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AS REGRAS DO JOGO  

 Sociedades diferentes têm códigos diferentes. Muitas culturas afirmam uma coisa e fazem outra. Em algumas sociedades afortunadas, um legislador inspirado dita um conjunto de regras a serem observadas na vida diária (e na maioria das vezes alega ter sido instruído por  um deus - sem o que poucos teriam seguido as prescrições). Por exemplo, os códigos de Ashoka (Índia), Hamurabi (Babilônia), Licurgo (Esparta) e Sólon (Atenas), que  outrora dominaram civilizações poderosas, estão hoje em grande parte extintos. Talvez julgassem de forma errônea a natureza humana e pedissem demasiado de nós. Talvez  a experiência de uma época ou cultura não seja inteiramente aplicável a outra. E surpreendente ver que existem hoje em dia tentativas, ainda tateantes, mas nascentes de abordar a questão cientificamente, isto é, experimentalmente. Tanto em nossa vida cotidiana como nas relações solenes entre as nações devemos decidir: o que significa agir corretamente? Devemos ajudar um estranho carente? Como lidar com um inimigo? Devemos tirar proveito de alguém que nos trata bondosamente? Se feridos por um amigo, ou ajudados por um inimigo, devemos retribuir o que nos fizeram? Ou a totalidade do comportamento passado prevalece sobre quaisquer desvios  recentes da norma? Exemplos: a sua cunhada ignora a sua descortesia e o convida para o jantar de Natal: você deve aceitar? Rasgando uma moratória voluntária mundial de quatro anos,  a China retoma os testes de armas nucleares: devemos fazer o mesmo? Quanto devemos dar para a caridade? Um colega de trabalho o leva a fazer má figura diante do chefe: você  deve tentar se vingar? Devemos enganar na declaração do imposto de renda? E se pudermos escapar impunes? Se uma companhia de óleo apóia uma orquestra sinfônica ou  patrocina um refinado drama de TV, devemos ignorar a sua poluição do meio ambiente? Devemos ser bondosos com os parentes idosos mesmo se eles nos deixam loucos? Devemos  trapacear no jogo de cartas? Ou numa escala maior? Devemos matar os matadores? Ao tomar essas decisões, o nosso interesse não é apenas fazer o correto, mas também fazer o que funciona o que nos torna a nós e ao resto da sociedade mais felizes  e mais seguros.

Sagan, Karl. Bilhões e Bilhões

Importante
 
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