III - Dentro da Música
14. O coro dos desafinados
15. Audição interativa
16. A música de cada um
17. Composição e improvisação
18 A música das palavras
19. Música transpessoal
20. A questão cultural
21. Os desafios da Música Natural
22. O autor
III
Dentro da Música
Capítulos 14 a 22Antônio da Rosa Maestro
A Arte de Ouvir
O que você não sabe nem sequer pressente,
é que os desafinados também têm um coração.
(Newton Mendonça/Tom Jobim)O ouvido humano só estará completamente formado após oito ou nove anos de idade, assim como o sistema ocular. Já a coordenação motora precisa ser estimulada e desenvolvida antes dos cinco ou seis anos. Depois desta idade as possibilidades de desenvolver a noção de ritmo numa criança tornam-se cada vez menores. Um adulto que não consegue bater palmas no compasso é praticamente incurável e terá enormes dificuldades se decidir aprender música.
A questão da afinação, ter ou não ter ouvido, precisa estar bem resolvida antes da adolescência. Se você é um desafinado compulsivo, evite cantar para seus filhos. Algum hum-hum-hum de ninar ainda passa, mas cantar musiquinhas infantis em altos brados totalmente fora do tom é insultar a natureza perfeita da criança. As condições genéticas podem facilitar ou complicar as possibilidades musicais de alguém, mas qualquer pessoa pode sair da infância com uma boa consciência do mundo sonoro, desde que seja pedagogicamente orientada.
Para ouvir música basta ter coração e ouvidos.
Para fazer música é necessário um período de aprendizagem.
O talento nato é um facilitador, mas se a lebre dorme no ponto a tartaruga vence a corrida. Aprender a fazer boa música exige paciência, autodeterminação e um professor habilitado.
E eu em estado de graça,
de estar aprendendo a tocar violão.
(Vinícius de Moraes/Toquinho)Eu corri para o violão num lamento,
e a manhã nasceu azul,
como é bom saber tocar um instrumento.
(Caetano Veloso)Cuidado! É muito fácil tocar mal, principalmente estes teclados eletrônicos modernos.
É bom ter cuidado, também, se você se torna um exímio instrumentista antes de atingir a maturidade intelectual, o que só acontece depois dos trinta anos. O sucesso de público não é garantia de qualidade existencial.
Para que haja boa música de fato a sensibilidade e a qualidade da pessoa do músico são mais relevantes que sua técnica. Tocar bem não é suficiente para quem busca evolução espiritual e autoconhecimento; fazer boa música exige coração afinado, sensibilidade à flor da alma, generosidade e grandeza de espírito. Sem estes elementos, o músico, por melhor que seja seu desempenho técnico, fará música de pouca densidade extrafísica e não terá meios de atingir as mais altas oitavas harmônicas de sua platéia. Pode enganar a 99,99 por cento do público, mas não pode enganar a si mesmo.
Para quem já não pode mais tornar-se músico, por isto ou por aquilo, resta aprender a ouvir. Nunca é tarde. A maturidade espiritual é algo que só se alcança no momento da morte. Se alguma parte de nós sobrevive ao trauma da perda do corpo físico, esta parte certamente sabe música. Já não tem mais as riquezas materiais que acumulou ao longo da vida, mas o que desenvolver de sua musicalidade levará consigo.
Os grandes atletas encerram sua carreira por volta dos trinta anos. Os grandes músicos só se tornam craques bem depois disso, quando aprendem a transcender a forma e a buscar novos caminhos dentro de si mesmos.
Música é experiência, só se aprende a fazer fazendo.
De qualquer modo, antes de aprender a tocar um instrumento ou sair cantando por aí, procure aprender a ouvir com o coração e reconhecer a voz que canta no centro do seu peito.
Vale mais ouvir bem que tocar mal.
"E basta contar compasso,
e basta contar consigo,
que a chama não tem pavio,
de tudo se faz canção,
e o coração na curva de um rio, rio, rio..."
(Lô e Márcio Borges/Milton Nascimento)Para aprender ou reaprender a ouvir, você precisa começar a participar da música que ouve. Quem já tem alguma prática de meditação transcendental conhece a dimensão do som quando todas as luzes se apagam. Quem nunca prestou muita atenção ao que lhe entra pelos ouvidos encontrará maiores desafios.
Se lhe é difícil o acesso a música natural, comece por ouvir o mar, o barulhinho da chuva ou o canto de pássaros livres num fim de tarde de primavera.
Se você vive muito longe da natureza, experimente deixar a torneira aberta com um fio dágua caindo sobre um recipiente profundo. Feche os olhos e imagine que o som vem de um córrego no meio da mata. A imagem não é importante, o que interessa é acompanhar com extrema atenção os ritmos e melodias que se formam no ar a partir de um som natural contínuo. Coloque-se de frente para a fonte do som e permita que o coração participe da experiência.
