UNIDADE 1: Mundo Globalizado e a Nova Consciencia Religiosa
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Globalizaçao
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Globalização: Períodos, Desequilíbrios e Perspectivas
1. Introdução
A expressão "globalização"  tem sido utilizada mais recentemente num sentido marcadamente ideológico, no  qual assiste-se no mundo inteiro a um processo de integração econômica sob a  égide do neoliberalismo, caracterizado pelo predomínio dos interesses  financeiros, pela desregulamentação dos mercados, pelas privatizações das  empresas estatais, e pelo abandono do estado de bem-estar social. Esta é uma das  razões dos críticos acusarem-na, a globalização, de ser responsável pela  intensificação da exclusão social (com o aumento do número de pobres e de  desempregados) e de provocar crises econômicas sucessivas, arruinando milhares  de poupadores e de pequenos empreendimentos.
No texto que se segue não  trataremos deste fenômeno no sentido ideológico mas sim no seu significado  histórico. Demonstramos que o processo de globalização (aqui entendido como  integração e interdependência econômica) deita suas raízes há muito tempo atrás,  no mínimo há 5 séculos, passando desde então por etapas diversas. Aqui o termo é  empregado para fins específicos de uma síntese histórica, bem distante das  manipulações ideológicas que possam ele sofrer. Portanto, para nós, ele tem um  significado mais profundo e não apenas propagandístico.
2. As  Economias-Mundo antes das Descobertas
Antes de ter início a primeira fase da globalização, os Continentes  encontravam-se separados por intransponíveis extensões acidentadas de terra e de  águas, de oceanos e mares, que faziam com que a maioria dos povos e das culturas  soubessem da existência uma das outras apenas por meio de lendas, com a do  Preste João, ou imprecisos e imaginários relatos de viajantes, como o de Marco  Polo. Cada povo viva isolado dos demais, cada cultura era auto-suficiente.  Nascia, vivia e morria no mesmo lugar, sem tomar conhecimento da existência dos  outros.
Até o século 15 identificamos 5 economias-mundo (é uma expressão de Fernand  Braudel), totalmente autonomas, espalhadas pela Terra e que viviam separadas  entre elas. A primeira delas, a da Europa, era composta pelas cidades italianas  de Gênova, Veneza, Milão e Florença, que mantinham laços comerciais e  financeiros com o Mediterrâneo e o Levante onde possuiam importantes feitorias e  bairros comerciais. Bem mais ao norte, na França setentrional, vamos encontrar  outra área comercial significativa na região de Flandres, formada pelas cidades  de Lille, Bruges e Antuérpia, vocacionadas para os negócios com o Mar do Norte.  No Mar Báltico entrava-se a Liga de Hansa, uma cooperativa de mais de 200  cidades mercantes lideradas por Lübeck e Hamburgo, que mantinham um eixo  comercial que ia de Novgorod, na Rússia, até Londres na Inglaterra.
No sudeste europeu, por então, agoniza o comércio bizantino (que atuava no mar  Egeu e no mar Negro), pressionado pela expansão dos turcos que terminaram por  ocupar a grande cidade em 1453, enquanto que a Rússia via-se limitada pelos  Canatos Mongóis que ocupavam boa parte do leste do país.
Outra economia-mundo era formada pela China e regiões tributárias como a  península coreana, a Indochina e a Malásia, e que só se ligava com a Ásia  Central e o Ocidente através da rota da seda. O seu maior dinamismo econômico  encontrava-se nas cidades do sul como Cantão e do leste como Xangai, grandes  portos que faziam a função de vasos comunicantes com os arquipélagos do Mar da  China.
A  Índia, por sua vez, graças a sua posição geográfica, traficava num raio  econômico mais amplo. No noroeste, pelo Oceano Índico e pelo Mar Vermelho,  estabelecia relações com mercadores árabes que tinham feitorias em Bombaim e  outros portos da Índia ocidental, enquanto que comerciantes malaios eram  acolhidos do outro lado, em Calcutá. Seu imenso mercado de especiarias e tecidos  finos era afamado, mas só pouca coisa chegava ao Ocidente graças ao comércio com  o Levante. Foi a celebração das suas riquezas que mais atraiu a cobiça dos  aventureiros europeus como o lusitano Vasco da Gama.

