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Est� p�gina foi atualizada pela �ltima vez em:  25-abr-2001.

 

 

TIMOR

Ilha da Oceania, no Arquip�lago Malaio, a maior e mais oriental das Pequenas Sondas, Localizada entre os paralelos 8O. 20` 15`` e 10O. 22` 19`` de latitude Leste os meridianos 123O. 37`34`` e 127O. 0` 32`` de longitude Leste do Meridiano de Greenwich. A sua forma oblonga, em ferro de lan�a, orienta-se na dire��o Sudoeste/Nordeste, desalinhada sensivelmente e como que desgarrada, em �ngulo agudo, ao Sul de Flores e a Leste de Sumba, da cadeia de grandes e pequenas ilhas do extenso Arquip�lago das Sondas que em arco de circulo quase regular, se estende desde Sumatra at� ao Mar de Banda. A sua ponta Sudoeste fica a 1.000 Km em linha reta, a Leste do extenso Sudeste, da ilha de Java, e por ser a mais pr�xima do Continente Australiano, apenas cerca de 500 Km. Do seu Cabo Bougainville. Ao Sul e Leste � banhada pelo Oceano �ndico (Mar de Timor); ao Norte pelo Mar de Banda. Est� rodeada pelas ilhas Rotti e Saval, sobre o estreito de Rotti, pelas ilhas de Lomblem Pantar e Alor ou Ombai, sobre o estreito de Ombai, pelas ilhas Pulo-Cambing (Ata�ro) e Wetter sobre o estreito do mesmo nome, e na extrema oriental pelo ilh�u Kissar.Mede cerca de 450 Km, no seu eixo maior e uns 100 Km, na maior largura. A sua �rea total � de cerca de 32.350 km2., O seu nome, de origem malaia, significa "Oriente", diferen�ando-se dos ilh�us mais a Leste pela designa��o de Timor Tesar ( Oriente Grande ).

Pelo tratado de 20/04/1859 a ilha de Timor foi definitivamente dividida entre Portugal e a Holanda - reservada a Portugal a banda oriental (regi�o dos Belos), com um pequeno enclave, Ambeno (Ocussi), e a ilha Pulo-Cambing numa �rea total de 16.250 km2., e reconhecida � Holanda a metade ocidental (regi�o de Servi�o), de �rea um pouco menor, com 16.100 Km2. Essa partilha foi retificada mais tarde, em 1902, por nova linha de fronteiras que reconheceu a Portugal 16.384 Km2. De territ�rio e o restante � Holanda que depois de 1949 passou a fazer parte dos Estados Unidos da Indon�sia. A parte portuguesa, com o enclave de Ambeno e a ilha Pulo-Cambing, tem a capital em Dili e contava com cerca de 450.000 habitantes; o resto da ilha que pertencia � Holanda e agora � Indon�sia, tem a capital em Cup�o (Cupang).

O com�rcio n�o � muito intenso, e as ind�strias em Timor s�o rudimentares. Os principais artigos de exporta��o s�o: o caf�, madeira de s�ndalo, laranjas, garranos, cera e mel. A importa��o consiste principalmente em arroz, licores, objetos de metal, tecidos de l�, armas. O movimento comercial restringe-se a Dili e Atapupo. Dili esta aberta a toda a navega��o mercante do mundo.

Os estudos sobre a pr�-hist�ria da ilha de Timor nada ensinam ainda, por car�ncia de s�ria base cientifica, apesar das investiga��es de alguns s�bios holandeses no s�culo XIX. A hist�ria da ilha � praticamente a do seu descobrimento e ocupa��o pelos portugueses, no primeiro quartel do s�c.XVI, em data que n�o se p�de ser ainda exatamente averiguada. Presume-se que se trata, no fundo de um dos in�meros e banais epis�dios da livre explora��o dos mares do Extremo Oriente por mercadores e mareantes portugueses do s�c. XVI, depois de conquistada Malaca em 1.511.

E a sua lenta e acidentada ocupa��o n�o foi tamb�m, no fundo, mais do que um cap�tulo an�dino e obscuro da hist�ria mar�tima, militar, comercial e mission�ria de Portugal nos s�culos posteriores. Deve ter sido entre 1.512 e 1.516 que a ilha foi abordada, acidental ou propositadamente, por algum ou alguns dos mercadores ou aventureiros portugueses que por esse tempo sulcavam j� livremente os mares da Mal�sia, no tr�fico das especiarias a armazenar em Malaca para sua exporta��o anual para Lisboa. Nesse tr�fico se passaram anos, sem incidentes not�veis, porque � s� de 1.562 a primeira not�cia de frades dominicanos portugueses, da Miss�o de Malaca, �s ilhas Flores, S�lor e Timor, para cristianiza��o do b�rbaro e feroz gentio malaio e melan�sio. O fato mais t�pico da ocupa��o dessas tr�s ilhas - que andaram depois, por mais tr�s s�culos, na �rbita da domina��o ou influ�ncia portuguesa no Extremo-Oriente - � o de terem sido frades, e n�o oficiais ou for�as militares da coroa, que por muito tempo as ocuparam e conservaram, at� se tornarem oficialmente dom�nios dos reis de Portugal.

Essa acidentada hist�ria, por ser a da atual Prov�ncia Ultramarina de Timor, ter� no seu lugar pr�prio desenvolvimento mais pormenorizado (v.adiante). A largos tra�os, a hist�ria da ilha de Timor abrange quatro per�odos distintos. De 1.562 a 1.585 a ilha de Timor era apenas visitada por frades dominicanos, como depend�ncia catequista da miss�o da ilha Flores, sujeita ao Vicariato da Ordem de S. Domingos, em Malaca.

Em 1.585, o vice-rei da �ndia, por ordem de Lisboa, evoca � sua jurisdi��o a fortaleza da ilha de S�lor, constru�da e guarnecida apenas pelos frades, meio-religiosos, meio-soldados; e por esse fato a ilha de Timor, depend�ncia mission�ria dos dominicanos de S�lor, ingressou tamb�m no conjunto dos dom�nios ultramarinos da coroa de Portugal no Extremo-Oriente. Nessa situa��o mau definida se conservou a ilha durante todo o dom�nio espanhol em Portugal.

Mas em 1.636 um frota da Companhia Holandesa das �ndias Orientais, que j� desde 1597 tinha estabelecido em Java (Bat�via), desembarcara em S�lor cerca de 200 arcabuzeiros que ao cabo de algumas semanas ocupavam o forte dos dominicanos e expulsaram da ilha os frades portugueses. Os fugitivos acolheram-se a Timor, mas em 1641 a perda de Malaca, ca�da no m�s de Janeiro em poder dos holandeses, precipitou os acontecimentos. Um rei de Tol�, tio do soberano de Macassar (Arquip�lago das Celebes) depois de, com uma frota de paraus, ter atacado Larantuca, na ilha Flores, foi sobre Timor onde desembarcou a sua gente, invadindo e devastando todo o litoral, e reembarcando na sua frota, carregado de despojos, ao fim de tr�s meses de chacinas e devasta��es. Ent�o, por instru��es recebidas de Goa, do vice-rei, o comiss�rio dominicano Frei A. de S. Jacinto recebeu instru��es para empreender a constru��o de um forte em Timor, tendo sido escolhida a enseada de Cup�o(Cupang) na extrema ocidental da ilha, para essa primeira obra de ocupa��o militar. Intrigas v�rias afastaram o frade de sua tarefa, que n�o p�de chegar a concluir por ter deixado em meio a constru��o do forte. E por esse motivo, os holandeses da Companhia das �ndias, aproveitando-se do desleixo de um capit�o-mor Siqueira, assaltaram de supressa e tomaram � falsa f�, sem um tiro, o inacabado forte portugu�s de Cup�o.

A partir de 1651 come�a a terceira fase da hist�ria de Timor. Os holandeses da Companhia das �ndias instalavam-se definitivamente na parte ocidental da ilha, com a cumplicidade de v�rios r�gulos ind�genas, mormente o de Amory, acabando em 1653 o forte de Cup�o come�ado a construir pelo frade portugu�s. Uma guerra de guerrilhas se sucedeu, entre holandeses e portugueses, para a ocupa��o total da ilha. Protelou-se a luta at� 1660, ora em guerra aberta, ora por capta��o dos r�gulos ind�genas, at� que em 1661 o governo de Portugal entrou em negocia��es com os dirigentes da Companhia Holandesa, na Europa, para se estabelecerem em bases s�lidas os direitos de ocupa��o das tr�s ilhas de Flores, S�lor e Timor.

A coroa de Portugal reconheceu ent�o aos holandeses a posse de Cup�o e do territ�rio ocidental j� ocupado; e os holandeses abandonaram a ilha de S�lor, reconhecendo a Portugal o direito �s ilhas de Flores e S�lor e � banda oriental de Timor.

