Obras de Camilo de Araújo Correia
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Coimbra Minha
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1323 - 6,60€ |
Livro das Andanças
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1323 - 6,60€ |
Médicos, Doentes e Outras Gentes
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1659 - 8,28€ |
Coimbra Outra Vez
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1659 - 8,28€ |
40 Anos de Gás
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1218 - 6,08€ |
| No Centenário do Nascimento de João de Araújo Correia NOVIDADE | 882 - 4,40€ |
| Histórias na Palma da mão |
2100 - 10,47€ |
| Porta com Porta |
546 - 2,72€ |
| Histórias do fim do ano |
Novidade |
«NO
CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE
JOÃO
DE ARAÚJO CORREIA»
Muitas e diversas foram as homenagens que João de Araújo Correia mereceu da imprensa, delegações, entidades e associações, no decorrer do primeiro centenário do seu nascimento.
Por ser dos seus filhos o que ficou na Régua e a ele me ligarem afinidades profissionais e literárias, a mim coube ir agradecendo todas as homenagens e manifestações de apreço e simpatia.
Com a publicação de alguns desses agradecimentos,
pretendo passar aos vindouros o testemunho de como e quanto foi honrada a memória
de meu pai.
(Camilo de Araújo Correia)
1/1/1899 — 1/1/1999
Meus amigos: Fez esta madrugada precisamente um século que lá em baixo na Casa da Fonte houve aquele reboliço de que só as mulheres são capazes, quando está para nascer uma criança. Um corre-corre entre o quarto da mulher que vai parir e a cozinha, onde em grandes potes ferve toda a água do mundo. A mulher mais entendida em partos anda, entretanto, de mangas arregaçadas a deitar a mão a todas as toalhas da casa. Era assim que se nascia há cem anos, ao fundo das casas nas terras desgarradas. Como no tempo do Menino Jesus.
Nasceu um menino naquela silenciosa e fria manhã de Canelas. Logo ali se chamou João nos lábios de seus pais e, depois, nos assentos da paróquia de S. Faustino do Peso da Régua.
Ele próprio se referiu mais tarde ao seu nascimento, quando a chama da literatura lhe andava já a iluminar na memória os mais delicados pensamentos e sentimentos:
Nasci numa casa branca,
Sempre caiada, antes da vindima,
Por mestre Lima, o caiador.
Deitava para um prado,
Que sustentava o gado
De um lavrador.
..................
O menino João, enquanto Joãozinho, muito brincou por toda esta Canelas, nas matas que a circundam, pelos quintais familiares e nos terreiros de toda a gente. Brincou tanto no outeiro que fica por detrás deste muro que a ele se referiu numa das suas crónicas, considerando-o um verdadeiro paraíso dos grilos, pontilhado de florinhas brancas.
Mas o Joãozinho não podia continuar sempre Joãozinho, como acontecia nas terras pequenas. Teve de partir, a fazer-se João na cidade grande.
Formado em medicina, veio a ser o Dr. João Correia
no Peso da Régua e seu termo. Sempre com a sereia da Literatura a cantar-lhe,
desde muito novo, veio a ser João de Araújo Correia no meio literário mais
exigente do nosso país. (...) (de: No centenário do nascimento de João de
Araújo Correia)
Por:
Camilo de Araújo Correia
A minha casa
fica à beira de um caminho, rodeada de videiras, tílias e um pinheiro que me
lembra o Natal todos os dias. Pelo traço e pelo tamanho, parece uma casinha de
bonecas. Quem vir de longe o postalzinho, pode julgar que mora ali a paz. Não
mora.
Moro eu, a família e um telefone que enlouqueceu à mais de trinta anos
e não dá mostras de melhorar. É um bicho negro, de muitas asas, muitas patas
e muito maus sentimentos, apostado em perseguir o anestesista e o clínico que
sou, por mal dos meus pecados... Vai-me buscar à mesa, à cama e à secretária,
mal adivinha em mim um pouco de sossego.
As histórias que lhes trago, são, pode dizer-se, histórias
clandestinas. Escrevi-as às escondidas do meu telefone. Uma frase hoje, um período
de manhã, um desfecho muitas semanas depois de começada a história.
