CONTOSNo rodap� dessa p�gina, est�o links para arquivos PDF contendo alguns de meus contos. Basta clicar e baixar... Em seguida, um conto curto.
UMA HIST�RIA COMUM
1. A porta
Escurid�o. Carandiru, tr�s meses depois. Preso. Bloco 7, presos comuns. Uma porta. A m�e, se acabando de tristeza, se consumindo. Vinha todas as quartas de Americana, trazia coisas, leite condensado, pomada anticocus, biscoito recheado, bolo de fub� com casquinha de a��car, cigarro n�o, que n�o fumava. Tudo rapidamente roubado e consumido na frente dele. N�o, roubado n�o, que entregava tudo na m�o dos chef�es. Ficava com as sobras e a pomada. Dizia pra m�e que estava tudo bem, m�e, n�o se preocupa... Est� t�o magrinho, meu filho, n�o m�e, estou bem, saio logo daqui, n�o se preocupa, t�, mam�e?
N�o pensava em nada. Via a ferida aberta na canela, mal curada, resto da briga que teve na primeira semana, na primeira noite. Resistiu � curra, at� n�o poder mais. Bateu, que era bom de briga, faixa azul, bateu muito, mas n�o dava pra se espalhar na cela apertada. Quando faltaram as for�as, uma covardia, seis safados!, Chutaram e bicaram e socaram muito, com raiva, antes de se aproveitarem dele. Todos. Agora, contava moscas na cela superlotada. Era a mula dos chef�es da cela. S� dos chef�es. Era a lourinha, a branquinha dos chef�es. J� n�o brigava mais. Quando ficava em paz, quando deixavam ele em paz, contava as moscas que ia matando, s� as que pousavam na canela esquerda dele. Matava e guardava na caixinha de f�sforos Fiat Lux vazia que guardava no bolso da bermuda xadrez. Tinha mais ou menos meia-caixinha de moscas. Depois da b�ia do jantar, depois que deixavam ele em paz, pegava a caixinha, abria, tirava as moscas uma a uma e escrevia coisas com as mosquinhas mumificadas no ch�o de cimento liso da cela. No in�cio, fazia filas de moscas, desenhos simples. Depois, j� dava pra escrever: porta, bike, chef�o, terror, mam�e, mam�e, mam... Quando escrevia mam�e, sempre repetia. As mosquinhas que tinha ainda n�o completavam tr�s mam�es; pelos seus c�lculos, antes da ferida fechar ainda daria para repetir seis, sete, oito vezes, MAM�E, MAM�E, MAM�E... Quando os chef�es o pegavam, fechava os olhos, e pensava - que fim levou aquela porta filha da puta? E pensava que, talvez, a moreninha do basculante... Depois que acabava, ficava no seu canto, � espera das moscas de dorso verde-brilhante, com os olhos fixos na canela esquerda branca da pomada com cheiro de peixe. Faltava pouco para sair da cana, mas tinha f� que ainda pegaria o n�mero de moscas suficiente para escrever o que sentia por dentro, ali, na escurid�o, que estava ficando craque em pegar moscas sem destru�-las - com delicadeza, rapidez e precis�o. Estava ficando um ca�a-moscas muito craque...
2. A Mosca
Entrou em meu campo de vis�o. A mosca. Mosca comum, dessas que acompanham a gente � mesa. Tinha um v�o comum, tamb�m. Estava deitado de costas, olho no teto. Janelas abertas, manh�zinha nublada. Entrou em meu campo de vis�o, mas h� algum tempo j� tinha percebido sua presen�a: o zumbido. Zumbido um pouco mais longo que o usual, mas o timbre, o timbre era igual �s outras moscas - se prestasse aten��o, dava para perceber o Doppler, como um trem apitando, ao passar � toda por uma esta��ozinha, sem parar. Por isso, chamo esse efeito de "zumbido de trem". Veio de fora, dos fundos da casa. Pousou no teto (isso � raro: as moscas pousam mais nas paredes, em algum ponto distante do nosso corpo, se estamos descobertos, ou nas cobertas, �s vezes no guarda-roupa). Bem na dire��o da minha cabe�a. Observei. Mosca comum. Musca domestica. Inseto d�ptero. Asas membranosas. Como papel celofane. Ficou bastante tempo no lugar, o corpo para baixo. Levantei o corpo (fechar a janela). A mosca, im�vel. Disfarcei. Risco de assustar. Fechei a janela, cuidadosamente. O quarto