Desde ent�o (1661) os frades portugueses internaram-se na regi�o dos Belos, missionando e praticamente governando a parte portuguesa da ilha. E a situa��o prolongou-se at� 1702, apesar da autoridade te�rica de um capit�o-mor, delegado da coroa e instalado na fortaleza de Lif�o.

S� em 1701 foi criado pela coroa de Portugal o cargo de governador de S�lor e Timor, tendo nomeado para esse long�nquo governo o general Coelho Guerreiro. Para os seus sucessores, foi sempre acidentado e prec�rio esse governo de Timor, em Lif�o, assoberbado por cont�nuas e obscuras revoltas do gentio.

Em 1769 foi resolvido transferir a capital do territ�rio portugu�s, de Lif�o para Dili. E desde ent�o, com o holandeses em Cup�o, como sede administrativa do seu territ�rio, e com os portugueses instalados em Dili, capital de sua administra��o, a hist�ria de Timor resume-se � da dram�tica e lenta ocupa��o militar e administrativa de todo o territ�rio, tando por parte dos portugueses, como dos holandeses, o que mais propriamente se trata na resenha hist�rica da Prov�ncia Ultramarina de Timor.

Em meados do s�c. XIX s�rios atritos diplom�ticos entre Portugal e a Holanda, por quest�es de limites, vieram a ser regulados definitivamente pelo tratado de limites de 20/04/1859, depois de se terem perdido para Portugal as ilhas de S�lor e Flores, pela desastrada e leviana atua��o de um comiss�rio r�gio, Lopes de Lima, que, por in�pcia, abusivamente, negociou a sua ced�ncia ao Estado Holand�s a troco de uma irris�ria indeniza��o em dinheiro para o Estado portugu�s. As vicissitudes e tr�gicos lances que ilustram a lenta e dif�cil ocupa��o e pacifica��o do territ�rio portugu�s de Timor, ao longo de todo o final do s�c. XIX at� come�os do atual, � mat�ria que mais desenvolvidamente pertence � hist�ria da administra��o portuguesa na sua banda oriental.

Como acontecimentos de maior relevo para a hist�ria contempor�nea da ilha de Timor, h� apenas a assinalar ainda as conseq��ncias pol�ticas da Segunda Grande Guerra Mundial que se traduziram na invas�o e ocupa��o militar japonesa, de 1942 a 1945, e, depois da derrota militar do Jap�o pelas Pot�ncias Aliadas, a recupera��o portuguesa do seu antigo territ�rio, ao passo que em 1948 cessava o dom�nio colonial na parte ocidental da ilha, pela proclama��o da Rep�blica da Indon�sia, que libertou todas as antigas possess�es holandesas no extenso Arquip�lago. 1945 a ilha continuava cindida em duas administra��es - na antiga banda oriental sujeita � soberania de Portugal, e em todo o territ�rio anteriormente holand�s anexada � nova rep�blica dos Estados Unidos da Indon�sia.

TIMOR-HISTORIA

J� em 1505, no longo rol de instru��es r�gias dadas em Lisboa ao primeiro vice-rei da �ndia, figurava, entre outras de primeira urg�ncia, uma expedi��o de reconhecimento �s ilhas Malucas ou do Cravo.

Mas s� nos fins de 1511, depois de franqueada � navega��o portuguesa, pela ocupa��o de Malaca, a livre sa�da para os mares da China e da Mal�sia, p�de Albuquerque, como governador da �ndia, mandar ao reconhecimento das Malucas, uma pequena frota de tr�s navios, comandada por Ant�nio de Abreu.

Eram os primeiros europeus que devassavam os mares desses confins do Oriente, n�o podendo todavia afirmar-se que alguns dos navios de Abreu tivesse ent�o tocado ou avistado a ilha de Timor, no extremo Oriente do Arquip�lago, apesar de bem conhecida dos nativos de outras ilhas. Timor figurava j� num mapa portugu�s de 1512.

A Suma Oriental de Tom� Pires refere-se � ida, em 1514, de um junco portugu�s �quela ilha. Numa carta de Rui de Brito ao rei D. Manuel (Cartas de Afonso de Albuquerque, t.III.p.133-137) faz-se a seguinte descri��o da ilha: "Timor he huma ylha al�m de jaos, tem muito sandalo, muito mell, muita cera, por nom haver junco nom foram la". � interessante a refer�ncia a falta de navega��o ind�gena. Por volta de 1516. Duarte Barbosa refere-se-lhe nos seguintes termos: "Timor - Tem Rey e lingoa sobre sy; nesta ilha h� muytos sandalos branquos, que hos Mouros muyto estimaom, na �ndia e Persia, honde se gasta muyta soma deles e tem grande valia no Malabar, Marsyngua, e Cambaya; has naos de Malaca e Jaos que aqui uem por ela, Leuaom por machados, machadinhas, cotelos, espadas, panos de Cambaya, e de Paleacate, porcelanas, continhas de cores, estanho, azougue, chumbo e outras mercadorias com que caregaom ho dito sandalo, de meel, escravos e dalg�a pimenta que na tera h�".

Mas mais interessante e ampla � a descri��o, por Pigafetta, da visita a Timor da expedi��o que Fern�o de Magalh�es organizara e chefiara at� �s Filipinas. Pigafetta acusa os Portugueses de introdu��o do mal ven�reo n�o s� em Timor como em todas as ilhas do arquip�lago visitadas pela expedi��o. H� que p�r de remissa esta acusa��o (Mendes Correia, Timor Portugu�s, Lisboa, 1944,p.12) mas h� informes de grande interesse na narrativa de Pigafetta do que ocorreu naquela visita, de 1522, a Timor. H� no texto nomes ind�genas de pessoas e de lugares que se consideram suscept�veis de identifica��o com designa��es modernas.

Deve ter sido, portanto, entre 1512 e 1522 que a ilha de Timor foi acidentalmente descoberta, em alguma dessas obscuras viagens dos muitos mercadores e aventureiros portugueses que por esse tempo j� cruzavam livremente os mares da Mal�sia no tr�fico da especiaria e outras mercadorias para Malaca e para a �ndia.

Meras viagens de neg�cio, por muito corriqueiras j�, n�o mereciam especial interesse a cronistas, que por isso deixaram no anonimato o descobridor da ilha.

Negociantes portugueses, desejosos de tirar vantagens do j� lucrativo com�rcio de s�ndalo da ilha, come�aram a visita-la. Negociavam com os l�deres timorenses da costa, que trocavam s�ndalo trazido do interior montanhoso por armas portuguesas, tecidos e instrumentos de ferro.

No come�o, essas visitas de portugueses tiveram poucas consequ�ncias sobre os timorenses. A maioria dos habitantes da ilha morava em vilarejos pequenos, relativamente isolados, no interior, onde predominavam a agricultura de subsist�ncia e religi�es animistas.

Nesse costumeiro tr�fico, rolaram anos, sem mais incidente not�vel quanto a Timor, porque � de 1561 - mais de quarenta anos passados - a primeira not�cia de chegada dos frades dominicanos da Miss�o de Malaca �s ilhas Flores, S�lor e Timor, no seu fervor de catequese e cristianiza��o do b�rbaro e feroz malaio e melan�sio. A ordem de S�o Domingos, tomara desde os primeiros tempos da Conquista, o encargo de missionar tamb�m para al�m do Cabo da Boa Esperan�a - na �ndia, desde 1548. Chegados os primeiros dominicanos a Goa, em 1548, � medida que o dom�nio militar-comercial dos portugueses alastrava para al�m de Ceil�o, foi para Malaca que se transferiu o Vicariato da Ordem e nas Flores que se instalou o Vig�rio Superior das Miss�es.

Os frades de S. Domingos, militantes e infatig�veis, n�o se limitavam no Oriente a catequizar. Al�m de fundarem igrejas, capelas, col�gios, tamb�m erguiam tranqueiras e constru�am fortalezas, como fizeram em Larantuca, quase sem armamento e sem navios de guerra. A artilharia era-lhes fornecida, a seu pedido, pela capitania-mor de Malaca.

N�o tardaram S�lor e Timor a entrar no martirol�gico crist�o. Os r�gulos mu�ulmanos insurgem-se contra os frades. Os navios portugueses passam a ser atacados freq�entemente, o que todavia n�o afetava o com�rcio. Os Dom�nios de S�lor, amea�ados por tantos inimigos - malaios, javaneses e massacares - transformam ent�o a sua primitiva tranqueira em mais s�lida fortaleza de pedra e cal.