Subdividida pelo deserto do Saara numa África árabe ao Norte, que ocupa uma  faixa de terra a beira do Mediterrâneo e Vale do rio Nilo, com relações  comerciais mais ou menos intensas com os portos europeus e, ao Sul, numa outra  África, a África negra, isolada do mundo pelo deserto e pela floresta tropical,  formava um outro planeta econômico totalmente a parte, voltado para si mesmo.
Por último, mas desconhecida das demais, encontrava-se aquela formada pelas  civilizações pré-colombianas, a Azteca no México, a dos Maias no Yucatan e no  istmo, e a Inca no Peru , organizadas ao redor do cultivo do milho e na  elaboração de tecidos, sendo elas auto-suficientes e sem interligações entre si,  nem terrestres nem oceânicas.

Durante milhares de anos elas desconheceram-se e nem imaginavam que algum dia  poderia estabelecer relações significativas. Se é certo que em suas bordas havia  escambo ou comércio, eles eram insignificantes. Portanto, numa longa  perspectiva, pode-se dizer que a internacionalização do comércio e a aproximação  das culturas são um fenômeno recentíssimo, datando dos últimos cinco séculos,  apenas 10% do tempo da história até agora conhecida.
3. A primeira Fase da Globalização (1450-1850)
"Por mares nunca dantes navegados/.....Em perigos e  guerra esforçados, mais do que prometia a força humana/ E entre gente remota  edificaram/ Novo reino, que tanto sublimaram" - Luís de Camões - Os Lusíadas, Canto I, 11572.
Há, como em quase tudo que diz respeito à história, grande controvérsia em  estabelecer-se uma periodização para estes cinco séculos de integração econômica  e cultural, que chamamos de globalização, iniciados pela descoberta de uma rota  marítima para as Índias e pelas terras do Novo Mundo. Frédéric Mauro, por  exemplo, prefere separá-lo em dois momentos, um que vai de 1492 até 1792 (data  quando, segundo ele, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial fazem com que  a Europa, que liderou o processo inicial da globalização, voltou-se para  resolver suas disputas e rivalidades), só retomando a expansão depois de 1870,  quando amadureceram as novas técnicas de transporte e navegação como a  estrada-de-ferro e o navio à vapor.
No  critério por nós adotado, consideramos que o processo de globalização ou de  economia-mundo capitalista como preferiu Immanuel Wallerstein, nunca se  interrompeu. Se ocorreram momentos de menor intensidade, de contração, ela nunca  chegou a cessar totalmente. De certo modo até as grandes guerras mundiais de  1914-18 e de 1939-45, e antes delas a Guerra dos 7 anos (de 1756-1763),  provocaram a intensificação da globalização quando se adotaram macro-estratégias  militares para acossar os adversários, num mundo quase inteiramente transformado  em campo de batalha. Basta recordar que soldados europeus, nas duas maiores  guerras do século 20, lutavam entre si no Oriente Médio e na África, enquanto  que tropas colônias desembarcavam na Europa e marchavam para os campos de  batalha nas planícies francesas enquanto que as marinhas européias, americanas e  japonesas se engalfinhavam em quase todos os mares do mundo.
Assim sendo, nos definimos pelas seguintes etapas: primeira fase da  globalização, ou primeira globalização, dominada pela expansão mercantilista (de  1450 a 1850) da economia-mundo européia, a segunda fase, ou segunda  globalização, que vai de 1850 a 1950 caracterizada pelo expansionismo  industrial-imperialista e colonialista e, por última, a globalização  propriamente dita, ou globalização recente, acelerada a partir do colapso da  URSS e a queda do muro de Berlim, de 1989 até o presente.
