MÉDICOS DOENTES E OUTRAS GENTES

 

            Médico há mais de quarenta anos, foram muitos os apontamentos que pude colher nos doentes que me passaram pelas mãos, nos colegas do meu convívio e nas pessoas que mais de perto me rodearam no exercício da minha profissão.

            Neste livro, os Médicos, os Doentes e Outras Gentes não são tratados como delicado material de estudo, ao jeito disciplinado e sério dos ensaios. Tratei-os na sua própria vivência dramática ou anedótica sob forma de história, julgando assim dizer mais vivamente o que tinha na intenção e divertir, se possível, quem me viesse a ler.

            Umas histórias são rápidas como espectáculo de «roberto» armado a uma esquina. Outras, mais elaboradas e longas, precisaram de tablado erguido num terreiro. Algumas são inacreditavelmente verdadeiras. Foi só passá-las no tear da literatura. Outras são autênticas mantas de retalhos, de trapinhos escolhidos na minha farrapeira e na farrapeira dos outros. Também as há totalmente inventadas. Foram escritas para trazer à luz do dia sentimentos e pensamentos ocultos em qualquer de nós.

 

         ... D. Urbana viúva do major Saturnino, veio a morrer com cerca de noventa anos, muito sequinhos, mas bastante lúcidos. Por fim, repetia-se muito, o que descoloria um pouco as suas interessantes recordações. Não têm conta as vezes que me insinuou a intenção de me deixar os livros do marido. Nunca a contrariei por saber que isso lhe daria muito gosto na Eternidade e não me pesar na consciência vir a roubar aos herdeiros fatia que os prejudicasse.

            O major, de cavalaria e monóculo coruscante, fora, segundo se constava, mais dado a cavalos difíceis e mulheres fáceis do que a livros; mas, mesmo assim, ainda deixou uma boa estante. Não têm conta as vezes que os meus olhos distraídos percorreram as lombadas, o que dava um enorme prazer a D. Urbana.

            -Vá olhando para eles, vá olhando para eles...-insinuava de sorrisinho pergaminhado.

            O Eça mais picante, o Camilo mais romântico e o Balzac mais tradicional refulgiam nas prateleiras como estrelas num céu baço de futilidades literárias.

            -O meu marido gostava muito do Almanaque do Povo. Andava sempre a lê-lo! –Dizia D. Urbana com uma pontinha de orgulho.

            Uns tantos volumes do Almanaque do Povo, meio ensebados, pareciam fazer peito, perfilados ainda à passagem do Major.

            Não estranhei a entrega dos livros, umas semanas depois da morte de D. Urbana. Mas não pude deixar de me surpreender com a oferta da espada do major e de um velho relógio de parede, de que apenas conhecia o dar das horas, lá para o fundo da casa, quando visitava D. Urbana.

            -Aquele relógio é do tempo do meu avô, senhor doutor! –Dizia quase sempre com orgulho e melancolia.

            A espada, bem exposta em panóplia de veludo vermelho na sala de visitas, sempre me pareceu uma espécie de brasão de família, apesar de se contarem do major apenas façanhas de femeeiro. Mesmo D. Urbana, quando falava do marido, deixava cair as pálpebras, como se descesse a própria saia, mal disfarçando uma resignação póstuma.

           Uma edição monumental dos Lusíadas, que sobressaía numa pequena mesa ao lado de um flamante retrato do major, não me veio parar às mãos. Filhos e netos, em conclave familiar, devem ter considerado paga suficiente a livralhada e o queijo que D. Urbana me oferecia pelo Natal com um proformático pedido de conta.

            A espada e o relógio acabaram por me parecer uma compensação pelo escamoteio dos Lusíadas.

            Ofereci a espada ao museu da cidade e reparti os livros pelas bibliotecas das casas de assistência social. Se modestas eram modestas ficaram.

            Por mal dos meus pecados, resolvi ficar com o relógio. Sempre tive uma certa ternura por relógios antigos. E por aquele, do tempo do avô de D. Urbana, tinha mesmo certa afeição, por tantas vezes o ouvir no interior da casa. O som chegava-me como um cumprimento de educação antiga.

            Era um relógio de caixa redonda, de madeira escura e mostrador branco, marcado a algarismos romanos. Numa segunda caixa mais pequena, ligada à primeira por duas volutas douradas, pulsava uma pendulazinha de latão com uma figura romântica esmaltada.

            Depois de uma boa revisão e limpeza num relojoeiro de confiança, coloquei-o na parede mais destacada da sala de jantar, querendo dar-lhe, assim, toda a dignidade que a memória de D. Urbana me merecia.

            Nunca julguei que um relógio de tão gratas recordações, amorosamente colocado, viesse a desgostar-me tanto...,...

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