De S�lor passam ent�o os dominicanos a Timor, na sua tarefa de evangeliza��o intensiva. Um Fr. Ant�nio Taveira, ido de Larantuca num parau, abriu caminho a outro mais famoso pioneiro tonsurado, Fr. Ant�nio da Cruz, que tendo convertido ao cristianismo um grande chefe gent�lico, se instalou no seu reino e por muitos anos exerceu decisiva influ�ncia espiritual entre o gentio. Desde Fr. Ant�nio da Cruz, a ilha de Timor conhecia uma autoridade portuguesa.

Agora por�m a influ�ncia portuguesa iriam se tornar invasiva. N�o se motivos o local escolhido para estabelecerem sua miss�o foi principal porto para o s�ndalo. Pouco depois, os Topasses, ou portugueses negros - descendentes de soldados, marinheiros e negociantes portugueses e mulheres das ilhas vizinhas - come�aram a se estabelecer em Timor. Eles difundiram a cultura e influ�ncia portuguesa e logo passaram a controlar a redes locais de com�rcio.

Em 1585, por�m, o vice-rei da �ndia, por ordem de Lisboa, evoca � sua jurisdi��o a s�lida fortaleza de S�lor, embora continuando habitada pelos frades e com uma guarda de mosqueteiros e seu capit�o. E n�o se declarou logo o inevit�vel conflito entre as duas autoridades, porque no final do s�culo o aparecimento dos primeiros holandeses nos mares das �ndias viria criar problemas bem mais graves aos frades, como ao pr�prio governo da �ndia e a todo o Ultramar portugu�s.

Em 1597 j� holandeses estabeleciam em Java uma feitoria (Bat�via). As expedi��es, puramente comerciais, sucediam-se; em 1598, em 1599, e esta �ltima j� �s Malucas, onde a especiaria era mais barata.

Pouco tempo depois, os holandeses come�aram a visitar Timor, para conseguir s�ndalo e escravos.

Todos os povos malaios, sobretudo mu�ulmanos, se levantaram logo contra os portugueses; e no Arquip�lago os holandeses valiam a moiros e renegados contra a imp�vida fortaleza de Larantuca, na ilha das Flores que, de surpresa, foi cercada por 7 naus holandesas, quando se achava mal guarnecida por terem ido muitos portugueses a Timor, ao neg�cio do s�ndalo. A resist�ncia de tr�s meses, foi desesperada. Entretanto (1602), constitu�da em Amsterd�, para mais seguro neg�cio, a Companhia das �ndias Orientais, com poderes majest�ticos, o assalto dos holandeses aos estabelecimentos e navios portugueses redobrou de fria e calculada viol�ncia.

Em 1604 eram expulsos os portugueses de Ternate e Amboino, nas Malucas. Em 1615 os holandeses apossam-se pela primeira vez da fortaleza dos frades de S�lor, e a puseram o nome de "Forte Henricus"; e em 1616 expulsavam definitivamente das Malucas, ao Norte, os �ltimos portugueses, tendo previamente abandonado, por in�til, a ilha de S�lor, onde apenas deixaram uma fraca guarni��o no Forte Henricus, com um major, Van Raemburch. De Larantuca, de onde n�o tinham sido expulsos, voltaram os frades a S�lor, a atacar os holandeses do Forte Henricus, que repelem um vigoroso ataque; e por isso, em 1618, a Companhia faz reocupar a ilha de S�lor, para melhor conservar, como conservou por mais de 10 anos, esse disputado Forte Henricus.

Em Timor, � margem de todo esse fluxo e refluxo de S�lor, j� Fr. Ant�nio da Cruz devia ter sido substitu�do, como superior da Miss�o, por outro dos grandes pioneiros da ocupa��o da ilha - Frei Ant�nio de S. Jacinto. Mas em 1629, a ilha de S�lor, por in�til ou talvez in�spita, � abandonada segunda vez pelos ocupantes holandeses.

No ano seguinte (Abril de 1630) chega a Larantuca, na ilha das Flores, enviado de Malaca, onde pouco antes de distinguira pela sua bravura, Fr. Miguel Rangel, que vinha como comiss�rio-visitador do arquip�lago Flores-S�lor-Timor e trazia de Malaca um refor�o de homens e material de guerra. Verdadeiro frade-soldado, o novo comiss�rio-visitador, ordena logo a reocupa��o do abandonado Forte Henricus, de S�lor, e que se levante em Timor uma boa tranqueira; e como Fr. Ant�nio de S. Jacinto, substitu�do por outro Fr. Rangel (Crist�v�o Rangel) na chefia da Miss�o, tivesse regressado a Larantuca, o comiss�rio-visitador manda-o voltar � ilha de Timor, a converter a rainha de Mena, no litoral, enquanto Fr. Cristov�o Rangel convertia o rei de Silav�o, pouco depois envenenado pelos malaios.

Em Timor se fixou, portanto, em 1631, Frei Ant�nio de S. Jacinto como comiss�rio da Ordem; e por alguns anos os holandeses, deixaram em paz as cristandades de Flores, S�lor e Timor. Em Junho de 1636, uma frota de seis navios holandeses, com 200 homens surge de novo em S�lor, diante do Forte Henricus, guarnecido desde 1630 por frades e bombardeiros de Malaca, e a quem o capit�o da frota, Tomberger, intimou a rendi��o. Os frades recusam e preparam-se para resistir; mas semanas depois, falhos de muni��o e de homens abandonam o forte e a ilha, recolhendo uns a Larantuca e refugiando-se outros em Timor.

Depois de 1641, pela perda de Malaca, em Janeiro, a situa��o mudou radicalmente, assumindo para os derradeiros estabelecimentos portugueses no Extremo Oriente aspectos tr�gicos.

S�lor perdera-se e o seu forte continuava abandonado. Em Timor, pelos incans�veis esfor�os de Frei Ant�nio de S. Jacinto, que por l� se demorara cerca de 13 anos, havia j� 22 capelas dispersas por reinos cristianizados - Mena, Amarasse, Sival�o, Lif�o e outros. E nas Flores, onde Larantuca, se mantinha ainda, o vig�rio superior das Miss�es de tal modo interferira no governo que, de Goa, o vice-rei Conde de Aveiras vira-se for�ado em 1640 a nomear um capit�o-geral das ilhas, como autoridade r�gia.

Logo que em toda a Mal�sia se tornou conhecido a queda de Malaca, foi geral o levantamento das ilhas do Sul contra os portugueses, sobretudo nos Estados mu�ulmanos.

Um rei de Tol�, Caniliquio, com uma frota de 150 paraus e cerca de 7.000 homens d� o primeiro assalto a Timor. Com a sua frota dividida em duas, uma pelo Norte, e outra pelo Sul, desembarca a sua gente e � uma devasta��o por todo o litoral, de onde os selvagens timorenses fogem aterrados para as suas montanhas do interior. O reio de Tol�, ao fim de 3 meses de razia e devasta��es, reembarca na sua frota, carregado dos despojos da f�cil vit�ria.

De Larantuca (Junho de 1641) � logo mandado outra vez a Timor Fr. Ant�nio de S. Jacinto, com mais dois frades, o capit�o Francisco Fernandes e 80 mosqueteiros.

Renovam-se as convers�es em massa com o arrependimento da maior parte dos reis que se haviam submetido ao de Tol�.

De Larantuca mandam-lhe em Agosto uma pequena frota com o capit�o-mor do mar Ambr�sio Dias e mais 150 mosqueteiros que, refor�ados com o gentio dos reis reconvertidos, fazem uma batida aos dois �nicos reis - o Vejale e o Servi�o - que se mantinham fi�is ao de Tol�.

Era a primeira opera��o militar dos portugueses com aliados Timores. Depois vieram de Larantuca mais 20 frades dominicanos e come�ou a valer a cristianiza��o do gentio. Os capit�es Francisco Fernandes e Ambr�sio Dias voltam com a sua gente a Larantuca, ficando na ilha o capit�o Mateus Fernandes com 50 mosqueteiros e Fr. Ant�nio de S. Jacinto, comiss�rio das cristandades de Timor, como primeira autoridade da ilha que, por instru��es recebidas de Goa, empreende a constru��o de um primeiro forte na ilha, de que ele pr�prio era o engenheiro, tendo escolhido a ba�a de Cup�o, no extremo ocidente, como o local de mais valor estrat�gico.

O fato levanta protestos dos mercadores de Larantuca e essa oposi��o empata a continua��o das obras. Neste momento, em Fevereiro de 1646, os holandeses voltar a ocupar pela terceira vez, a ilha de S�lor e a guarnecer o Forte Henricus, abandonado desde 1636. Um grande Tremor de terra na ilha, em 1648, deixa o forte muito avariado; e o major Verbeck, comandante da ilha, resolvido a procurar algures melhor estabelecimento, visita em Timor, a pretexto das tr�guas, o forte de Cup�o em constru��o.