Períodos da Globalização
Data Período Caracterização
1450-1850 Primeira Fase Expansionismo Mercantilista
1850-1950 Segunda Fase Industrial-imperialista-colonialista
Pós-1989 Globalização Recente Cibernética-tecnológica-associativa
A  primeira globalização, resultado da procura de uma rota marítima para as Índias,  assegurou o estabelecimento das primeiras feitorias comerciais européias na  Índia, China e Japão, e, principalmente, abriu aos conquistadores europeus as  terras do Novo Mundo. Feitos estes que Adam Smith, em sua visão eurocêntrica,  considerou os maiores em toda a história da humanidade. Enquanto as especiarias  eram embarcadas para os portos de Lisboa e de Sevilha, de Roterdã e Londres,  milhares de imigrantes iberos, ingleses e holandeses, e, um bem menor número de  franceses, atravessou o Atlântico para vir ocupar a América. Aqui formaram  colônias de exploração, no sul da América do Norte, no Caribe e no Brasil,  baseadas geralmente num só produto (açúcar, tabaco, café, minério, etc..)  utilizando-se de mão de obra escrava vinda da África ou mesmo indígena; ou  colônias de povoamento, estabelecidas majoritariamente na América do Norte,  baseadas na média propriedade de exploração familiar. Para atender as primeiras,  as colônias de exploração, é que o brutal tráfico negreiro tornou-se rotina,  fazendo com que 11 milhões de africanos (40% deles destinados ao Brasil) fossem  transportados pelo Atlântico para labutar nas lavouras e nas minas.
Igualmente não se deve omitir que ela promoveu uma espantosa expropriação das  terras indígenas e no sufocamento ou destruição da sua cultura. Em quase toda a  América ocorreu uma catástrofe demográfica, devido aos maus tratos que a  população nativa sofreu e as doenças e epidemias que os devastaram, devido ao  contato com os colonizadores europeus.
Nesta primeira fase estrutura-se um sólido comércio triangular entre a Europa  (fornecedora de manufaturas) África (que vende seus escravos) e América (que  exporta produtos coloniais). A imensa expansão deste mercado favorece os  artesãos e os industriais emergentes da Europa que passam a contar com  consumidores num raio bem mais vasto do que aquele abrigado nas suas cidades,  enquanto que a importação de produtos coloniais faz ampliar as relações  intereuropéias. Exemplo disso ocorre com o açúcar cuja produção é confiada aos  senhores de engenho brasileiros, mas que é transportado pelos lusos para os  portos holandeses, onde lá se encarregam do seu refino e distribuição.
Os  principais portos europeus, americanos e africanos desta primeira globalização  encontram-se em Lisboa, Sevilha, Cádiz, Londres, Liverpool, Bristol, Roterdã,  Amsterdã, Le Havre, Toulouse, Salvador, Rio de Janeiro, Lima, Buenos Aires, Vera  Cruz, Porto Belo, Havana, São Domingo, Lagos, Benin, Guiné, Luanda e Cidade do  Cabo.

Politicamente, a primeira fase da globalização se fez quase toda ela sob a égide  das monarquias absolutistas que concentram enorme poder e mobilizam os recursos  econômicos, militares e burocráticos, para manterem e expandirem seus impérios  coloniais. Os principais desafios que enfrentam advinham das rivalidades entre  elas, seja pelas disputas dinásticas-territoriais ou pela posse de novas  colônias no além mar, sem esquecer-se do enorme estragos que os corsários e  piratas faziam, especialmente nos séculos 16 e 17, contra os navios carregados  de ouro e prata e produtos coloniais.

A doutrina econômica desta primeira fase foi o mercantilismo, adotado pela  maioria das monarquias européias para estimular o desenvolvimento da economia  dos reinos. Ele compreendia numa complexa legislação que recorria a medidas  protecionistas, incentivos fiscais e doação de monopólios, para promover a  prosperidade geral. A produção e distribuição do comércio internacional era  feita por mercadores privados e por grandes companhias comerciais (as Cias.  inglesas e holandesas das Índias Orientais e Ocidentais) e, em geral, eram  controladas localmente por corporações de ofício.
