| UNIDADE 1: Mundo Globalizado e a Nova Consciencia Religiosa | |||||||||||||||||||||||||
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| 2ª. Aula | |||||||||||||||||||||||||
| b) Globalização e contra-globalização | |||||||||||||||||||||||||
| - O fenômeno religioso está aí com toda a sua força, mas como compreendê-lo? - Vimos que o fenômeno religioso entrelaça duas esferas distintas, mas com profundas imbricações prática e teórica: a religião e a sociedade. A sociedade exerce com suas estruturas econômicas, políticas e culturais enorme influência sobre a religião, e a religião influencia também a sociedade. Mas cada uma dessas instâncias conserva um grau de autonomia em relação à outra. Há tempos em que uma tem mais influência do que a outra (o prato da balança pesa mais de um lado só). - Na Idade Média a religião influenciava mais a vida da sociedade do que por ela era influenciada. E na modernidade inverte-se o processo. - Por outro lado o fenômeno religioso é contextual: os fatores sociais o provocam, o alimentam e lhe dão inteligibilidade. A religião é sempre uma realidade socialmente situada, sua ação está limitada e orientada por seu contexto social. - A modernidade gerou dois sistemas econômico-políticos: o capitalismo e o socialismo. Em ambos sobreviveu o que Mircea Eliade chamou de "camuflagem" (estruturas religiosas arcaicas entram no mundo urbano, fora do referencial religioso). Toda manifestação religiosa mostra que existe duas essências que convivem uma ao lado da outra: o sagrado e o profano, o espírito e a matéria, o eterno e o não-eterno. Na esfera do profano, encontramos significações sagradas, enquanto que na esfera do sagrado existem significações profanas. - Um dos fenômenos da globalização é o neoliberalismo, que cria uma ideologia do mais competente para que a empresa tenha os melhores resultados e assim vença a concorrência. Para tal, ela promove o enxugamento de seu pessoal, gerando desemprego. Os postos de trabalho são cobiçados, de modo que se introduz entre os pretendentes terrível disputa. Assim a violenta concorrência no nível empresarial desce ao mundo das pessoas. A contra-globalização aparece na insegurança ronda a todos. Em busca de segurança, as pessoas mergulham no mundo religioso, onde tal ansiedade recebe alívio. - A queda do socialismo real provocou a reação da eflorescência religiosa. Mas também a vitalidade do capitalismo reforçou o surto religioso. Nada melhor para o sistema atual do que uma religião que cumpra um duplo papel: anestesia qualquer crítica social e abre enorme espaço comercial, fazendo circular milhões de dólares. O comércio religioso prospera e consta entre as tendências em crescimento. - Os desejos são aguçados pelo consumismo e o hedonismo fazendo com que se desperte nas massas desejos de experiências religiosas, fazendo com que elas se transformem em necessidades e tendo maior força de penetração. Outra forma de realizar isso é através do mimetismo (copiar dos outros), que arrasta multidões a fazer a mesma experiência como algo necessário para estar na onda. - Há políticas orientadas por interesses explicitamente ideológicos do capitalismo que incentivaram o revivescimento religioso para desfazer o impacto crítico-social da vertente libertadora das igrejas. Há uma suspeita de que a infiltração das seitas servem aos interesses da direita norte-americana. A ajuda externa contribui para uma expansão religiosa através de mecanismos estranhos de interferência na sustentação religiosa. - Depois dos atentados terroristas as pessoas vão reagir deixando aflorar o seu lado espiritual ou apenas o desejo de vingança? O terrorismo não revela a instabilidade do sistema mais poderoso do mundo? Vislumbram-se no horizonte mudanças profundas no comportamento das pessoas. |
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| c) Reencantamento do mundo - o surto religioso alimenta-se não só do campo econômico-político, mas também em função do processo civilizatório que o Ocidente iniciou no século VI a.C. na Grécia antiga. - a decepção com a razão (desencanto da razão) veio com a Ilustração ("Iluminismo"), aprofundando-se numa crise sem precedentes. - eclosão religiosa tem a ver com a crise da razão iluminista, instrumental. - ao enfrentar o campo religioso, a razão iluminista pretende desmontar o mistério, como se fosse uma máquina inventada pela ignorância e crendice das pessoas. - a oposição à razão resultou na explosão das emoções, da afetividade, da busca de experiências existenciais, de gozo da realidade e do presente, da harmonia, da intuição, da razão fruitiva e comunicativa. - a debilidade da razão manifesta-se na sua incapacidade de abarcar um setor sequer do conhecimento, pois este especializa-se ao extremo. - o descrédito da razão instrumental, científica por sua terrível irresponsabilidade social leva as pessoas a embrenharem-se por outras veredas alternativas. - No mundo de valores, que afeta diretamente a prática religiosa, acompanhamos o crescimento do individualismo (característica do modernismo). - o individualismo levou ao vazio existencial, abrindo oportunidades para o fluxo religioso. - o individualismo tem outra face que casa diretamente com a dimensão religiosa: manifesta-se na preocupação com o próprio prazer, gozo, realização pessoal afetiva, amorosa ("faço o que gosto"). |