Pouco depois, em 1649, � chamado a Goa o comiss�rio Fr. Ant�nio de S. Jacinto. A continua��o das obras do forte de Cup�o em Timor, fica a cargo do capit�o-mor Siqueira que, por desaven�as com os frades em Larantuca, volta a Timor. As obras continuam por�m empatadas. No ano seguinte (1651) os holandeses de S�lor � falsa f�, tendo peitado o rei de Amory e aproveitando-se dos desleixos do capit�o-mor Siqueira, assaltam e tomam sem um tiro o forte de Cup�o.

Assim os holandeses se instalavam para sempre em Timor, na ponta ocidental da ilha, pelo desleixo de um capit�o-mor portugu�s e com a cumplicidade de um rei ind�gena de Amory, que prometera trazer aos holandeses a cabe�a do capit�o Mateus Fernandes, comandante da pequena for�a de mosqueteiros larantuquenses que tinham ficado na pra�a.

Uma pequena guerra de guerrilha se acendeu logo na ilha, entre holandeses e portugueses. O novo forte, cuja constru��o os holandeses acabaram em 1653, foi ent�o por eles devidamente artilhado e guarnecido, com novos refor�os enviados de Bat�via. E desde ent�o, entre os holandeses em Cup�o, com os reis seus aliados e os portugueses a monte, com alguns reis fi�is, n�o houve mais ataques de parte a parte, por nenhum dos advers�rios se considerar com for�a bastante para expulsar ou aniquilar o outro.

Mutuamente se respeitavam. Cada qual ia captando o mais que podia dos reis ind�genas - os frades e os capit�es portugueses, na parte oriental da ilha, na regi�o dos Belos e da rainha Mena, sem que tivessem ainda um fortaleza sua, como os holandeses tinha j� a de Cup�o, base de a��o militar e pol�tica. Estava tra�ado o futuro da ilha.

De 1653 a 1660 continuou entre portugueses e holandeses essa guerra fria, de ast�cias, para captar, chamar � sua bandeira, o mais poss�vel de r�gulos timorenses.

Em 1660 um armada de 26 velas surge em Timor, onde havia entendimentos dos holandeses com r�gulos suspeitos. Descoberta por�m a tempo a trai��o, os holandeses n�o puderam por�m operar o desembarque e a frota afastou.

No ano seguinte, 1661, o Governo de Reg�ncia em Portugal entra em ajuste com a pr�pria Companhia das �ndias, fixando mais seguras bases da ocupa��o das tr�s ilhas.

A Companhia, por esse acordo europeu, reconhece � Coroa portuguesa o direito a S�lor e a Timor, reservando-se a posse de Cup�o e de Laboiana. Os holandeses abandonam S�lor e toda a parte oriental de Timor. A ilha de Flores continuava na posse de Portugal.

Em 1662 resolvem ent�o os frades e o capit�o-mor escolher um reino aliado, cristianizado, sobre o mar, para sede da soberania portuguesa. Fixado o local - Lif�o - de clima salubre e excelente posi��o facilmente defens�vel, para l� se deslocam os raros portugueses que habitavam Timor e alguns de Larantuca. Levantou-se uma fortaleza, que se artilhou com material vindo de Larantuca. E pela sua import�ncia militar assim se fundava a primeira capital da parte portuguesa da ilha.

Desde ent�o, pacientemente, os frades dominicanos internaram-se pela regi�o dos Belos, na zona oriental da ilha, evangelizando, chamando o gentio, pelo palavra e pelo exemplo, � sujei��o portuguesa, representada na fortaleza pelo capit�o-mor da ilha.

No fundo, por�m, eram os frades, mais que o capit�o-mor institu�do em 1585, que exerciam verdadeira autoridade. Assim se foi vivendo at� fins do s�c. XVII, num partilha de autoridade e governa��o que se tornava por vezes, muito critica. Finalmente, em 1701, pela soma de conflitos acumulados nesse regime de confus�o jurisdicional, resolveu-se D. Jo�o V a separar inteiramente os dois poderes, civil e eclesi�stico, criando o cargo de Governador de Timor e S�lor, com atribui��es expressas de autoridade suprema, delegada da Coroa. E para seu primeiro governador nomeou por carta-patente o general A, Coelho Guerreiro.

Em Janeiro de 1702 partia de Macau para Larantuca, a assumir o novo governo da Prov�ncia, dependente de Goa, o general A, Coelho Guerreiro. A tal grau de relaxamento e anarquia haviam ent�o chegado aqueles remotos dom�nios da Cora que o desembarque desse primeiro governador teve de ser for�ada a tiros de canh�o. Esperava-o em Timor declarada rebeldia, com milhares de nativos armados, na praia, por conta do Topasi D. Domingos, que mandara entretanto amea�as terr�veis aos reis ind�genas, aos oficiais militares, aos pr�prios frades, se pactuassem com o governador. De nada valeram a media��o conciliat�ria de um dos dominicanos mais respeitados da ilha e as promessas de clem�ncia do governador, a bordo, para que lhe fosse consentido o desembarque. Foi debaixo de fogo que o governador por fim desembarcou numa praia afastada de Lif�o, onde teve de se fortificar, para conquistar depois, palmo a palmo o seu governo.

O governo de Coelho Guerreiro estava condenado a ser, como foi, de curta dura��o. Mas no seu governo se radicou na ilha a autoridade da Coroa, se iniciou a norma de se aliarem os r�gulos a essa autoridade r�gia, em p� de igualdade, sem supremacia de uns sobre outros, como anteriormente no regime dos frades acontecia; e ent�o se conferiu a primeira patente militar a um r�gulo - o rei de Ocussi, feito tenente-general - o que era o melhor m�todo de o prender aos interesses da soberania.

Nessa ordem de id�ias procederam depois, com �xito, os seus sucessores Mesquita Pimentel, D. Manuel Soto Maior, Faria de Almeida, J. de Morais Sarmento.

N�o cessavam, por�m, os embara�os de governo, at� pela permanente amea�a de uma pot�ncia rival a flanco, na inconceb�vel partilha de territ�rio a que o governo da Metr�pole anu�ra, pelo acordo de 1661.

A Companhia holandesa que em Cup�o se fixara no �nico prop�sito de, mais tarde ou mais cedo, expulsar os portugueses de Timor, n�o respeitava a f� dos tratados, fomentando rebeli�es em territ�rio portugu�s. Foi o que sucedeu com o levantamento de Camenasse, adiado em 1719, mas que em 1722 eclodiu, com o assalto � trai��o a um arraial portugu�s, logo seguido da chacina de dois pac�ficos padres e da rebeli�o aberta de mais de 12 r�gulos, que muito custaram a dominar em Colaico, s� em 1726. O castigo n�o apaziguava os timores, a�ulados por agentes holandeses. Era permanente nos matos a inquieta��o, agravada pela fome que, por vezes em virtude das secas, flagelavam as popula��es. E os governantes sucediam-se sem conseguirem estabelecer um simulacro sequer de normalidade administrativa.

Assim se ia passando o tempo a sufocar cont�nuas e obscuras subleva��es, at� que em 1751 novas amea�as sobrevieram do exterior. Pouco depois do desembarque de um novo governador, Figueiredo Sarmento, os holandeses de Cup�o fizeram vir das ilhas pr�ximas cerca de 4.000 soldados para assaltarem Lif�o, a pretexto de serem os portugueses que fomentavam guerras nos reinos de territ�rio holand�s. A amea�a desvaneceu-se pela atitude firme de alguns reis fi�is aos portugueses, mas atitude dos holandeses continuava provocante e embusteira.

Em 1765 nova amea�a, mais s�ria, se ergueu contra a soberania portuguesa, por uma conjura interna de elementos mesti�os, considerados leais. A conjura e o ataque � pra�a abortaram, pela prematura morte do governador Dion�sio Rebelo, (que entrava no programa) dias antes do fixado para a eclos�o do movimento. Dois dos traidores foram executados. Mas por falta de socorros militares de Goa ou de Macau, a agita��o e a amea�a persistiram e a situa��o na pra�a tornara-se t�o desesperada que alguns dos membros do governo interino, sucessor do assassinado, pensaram em abandonar a pra�a e tomar o primeiro navio que passasse. Os cabecilhas Hornay e Costa continuavam rebelados, cometendo toda a sorte de atentados e cortando as comunica��es de Lif�o com o exterior.

O novo governador Teles de Menezes viu apenas como rem�dio, para salvar o prest�gio da soberania, transferir a capital e o governo da col�nia para outro local, a enseada de Dili.

Num navio mercante que providencialmente ali arribara, meteu a bordo toda a artilharia dos baluartes, muni��es, armas, e embarcou com a sua gente leal, indo aportar a Dili, para onde transferiu ent�o a capital (Outubro de 1769).