Todo o universo econômico destinava-se a um só fim, entesourar, acumular  riqueza. O poder de um reino era aferido pela quantidade de metal precioso  (ouro, prata e jóias preciosas) existente nos cofres reais. Para assegurar seu  aumento o estado exercia um sério controle das importações e do comércio com as  colônias, sobre as quais exerciam o oligopólio bilateral. (*)Esta política levou  a que cada reino europeu terminasse por se transformar num império comercial,  tendo colônias e feitorias espalhadas pelo mundo todo ( os principais impérios  coloniais foram o inglês, o espanhol, o português, o holandês e o francês). Um  dos símbolos desta época, a bolsa de valores de Amberes, consciente do que  representava, tinha como justo lema a frase latina "Ad usum mercatorum cujusque  gentis ac linguae", que ela servia aos mercadores de todas as línguas da terra.
(*) o  oligopólio bilateral é uma expressão que serve para descrever a situação de  subordinação em que as colônias se encontravam perante as metrópoles. Além de  estarem impedidas de negociarem com outros países, elas eram obrigadas a  adquirir suas necessidades apenas com negociantes e mercadores metropolitanos  bem como somente vender a eles o que produziam, desta forma a metrópole ganhava  ao vender e ao comprar.
4. A Segunda Fase  da Globalização (1850-1950)
Por meio de sua exploração do mercado mundial, a burguesia deu um  caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países...As velhas  indústrias nacionais foram destruídas ou estão se destruindo dia a dia....Em  lugar das antigas necessidades satisfeitas pela produção nacional, encontramos  novas necessidades que querem para a sua satisfação os produtos das regiões mais  longínquas e dos climas os mais diversos. Em lugar do antigo isolamento  local...desenvolvem-se, em todas as direções, um intercâmbio e uma  interdependência universais.. - Karl Marx - Manifesto Comunista, 1848.
Os  principais acontecimentos que marcam a transição da primeira fase da  globalização para a segunda dão-se nos campos da técnica e da política. A partir  do século 18, a Inglaterra industrializa-se aceleradamente e, depois dela, a  França, a Bélgica, a Alemanha e a Itália. A máquina à vapor é introduzida nos  transportes terrestres (estradas-de-ferro) e marítimos (barcos à vapor)  Conseqüentemente esta nova época será regida pelos interesses da indústria e das  finanças, sua associada e, por vezes amplamenente dominante, e não mais das  motivações dinásticas-mercantís. Será a grande burguesia industrial e bancária,  e não mais os administradores das corporações mercantis e os funcionários reais  quem liderará o processo. Esta interpenetração dos bancos com a indústria, com  tendências ao monopólio ou ao oligopólio, fez com que o economista austríaco  Rudolf Hilferding a denominasse de "O Capital Financeiro" (Das Finanz kapital,  titulo da sua obra publicado em 1910), considerando-a um fenômeno novo da  economia-politica moderna. Lenin definiu-a como a etapa final do capitalismo, a  etapa do imperialismo.
Luta ele - o capital financeiro - pela ampliação dos mercados e pela obtenção de  novas e diversas fontes de matérias primas. A doutrina econômica em que se  baseia é a do capitalismo laissez-faire, um liberalismo radical inspirado nos  fisiocratas franceses e apoiado pelos economistas ingleses Adam Smith e David  Ricardo que advogavam a superação do Mercantilismo com suas políticas arcaicas.  Defendem o livre-cambismo na relações externas, mas em defesa das suas  indústrias internas continuam em geral protecionistas, como é o caso da política  Hamiltoniana nos Estados Unidos e a da Alemanha Imperial e a do Japão(*).
A  escravidão que havia sido o grande esteio da primeira globalização, tornou-se um  impedimento ao progresso do consumo e, somada à crescente indignação que ela  provoca, termina por ser abolida, primeiro em 1789 e definitivamente em 1848 (  no Brasil ela ainda irá sobreviver até 1888). Este segundo momento - segundo a  orientação do que Hobson chamou de ?a politica de uma minoria sem escrúpulos? -,  irá se caracterizar pela ocupação territorial de certas partes da África e da  Ásia, além de estimular o povoamento das terras semi-desocupadas da Austrália e  da Nova Zelândia.