Tomemos o exemplo da torneira aberta: a princípio, não parece haver música, apenas uma sucessão aleatória de ruídos. Comece a buscar ciclos mais ou menos constantes, repare que o som não é apenas um tronhónhónhónhónhónhó sem fim, há ciclos mais ou menos constantes de repetição, um ritmo oculto, tronhónhónhónhó-tronhónhónhónhó-tronhónhónhónhó. Identifique notas soltas, gotas que eventualmente se desprendem do fio dágua para criar sons diferentes, plics, plócs e shuifs, e verifique se estas notas não formam outros ciclos independentes do primeiro.
Quando o raio brilhante do fio dágua atinge a superfície silenciosa da bolha sonora, exatamente no ponto de atrito entre ambas nasce uma pequena estrela invisível. O som é uma liberação de energia resultante desta explosão. O som não está na gota que cai, não está na panela. É incorpóreo. Cada gota dágua que cai é uma nota, uma estrela numa cadeia de galáxias em sinfonia. A música pode ser aleatória, mas este som sai em bolhas acústicas que se expandem agitando o ar e são perfeitamente audíveis. Imagine as bolhas de som chegando até você, imagine as ondas harmônicas do eco que seu coração ressoa.
Atento e lúcido, você pode transformar em canção do universo um som que de outra forma seria irritante. A audição é interativa não porque você possa mudar as tonalidades do som com a pressão de seu coração. Nada disso. É interativa porque seus ouvidos, sua mente e sua consciência podem realizar uma transmutação de sentido naquele som. Se fosse possível alterar a melodia da água com o eco do coração seria uma façanha muito menos notável.
Se tiver muita sorte, você vai se fundir ao som e tornar-se parte dele, um momento de rara e inesquecível beleza, um samadhi, como diria um hindu. Por outro lado, se você não conseguir escutar nada além do som de uma torneira mal fechada, pode ter certeza de que o esforço para ouvir além do habitual abriu caminhos sonoros interiores que o aproximam mais de si mesmo.
A diferença entre o som da chuva no quintal e o de um quarteto de cordas é evidente para os ouvidos físicos, mas o coração tem suas próprias razões como bem sabemos. Para um mau ouvinte, um quarteto de Bach não diz nada. Para um bom ouvinte, a sinfonia dos pingos da chuva pode oferecer experiências místicas.
Quando for a um concerto, em respeito aos músicos, não cruze os braços sobre o peito. Embora a estrutura de roupas, ossos e músculos dos braços não interfira com a qualidade do som percebido pelos tchacras centrais, a postura de braços e pernas cruzados indica falta de receptividade, corta a corrente, quebra o clima e cria resistências nos planos superiores de freqüência vibratória. Abra bem os braços e pernas, sobretudo abra bem o coração, peito pra fora, barriga pra dentro, palmas das mãos viradas para cima, sente-se ereto na poltrona e relaxe.
Abandone-se.
Ouça o som, seja o som. Transforme-se numa bolha sonora em expansão. Perceba a esfera em torno de seu coração, perceba a esfera em torno de você, seu campo magnético, seu campo auditivo. Acompanhe os fluxos de vibrações sonoras que passam a mover-se dentro e fora de você, de dentro para fora, de fora para dentro.
Ouça de dentro para fora, não é o som que invade você, é você quem invade a música.
Imagine o som chegando em bolhas que se expandem de dentro para fora, saindo dos instrumentos e passando através de você, deixando reverberações que, graficamente, poderiam ser comparadas à superfície de um lago espelhado quando começa a chover. Nos pontos em que as bolhas de freqüência semelhante se encontram, criam-se desenhos geométricos, uma interação entre círculos e esferas virtuais.
Permita-se imaginar que seu coração contém uma orquestra virtual, um reflexo capaz de ecoar as notas de volta para os músicos, soprando em sua direção bolhas de som em uma oitava bastante superior à que podemos perceber.
Se você conseguir manter esta interação com a música por alguns momentos todo o seu corpo físico e energético recordará esta experiência por muito tempo. O eco permanecerá vibrando e ressoando acordes em seu interior muito depois que o cérebro tiver esquecido os sons percebidos pelos ouvidos físicos.
Aquela harmonia passará a fazer parte de sua harmonia pessoal, de sua música interior.
Isto é audição interativa. Pratique! É mais fácil que aprender a tocar violão e pode ser divinamente mais divertido.
Maestros, músicos, cantores,
gente de todas as cores,
façam este favor pra mim,
quem souber cantar que cante,
quem souber tocar, que toque,
flauta, trombone ou clarim,
quem puder gritar que grite,
quem tiver apito, apite,
façam este mundo acordar.
(Lupicínio Rodrigues)O centro da musicalidade de um indivíduo está localizado no centro da sua manifestação, o centro do peito, perto do coração e bem no olho de quatro vórtices concêntricos, as vias frontais e posteriores dos tchacras do plexo solar e cardíaco. Todo o mundo tem isso. Onde houver um coração batendo e um cérebro cantando há música. Qualquer um que esteja vivo está, bem ou mal, em consonância com o meio ambiente, vibrando e ressoando um universo em movimento. Mais, muito mais que uma sinfonia, ali está uma vida feita de som e luz.