Herdei esta sina de meu pai. Assim lhe tivesse herdado o fôlego e o
jeito... Grande médico e grande escritor, escrevia às "horas mortas"
do seu relógio pasmado de cansaço. Foi um herói de mil batalhas contra o
tempo que não existe.
Eu não sou um herói. Não produzo e não me castigo, como ele, até
conseguir a perfeição literária. Por incapacidade e preguiça, descuido a
dimensão, a arquitectura e a musicalidade que se exigem a uma boa história.
Por isso, elas me saem de todas as formas e tamanhos, como roupa a secar.
A crónica e o jornalismo de crítica política, que pratico por diversão de
espírito, julgo que têm estorvado o contador de histórias que gostaria de
ser. Por outro lado, muitos anos passados no silêncio, nos miasmas e na opressão
das salas de operações me foram roubando a memória. Escrever sem memória
fiel é como pescar em água destilada. São muitas as horas de espírito chão
em que só vem peixe miúdo à rede de papel.
O título "HISTÓRIAS NA PALMA DA MÃO" não tem nada de
artificioso; pretende apenas traduzir a franqueza com que apresento ao leitor o
que escrevi, trazido por esta mão que apertou muitas mãos e delas trouxe um
pouco de comédia ou de tragédia. Algumas histórias são verdadeiras;
vesti-lhes apenas a roupagem que o dragão exige à entrada do templo da
literatura. Outras são inventadas; fruto do desejo indomável de escrever,
materializando no papel um sentimento de alegria ou de tristeza.
(de: Desculpas e Confissões por: Camilo de Araújo Correia)
Por:
Camilo de Araújo Correia
Inveterado leitor desde muito novo, cedo dei conta da grande relação entre a Medicina e a Literatura. Esta relação foi-se-me avultando no espírito, ao ver meu pai repartir-se, anos e anos, entre o médico e o escritor, numa luta implacável pelo pão e pela devoção. Como o tempo do escritor era incerto e sempre pouco, muitas vezes o vi correr para o papel, esquecido de tirar a bata.
Quis o destino que viesse também a escrever histórias em tempo sobrado de ver doentes. Por isso, não foi difícil encontrar assunto, quando um grupo de simpáticos colegas me convidou para colaborar no 14º Encontro Trasmontano de Clínico Geral, que tão esclarecida e diligentemente andavam a organizar. (de: Duas Palavras)
...,... O terror da morte e a sensação da vida são os grandes abalos da natureza humana. Um e outro, são capazes de libertar no homem os sentimentos mais estranhos.
Basta, muitas vezes, um só exemplo para arrastar os mais opostos comportamentos.
Imaginemos um homem velho e pobre que ficou a viver com o filho, a nora e os netos. Se for ainda válido, entretém os netos com histórias e passeios, vai às compras que a nora não pode fazer, e dá ao filho as notícias que lhe possam interessar.
Mas se a doença o retém na cama e na mansarda podemos assistir em seu redor aos sentimentos mais opostos. A nora tanto pode melhorar-lhe os caldos de malga para malga, subir as escadas vezes sem conta para lhe ajeitar a roupa, como andar pela vizinhança a queixar-se da estopada que lhe caiu em casa. O filho, se for cínico, lá se vai disfarçando como pode quanto lhe custa em dinheiro e em estorvo o arrastar da doença. Se for de bons sentimentos, é capaz de vender a motorizada para comprar os últimos remédios. Entre os netos, haverá os que não param de fazer barulho e os que não largam o avô, levando-lhe as notícias da rua e até o cigarrito que o médico proibiu...,... (de: Porta com Porta)
No mundo Cristão, ninguém é indiferente à noite de Natal, por mais ténue que seja o seu espírito religioso.
Nunca o frenesim das compras e a emoção dos encontros familiares, nos apaga de todo o sortilégio que envolve o nascimento de JESUS CRISTO.
Este sentimento chegou, há muito, à literatura de todo o mundo, expresso em histórias que vão do mais dramático ao mais ingénuo.
Sou apaixonado leitor dessas histórias, desde que li o «Cântico de Natal» de Charles Dickens.
Há muito que Dezembro me pede uma história de Natal. Chega a doer-me a luta por encontrar um assunto original para cada uma das minhas «Histórias do fim do Ano»