No campo da política a revolução americana de 1776 e a francesa de 1789, irão  liberar enorme energia fazendo com que a busca da realização pessoal termine por  promover uma grande ascensão social das massas. Logo depois, como resultado das  Guerras Napoleônicas e da generalizada abolição da servidão e outros  impedimentos feudais, milhões de europeus (calcula-se em 60 milhões num século)  abandonam seus lares nacionais e emigram em massa para os Estados Unidos,  Canadá, e para a América do Sul (Brasil, Argentina, Chile e Uruguai).
A  posse de novas colônias torna-se um ornamento na política das potências ( só a  Grã-Bretanha possui mais de 50, ocupando inclusive áreas antieconômicas). O  cobiçado mercado chinês finalmente é aberto pelo Tratado de Nanquim de 1842 e o  Japão também é forçado a abandonar a política de isolamento da época Tokugawa ao  assinar um tratado com os americanos em 1853-4.
Cada uma das potências européias rivaliza-se com as demais na luta pela  hegemonia do mundo, ou como disse John Strachey: ?lançaram-se unanimemente, numa  rivalidade feroz...para anexar o resto do mundo?. O resultado é um acirramento  da corrida imperialista e da política belicista que levará os europeus à duas  guerras mundiais, a de 1914-18 e a de 1939-45. Entrementes outros aspectos  técnicos ajudam a globalização: o trem e o barco à vapor encurtam as distâncias,  o telégrafo e , em seguida, o telefone, aproximam os continentes e os interesses  ainda mais. E, principalmente depois do vôo transatlântico de Charles Lindbergh  em 1927, a aviação passa a ser mais um elemento que permite o mundo tornar-se  menor.
Nestes cem anos da segunda fase da globalização (1850-1950) os antigos impérios  dinásticos desabaram (o dos Bourbons em 1789 e, definitivamente, em 1830, o dos  Habsburgos e dos Hohenzollers em 1914, o dos Romanov em 1917). Das diversas  potências que existiam em 1914 (O Império britânico, o francês, o alemão, o  austro-húngaro, o italiano, o russo e o turco otomano) só restam depois da 2ª  Guerra, as superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética.
Feridas pelas guerras as metrópoles deram para desabar, obrigando-se a aceitar a  libertação dos povos coloniais que formaram novas nações. Mesmo assim, umas  independentes e outras neocolonizadas, continuaram ligadas ao sistema  internacional. Somam-se, no pós-1945, os países do Terceiro Mundo recém  independente (a Índia é a primeira a obtê-la em 1947) às nações  latino-americanas que conseguiram sua autonomia política entre 1810-25, ainda no  final da primeira fase da globalização. No entanto nem a descolonização nem as  revoluções comunistas, a da Rússia de 1917 e a da China de 1949, servirão de  entrave para que a mais longo prazo o processo de globalização seja retomado.
(*) Os  países industrializados defendem o livre-cambismo (o preço melhor vence) quando  se sentem fortes, como foi o caso da Inglaterra nos séculos 18 e 19 e hoje é a  posição dominante dos E.U.A. Mas para aqueles que precisam criar sua própria  indústria ou proteger a que está ainda se afirmando, precisam recorrer à  política protecionista com suas elevadas barreiras alfandegárias para evitar sua  quebra.
5. A Globalização  Recente (Pós-1989)
O conceito do direito mundial de cidadania não os protege (os povos)  contra a agressão e a guerra, mas a mútua convivência e proveito os aproximam e  unem. O espírito comercial, incompatível com a guerra, se apodera tarde ou cedo  dos povos. De todos os poderes subordinados à força do Estado, é o poder do  dinheiro que inspira mais confiança e por isto os Estados se vêm obrigados - não  certamente por motivos morais- a fomentar a paz... - I.Kant - A paz  perpétua, 1795.
No  decorrer do século 20 três grandes projetos de liderança da globalização  conflitaram-se entre si: o comunista, inaugurado com a Revolução bolchevique de  1917 e reforçado pela revolução maoista na China em 1949; o da contra-revolução  nazi-fascista que, em grande parte, foi uma poderosa reação direitista ao  projeto comunista, surgido nos anos de 1919, na Itália e na Alemanha,  estendendo-se ao Japão, que foi esmagado no final da 2ª Guerra Mundial, em 1945;  e, finalmente, o projeto liberal-capitalista liderado pelos países anglo-saxãos,  a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.
