COIMBRA OUTRA VEZ
Julguei ter esgotado em Coimbra
Minha todas as recordações académicas capazes de satisfazer a curiosidade
dos leitores mais atentos à vida dos estudantes, no que ela tem de mais
descuidado entre dois bocejos da sebenta. Disse até nas palavras de apresentação
que todo o estudante de Coimbra traz no baú
do regresso um livro para escrever.
Com a passagem do tempo no moinho da memória, fui-me convencendo de
que um livro é bem pouco para acomodar as próprias saudades.
Nas poucas horas de pausa e nostalgia que a vida me tem dado, fui
escrevendo mais uma e mais uma crónica, assim como quem entra mais uma e mais
uma vez no Pirata para dois dedos de
conversa diante de uma bica fiada.
Quando dei conta, tinha voltado a Coimbra, outra vez.
Aos olhos da praxe do meu tempo de Coimbra, da praxe que sofri na pele e
no miolo, o caloiro de hoje não deve passar de um bicho em inevitável via de
extinção.
Nos anos cinquenta, o caloiro era ainda das figuras académicas mais
características. Tudo parecia denunciar nele o aluno do primeiro ano. De capa e
batina novinhas em folha, livros na mão, olhar saudoso ou inquieto, ia e vinha
das aulas de passo inibido como o dos seminaristas. Parecia sentir que mil olhos
o procuravam por toda a cidade.
E procuravam...