Mesmo aquelas pessoas que dizem nada entender do assunto, vivem fazendo música: ouvem rádio e compram discos, vão a shows, dançam em público ou cantam parabéns nas festinhas. Sabem letras de música popular de cor, conhecem os ídolos da mídia pelo nome, pelo rosto e pela voz, cantarolam o hino do seu time e fazem coro com a galera nos jogos de futebol. Tudo isto é música.
Quando o salto dos nossos sapatos denuncia nossos passos, isto é música. Tosse, bronquite, rouquidão? Isso é música. Papo furado, alô-alô telefone, panela na cozinha, o barulho da colher no prato de sopa, isto é música. Somos todos músicos!
Nosso coração nunca pára de bater, e isto é música!
Cantor desafinado, quando pega o microfone, é de lascar. Dupla sertaneja, por mais afinada que seja, dói fundo que nem lembrança de quem já partiu pra sempre. A última musiqueta que o Júnior aprendeu no tecladinho é uma gracinha, batuqueiro atravessado no pagode é de amargar. Ainda assim, tudo isso é música. Muito melhor que ronco de motocicleta, milhões de vezes melhor que o guincho assassino de uma motossera.
"Quando o apito da fábrica de tecidos,
vem ferir os meus ouvidos,
eu me lembro de você."
(Noel Rosa)Segundo a tradição ocidental, há quatro dimensões na música: o ritmo, a melodia, o timbre e a harmonia. Se criamos um ritmo batendo com os dedos no tampo da mesa isto já é música, vai percutir harmônicos em todas as demais dimensões. O ranger da roda da carreta é melodia, assim como o apito da fábrica de tecidos, ou o canto de um sabiá na primavera. Podem não ter ritmo exato, mas têm sonoridade perfeita, mobilizam harmônicos em todo o nosso aparelho acústico profundo.
Para Noel Rosa, o apito da fábrica tem um som que lembra a amada e inspira um samba imortal. Para os tecelões aquele apito é outra música. A diferença não está nos ouvidos, está no coração de quem ouve. Enquanto uns atendem ao apito da chaminé de barro, o poeta reflete uma obra de arte.
O som e seus harmônicos estendem-se por escalas medidas sobre quatro eixos perpendiculares entre si, uma esfera de relacionamentos em quatro dimensões.
As quatro dimensões da música:
Elemento |
Dimensão |
Escala |
ritmo |
plano horizontal |
de bilhões de ciclos por segundo |
melodia |
plano vertical |
do agudo ultrassônico |
timbre |
plano transversal |
do concerto das galáxias |
harmonia |
esfera dentroófora |
da plena consonância |
Em nenhum dos casos existe zero absoluto ou plenitude absoluta. Todas as escalas são relativas ao ponto de vista do observador.
Consciente do fato de que todo o som que participa de seu meio ambiente é música ressonante, aprenda a localizar e identificar os ritmos e as melodias de seu universo pessoal. Alterar no todo ou em parte esta sinfonia pode criar condições para significativas alterações ressonantes em seu ambiente, logo, em sua qualidade de vida.
Onde há quatro dimensões em atuação orgânica, cada alteração em um determinado ponto do sistema resulta em ecos e reverberações nas demais dimensões.
Quando apertamos um botão para inserir música eletrônica no ambiente estamos alterando o código sonoro de relacionamento em ampla gama de freqüências. Se você aperta o botão, do ponto de vista holístico está fazendo música, interferindo com a harmonia geral em quatro dimensões.
Embora o empenho em privilegiar a música natural, muitas vezes somos levados a aproveitar as facilidades tecnológicas para ouvir música. Sabemos que o efeito vibracional da música integral é muito mais profundo, mas as interações sonoras promovidas pela boa música são sempre benéficas. Filtrada e peneirada por circuitos planos, se a música já não pode fazer tanto bem, também não há de matar ninguém.
Escolha seus discos com atenção e procure músicas que harmonizem seu estado de espírito de acordo com o momento que está vivendo.
Desperte sua musicalidade estando sempre atento ao que lhe entra pelos ouvidos, aos sons que sua voz faz ecoar nos corações, aos ritmos que suas mãos criam, à sua interferência ou participação pessoal na tessitura do concerto cósmico que se desenvolve ao seu redor.
Sempre que possível, cante, dance, toque, ouça, vibre em harmonia com o mundo que o cerca. Seja o maestro de sua própria sinfonia. Não deixe que a mídia, os críticos, este livro ou qualquer pessoa lhe diga o que ouvir. Cada um tem seu próprio coração como guia para viver em harmonia com a canção do universo.
17. Composição e improvisação.
Viver é afinar o instrumento
de dentro pra fora, de fora pra dentro.
(Walter Franco)
"Não se pode pisar duas vezes o mesmo rio" , escreveu Heráclito, o rio é novo a cada instante. Também não se pode tocar duas vezes a mesma canção, pois o músico é novo a cada acorde e os ouvintes também já não são mais os mesmos.
A música modifica nosso interior.
Quando o cantor entoa uma velha canção, não está repetindo, está recriando seu som. Há novas inflexões e sentidos, outras percepções e profundidades a explorar. Mesmo num velho disco encontramos novas sonoridades a cada audição.