Num primeiro momento ocorreu a aliança entre o liberalismo e o comunismo (em  1941-45) para a autodefesa e, depois, a destruição do nazi-fascismo. Num segundo  momento os vencedores, os EUA e a URSS, se desentenderam gerando a guerra fria  (1947-1989), onde o liberalismo norte-americano rivalizou-se com o comunismo  soviético numa guerra ideológica mundial e numa competição armamentista e  tecnológica que quase levou a humanidade a uma catástrofe (a crise dos mísseis  de 1962).
Com a política da glasnost, adotada por Mikhail Gorbachov na URSS desde 1986, a  guerra fria encerrou-se e os Estados Unidos proclamaram-se vencedores. O momento  símbolo disto foi a derrubada do Muro de Berlim ocorrida em novembro de 1989,  acompanhada da retirada das tropas soviéticas da Alemanha reunificada e seguida  da dissolução da URSS em 1991. A China comunista, por sua vez, que desde os anos  70 adotara as reformas visando sua modernização, abriu-se em várias zonas  especiais para a implantação de indústrias multinacionais. A política de Deng  Xiaoping de conciliar o investimento capitalista com o monopólio do poder do  partido comunista, esvaziou o regime do seu conteúdo ideológico anterior. Desde  então só restou hegemônica no moderno sistema mundial a economia-mundo  capitalista, não havendo nenhuma outra barreira a antepor-se à globalização.
Chegamos desta forma a situação presente onde sobreviveu uma só superpotência  mundial: os Estados Unidos. É a única que tem condições operacionais de realizar  intervenções militares em qualquer canto do planeta (Kuwait em 1991, Haiti em  1994, Somália em 1996, Bosnia em 1997, etc..). Enquanto na segunda fase da  globalização vivia-se na esfera da libra esterlina, agora é a era do dólar,  enquanto que o idioma inglês tornou-se a língua universal por excelência.  Pode-se até afirmar que a globalização recente nada mais é do que a  americanização do mundo.
6. Desequilíbrios e Perspectivas da Globalização
O  processo produtivo mundial é formado por um conjunto de umas 400-450 grandes  corporações (a maioria delas produtora de automóveis e ligada ao petróleo e às  comunicações) que têm seus investimentos espalhados pelos 5 continentes. A  nacionalidade delas é majoritariamente americana, japonesa, alemã, inglesa,  francesa, suíça, italiana e holandesa. Portanto, pode-se afirmar sem erro que os  países que assumiram o controle da primeira fase da globalização (a de  1450-1850), apesar da descolonização e dos desgastes das duas guerras mundiais,  ainda continuam obtendo os frutos do que conquistaram no passado. A razão disso  é que detêm o monopólio da tecnologia e seus orçamentos, estatais e privados,  dedicam imensas verbas para a ciência pura e aplicada.
Politicamente a globalização recente caracteriza-se pela crescente adoção de  regimes democráticos. Um levantamento indicou que 112 países integrantes da ONU,  entre 182, podem ser apontados como seguidores (ainda que com várias restrições)  de práticas democráticas, ou pelo menos, não são tiranias ou ditaduras. A título  de exemplo lembramos que na América do Sul, na década dos 70, somente a  Venezuela e a Colômbia mantinham regimes civis eleitos. Todos os demais países  eram dominados por militares ( personalistas como no Chile, ou corporativos como  no Brasil e Argentina). Enquanto que agora , nos finais dos noventa, não temos  nenhuma ditadura na América do Sul. Neste processo de universalização da  democracia as barreiras discriminatórias ruíram uma a uma (fim da exclusão  motivada por sexo, raça, religião ou ideologia), acompanhado por uma sempre  ascendente padronização cultural e de consumo.