As receitas p�blicas da incipiente e intranq�ila Prov�ncia eram irris�rias. Pouco ou nada podiam os governadores empreender, a tal dist�ncia de Goa e da Metr�pole, e sem recursos que de nenhum governo lhes mandavam, nem da alf�ndega local podiam levantar. Eram, sobretudo, esta car�ncia de recursos e os expedientes a que tinham de recorrer os governadores, para acudirem aos encargos do Estado, o que ia desacreditando, desprestigiando e sucessivamente inutilizando os melhores que a Coroa podia nomear para Timor - Nogueira Lisboa, em 1787. Morais Sarmento, em 1790.

Desde os governos de Cunha Gusm�o (1812) e do coronel Alcoforado e Sousa (1814-1819) o poder temporal das Miss�es em Timor come�ou a decair e a ser coarctado pela fei��o militar que vinha assumindo a a��o dos governadores, com a categoria de capit�es-generais. Foi tamb�m por esse tempo que a ilha de S�lor, por muito tempo praticamente abandonada, voltou a ocupa��o efetiva, pelo expresso desejo da sua rainha ind�gena que confessava considerar-se desde sempre vassala dos Reis de Portugal. As agita��es ind�genas no entanto n�o cessavam em Timor. N�o tardaram a surgir novos conflitos com os holandeses que usurparam Atapupo, na costa, j� zona portuguesa. O governador apelou em v�o para o Governo-Geral das �ndias Holandesas, e por fim para o Vice-rei de Goa, que logo organizou um destacamento de refor�o. Mas do Rio de Janeiro, o monarca, j� D. Jo�o VI, mandava cancelar o assunto e o ultraje � soberania ficou por vingar.

Em Timor, com tal insufici�ncia de meios militares e financeiros, o segredo da ocupa��o e manuten��o da paz interna estava na pol�tica adotada de se atra�rem os chefes gent�licos aos interesses da soberania e administra��o da Col�nia, conferindo-lhes honras e patentes militares, dignificando-os, integrando-os na unidade nacional. Mas perante os atentados de pot�ncias estrangeiras, sentiam-se os governadores impotentes, pela impossibilidade de de responderem pelos mesmo meios. Por manifesta incapacidade do decadente Estado da �ndia para continuar a manter a velha pros�pia de gerir, por delega��o da Metr�pole, os neg�cios das possess�es menores do Oriente.

Em 1844, no interesse de Macau, destacadas Macau e Timor do Governo da �ndia, constituindo uma nova Prov�ncia Ultramarina, com a capital em Macau e o distrito de Timor - arquip�lago de Timor, S�lor e Flores, dependente do governo dessa Col�nia da China. Restava pois a via diplom�tica para resolver esses repetidos e irritantes incidentes com a Holanda, todos resultantes de um v�cio de origem - a falta nos arquivos nacionais de documento escrito do Acordo de 1661 com a Companhia das �ndias Orientais, sobre o reconhecimento da soberania portuguesa e dos respectivos limites territoriais nos estabelecimentos desde sempre ocupados pela Coroa. Em 1844 abriram-se negocia��es nesse sentido com agentes holandeses, em Timor. Governava a Prov�ncia o coronel Juli�oVieira que in loco, resolveu satisfatoriamente a quest�o da linha separat�ria. Terminou por um acordo de status quo, aprovado pelo governo da Metr�pole, que considerava "portugueses todos os territ�rios que � data tivessem arvorada a bandeira portuguesa e holandeses os que arvorassem a holandesa".

problema n�o ficava por�m sanado, dadas as inten��es reservadas da Holanda sobre outros mais vastos territ�rios. Do conflito geravam-se novas negocia��es. Um enviado do Governador das �ndias Neerlandesas apresentou-se em Mar�o de 1848 ao governador Vieira, que n�o estava autorizado a discutir o assunto. E o governador de Timor nomeou arbitrariamente um comiss�o de estudo, para sobre as suas conclus�es se pronunciar. A Holanda aceitava os fatos consumados, n�o disputando a Portugal os reis da ilha de Timor que � data ocupava, e sobre essa base se abririam negocia��es, dando por assente que a Holanda era soberana de direito em toda a ilha de Timor e arquip�lago de S�lor. N�o fechou o governador Vieira in continenti toda e qualquer conversa mais nessa equ�voca base. Lavrou um en�rgico protesto, apenso �s atas, mas deixou aberta a porta a novas discuss�es na inaceit�vel base da vers�o holandesa. E n�o tardou, com efeito, a Holanda (1850) em insistir por novas negocia��es, n�o j� s� apenas sobre os limites de Timor, mas tamb�m - o que era mat�ria nova e mais grave - sobre os direitos de soberania holandesa ao arquip�lago de S�lor e Flores.

O governo de ent�o, com S� de Bandeira, intemerato defensor do Ultramar, tomou a peito o assunto, come�ando por fazer das possess�es na Oceania (Timor, S�lor e Flores) destacadas de Macau, uma nova Prov�ncia Ultramarina, e nomeando um comiss�rio r�gio com latos poderes para negociar com os holandeses em Bat�via(Java) a melindrosa quest�o, ad referendum do governo de Lisboa. O comiss�rio r�gio Lopes de Lima, chegou a Dili em Junho de 1851 sob o pesadelo de acudir � Fazenda da Prov�ncia, com dinheiro urgente que sabia n�o poder vir-lhe da Metr�pole. Nesse estado de esp�rito entrou em negocia��es; e os holandeses n�o deixaram de tirar do fato o melhor partido. Ao cabo de laboriosas sess�es, de que o negociador sa�a sempre vencido, acordou-se num projeto do Tratado, em que se fixavam os limites das duas possess�es em Timor, com os enclaves mais tarde remodelados, e pelo qual Portugal cedia � Holanda a ilha das Flores e desistia das pretens�es sobre S�lor por 200.000 florins, pag�veis de 3 presta��es. Arrancadas assim, de fato, S�lor e Flores � Prov�ncia Ultramarina de Timor, o governo da Col�nia volta a ser anexado, como distrito destacado, � Prov�ncia de Macau.

Mas em 1856, por insufici�ncia financeira, o Distrito de Timor volta ainda a ficar na depend�ncia do governo do Estado da �ndia, para voltar mais uma vez, em 1857, a ser anexado como distrito � Prov�ncia de Macau. A 20/04/1860 assinava-se o infeliz Tratado de 1851, com ligeiras modifica��es, ratificado em 18/08/1860, do mesmo ano. � data da assinatura do Tratado de 1860, Timor era de fato, uma ru�na. No territ�rio mandavam os reis (dat�s) que n�o reconheciam as vantagens da administra��o portuguesa.

A falta de guarni��o militar e de meios financeiros atavam as m�os aos governadores. Os r�gulos. Praticamente independentes em seu sucos, era falsos agentes da administra��o, por cobrarem os impostos em seu proveito e exercerem por sua conta a sua b�rbara justi�a. Rebelavam-se contra o Governo, logo que lhes era pedida gente para trabalhar; faziam incessantemente guerra uns aos outros; eram afinal os verdadeiros soberanos.

O novo governador, Afonso de Castro, foi quem intentou trabalhos de H�rcules e alguma coisa de �til, com certo apoio financeiro da Metr�pole. Come�ou por uma expedi��o punitiva ao reino da Hera. Depois, com o aux�lio de alguns reinos submissos e aliados, empreendeu opera��es de maior vulto. Esses �xitos determinaram a submiss�o espont�nea de outros reinos e um come�o de administra��o mais regular. O d�ficit diminu�a, sem que a situa��o pudesse considerar-se boa. O seu sucessor, Pereira de Almeida, viu-se tamb�m for�ado a novas opera��es contra Dabolo e contra Fotumasse. As receitas iam aumentando. Come�a a desanuviar-se o horizonte.

Por decreto de Setembro de 1865, a pra�a de Dili era elevada � categoria de cidade e punha-se em execu��o o de 07/11/1863 que constitu�a a possess�o de Timor e Prov�ncia Ultramarina, como governo aut�nomo.

