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AS REGRAS DO JOGO  

Há uma tensão entre o que chamamos de ético e o que chamamos de pragmático. Se, até a longo prazo, o comportamento ético fosse autodestrutivo, acabaríamos  por não considerá-lo ético, mas tolo. Tendo em vista a variedade e a complexidade  do comportamento humano há algumas regras simples, sejam chamadas de éticas ou pragmáticas, que realmente funcionam? Como decidimos o que fazer. Retribuímos na mesma moeda ou agimos ao contrário  porque esperamos que nosso ato vá conseguir o que desejamos. As nações se reúnem ou explodem armas nucleares para que os outros países não brinquem com elas. Pagamos  o mal com o bem, porque sabemos que assim podemos talvez despertar o senso de justiça das pessoas ou obrigá-las a ser cadáveres pela vergonha experimentada. Mas  às vezes nossos motivos não são egoístas. Algumas pessoas parecem ser naturalmente bondosas. Aceitamos provocações de pais idosos ou dos filhos porque os amamos e queremos que sejam  felizes, mesmo que isso nos custe um pouco. As vezes somos duros com nossos filhos e lhes causamos um pouco de infelicidade, porque queremos moldar o seu caráter  e acreditamos que os resultados a longo prazo lhes trarão mais felicidade que a dor a curto prazo. Os casos são diferentes. As pessoas e as nações são diferentes. Saber como negociar nesse labirinto é parte da sabedoria.Ou talvez devêssemos evitar qualquer tentativa de  pensar a fundo sobre a questão e fazer apenas o que sentimos ser correto. Porém, mesmo assim, como é que determinamos o que "sentimos ser correto"?

 O padrão mais admirado de comportamento, pelo menos no Ocidente, é a Regra de Ouro, atribuída a Jesus de Nazaré. Todo mundo conhece a sua formulação no Evangelho  de São Mateus do primeiro século: "Faz aos outros o que desejas que te façam". Quase ninguém a segue. Quando perguntaram ao filósofo chinês, Confúcio, a sua opinião sobre a Regra de Ouro, ele teria respondido: "Então com  o que você vai pagar a bondade?". A mulher pobre que inveja a riqueza de seu vizinho deve dar o pouco que tem aos ricos? O masoquista deve infligir dor ao seu vizinho?  A Regra de Ouro não leva em conta as diferenças humanas. Depois que nossa face é esbofeteada, somos realmente capazes de virar o outro lado para que também seja  esbofeteado? Com um adversário impiedoso esse gesto não é apenas a garantia de mais sofrimentos?

 

Sagan, Karl. Bilhões e Bilhões

Importante
 
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