10 de 10
AS REGRAS DO JOGO
Algo parecido pode ser
encontrado no reino animal e tem sido bem estudado em nossos
parentes mais próximos, os chimpanzés. Seria um
comportamento, descrito e nomeado "altruísmo recíproco" pelo
biólogo Robert Trivers, segundo o qual os animais podem
fazer favores a outros na expectativa de que vão receber de
volta os favores, não todas as vezes, mas o bastante para a
regra ser útil. Não é uma estratégia moral invariável, mas
também não é incomum. Assim, não há necessidade de debater
sobre a antiguidade das Regras de Ouro, Prata e Bronze ou a
Regra "Tit-for-Tat", nem sobre a prioridade dos preceitos
morais do Livro do Levítico. As regras éticas desse tipo não
foram originalmente inventadas por um legislador humano
iluminado. Elas provêm do fundo de nosso passado
evolucionário. Já estavam em nossa linha ancestral numa
época em que ainda não éramos humanos. O Dilema do
Prisioneiro é um jogo muito simples. A vida real é
consideravelmente mais complexa. Se meu pai dá a nossa maçã
ao homem dos lápis, terá mais chances de receber de volta a
maçã? Não do homem dos lápis: nunca mais o veremos. Mas atos
difundidos de caridade podem melhorar a economia e conseguir
um aumento para o meu pai? Ou damos a maçã em busca de
recompensas emocionais, e não econômicas? Além disso, ao
contrário dos participantes num jogo ideal do Dilema do
Prisioneiro, os seres humanos e as nações começam a
interagir com predisposições, tanto hereditárias como
culturais. Mas as lições centrais num rodízio não muito
prolongado do Dilema do Prisioneiro são sobre a clareza
estratégica; sobre a natureza auto destrutiva da inveja
sobre a importância das metas de longo prazo em relação às
de curto prazo; sobre os perigos tanto da tirania como da
ingenuidade; e especialmente sobre a possibilidade de
abordar toda a questão das regras da vida diária como um
assunto experimental. A teoria do jogo também sugere que um
amplo conhecimento de história é uma ferramenta-chave para a
sobrevivência.
Sagan, Karl. Bilhões e Bilhões |