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AS REGRAS DO JOGO  

Vamos supor que não procuremos confirmar ou negar o que nos ensinaram, mas descobrir o que de fato funciona. Há um meio de testar códigos de ética concorrentes?  Admitindo que o mundo real pode ser muito mais complicado que qualquer simulação, podemos explorar a questão cientificamente? Estamos acostumados com jogos em que alguém ganha e alguém perde. Todo ponto marcado pelo nosso adversário nos deixa um tanto para trás. Jogos de "ganhar-perder" parecem naturais, e muitas pessoas têm dificuldade em pensar num jogo que não seja de ganhar-perder. Em jogos de ganhar-perder, as perdas apenas equilibram os ganhos.  É por isso que são chamados jogos de "soma-zero". Não há ambigüidade sobre as intenções do adversário: dentro das regras do jogo, ele fará todo o possível para derrotar o outro. Não há nenhum modo de os jogadores cooperarem para que todos se beneficiem. Não foi para isso que o jogo foi projetado. O mesmo vale para o boxe, o futebol, o xadrez, todos os eventos olímpicos, a amarelinha e a política partidária. Em nenhum desses jogos, temos a oportunidade de praticar as Regras de Ouro e Prata nem sequer a de Bronze. Há apenas espaço para as Regras de ferro e Lata. Se veneramos a Regra de Ouro, por que ela é tão rara nos jogos que ensinamos às crianças? Depois de 1 milhão de anos de tribos intermitentemente guerreiras, logo pensamos à maneira da soma-zero, tratando toda interação como uma competição ou um conflito. No entanto a guerra nuclear (e muitas guerras convencionais), a depressão econômica e os ataques ao meio ambiente global são todas proposições de "perder-perder". Interesses humanos vitais como o amor, a amizade, a paternidade e a maternidade, a música, a arte e a busca do conhecimento são proposições de "ganhar-ganhar". A nossa visão fica perigosamente estreita, se apenas conhecemos ganhar-perder. A área científica que trata dessas questões se chama teoria do jogo, usada na tática e estratégia militares, na política comercial, na competição empresarial, na redução da poluição ambiental e nos planos para a guerra nuclear.

Sagan, Karl. Bilhões e Bilhões

Importante
 
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