Escravatura em Alhos Vedros
O desenvolvimento da expansão portuguesa
provocou um desenvolvimento desenfreado da escravatura por todo o país e
locais onde os portugueses se fixaram. O principal fornecedor de escravos
foi o continente africano. Desde que os portugueses aí chegaram até
praticamente ao século XX, este continente foi sangrado em muitos milhões
de homens, mulheres e crianças, transformados em mão-de-obra, e não só,
sob condições desumanas.
A dimensão desta barbaridade pode
constatar-se na nossa terra. Por exemplo, em meados do século XVI Alhos
Vedros possuía 147 habitações e uma população total de 514 pessoas, sendo
357 de confissão e comunhão e 157 de confissão; a Moita tinha 27 casas com
66 pessoas de confissão e comunhão e 6 de confissão. Entre as pessoas só
de confissão entrava um número não especificado de escravos.
Pelos dados referentes a Alhos Vedros
constatamos que mais de 16% da população é escrava, o que tanto em termos
relativos como percentuais é um exagero.
Esta população era enquadrada, tanto em
Alhos Vedros como por todo o país, em confrarias sobre a invocação de Nª
Sª do Rosário. Anexa à igreja de S. Lourenço funcionou uma, com 150
confrades, pagando cada 100 reis anualmente. Tinha um círio com uma arroba
de peso junto à capela de Nª Sª dos Anjos que acendia juntamente com os
outros e 40 círios de mão com um arrátel de peso cada, utilizado pelos
escravos nas procissões, seguindo obrigatoriamente no fim do cortejo.
Ao escravo era proibido deslocar-se na
vila, abordar directamente ou bater à porta de homem livre. Mesmo que
fosse mandado pelo dono dar um recado, tinha de o fazer da rua, sem se
aproximar da porta e muito menos entrar em casa, qualquer que fosse o
pretexto, sob pena de 600 reis de multa tanto ao dono do escravo como a
quem o autorizasse.
Os homens escravizados eram empregues
preferencialmente nos trabalhos pesados, como carregadores de moinhos ou
no cais, mulheres nos serviços domésticos ou como amantes dos donos.
Nestes séculos surgem também várias
cartas de alforria pelas quais os donos libertavam os seus escravos.
Muitos, devido a um sentimento cristão ou de piedade, outros nem por isso.
Uma proprietária dá a alforria à sua escrava alegando os bons serviços que
esta lhe prestava e por já ser velha. Ou seja, por de trás de um
sentimento nobre, pode eventualmente estar, o que não foi inédito, uma
forma de se livrar de alguém que já não era prestável, quer dizer,
livrar-se dos encargos de alimentação e alojamento que essa escrava
consumia. Assim uma atitude de grande dignidade pode tornar-se uma
crueldade medonha.
Um outro esclavagista decide dar
alforria a um escravo por este ser filho de uma escrava sua e de seu
filho. Quer dizer, era seu neto. Ainda assim só obteria a liberdade na
condição de o servir toda a sua vida e só após a morte do dono / avô seria
plenamente livre.
O escravo era um bem muito apreciado,
sendo incluído em dotes de casamento juntamente com outras propriedades e
bens. Se a aquisição de um escravo se torna difícil o dotador da noiva
comprometia-se a comprá-lo no regresso dos barcos das costas africanas.
As vítimas da escravatura foram na quase
totalidade homens negros, sobre quem todas as arbitrariedades eram
possíveis, até porque, duvidando a igreja que possuíssem alma ficavam
equiparados a animais.
Jornal O Rio.