Matematicamente, por relacionar quatro dimensões e ser imensurável em todos os sentidos, a música é irrepetível. Às vezes memorável, mas sempre irrepetível.
O ambiente modifica a sonoridade, logo, altera a música.
O compositor tem à sua disposição infinitas possibilidades de combinação e arranjo; sentado ao piano, a partir de uma emoção profunda, gasta horas criando uma nova canção. Saberá lembrá-la para sempre, as notas na mais perfeita ordenação com seus ritmos e pausas bem ajustados, pianíssimos, allegrettos e moderatos criteriosamente alternados. Ainda assim, a cada vez que for executada parecerá traçar novos arcos, novos matizes, variações emocionais quase imperceptíveis. Estas variações é que dão caráter divino à criação do som.
O compositor, enquanto escreve uma nova canção, vai improvisando experimentalmente até encontrar as soluções que melhor expressem sua musicalidade. Uma vez escrita, a música pode ser reproduzida em qualquer parte do mundo seguindo uma pauta de sonoridades que dão identidade à composição. Ninguém vai confundir a Garota de Ipanema com a Aquarela do Brasil, não importa a naturalidade dos músicos. Compare a interpretação de um cantor ou de uma banda com outros cantores e bandas. É a mesma música, mas não é o mesmo som.
Assista a um concerto em dois dias seguidos e observe. Os músicos são os mesmos, o repertório é igual, a produção é eficiente e todos estão muito bem ensaiados, mas o som já não é o mesmo. De um dia para o outro os músicos se modificaram interiormente e, isto é fundamental: a platéia é outra. O som não poderia ser o mesmo.
Dentre todos os músicos, o compositor detém o maior privilégio. Quando executa uma música de sua autoria, seu interior percebe ressonâncias que não cabem na partitura.
Ninguém vive feliz se não puder falar,
e a palavra mais linda é a que nos faz cantar,
todo samba, no fundo, é um canto de amor.
(Paulinho da Viola/Elton Medeiros)
Quando se coloca uma letra na canção surgem novas dimensões dentro da natureza do som. Entram em cena os mantras, os sagrados e os profanos. Os mestres hindus fazem questão de ressaltar que mantra não é música, é som sagrado, mas nós, brasileiros filhos de Hermeto, já sabemos que tudo é música.
A palavra agrega novos significados e profundidades à música. Há pessoas que ao ouvir uma nova canção ficam mais atentas à poesia e seu sentido que ao som e suas nuances. As palavras criam ritmo e, havendo ritmo, há música. Poesia também é música, mesmo quando lida ou relembrada em silêncio.
Numa simples conversa há músicas da mais variada natureza. Observe os diversos sotaques de cada língua e de cada região. Pela música já se pode saber se quem está falando é da fronteira ou do litoral, se é do sul ou do norte, da cidade ou do campo. Algumas famílias tem um sotaque particular e cada pessoa, afinal, tem seu próprio modo de cantar as palavras.
Há na palavra falada ritmo, timbre, melodia e harmonia.
Teorizando sobre o tema, poetas de tempos antigos estabeleceram formas padronizadas para avaliar a métrica e o ritmo das palavras num poema. Critérios técnicos que poderiam facilitar o aprendizado acabaram por aprisionar a criação em formas rígidas, versos parnasianos de doze sílabas, sonetos de quatorze versos, heptassílabos, decassílabos, versos brancos e até uma classificação social dividindo as rimas em ricas e pobres.
Aplicada à música popular, esta métrica aprisiona o ritmo e a melodia a fórmulas e padrões de ressonância, estilos musicais.
No início do Século XX, estas regras começaram a ser quebradas de propósito pelos poetas, só para irritar os conservadores, assim como na música surgiram experiências de vanguarda que beiravam o ridículo na tentativa de balançar as rígidas estruturas formais.
A vanguarda modernista abriu caminho para a poesia que utiliza palavras às vezes desconexas do sentido imediato, sons, mais que palavras, sílabas relacionadas criando um contexto sonoro que expressa o sentimento melhor do que frases descritivas. Como exemplo, Djavan cantando:
Pai e Mãe, ouro de mina, coração,
desejo e sina, tudo o mais pura rotina, jazz,
trocarei seu nome pra poder falar de amor...
(Djavan)
Até o ritmo é criativo, depende de como se canta. A música popular libertou-se do formalismo.
Na música erudita, o sucesso da vanguarda não foi tão evidente. Os compositores continuam buscando formas de fugir aos padrões estéticos formais sem se tornarem difíceis de ouvir. Estamos encontrando dificuldades seríssimas para recuperar o brilho espiritual dos grandes compositores clássicos e isto se deve a um doloroso panorama cultural: ninguém mais sabe ouvir. Como propor vôos espirituais através da música a uma platéia incapaz de acompanhar uma valsa de Strauss sem se perder em devaneios?
De outro lado, surge o besteirol explícito, do tipo
segura o tchan, amarra o tchan,
segura o tchan, tchan, tchan, tchan, tchan.
A intenção deste livro não é fazer crítica musical. Cada um que ouça o que bem entender, mas às vezes cabe lembrar o Barão de Itararé:
Gosto não se discute, se corrige.