escuro. Consegui. Levantei, j� sem nenhum cuidado, pus os chinelos de dedo vermelhos. Estava como a mosca: nu. Acendi a l�mpada, f�cil: a tomada � fosforescente. Olhei para o teto. A mosca n�o estava mais. Voltei para a cama, e puxei a coberta at� o pesco�o, como se estivesse com frio. Prendi a coberta listrada com os calcanhares. Examinei o quarto, para localizar a mosca. Estava na parede do canto da cama de cimento, meu canto direito, 50 cent�metros acima do colch�o. Posicionada de cabe�a para cima, com o corpo ligeiramente inclinado para a dire��o da minha cabe�a, e a cauda na dire��o dos meus p�s cobertos, calcanhares prendendo a coberta de algod�o. A mosca era, mesmo, do tipo comum. Os olhos grandes, ovais... Zumbia com suavidade, de forma cont�nua. Uma linda mosca, cor negra com reflexos verde-met�licos, pequena, delicada. Rom�ntica. A luz permitia que visse seus pelos (cerdas, � o nome t�cnico). Retirei cuidadosamente a m�o direita debaixo da coberta azul, e estiquei o bra�o. Lentamente. N�o queria pegar a mosca. Ainda. Queria medir a dist�ncia, sabia que ia voar para longe de mim. Estiquei o bra�o (o direito). Voou para mais longe, com um loop amplo, e voltou a pousar alguns cent�metros acima de onde estava antes. Meus dedos m�dio e anular tocaram a parede branca. Um bra�o de dist�ncia. A mosca, im�vel. Zumbindo suavemente. Com o bra�o esticado, virei o corpo, para ganhar mais amplitude de movimento. Apoiei o corpo no ombro direito, corpo meio inclinado. A mosca, im�vel. Diminu� a dist�ncia andando com os dedos, lentamente, os dedos m�dio e anular, andando lentamente. Olhando para a mosca. Os dedos chegaram perto da mosca, uns 3, 5 cent�metros. A mosca zumbindo. Suavemente. Avancei. A luz da l�mpada iluminava bem seu dorso. Avancei um pouquinho mais, passos sorrateiros. Disfar�ados. A mosca voou para a outra parede, sem zumbir. Voou novamente, e circundou minha cabe�a, bem de perto. Doppler. Trem. Vai-e-vem. O bra�o, parado. Os dedos, o m�dio pousado na parede, o anular levantado. No meio do passo. O bra�o, cansando. Suor na testa. Olhei mais. Continuou a voar. O bra�o caiu, descuidado. Deslizou para baixo da coberta listrada, empurrou com vagar a coberta at� a ponte do nariz, como uma m�scara de mulher �rabe. Ou bandido de faroeste. Levanto a m�o esquerda at� a coberta listrada. Seguro sua franja. Suor na testa. V�o de vai-e-vem, Doppler. Os olhos rastreando. S� os olhos vivos. A mosca voltou para a parede, parou. Mas de repente, como que despencou para minha testa. No meio da testa. Parou. Andou um pouco, na dire��o de minha sobrancelha esquerda. Parou. C�cegas. Zumbido baixo constante. M�o direita segurando a coberta listrada. M�o esquerda segurando firmemente a coberta listrada. Medo de mexer mais a m�o esquerda e afastar a mosca, perder contato. Canto do olho (o esquerdo). Zumbido fraquinho. Parou de zumbir. Movimento brusco: m�o direita, m�o esquerda, coberta listrada de azul e amarelo, travesseiro de espuma, fronha, tudo muito r�pido, m�o batendo na parede branca, na dire��o da cabe�a. Mosca aprisionada pela coberta de algod�o listrada de azul e amarelo. Travesseiro de espuma no ch�o. Cabe�a no len�ol, tamb�m ele listrado. Zumbido muito intenso, dolorido, pungente. Perto de meu ouvido esquerdo. Zumbido glorioso! M�o na testa, segurando um punhado da coberta de algod�o listrada de azul e amarelo, franjada. M�o esquerda. Zumbido intenso, muito intenso. Muito intenso. V�o aos arrancos, pra-l�-e-pr� c�, v�o curtinho, na frente da minha orelha esquerda. Escurinho.
Penso na caixa de f�sforos. Caixa de f�sforos Fiat Lux, vazia, na mesinha de cabeceira, � minha esquerda, perto dos �culos de ler, o de aros azuis de pl�stico. No canto da mesinha de cabeceira. Caixa de f�sforos ao alcance de minha m�o direita, ainda coberta, ainda im�vel. A mosca, zumbindo. Mas sem Doppler.
