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AS REGRAS DO JOGO |
Eu me lembro do fim de um remoto dia perfeito em 1939 - um
dia que poderosamente influenciou o meu pensamento o dia em
que meus pais me apresentaram as maravilhas da Feira
Mundial de Nova York. Era tarde, bem depois da minha hora de
dormir. Empoleirado com segurança nos ombros de meu pai
agarrando-me nas suas orelhas. Estávamos abandonando o
futuro. o "Mundo do manhã" para pegar o metrô BMT. Quando
paramos para re-arrumar nossas posses, meu pai começou a
falar com um homenzinho cansado que carregava uma
bandeja pendurada ao redor do pescoço. Vendia lápis. Meu pai
meteu a mão no saco de papel marrom amassado que continha os
restos de nossos lanches tirou uma maçã e a deu ao
homem dos lápis. Eu comecei a berrar. Não gostava de maçãs,
naquela época, e recusara a fruta tanto na hora do almoço
como no jantar. Mas tinha, ainda assim, um interesse
de proprietário na fruta. Era a minha maçã. e meu pai
acabara de dá-la a um estranho de aparência curiosa que,
para aumentar a minha angústia, agora olhava sem
simpatia na minha direção. Embora meu pai fosse uma pessoa
de paciência e ternura quase ilimitadas, percebi que estava
desapontado comigo. Ele me pegou no colo e me apertou contra
si. "Ele é um pobre coitado desempregado ", disse para mim,
baixinho, de modo que o homem não escutasse. "Não comeu nada
o dia todo. Nos temos o bastante. Podemos lhe dar uma
maçã." Reconsiderei a questão, abafei os meus soluços, dei
mais uma olhada ansiosa no Mundo de Amanhã e agradecidamente
adormeci no seus braços.
Os códigos morais que procuram regular o comportamento
humano têm nos acompanhado, não só desde a aurora da
civilização, mas também entre nossos ancestrais
caçadores-coletores pré-civilizados e altamente
sociais. E até antes disso.
Sagan, Karl. Bilhões e Bilhões |