Enquanto isso, os caminhos sagrados da música aguardam solenes que o homem se digne a trilhá-los. Não se mostrarão aos tolos nem aos insensatos, ficarão ocultos pelas ervas daninhas que andamos semeando a esmo, inconscientes de caminhar em solo sagrado.
Improvise sua própria canção, assovie, batuque na mesa, conheça sua musicalidade. Sua música diz mais de você do que seu mapa astral, e não precisa computador para calcular ou astrólogo para interpretar, basta ouvir.
E o poeta se deixa levar por esta magia,
e um verso vem vindo, e vem vindo uma melodia,
e o povo começa a cantar.
(Paulo César Pinheiro/João Nogueira)
Os estudos que levaram psicólogos de renome mundial a aceitarem a Psicologia Transpessoal como uma técnica terapêutica de valor científico incluíram experiências com drogas e relatos de pessoas que viveram, por algum motivo, estados alterados de consciência.
Estes relatos descrevem um universo não palpável atuando sobre a personalidade dos pacientes. As loucuras e viagens, quando consideradas em conjunto, acabam por formar a descrição de um universo coerente para além dos sentidos físicos. O ambiente do subconsciente abrange uma faixa de freqüências inacessível a qualquer um de nossos sentidos físicos mas é um universo em movimento.
Eis as palavras de Maslow anunciando o desenvolvimento da Psicologia Transpessoal: "Devo também dizer que considero a Psicologia Humanística, ou Terceira Força em Psicologia, apenas transitória, uma preparação para uma Quarta Força ainda "mais elevada", transpessoal, transumana, centrada mais na ecologia universal do que nas necessidades e interesses restritos ao ego, indo além da identidade, da individuação e congêneres... Necessitamos de algo "maior do que somos", que seja respeitado por nós mesmos e a que nos entreguemos num novo sentido, naturalista, empírico, não-eclesiástico.
Muitos autores (Abraham Maslow, Pierre Weil, Stanislav Grof, Ken Wilber, Walsh, Vaughan entre outros) oferecem a evidência de que os assim chamados "estados alterados" são não só naturais, como também são necessários para o bem-estar e a saúde do indivíduo, após atingir um certo grau de desenvolvimento cognitivo e ter atendido as necessidades básicas mais urgentes. Maslow acredita que, a menos que tenhamos oportunidade de mudarmos nosso estado de consciência, podem se desenvolver sintomas emocionais graves ao impedirmos o afloramento dos níveis transcendentes da personalidade. Da mesma forma como existe uma pulsão para a experiência sexual, também parece haver uma pulsão para o desenvolvimento de níveis de percepção.
(Textos de Carlos Antonio Fragoso Guimarães, extraídos de: http://www.geocities.com/Vienna/2809/psicho.htm).
Nada pode ser mais transpessoal que a música.
Em vez de procurar estados alterados de consciência por indução química, os cientistas poderiam simplesmente perguntar aos músicos de onde retiram inspiração para compor. As respostas seriam mais ou menos estas: do momento, do público, das musas, da natureza, da fé, do sofrimento, das coisas do dia-a-dia, da obra de outros autores, do tédio, do nada, tudo muito incorpóreo e genérico. Se fosse possível explicar a inspiração não seria preciso cantá-la.
(Se em suas pesquisas os cientistas encontrarem um bom músico que afirme: inspiração é bobagem, um bom profissional depende mais da técnica que da emoção , isolem para análise, pois é um caso muito raro).
A boa música move as pessoas por dentro na direção do incorpóreo, do sublime, da descoberta de si mesmo. Esta realidade sempre está, sempre esteve ali, no centro do peito, por trás dos pensamentos. O som é um veículo capaz de alcançar profundidades insuspeitadas em nosso inconsciente. A música é um portal dourado que se abre para revelar o interior de nosso ser extrafísico.
Raphael Rabelo, um dos maiores violonistas de todos os tempos, dizia que o músico, ao usar as duas mãos simultaneamente para aprender a tocar um instrumento, desenvolve os dois lados do cérebro de modo muito mais harmonioso que as outras pessoas. Segundo ele, é por isso que todo o músico tem seu lado louco mais desenvolvido e aparente na personalidade. O lado direito do cérebro, pouco útil para a maioria, no músico é ativo e participante, permitindo ao coração ligações muito mais estreitas com os sentidos extrafísicos, a inspiração e o impulso criativo.
Desde sempre, música e habilidade manual estão associadas. Avaliamos os músicos segundo suas habilidades manuais ou vocais e adotamos este critério sem jamais discutir seus méritos. Dá muito trabalho tornar-se tecnicamente exímio na execução de um instrumento, além de exigir talento natural, mas se a musicalidade geral das platéias fosse mais acurada e desenvolvida desde a infância, os valores morais, intelectuais e emocionais dos artistas seriam muito mais exigidos, já que são evidentes na música natural e muitas vezes bastante óbvios na música eletrônica.
Rapidez e habilidade manual são aspectos importantes na qualidade do som que se tira de um instrumento, mas nada têm a ver com a vivência transpessoal que a música pode proporcionar.