No ano seguinte (1866), por car�ncia financeira, Timor regressava � condi��o de Distrito dependente do Governo da Prov�ncia de Macau. Tratou-se ent�o a s�rio do rearmamento de Timor, recorrendo-se a auxilio substancial de Macau, que enviou dois destacamentos; e recome�aram as campanhas - a de Maubara em 1878 e a de Laleia em 1879. Mas era dif�cil de Macau governar Timor. A governa��o de Timor continuava assim claudicante e cortada de incidentes tr�gicos, como foi o assassinato do governador Lacerda e Maia (1886) por um conluio de moradores de Dili, que se revoltara contra a en�rgica a��o disciplinadora do governador. A anarquia tornara-se end�mica na pr�pria capital - Dili. A insurrei��o dos povos ind�genas n�o cessava. Por toda a parte rebentavam rebeli�es. De Macau, apesar das boas disposi��es do governo da Prov�ncia, pouco se podia esperar como aux�lio. Em tal clima n�o era poss�vel prosseguir no vigoroso impulso que � administra��o e ao fomento econ�mico (cultura do caf�, prospecc�es mineiras de petr�leo, etc.) viera dar a en�rgica e inteligente governa��o do governador assassinado. O problema cruciante continuava a ser a constante insurrei��o ind�gena, em entendimentos poss�veis com agentes holandeses de Cup�o. � sua repress�o imprimiu ent�o maior energia o novo governador, Ant�nio da Costa. As opera��es, logo iniciadas, assinalaram-se por v�rios desastres, chacinas de europeus, de timores amigos, destacamentos perdidos. Apesar dos castigos infligidos n�o se chegava a resultados positivos. Eram opera��es dispersivas, descoordenadas, sempre muito caras em vidas e dinheiro. Impunha-se uma a��o militar de maior envergadura. Estava essa miss�o reservada ao novo governador, tenente-coronel Celestino da Silva, que em 1894 desembarcara em Dili .

A primeira a��o de Celestino foi contra o comerciantes chinas, evitando que se internassem pelos matos. As campanhas sucederam-se, desenvolvidas umas das outras - em Agosto, a do Manufai, a seguinte, em Mar�o, a feroc�ssima campanha contra os povos do Leste que terminou por uma decisiva vit�ria; a seguir foi a guerra do Deribate, com que se terminava a campanha de 1896 e toda essa cruenta guerra de dois anos. Como conseq��ncia imediata, em pr�mio, a possess�o era definitivamente separada de Macau e constitu�da em Distrito aut�nomo (1897).

S� ent�o o prestigioso governador (1894-1908) p�de votar-se �s tarefas pac�ficas e fecundas da administra��o, reorganizando administrativamente o distrito, fomentando a coloniza��o agr�cola, chamando o ind�gena, pelo ensino e pela influ�ncia mission�ria, � civiliza��o, elevando, em suma por todos os meios, a insubmissa Timor, de t�o sombrias tradi��es, ao n�vel de col�nia moderna. O novo governador Eduardo Marques vinha encontrar pol�tica de economia e de obras p�blicas.

Em 1910, j� sob o governo de Soveral Martins, renascem inquietantes sintomas em certos povos a Oeste. O vizinho holand�s aproveitava-se do abalo produzido na Prov�ncia pela mudan�a de regime e de bandeira, para promover novas agita��es ind�genas. E de fato, foi j� no governo de Filomeno da C�mara (Dezembro de 1911) que se declarou a rebeli�o armada, forcando a novas campanhas, e ao inevit�vel adiamento do programa de fomento. A campanha, demorada e dura (1912-1913), rematou brilhantemente com a submiss�o dos povos levantados. O governador podia j� continuar a obra de Celestino da Silva, com uma administra��o sensata e fecunda, por ter preparado a long�nqua possess�o para todos os sobressaltos e conting�ncias da Grande Guerra de 1914.

De 1914 a 1918 viveu a Prov�ncia em constante sobressalto, pela manifesta simpatia da Holanda pelos Imp�rios Centrais e pela tens�o de rela��es entre a Holanda e a Inglaterra que em 1917 chegou quase ao casus belli no Oriente.

A posi��o pol�tica de Timor n�o podia ser mais delicada, dada a participa��o que a Metr�pole tomara no conflito mundial. E n�o se pode prever que conseq��ncias adviriam do fato de a Primeira Grande Guerra Mundial ter vindo encontrar Timor ainda em plena insurrei��o.

Mas a paz chegou em 1918, sem que a Prov�ncia tivesse sofrido mais que a permanente inquieta��o. Desde ent�o n�o deu mais cuidados de maior � Metr�pole, em mat�ria de pacifica��o e administra��o.

As reformas de 1933 em nada lhe alteraram a estrutura administrativa e a rotina dos servi�os. E foi necess�rio que uma Segunda Grande Guerra Mundial, mais brutal e devastadora, viesse fazer tamb�m do Pac�fico e do Extremo Oriente um tremendo e feroz campo de batalha, para que a fat�dica terra de Timor se tornasse novamente um pesadelo para a Metr�pole.

Declarada oficialmente, logo no come�o do conflito, em Setembro de 1939, a neutralidade de Portugal, a sua long�nqua possess�o de Timor viveu relativamente em paz os dois anos que se seguiram, mas uma paz j� sobressaltada pela p�rfida pol�tica externa do Jap�o que n�o ocultava ali�s, as suas ambi��es e afinidades com as Pot�ncias do Eixo. Mais fazia avolumar suspeitas e receios ao governo local a capciosa infiltra��o de pretensos comerciantes, industriais e t�cnicos japoneses que, desde 1936, a pretexto de neg�cios e coloca��o de capitais aportavam continuamente a Dili, percorriam a ilha e, por fim conseguiram que o governo de T�quio requeresse a instala��o de uma carreira a�rea que ligasse diretamente Dili com a capital nip�nica.

Sem fundamentos s�rios para recusar, o governo portugu�s ao mesmo tempo que autorizava aos japoneses alguns v�os de ensaio e reconhecimento, consentia tamb�m, para contrabalan�ar a exig�ncia, que os avi�es de uma companhia australiana fizessem escala por Dili, numa carreira Austr�lia-Singapura, e que um avi�o fretado, com as cores portuguesas, estabelecesse liga��o de Dili com os avi�es holandeses da carreira Austr�lia-Jap�o que tocavam em Cup�o.

Muitos foram os irritantes incidentes suscitados por esta surda competi��o das avia��es comerciais da Austr�lia e do Jap�o e pelas atividades e pretens�es cada vez mais suspeitas de agentes comerciais japoneses que � boca pequena se dizia serem oficiais do ex�rcito. A situa��o por�m, agravou-se subitamente com o inesperado ataque de surpresa e � falsa f� da avia��o japonesa � base naval americana do Porto das P�rolas (Peor Harbor), a 7/12/1941. A partir de ent�o n�o mais houve sossego no Timor portugu�s. Dois barcos japoneses que deviam chegar a Dili com aparelhagem v�rias foram logo afundados, dias depois, por avi�es militares australianos.

A guerra que ardia j� por todo o Pac�fico, at� Singapura, come�ava a rondar Timor. Dez dias depois do rompimento de hostilidades do Jap�o com a Am�rica, Austr�lia, Holanda, China e Filipinas, o Comando Aliado, por uma s�rie de equ�vocos ainda mal averiguados, enviava de Cup�o, sede do Timor holand�s, � ba�a de Dili um cruzador, tr�s avi�es e um transporte de tropas holandesas e australianas, sob o comando de um tenente-coronel holand�s que, de acordo com pr�vias negocia��es entre os respectivos governos, dizia trazer ordem para efetuar o desembarque das suas tropas e tomar posi��es em Dili e no seu campo de avia��o.

O governador, sem instru��es de Lisboa nem for�a bastante para resistir, mesmo simbolicamente convocou um conselho de oficiais que, perante a critica situa��o criada, foi de parecer un�nime que se consentisse o desembarque. O corpo expedicion�rio aliado, de cerca de 1.600 homens - 1.280 holandeses e indon�sios e 380 australianos - desembarcou, aquartelou-se e tomou as suas posi��es no aer�dromo e nas montanhas vizinhas de Dili.

c�nsul e os outros japoneses foram logo reduzidos � situa��o de prisioneiros; o governador portugu�s constituiu-se tamb�m, por si pr�prio, prisioneiro na sua resid�ncia, ordenando a todas as autoridades e reparti��es a mais estrita neutralidade e absten��o de qualquer ato de hostilidade ou colabora��o.

Come�ava praticamente o longo calv�rio de tr�s anos e meio. A ex�gua guarni��o militar portuguesa - uma companhia ind�gena - foi destacada para Aileu; as fam�lias dos militares e funcion�rios dispersaram-se pelo interior; e uma relativa calma, sem incidentes de maior com essas cordatas e corretas tropas de ocupa��o, se seguiu durante cerca de sete semanas. Pouco durou essa inquieta situa��o de expectativa.

A 08/11/1942 dava-se o primeiro ataque da avia��o japonesa �s posi��es holandesas em Dili. Mas como a todo o momento eram esperadas de Mo�ambique tropas portuguesas, num total de 600 homens, para renderem as tropas estrangeiras, confiava-se em que a situa��o se esclarecesse muito em breve.