A  ONU que deveria ser o embrião de um governo mundial foi tolhida e paralisada  pelos interesses e vetos das superpotências durante a guerra fria. Em  conseqüência dessa debilidade, formou-se uma espécie de estado-maior informal  composto pelos dirigentes do G-7 (os EUA, a GB, a Alemanha, a França, o Canadá,  a Itália e o Japão), por vezes alargado para dez ou vinte e cinco, cujos  encontros freqüentes têm mais efeitos sobre a política e a economia do mundo em  geral do que as assembléias da ONU.
Enquanto que no passado os instrumentos da integração foram a caravela, o  galeão, o barco à vela, o barco a vapor e o trem, seguidos do telégrafo e do  telefone, a globalização recente se faz pelos satélites e pelos computadores  ligados na Internet. Se antes ela martirizou africanos e indígenas e explorou a  classe operária fabril, hoje utiliza-se do satélite, do robô e da informática,  abandonando a antiga dependência do braço em favor do cérebro, elevando o padrão  de vida para patamares de saúde, educação e cultura até então desconhecidos pela  humanidade.
O  domínio da tecnologia por um seleto grupo de países ricos, porém, abriu um fosso  com os demais, talvez o mais profundo em toda a história conhecida. Roma, quando  império universal, era superior aos outros povos apenas na arte militar, na  engenharia e no direito. Hoje os países-núcleos da globalização (os integrantes  do G-7), distam, em qualquer campo do conhecimento, anos-luz dos países do  Terceiro Mundo (*).
Ninguém tem a resposta nem a solução para atenuar este abismo entre os ricos do  Norte e os pobres do Sul que só se ampliou. No entanto, é bom que se reconheça  que tais diferenças não resultam de um novo processo de espoliação como os  praticados anteriormente pelo colonialismo e pelo imperialismo, pois não  implicaram numa dominação política, havendo, bem ao contrário, uma aproximação e  busca de intercâmbio e cooperação.
(*) Quanto  à exportação de produtos da vanguarda tecnológica (microeletrônica,  computadores, aeroespaciais, equipamento de telecomunicações, máquinas e robôs,  equipamento científico de precisão, medicina e biologia e químicos orgânicos),  os EUA são responsáveis por 20,7%; a Alemanha por 13,3%; o Japão por 12,6%; o  Reino Unido por 6,2%, e a França por 3,0% , etc..logo apenas estes 5 países  detêm 55,8% da exportação mundial delas.
Imagina-se que a Globalização, seguindo o seu curso natural, irá enfraquecer  cada vez mais os estados-nacionais surgidos há cinco séculos atrás, ou dar-lhes  novas formas e funções, fazendo com que novas instituições supranacionais  gradativamente os substituam. Com a formação dos mercados regionais ou  intercontinentais (Nafta, Unidade Européia, Comunidade Econômica Independente [a  ex-URSS], o Mercosul e o Japão com os tigres asiáticos), e com a conseqüente  interdependência entre eles, assentam-se as bases para os futuros governos  transnacionais que, provavelmente, servirão como unidades federativas de uma  administração mundial a ser constituída. É bem provável que ao findar o século  21, talvez até antes, a humanidade conhecerá por fim um governo universal,  atingindo-se assim o sonho dos filósofos estóicos do homem cosmopolita, aquele  que se sentirá em casa em qualquer parte da Terra.
7. Bibliografia
Braudel, Fernand - Civilização material, economia e  capitalismo: séculos XV-XVIII- Editora Martins Fontes, São Paulo, 1996, 3 vols.
Carrion, Raul K.M., Vizentini, Paulo G. -  Globalização, neoliberalismo, privatizações, Editora da Universidade, UFRGS,  Porto Alegre, 1997
Chaunu, Pierre - Conquista y  explotación de los nuevos mundos - Editorial labor, Barcelona, 1973
Herkscher, Eli F. - La epoca mercantilista - Fondo de Cultura Económica, Mexico,  1943
Kennedy, Paul - Preparando para o século XXI - Editora Campus, Rio de Janeiro,  1993
Mauro, Frédéric - La expansión europea ( 1600-1870) - Editorial Labor,  Barcelona, 1968
Wallerstein, Immanuel - El sistema mundial, Siglo XXI editores, México, 1984,  vol I e II.
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