesma casa
que era da mãe e dormindo na
cama que a pertenceu. Logo se mudaram
para outro apartamento, menos pr. que
quis ficar com o pai. Todos os irmãos
trabalham e hoje podem arcar com as
despesas, porque o pai não os
ajudam em nada. No começo contavam
com uma tia, irmã do pai, que
reprova intensamente o comportamento
do irmão.
Pr. conta que antes de sua mãe
falecer eram uma família unida,
faziam churrasco todos os domingos,
e alega que era a preferida de seu pai,
estavam sempre juntos e este fazia tudo
por ela. Quis continuar morando com
ele, porque imaginava que a relação
dos dois continuaria como antigamente.
Mas, depois de um ano, se mudou para
o apartamento dos irmãos, disse
que seu pai não lhe dava mais
atenção só queria
saber da esposa e do filho que teve
com ela. Somente, de vez em quando,
liga perguntando como estão e
se precisam de alguma coisa, pr. diz
que precisa de amor, o pai nada diz.
A madrasta de pr., hoje, tem três
filhos e, consequentemente, pr. perdeu
o lugar de caçula e de preferida.
Agora, quase não vê o pai,
tem um relacionamento razoável
com a madrasta, que tem 19 anos.
Durante as sessões, quando falo
de seu pai, pr. vira o rosto para o
relógio e pergunta se já
está terminando o atendimento
ou então, começa a falar
de coisa banais, como sobre o tempo.
Diz estar com preguiça de tudo,
só quer ficar dormindo, não
se interessa pelas atividades da escola
e que está muito triste. Não
quer falar de passado, pois seu pai
a abandonou, não está
mais na vida dela e de seus irmãos.
Pr. pergunta: “Para que viver,
por que nasci”?
Segundo FREUD (1917) em Luto e Melancolia
aponta o luto como sendo equivalente,
em alguns pontos, com a melancolia,
uma vez que esta seria entendida como
um processo em que há uma enorme
desapreciação do mundo
e de si mesmo. Como no luto, a melancolia
faz com que o sujeito recrimine a si
mesmo privando-se de todo o prazer.
Apesar de pr. ter apenas 13 anos, já
namorou e se relaciona com outros garotos.
Todos eles a traíram e pr. diz
que “chega de traição”.
Na verdade, esta traição
que pr. fala é da traição
do pai em relação a ela,
pois, até então, pr. era
a filha preferida, a quem pertencia
toda a atenção do pai,
o que hoje não acontece mais.
No momento em que pr. fala que “chega
de traição”, é
o que poderíamos chamar de “entrada
em análise”, ou seja, é
a partir daí que ela percebe
seu lugar e tem que definir o que fazer
e sair deste lugar que ocupa. Na verdade
pr. se une ao pai e o elege como seu
“homem”, para isso teve
permissão da mãe, que
em nenhum momento barra a filha de ocupar
este lugar. Sua cunhada conta na anamnese,
que a mãe sentia ciúmes
ao ver o apego de pr. com o pai. Sendo
que, este também permite que
pr. ocupe o lugar de “mulher’.
Ao falecer a esposa, o pai escolhe então,
como sua mulher uma garota que na época
tinha 13 anos.
Pr fala da raiva que sente por ter sido
separada de seu pai. Quando falo sobre
esta “separação”
pr. afirma que o que proporcionou tudo
isto foi a morte de sua mãe,
porque se esta não tivesse morrido,
ainda estava ao lado do pai. Durante
as sessões, pr. sempre falou
do pai, mas a demanda de terapia havia
sido pela morte da mãe. Desta
forma, de que perda pr. estava falando?
Este luto era pela perda de quem?
No caso de pr. houve um luto, mas pela
perda simbólica do pai, que a
deixou desprovida de todo afeto paterno,
que se confunde, consequentemente, com
o luto pela perda da mãe.
“ O objeto talvez não
tinha realmente morrido, mas tenha sido
perdido enquanto objeto de amor”.
(FREUD, 1917, pág. 277)
O luto não é necessariamente
a perda de uma pessoa, mas sim, algo
significativo, como trabalho, dinheiro,
etc. Contudo, percebe-se que pr. sofre
pela ausência deste pai que sempre
foi, desde a infância, sua referência
de amor, e que hoje vive a perda deste
objeto de amor, ou pelo menos a ausência
dele.
O luto é uma reação
natural referente à perda do
objeto amado, é uma reação
sadia que faz parte do processo. Interrompê-lo
seria inútil e prejudicial ao
sujeito. O desligamento do objeto perdido
é gradual e demanda um tempo
que deve ser respeitado.
Uma semana após o término
deste artigo, pr. interrompe sua psicoterapia,
ficando claro que não deu conta
de enfrentar suas questões, o
que não significa que não
poderá retomar futuramente num
momento em que estiver preparada para
ocupar um outro lugar, ou seja, de uma
mulher na vida de outro homem.
BIBLIOGRAFIA
FREUD, Sigmund. 1917. Luto e Melancolia.
In__ Luto e Melancolia. Rio de Janeiro:
Imago. 1969. p. 271 – 291. (ed.
Standard das Obras Completas de Freud,
vol. XIV).
_______________ 1915. Nossa Atitude
para Com a Morte. In__ Reflexão
sobre os Tempos de Guerra e Morte. Rio
de Janeiro: Imago. 1969. P. 327 –
339. (ed. Standard das Obras Completas
de Freud, vol. XIV).
* Psicóloga
¹ Nome fictício