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| - Há muitos estudiosos que associam a revivescência religiosa à secularização, afirmando que é a revanche do sagrado. Subjaz a esta tese a influência predominante dos fatores sociais sobre a religião. - A secularização é o preço que se pagou pela heteronomia do dogma e da moral. Quanto mais se insistiu na autoridade externa da instância que ditava, controlava, impunha as tradições religiosas, os ensinamentos doutrinais e morais, tanto mais a secularização gestou uma autonomia, independência e rejeição dessa autoridade normativa, constitutiva da sociedade, substituindo-a pela razão. - A secularização impôs o reino da razão onde as religiões provocavam a discórdia, a guerra. A paixão religiosa destruíra a paz social. - A razão moderna chama-se ilustrada, iluminada, ao pensar-se luz em oposição à noite medieval. E como tal se propõe desfazer as trevas da religião, para imperar luminosa sozinha. A religião pagou esse preço por suas horas de escuridão. - A modernidade deu início sua batalha racional contra a religião. Atacou sobretudo a expressão católica. E diante de seus ataques, a Igreja Católica reagiu principalmente de maneira defensiva e reativa. - Quanto mais fortes foram os ataques da Igreja à modernidade, tanto mais os pensadores, filósofos, escritores modernos se puseram a infamar a Igreja. Caminhou-se de um racionalismo deísta para um ateísmo combativo e militante e daí até um ateísmo civilizacional (as instituições, cultura, educação, trabalho passam a se desenvolver sem qualquer referência constitutiva à esfera do religioso). - O processo de racionalização do campo religioso desencanto o mundo (Max Weber). Aparece então, um "sagrado selvagem" (Roger Bastide). - O "sagrado selvagem" que aparece na cultura e na sociedade de hoje busca seus modelos nos transes coletivos das populações ditas primitivas, nos cultos de possessão, que o cinema, a televisão, o teatro negro popularizaram. Há uma lógica neste surto do sagrado selvagem. A racionalização do mundo, da sociedade, com suas lógicas da razão científica e técnica, devora as alteridades, reduzindo-as ao "mesmo" do indivíduo. - A sociedade moderna promete precisamente o que não é capaz de fazer, deixando um rastro de insatisfação no coração humano. A sociedade atual promete garantir a felicidade, mantendo a segurança. Nada tão violentamente ameaçador do que a insegurança (veja a neurose coletiva nos USA depois dos atentados). Não há defesa diante da angústia da morte. Uma sociedade extremamente racionalizada não afasta a "vingança do irracional" sob as formas de seitas, magia, astrologia, culto do exótico. - A lógica da racionalização e a emancipação do indivíduo e da sociedade desatam uma contra-lógica do religioso. Busca-se o Transcendente ou de maneira sensata ou sob o aspecto negativo irracional de formas exóticas e absurdas, como suicídio em massa. - Dentro da religião sempre surgem explosões carismáticas e messiânicas num processo interno de refazimento contínuo. Repete-se a dinâmica analisada por Weber de que os carismas tendem a institucionalizar-se, e as instituições, no auge de sua rigidez, terminam por explodir em surtos carismáticos. - Entre os acontecimentos mais comuns na história das religiões, temos o cisma - um grupo de membros insatisfeitos rompe com a organização religiosa para fundar uma nova organização. - Os cientistas sociais falharam, seja por causa de seu desejo de que as religiões desaparecessem, seja por não reconhecerem o caráter dinâmico das economias religiosas. A secularização é parte de um fenômeno religioso, num momento tanto de ocaso como de aurora. - As formas primárias de desvio dos movimentos religiosos são as seitas e os cultos, distintos das instituições religiosas ou igrejas. O surto de crenças e movimentos se deve mais à fraqueza das religiões convencionais do que à uma nova "consciência" religiosa. Seitas e cultos surgem no vácuo criado pelas igrejas enfraquecidas. "Martelar numa religião é martelar um prego. Quanto mais forte, tanto mais ele penetra". |
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| d) A busca de sentido | |||||||||||||||||||||||||
| - Os fatores sociais influenciaram diretamente a psicologia das pessoas, levando-as a práticas religiosas. Não nos referimos à estrutura antropológica, mas de elementos da psicologia individual de pessoas que foram marcadas, nalgum dia, pelos traços religiosos. - Causas estruturais filosófico-teologais: duas correntes divergem radicalmente na resposta, mas ambas coincidem no ponto que nos interessa: o ser humano é um criador de religião. A 1a corrente vê nesta sede religiosa e na capacidade de o ser humano criar sinais e símbolos para unir-se a uma realidade transcendente o fato de ter sido criado por Deus e chamado a comunhão de intimidade com Ele. A 2a corrente vê nessa fábrica de símbolos religiosos um processo de compensação do ser humano que projeta para fora de si, dando-lhe consistência de realidade, o que no fundo ele deseja ser, é e teme reconhecê-lo. O ser humano é, por natureza, um ser simbólico e religioso. Ele mesmo cria os sinais religiosos para ele mesmo consumi-los. - Feuerbach: crítico da religião e do cristianismo ("A essência do cristianismo") ele escreveu: "Deus é a intimidade revelada, o pronunciamento do Eu do homem; a religião é uma revelação solene das preciosidades ocultas do homem, a confissão dos seus mais íntimos pensamentos, a manifestação pública dos seus segredos de amor". - Na verdade, sabemos que o corpo se alimenta de comida e o espírito de símbolos. (LIBANIO, João Batista. A religião no início do milênio. São Paulo: Loyola, 2002). |
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