3. Compromisso de amor
Queria porque queria estar bem enfeitado, especialmente enfeitado para seu encontro. Antes do banho, separou a melhor roupa na cama: a cal�a de marca, quase nova, a camisa verde-clarinha de seda, o blus�o por cima, o de jeans desbotado - e o resto, cinto, as meias, o t�nis, a cueca. O banho foi demorado, cuidadoso, xampu na cabe�a e no corpo todo. �gua vapor puro, quase pelando. Unhas escovadas debaixo do jato d�gua, o trato nos cabelos, o aparelho gilete na pele quentinha e molhada, o rosto todo cuidadosamente escanhoado, e depois, a toalha limpinha... J� vestido e perfumado, pegou em cima da c�moda a carteira com o dinheiro e documentos, o ma�o de cigarros e a caixa de f�sforos, o chaveiro, o rel�gio, o anel de �nix - tudo o que precisava para ficar bem bonit�o, bem gato para o primeiro encontro a s�rio com sua amada. Era preciso impression�-la - a roupa faz o homem, sua m�e sempre dizia. E era verdade.
Pegou o ma�o de cigarros do bolso do blus�o. Escolheu um cigarro, e catou a caixa de f�sforos no bolso da cal�a. Nunca se habituara a usar isqueiro. Acendeu o cigarro meio amassado. Distraidamente, guardou o f�sforo usado de novo na caixa. Tragou uma, duas vezes, suspirou, mudou de posi��o, encostando-se ao desv�o da parede da casa de vila. Na escurid�o, esperava. Ela vinha sempre mais ou menos �quela hora. Todos os dias, menos nos fins-de-semana. Passos r�pidos, quase afobados. Sempre s�, com os livros abra�ados no peito, o porta-folhas junto aos seios, como uma armadura, como prote��o inconsciente. Sempre de jeans, sempre com uma camisa hering, sempre de sand�lias altas. Torcia que hoje ela viesse com aquela branca, anabela, que a deixava ainda mais esguia, mais leve... Seria ainda mais perfeito, seria m�gico se estivesse com o colarzinho de p�rolas, de uma volta, enfeitando o pesco�o...
Passava sempre apenas a alguns cent�metros dele. Quando passava pelo exato v�o onde se escondia, tinha for�osamente que prender a respira��o e at� pensava em fechar os olhos, pro brilho n�o trair sua posi��o. Mas olhava sempre, e via sua amada como numa cena de clip: o nariz delgado e o rosto s�rio, a orelha esquerda sem brinco, os cabelos castanhos-escuros, a penugem rebrilhante na nuca quando vinha com os cabelos presos em coque. As lombadas de seus livros... Ela se afastando, apressada, numa �ltima vis�o por tr�s, de vi�s, harmoniosa, r�pida, r�pida, r�pida... Era lindo de ver! Sempre olhando para frente, sempre ereta, sempre com temor (do que, n�o sabia; teria seu guardi�o sempre bem por perto, sempre, todas as noites).
Ainda dava para terminar o cigarro; s� chegaria em mais 10, 15 minutos. Ela era um rel�gio: descia do �nibus das 11 que a trazia da escola, andava os quarteir�es que a separavam de casa, r�pida, e passava sempre, a meio caminho, por ele. Sempre abra�ada aos cadernos e livros e ao porta-folhas, mochilinha nas costas, cabelos quase sempre presos. J� aprendera toda a sua geografia: sabia como andava, como n�o olhava jamais para os lados e nem para tr�s, s�ria, tensa, mas linda, maravilhosamente linda, com aquele pesco�o de m�rmore, as penugens, os bra�os bem feitos, a boca s�ria e farta, o corpo de menina e as pernas bonitas de se ver, r�pidas e ruidosas, o ro�ar das coxas fartas, passadas apressadas, velozes, o som das sand�lias altas no piso de concreto da cal�ada...
Apagou o cigarro na parede e, cuidadosamente, olhou para os lados do ponto de �nibus. Alcan�ou a faca na cintura, cabo de osso. Acariciou o cabo lisinho. Sentiu, mais do que viu, sua aproxima��o. Ouviu o ru�do do �nibus que se afastava, com um ronco progressivamente mais grave, indo embora, e ela, com certeza, vindo r�pida, tensa, intensa. Para seu primeiro encontro de verdadeiro amor, ao encontro da sua felicidade (para nossa felicidade, afinal..., pensou, enquanto se afundava um pouco mais na parede lateral da casa de vila, no desv�o c�mplice). Sacou com delicadeza a faca de cabo de osso. Levantou a faca at� os l�bios, e a beijou com ternura, agradecido intimamente pelo reconfortante friozinho da l�mina. Sua espera estava terminando. Depois de tanto tempo, iria afinal ao encontro de seu grande amor, seu primeiro compromisso, sua mulher, a mulher dos seus sonhos, virgem sem nome, sem identidade e sem m�cula, para a uni�o t�o desejada - para todo o sempre, para a eternidade. Am�m. At� que a morte os separasse...