LIVRO DE ANDANÇAS
Devo avisar que este Livro de Andanças
não é um livro de viagens no sentido corrente da expressão. É aquilo a
que poderíamos chamar uma partitura de sentimentos colhidos e recordados na
imensa pauta da geografia percorrida. Muitos trechos deste livro foram escritos
assim como quem pega num violão e diz: deixa cá ver se ainda consigo tirar
aquela balada...
O livro não tem datas nem trajectos marcados à unha nos mapas de toda a
gente. Também não arrasta para a rua o recheio dos museus, a história das
catedrais ou tenta encaixilhar deslumbramentos que nem Deus conseguiu meter nos
limites de uma paisagem. E não é, de maneira alguma, um livro de memórias
escritas de uma assentada, assim como quem precisou de erguer, em tempo marcado,
uma obra de empreitada. Foi escrito ao longo dos últimos trinta anos, com páginas
de há poucos meses e páginas de há muito tempo. Escritas umas na pausa do
regresso, outras em plena viagem, à mesa dos cafés, na insónia dos hotéis ou
ditadas a minha mulher, ao volante do automóvel.
Ao escrever este Livro de Andanças,
nunca deixei que o descritivo dominasse o sentimental. Viagem é sentimento.
Quem não sentiu, não viajou. No regresso ao sofá de todo o ano, não
devemos encontrar o tédio que não disse adeus de sorriso frouxo.
Vão encontrar recordações curtas e alongadas. O espírito e o coração
de braço dado nunca souberam acertar o passo. Ora se adianta um, ora se adianta
outro! É assim quando teimamos em trazê-los juntos para o papel.
Onde mais me alonguei foi na viagem a Israel. Não se julgue que assim
aconteceu por força de oculta vibração religiosa ou evidente curiosidade
histórica. O que experimentei foi uma sensação inteiramente nova. Senti
Israel como um palco imenso onde os judeus chegaram, finalmente, para
representar, até à Eternidade, a sua própria vida, ensaiada séculos e séculos,
com a morte de muitos e o sofrimento de todos. Senti ainda que o turista de
qualquer parte, ao subir àquele palco, não consegue evitar um monólogo de silêncio.
... Portugal, outra vez. Mas desta vez, pela mão de uma criança,
perseguido pelo enxame das suas perguntas, iluminado pelos seus deslumbramentos.
O Portugal velho que fui conhecendo, pouco a pouco, à luz da minha própria
curiosidade, pareceu-me, neste passeio, um Portugal de brincar...
Em Coimbra todas as recordações se esconderam como pecados diante da
inocência.
Para fugir ao moscardo do sol, entrámos na igreja de S. Bartolomeu. Não
ia ali desde um recolhimento da Rainha Santa que acompanhei, ainda estudante,
por ocasião das suas festas.
- Aquele anjo está a perguntar a Nossa Senhora se quer ser a
mãe de Jesus...
-monologou a criança de olhos postos numa Anunciação
que se oferece na parede da direita.
- Foi a irmã Madalena, do Patronato! – respondeu a menina, muito baixinho, mal segurando a alegria de saber.
No Portugal dos pequeninos, Portugal ficou ainda mais pequenino. Foi difícil
tirar a minha companheirinha daquela inteligente ternura que Bissaia Barreto
concebeu para as crianças e para os adultos sem pressa.
A passagem por Leiria foi ao sabor da corrente caudalosa do tráfego.
-Olha que lindo castelo! –indiquei com o dedo.
-Gosto muito de castelos. Porque é que a Régua não tem castelo?
-Os castelos... são casas muito antigas... de há muitos anos... e a Régua
é uma terra muito nova...
-Ah!...
Naquela tarde de domingo a Batalha ia perdendo a batalha dos turistas,
armados até aos dentes de máquinas de colher imagens. Alguns, e algumas,
andavam tão despidinhos e excitados que pareciam, realmente, metidos numa
refrega...,...
... A promessa de que Jerusalém fica a 750 metros de altitude, muito nos
anima a sair do Mar Morto, 400 metros abaixo do nível do mar. A certa altura,
tem-se a sensação de despir a própria Terra. A estrada risca de negro uma
aridez acastanhada de colinas arenosas, quilómetros e quilómetros sem a doce
alegria duma árvore. O rom-rom...rom do autocarro parece mordiscar desconsolado
uma velha solidão. Onde a natureza se anima um pouco, surge uma tenda de beduínos
de toldo remendado a bocejar ao sol. A mãe cuida de uma fogueira magra, de
gravetos quase imaginários, enquanto os filhos, sempre muitos, andam no seu
vai-e-vem de pintainhos. Às vezes consegue ver-se ao longe o pai com o seu
rebanho a esfumar-se no horizonte.
Toda a gente se inteiriçou de curiosidade e rodou os olhos pelas janelas.
-Ainda faltam uns quilómetros... foi só para estarem atentos!
E ficámos atentos e ansiosos por chegar a Jerusalém, a cidade que sabíamos
ser, séculos fora, intensa encruzilhada de rotas, culturas e cruéis movimentos
políticos e religiosos. Também sabíamos do muito que nos esperava, apontado
pelos dedos paralelos da História e da Tradição.
Entrámos em Jerusalém pelo lado ocidental e logo nos achámos no Monte das Oliveiras. A estrada atravessa-o pelo meio da encosta e oferece deslumbrante miradouro sobre a cidade e as colinas que a prolongam até à linha do horizonte como ressonâncias de misteriosos segredos. À luz do entardecer, a cidade parecia de prata velha, lavrada pelo vento e pelo tempo de uma história muito sua...,...