A 19 de Fevereiro, por�m, precedido de um furioso bombardeamento da sua avia��o, os japoneses operavam por seu turno um desembarque em for�a a 7 km. de Dili. Os breves assaltos que se lhes seguiram �s fr�geis posi��es aliadas, em poucas horas, em coroados de �xito e ao fim do dia a ocupa��o militar japonesa era um fato irremedi�vel.

A partir dessa data e at� Agosto de 1945, toda a ilha de Timor, sob a brutal ocupa��o nip�nica , era teatro das consabidas atrocidades da soldadesca japonesa que, ao que parece, chegou a atingir cerca de 40.000 homens.

Os sobreviventes australianos e holandeses, internando-se nas montanhas que constituem a espinha dorsal da ilha, passaram ent�o a uma encarni�ada e intr�pida luta de guerrilhas, auxiliados pelas popula��es gent�licas, que se mantiveram fi�is a Portugal e a que se juntaram muitos civis portugueses.

N�o foi, infelizmente, geral essa atitude da popula��o nativa, mormente a da fronteira e da Maubisse. V�rios r�gulos, aliciados pela intensa propaganda nip�nica, rebelaram-se logo contra o dom�nio portugu�s, fato de que o comando japon�s tirou todo o partido, incitando e armando a organiza��o de colunas negras que preparavam os assaltos �s povoa��es fi�is ou onde quer que se suspeitasse de n�cleos de resist�ncias anti - nip�nica.

Em Dili, onde o governador procurava manter um simulacro de funcionamento de servi�os administrativos, a coberto da declarada neutralidade, come�aram em meados do ano os raids da avia��o australiana, j� bombardeando a cidade, j� reabastecendo por p�ra-quedas as guerrilhas nas montanhas.

Resolveu ent�o o governador transferir-se, com todos os servi�os e funcionalismo para o interior (S. Domingos) ainda ent�o afastado do teatro da guerra. O comando japon�s, por�m, op�s-se brutalmente, reduzindo-o praticamente � condi��o de prisioneiro na sua resid�ncia. Perante a funda turba��o causada pelas popula��es rebeladas, as autoridades portuguesas, invocando a atitude de neutralidade de Portugal, conseguiram do comando japon�s autoriza��o para que tr�s colunas portuguesas fossem sufocar essas rebeli�es, mas cedo se desmascarava a hipocrisia japonesa, pelo ataque noturno de um coluna negra, em fins de setembro, ao aquartelamento da Companhia ind�gena em Aileu, onde perderam a vida onze oficiais e funcion�rios portugueses.

Como os australianos n�o afrouxassem na sua luta de guerrilhas, causando graves danos aos japoneses, em Outubro foi proposto ao governador pelo comando japon�s a cria��o de uma zona neutral em Liqui�a, onde n�o se realizariam opera��es militares, a fim de que todos os portugueses neutrais se pudessem ali refugiar com suas fam�lias, ao abrigo dos ind�genas rebeldes e das conting�ncias da luta dos japoneses contra os australianos.

As guerrilhas australianas, por�m, � que n�o se consideraram obrigadas a respeitar essa zona neutral, e, por seu turno, ofereceram prote��o e aux�lio aos portugueses que quisessem refugiar-se na Austr�lia, embarcando em praias da costa Sul, onde iriam busc�-los navios australianos ou aliados.

De fato, desde fins de Novembro at� princ�pios de Fevereiro de 1943, navios de guerra australianos vieram ao porto de Alas buscar os portugueses e suas fam�lias que preferiram o ref�gio da Austr�lia ao campo de concentra��o de Liqui�a.

Pouco depois, chegava aos resistentes portugueses a not�cia de que o comando Aliado na Austr�lia desistira de um projetado desembarque em for�a, por tropas aliadas, para a liberta��o de Timor.

Uma poderosa ofensiva nip�nica na Nova Guin� impunha o emprego de todas as for�as dispon�veis do Norte da Austr�lia. A miss�o militar e as guerrilhas australianas em Timor deviam tamb�m retirar. E assim aconteceu.

Os �ltimos australianos e holandeses abandonaram a possess�o portuguesa. A essa data (princ�pios de 1943) j� as for�as japonesas tinham ocupado toda a ilha, e � ent�o que se registra o admir�vel ato de lealismo do chefe ind�gena D. Aleixo, Nai-Sesso, r�gulo de Suro, que nas montanhas de Suro-Lau, cercado com o seus s�ditos, por mais de 15.000 homens, de tropas japonesas e nativos das colunas negras, resistiu durante semanas a todas as intima��es, at� que a resist�ncia foi esmagada e, aprisionado, o velho r�gulo reuniu os filhos e, dando um viva a Portugal, preferiu cair varado de balas e de golpes de catana, a submeter-se ao invasor nip�nico.

Em Agosto conseguiu evadir-se para a Austr�lia um �ltimo grupo de portugueses que pretendiam treinar-se nos m�todos de ataques dos famosos "comandos" para voltarem um dia a Timor, com tropas aliadas ou portuguesas para restaurarem a soberania.

Foi s� em princ�pios de 1944 que puderam come�ar a ser enviados da Austr�lia a Timor, em arriscadas miss�es de reconhecimento, e os primeiros "comandos" australianos, de que participavam j� volunt�rios portugueses convenientemente adestrados.

Eram miss�es arriscadas de que poucos conseguiam voltar. Cientes desses atos de aud�cia, os japoneses guarneceram ent�o toda a Costa Sul, com in�meros postos de observa��o e rondas constantes, servidos por tropa regular e rebeldes ind�genas. Assim a situa��o de Timor se manteve ainda mais onze meses at� que em Agosto de 1945 as bombas at�micas de Hiroshima e Nagasaqui for�aram o Jap�o � suspens�o de hostilidades e rendi��o incondicional aos Americanos.

A 11 de Setembro o brigadeiro australiano Dyke recebia a bordo de um navio de guerra, na ba�a de Cup�o, a rendi��o do general japon�s comandante das tropas de ocupa��o de Timor. Na manh� de 22, Dili era libertada, com o seu governador e todas as autoridades sobreviventes, de uma ocupa��o japonesa de mais de tr�s anos e meio.

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E DEPOIS (*)

Quando os aliados ocidentais declaram guerra contra o Jap�o, decidiram usar a ilha de Timor como linha de defesa contra o avan�o japon�s em dire��o ao sul ( apesar dos protestos de Portugal, que era neutro ). Em meados de dezembro de 1941, apenas dez dias depois do ataque a Pearl Harbor, aproximadamente 400 soldados das �ndias Ocidentais Holandesas e da Austr�lia chegaram � parte ocidental de Dili.

Dois meses mais tarde, o Jap�o atacou a ilha e rapidamente expulsou os holandeses da metade ocidental. Em Timor Leste, algumas centenas de comandos australianos e alguns timorenses conseguiram encurralar uns vinte mil soldados japoneses durante quase um ano. Mas em janeiro de 1943 o Jap�o controlava toda a ilha.

A ocupa��o japonesa foi uma das �pocas mais sombrias da hist�ria de Timor Leste ( s� ultrapassada em crueldade e devasta��o pelos indon�sios ). Eis como Iwamura Shouachi, que comandou um pelot�o japon�s em Timor Leste durante mais de dois anos, descreveu os sofrimentos impostos pelos militares japoneses:

"� doloroso falar hoje dos sacrif�cios e fardos que impusemos ao povo do Timor Leste... Ordenamos a chefes que mobilizassem pessoas em massa para a constru��o de estradas...para trabalharem sem receber comida ou compensa��o.

Devido � escassez de alimentos, pessoas morriam de fome todos os dias. A comida para os soldados japoneses e cavalos para transportar muni��o eram confiscados do povo e alguns soldados da tropa sob meu comando estupraram mulheres timorenses."

Se os australianos e aliados tivessem deixado a ilha em paz, � bem poss�vel que os japoneses tivessem ignorado Timor, ou no m�ximo mandado um contingente simb�lico de soldados. Em vez disto, uns 60 mil timorenses orientais perderam suas vidas em conseq��ncia da brutal ocupa��o japonesa e dos bombardeios aliados que procuravam expuls�-los. A guerra danificou muito Dili e destrui parcialmente muitas das principais vilas e aldeias do territ�rio.

Com a derrota do Jap�o em agosto de 1945, Portugal voltou e reafirmou seu controle sobre Timor Leste, que gradualmente voltou ao estado anterior � guerra. Os portugueses come�aram a reconstruir a infra-estrutura colonial que tinha sido devastada, empregando muitas vezes os mesmos m�todos brutais de trabalhos for�ados que tinha usado antes da guerra.

Com exce��o de um revolta s�ria em 1959 ( que foi rapidamente sufocada ), as rela��es entre timorenses e portugueses continuaram bastante calmas - embora debaixo da superf�cie houvesse muito ressentimento fervendo. A Igreja Cat�lica, que tinha visto o n�mero de seus fi�is aumentar devido �s dolorosas experi�ncias da guerra, ajudou a diminuir as tens�es, encorajando o sentimento pr�-Portugal no culto e na educa��o.