Como veículo de expressão para emoções e sentimentos profundos, a música é insuperável. Se uma foto vale mais que mil palavras para descrever um acontecimento, uma canção vale mais que mil fotografias para revelar o mundo interior de uma pessoa.
A linguagem universal da música permite-nos acompanhar com profunda emoção a execução de um artista tailandês, iraquiano, russo, africano, japonês ou iugoslavo. Mesmo quando a música parece estranha à primeira impressão, basta ouvir com atenção para perceber o fio da melodia, o andamento rítmico, a concepção harmônica e até as nuances interpessoais do relacionamento músico/ouvinte.
Transpor os limites pessoais através da música é uma das maneiras mais fáceis, prazerosas e instigantes de se estabelecer uma relação com a própria espiritualidade fora do ambiente eclesiástico. O mais empedernido materialista há de convir que a música ultrapassa os limites da lógica, realiza alterações fisioquímicas em nosso interior e estabelece pontes entre nossos neurônios que de outra forma jamais seriam possíveis. Para quem pensa que é apenas um corpo sem espírito, ouvir boa música pode trazer grandes benefícios práticos e teóricos. Autoconhecimento nunca é demais.
Será que apenas os hermetismos paschoais,
os tons, os miltons, seus sons e seus dons geniais,
nos salvam, nos salvarão dessas trevas,
e nada mais?
(Caetano Veloso)"Conquanto pouco se reflita hoje em dia sobre o significado ou a função da música dentro da sociedade, as civilizações de outrora eram, de ordinário, muito cônscias do poder da música. Isto foi especialmente verdadeiro na era pré-cristã. Com efeito, quanto mais olharmos para trás no tempo, mais se nos deparam pessoas que tinham consciência dos poderes inerentes ao âmago de toda música e de todo som. Tem sido fácil para o homem moderno, nascido e educado numa sociedade impregnada da filosofia do materialismo e do reducionismo, cair na armadilha de ter a música na conta de um aspecto não-essencial e até periférico da vida humana. E, no entanto, um ponto de vista dessa natureza teria sido considerado pelos filósofos da Antigüidade não só irracional, mas também, fundamentalmente suicida. Porque, desde a China antiga até o Egito, desde a Índia até a Grécia, encontramos o mesmo: a crença de que há algo imensamente fundamental na música; algo que, criam os antigos, lhe dava o poder de fazer evoluir ou degradar completamente a alma do indivíduo e, por esse modo, fazer ou desfazer civilizações inteiras." (Extraído de "O poder oculto da música" de David Tame. (Cultrix, SP - 1984).
A música estava no fundamento da primeira grande civilização humana por ser considerada a mais sagrada dentre todas as artes. Entrados na Era de Aquário, quase tudo o que temos hoje é música profana, inclusive na China.
Os meninos e as meninas de nosso tempo quando ouvem música saem saracoteando como se tivessem sido ligados na tomada, num frenesi incontrolável. A música contemporânea, com saudáveis mas irrelevantes exceções, é feita sob padrões hedonistas e supérfluos. A raiz desta música, seu impulso criador, é uma expectativa econômico-financeira: a arte de expressar o gosto duvidoso da maioria para obter comodidades.
No cerne da questão cultural moderna está a mídia. Mídia: uma selva onde lobo come lobo e ovelhinha também é lobo. Para fortalecer a imagem pública de uns poucos afortunados, o som é desperdiçado na mídia eletrônica na criação de alegorias à ignorância do povo: mitos virtuais que, como os deuses gregos, às vezes fazem filhos entre a plebe. Trabalham sua imagem de alguém-em-busca-de-sucesso-e-poder até se transformarem no próprio monstro. Ou lobo em pele de cordeiro.
No início, ao menos as transmissões eram ao vivo, tinham algum sabor de novidade. Música na televisão e no rádio hoje é sempre enlatada e os produtores cada vez usam mais conservantes, acidulantes, umectantes e outros truques. Há grupos famosos que têm duas equipes, uma de músicos para gravar os discos, outra de atores para aparecerem no clipe ou nas dublagens.
Esta música é o mais vivo retrato que se pode fazer de nosso tempo e de nossa expressão cultural. Ceifados de emoções, sem coração, os meios eletrônicos assumiram a tarefa de iludir as massas com surpreendente desfaçatez. Além da maquiagem visual, há aparelhos capazes de corrigir cantores desafinados e atravessados sem que ninguém perceba. Um único tecladista imita uma orquestra inteira.
Perdemos o contato com os músicos humanos, só sabemos ouvir música enlatada. Os grandes astros são inacessíveis e os músicos do bairro são desprezados porque são pobres e são pobres porque são desprezados.
O antigo pressuposto chinês de que a música é um predeterminante cultural, que está na gênese da sociedade, tem mais coração que o pressuposto ocidental de que a música é um subproduto da cultura.
Hoje, cultura é o que está na mídia; na mídia, cultura e lazer são sinônimos. Estar informado sobre os últimos lançamentos é indicação de alto nível cultural. O problema todo é termos instituído a mídia como padrão cultural, esquecendo que os meios eletrônicos são maravilhosos mas não têm coração.
O fato cultural não é o estilo da música, mas o modo como as pessoas decidiram ouvir música. O meio é a mensagem: cada vez se ouve mais os músicos que estão longe de nossa realidade cultural. A invasão musical seria apenas um fator econômico-cultural como a invasão do jeans? Não mesmo. Se a música não é tudo aquilo que os chineses pensavam, também não é só perfumaria e brincadeira.
O músico da nossa rua, da nossa cidade, canta a sua própria vida. Sua vida é mais parecida com a nossa própria do que a de qualquer outro músico do mundo. Esta música é a ressonância de nossas próprios hábitos, usos, crenças e costumes, é o nosso sotaque, a nossa melodia, esta música é fruto de nossa árvore, filha de nossa própria realidade.
Há possibilidades imensas de ressonância harmônica, de identidade e consonância com a música local em qualquer local.
Quer conhecer melhor sua própria musicalidade? Procure ouvir de perto os músicos que fazem parte de sua realidade objetiva. Ouça os músicos de sua cidade, sua música espelha uma parte de sua vida.
Se você tem algum músico na família, peça que toque para você e fique muito atento. É a sua própria música que está ali. Não é relevante o fato de ele ser famoso e aparecer na televisão ou um ilustre amador despretensioso. A importância deste músico está na identidade que você tem com ele. Os sons que ele produz ressoam ainda mais profundamente em você do que em pessoas estranhas.
É muito natural que a mãe sempre ame a música que o filho faz. O que não faz sentido é você se alimentar de um mito que não fala uma palavra na sua língua, tem exóticas preferências de consumo e nunca esteve a menos de vinte mil quilômetros de seus ouvidos. Se a sua musicalidade vive disso, lamento informá-lo, está pessimamente administrada e é subdesenvolvida. A boa notícia é que mesmo já não sendo mais criança, você ainda pode aprender a ouvir e despertar sua musicalidade. Seu coração, tenho certeza, aguarda ansioso.
O maior personagem musical do Século XX foi o microfone. A partir do ano 2000, espera-se que o florescimento dos movimentos humanistas acentuado pelo reconhecimento da metafísica entre as mais nobres ciências, mobilize músicos, naturalistas, ecologistas, vegetarianos, artistas, espiritualistas, terapeutas vibracionais e homens de bem deste planeta, mais atentos ao som de sua luz, na redescoberta do valor imensurável da música natural no funcionamento da sociedade.
A música recreativa deverá sofrer um longo e lento declínio em favor de uma música mais orgânica e participativa. Isto porque seremos levados a perceber que assim como os venenos que ingerimos pela boca podem causar doença e morte os venenos que ingerimos pelos ouvidos podem desequilibrar nosso organismo sutil e minar nossas vias de acesso à consciência.
Se entre os seus hábitos não se inclui o de ouvir e fazer música perto de outras pessoas e longe dos microfones, fique atento. Talvez seja este o clamor de seu coração inquieto.
A cultura dentro da qual vivemos não estimula a prática de exercícios de música integral e talvez seja este o nó górdio da questão cultural de nosso país, de nosso estado, de nossa comunidade, de nossa família, de nossa civilização.
Onde houver música, chegue mais perto. Para quem ouve com o coração extrafísico, vale mais ouvir um gaiteiro de rodoviária que assistir a um festival internacional de mitos da mídia. Há maior proveito emocional em ouvir o vizinho ensaiar seu violino que em ouvir sua coleção de discos de Paganini. Cante no chuveiro, ou ao menos cante enquanto roda seus discos, seu coração terá prazer em ouvi-lo cantar e se tornará mais expansivo e generoso.
Seja mais saudável, harmonioso e culturalmente importante. Participe da música que está em torno de você nem que seja apenas ouvindo com atenção, com o coração.
Numa universidade americana fizeram uma pesquisa científica para observar o desenvolvimento de abóboras plantadas em estufas que tinham fundo musical. Para um grupo de abóboras tocaram Jimmy Hendrix, para outro, Bach, para um terceiro, Ravi Shankar. As abóboras reagiram espalhafatosamente: envolveram de folhas e flores a caixa de som onde tocava música indiana, cresceram e se multiplicaram onde havia violinos, atrofiaram-se e procuraram desesperadamente fugir do som produzido pela guitarra distorcida. (Esta história está contada no livro A vida secreta das plantas de Tompkins e Bird. (Expressão e Cultura; RJ; 1979).
Nós não somos abóboras. Podemos escolher o que ouvir.
21. Os desafios da Música Natural.
A esperança equilibrista
sabe que o show de todo artista
tem que continuar.
(Aldir Blanc/João Bosco)
No início dos anos 90 do século passado, houve por todo o mundo uma onda de volta aos tempos do som acústico. Enfarados ou assustados com a informatização de sua música, artistas relevantes de grandes países realizaram shows e gravaram discos chamados de acústicos por deixarem de lado samplers, efeitos e teclados eletrônicos. Unplugged, chamou-se a moda.
Unplugged significa desplugado, mas estes espetáculos eram sonorizados com microfones e captadores eletrônicos, transmitidos por fios e até por microfones FM. Violões, guitarras e contrabaixos continuaram plugados às mesas de som. Unplugged era só uma metáfora. Dos discos nem se fala, pois gravar uma música natural, acústica de fato, só se for na memória.
A moda teve um sucesso relativo, mas logo os artistas notaram que pouco ou nada se modificava na sua relação com o público no decorrer dos espetáculos. Os produtores das gravadoras também se cansaram do tal som pretensamente ecológico e todos voltaram felizes a suas pedaleiras e computadores.
A busca por uma música mais natural resultou apenas numa grande decepção, uma volta de 360 graus. Os artistas mais sinceros acabaram frustrados, as gravadoras ficaram mais ricas e continuamos todos à mercê da mídia.
Para uma busca sincera do som acústico é preciso desistir de espetáculos para multidões, pelo menos enquanto nossos arquitetos não aprenderem a construir teatros que valorizem o som natural.
O desafio é imenso.
Convencer as pessoas de que a música é um alimento já será difícil.
O número de pessoas que entende o valor de uma alimentação natural e equilibrada é muito grande, mas são poucos os que praticam de verdade. Quem estará disposto a praticar música natural?
Convencer os prezados ouvintes de que devem desligar o rádio já será difícil. O apoio da mídia a esta causa só virá depois que o galo cantar três vezes e, até lá, terá negado três milhões de vezes o seu papel no empobrecimento cultural das sociedades onde atua.
Hoje não precisamos mais das complexidades da notação musical e das partituras para registrar ou transmitir nossas idéias. Basta apertar um botão e gravar a informação. Viva a tecnologia. Mas a execução pública, esta precisamos ouvir mais de perto do que temos feito, apesar de todos os desafios que isto nos obrigue a encarar. É uma questão de saúde, de qualidade de vida e de sobrevivência cultural.
Para adotar uma dieta alimentar natural e integral você precisa abandonar a carne vermelha, o arroz branco, o cachorro quente...
Para amar a música natural, integral e ao vivo, nada precisa ser abandonado, a não ser, talvez, se for o seu caso, o preconceito contra o que é novo.
Há aqui um desafio diretamente endereçado aos ecologistas e a quem mais se diga preocupado com o ecossistema do Planeta. As desarmonias criadas por uma sociedade que se sujeita a estar 24 horas por dia plugada em algum aparelho eletrônico são alarmantes para quem presta atenção ao som de seu meio ambiente. A música em nossa cultura produz lixo plástico demais. Para ser ecológicamente correta a música precisa evitar plásticos de consumo, como CDs, aparelhos eletrônicos e caixas acústicas que serão lixo em poucos anos e permanecerão lixo por séculos.
A quantidade de lixo que se ouve por aí é espantosa! O lixo sonoro espalha-se pelas ruas, vaza dos automóveis, escorre pelas janelas das casas, entope o cérebro da gurizada, verte em lufadas nojentas pela televisão. E ninguém liga a mínima, como se fosse muito natural almoçar ouvindo lixo, andar com o automóvel fedendo pelas ruas, estudar com lixo enfiado nas orelhas.
Há um desafio endereçado a todos os espiritualistas deste mundo e do outro. Para chegar ao coração do homem e iluminar seu espírito a música precisa ser natural, integral e ao vivo. Qualquer outra opção é puro engano, ilusão acústica. Os meios eletrônicos não transportam informações de caráter espiritual simplesmente porque vibram em outra dimensão, não atingem a alma a não ser indiretamente, depois de interpretados pelo cérebro.
Há um desafio a todos os colegas músicos. Precisamos encontrar meios de dividir nossa arte com as pessoas sem a intermediação de microfones. Se a experiência da música natural é inesquecível para quem ouve, para quem toca é ainda mais emocionante. Talvez seja preciso tocar dez vezes para atingir quinhentas pessoas em vez de tocar uma só vez para aparecer na mídia e virar mais um milionário da canção, mas qual destes dois caminhos leva à experiência que desperta o melhor do ser humano? Qual dos dois tem coração?
O desafio é seu, amado leitor. Estamos chegando juntos ao final deste on-livro e espero ter contribuído para seu esclarecimento, ou melhor, para sua harmonização com o mundo dos sons.
Se alguns dos argumentos utilizados aqui não combinam com sua própria opinião, ótimo, sinal de que leu com atenção e envolvimento pessoal. Mas se de um modo ou de outro você está convencido de que os sons que ouve podem alterar as condições vibracionais de seu organismo e de seu meio ambiente, por favor, tome algumas providências.
Elabore com cuidado sua culinária musical, convença seus amigos, parentes e conhecidos, lute contra a poluição musical com firmeza, prestigie os músicos alternativos, as orquestras, os cantores de peitada, os corais e aqueles que chegam para a festa trazendo um instrumento musical.
Ouça com a mente,
perceba com o coração: tudo é música!
Inclusive você.
Antônio da Rosa Maestro
1a. edição: Primavera de 1999
Edição on-line: Primavera de 2002
Edição impressa na Primavera de 2003 (Comprar o livro)