Atrav�s de todo o sudeste asi�tico, a era do p�s-guerra estava marcada por grandes como��es pol�ticas, j� que os territ�rios colonizados buscavam a independ�ncia, enquanto os colonizadores voltavam e tentavam reafirmar seu controle. O povo das �ndias Ocidentais Holandesas declarou que a Indon�sia era um pa�s livre no dia 17 de agosto de 1945, enquanto ainda estavam sob a ocupa��o japonesa.

Quando os holandeses voltaram, recusaram-se a reconhecer esta declara��o de independ�ncia, travando brutal campanha militar para recuperar sua col�nia. Mas no final de 1949 a resist�ncia em massa do povo for�ou os holandeses a reconhecerem a independ�ncia da Indon�sia. O governo dos Estados Unidos pressionou a Holanda para que o fizesse, pois acreditava que uma Indon�sia est�vel e independente forneceria um melhor ambiente de neg�cios para o capital norte-americano do que uma col�nia rebelde, dilacerada pela guerra.

No pr�prio Timor Leste, o nacionalismo p�s-guerra veio mais devagar, mas chegou finalmente(...).

Certos elementos da Igreja Cat�lica desempenharam papel importante no desenvolvimento do pensamento nacionalista. Embora a maioria das escolas cat�licas estivessem orientadas para assuntos portugueses, os jesu�tas muitas vezes criticavam o colonialismo e as condi��es sociais. Em seu semin�rio nos arredores de Dili, onde muitos dos timorenses orientais que trabalhavam para a administra��o portuguesa tinham recebido sua educa��o, professores jesu�tas discutiam movimentos nacionalistas que estavam desabrochando e abordagens progressistas ao desenvolvimento do Terceiro Mundo, e promoviam um sentido de identidade timorense entre os estudantes.

Um jornal da Igreja, Seara, que estava livre das leis de censura, ensinava tetum a seus leitores e muitas vezes servia como animado f�rum de id�ias progressistas. Algumas das pessoas que contribu�am para ele, que tinha tido contato com movimentos africanos de liberta��o, come�aram a defender privadamente a independ�ncia de Timor Leste. As autoridades portuguesas for�aram o Seara a parar de ser publicado em 1973, mas nesta �poca dissidentes que tinha as mesmas id�ias j� estavam se reunindo clandestinamente em Dili.

Embora a grande maioria da popula��o ainda vivesse como tinham vivido durante s�culos, em vilarejos rurais, uma elite pequena, educada, j� tinha se desenvolvido pelos anos 70. Quando o imp�rio portugu�s finalmente come�ou a ruir, este grupo de estudantes, professores e at� administradores coloniais ajudou o pequeno Timor Leste a emergir de sua posi��o de relativo isolamento, penetrando no mundo turbulento da pol�tica internacional de poder.

(*) texto retido do Livro - TIMOR LESTE - Este Pa�s Quer Ser Livre, S�lvio L. Sant’Anna, Editora Martin Claret , S�o Paulo, SP

A LUTA PELA INDEPEND�NCIA (*)

No final de abril de 1974, grupo de oficiais militares esquerdistas, estacionados em Lisboa, capital de Portugal, derrubou o governo fascista do pa�s atrav�s de um golpe de estado, praticamente sem derramamento de sangue. Havia certo desacordo entre os oficiais ( que se chamavam Movimento das For�as Armadas, ou MFA) sobre o que fazer com as col�nias de Portugal. O chefe conservador do MFA era a favor daquilo que chamava de "autonomia progressiva... dentro de uma estrutura portuguesa", mas outros oficiais, muitos dos quais tinham voltado recentemente da luta contra movimentos de liberta��o nas col�nias africanas, defendiam "algum tipo de independ�ncia".

Em junho de 1974, Portugal tinha apresentado tr�s op��es poss�veis para Timor Leste: continuar associado a Portugal, tornar-se independente, ou se tornar parte da Indon�sia. Mas o governo portugu�s n�o empreendeu nenhuma a��o imediata em rela��o a qualquer dessas op��es.

No pr�prio Timor Leste, no entanto, a resposta ao golpe de estado n�o foi t�o lenta. Dentro de pouco mais de um m�s, tr�s partidos pol�ticos tinha sido formados: a UDT, a ASDT (que mais tarde se transformou na Fretilin) e a Apodeti.

O primeiro partido a ser fundado, a UDT (Uni�o Democr�tica Timorense), era de modo geral conservador e a favor de Portugal. No come�o defendia a continua��o da liga��o com Lisboa, mas com o aumento da oposi��o ao colonialismo passou a apoiar a id�ia de uma eventual independ�ncia total.

0 segundo partido, ASDT (Associa��o de Sociais Democratas Timorenses), advogava "as doutrinas universais do socialismo e da democracia". Totalmente comprometido com a independ�ncia desde o come�o, imaginava um per�odo de descoloniza��o de oito a dez anos, durante o qual Timor Leste teria a oportunidade de desenvolver as estruturas pol�ticas e econ�micas necess�rias para a independ�ncia.

A lideran�a tanto da UDT quanto da ASDT vinha em grande parte das classes m�dia e alta - timorenses que tinham estudado no col�gio dos jesu�tas em Soibada e no semin�rio nos arredores de Dili, e que eram administradores coloniais ou professores. Os cidad�os timorenses mais ricos tendiam a apoiar a UDT. Inclu�am oficiais administrativos mais graduados, l�deres nativos e importantes donos de planta��es. Um dos l�deres da UDT - na realidade, seu primeiro presidente - foi mais tarde nomeado governador de Timor Leste pelos indon�sios, cargo que ocupou de 1981 a 1992.

Um terceiro partido, Apodeti (Associa��o Popular Democr�tica Timorense) era a favor de uma "integra��o aut�noma" com a Indon�sia. (Seu nome original - Associa��o para Integra��o de Timor com a Indon�sia - foi logo mudado devido a rea��es p�blicas).

A Apodeti, que nunca teve mais de umas poucas centenas de membros, parece ter sido em grande parte um projeto do servi�o de intelig�ncia militar da Indon�sia. A �ltima coisa que a Indon�sia queria era mais um pa�s independente nas suas fronteiras, e estava empenhada em garantir que isto nunca acontecesse.

Tr�s homens que estavam cooperando com os militares indon�sios havia anos se tornaram os l�deres principais da Apodeti. E logo depois da funda��o da Apodeti, a Indon�sia come�ou a fornecer apoio financeiro a agentes de Timor Leste.

A UDT no come�o era o grupo maior e mais popular, mas logo come�ou a perder terreno para ASDT, que estava mais bem organizada e era mais inovadora. Quando o presidente interino do parlamento da Indon�sia disse que era favor�vel ao controle de Timor Leste pela Indon�sia, a ASDT mandou um enviado, Jos� Ramos-Horta, a Jacarta, onde ele recebeu garantias do ministro de Rela��es Exteriores da Indon�sia de que a Indon�sia defendia, sem d�vida, a autodetermina��o de Timor Leste.

Em seguida Ramos-Horta foi para a Austr�lia, mas o governo australiano n�o quis se encontrar com ele ou fazer qualquer declara��o oficial em favor da autodetermina��o de Timor Leste. Ele conseguiu, no entanto, o apoio de grupos de Igreja, sindicalistas, intelectuais e membros do parlamento.

Como seus membros - e a popula��o de Timor Leste em geral - estavam se tornando mais radicais, a ASDT mudou seu nome, em setembro de 1974, para Fretilin (Frente Revolucion�ria por um Timor Leste Independente) e exigiu de Portugal a independ�ncia imediata. Volunt�rios da Fretilin come�aram a sair de Dili, indo para as �reas rurais, ensinando os habitantes das aldeias a ler e escrever em tetum, estabelecendo cooperativas agr�colas, ajudando a organizar sindicatos e outros grupos, e promovendo a cultura local, incentivando a cria��o de poesias, cantos e dan�as nacionalistas. Gra�as a estas atividades, a Fretilin se tornou, no in�cio de 1975, o mais popular dos tr�s partidos.

Enquanto o presidente de Portugal dizia que a independ�ncia total de Timor Leste "n�o era realista", o novo governador de Timor Leste, que era do MFA, e oficiais locais do MFA queriam ajudar o pa�s a conquistar sua liberdade. Em dezembro de 1974, convidaram os tr�s partidos a aconselhar Lisboa sobre a maneira de descolonizar Timor Leste. A UDT e a Fretilin se uniram durante este processo e formaram uma coaliz�o. A Apodeti se recusou a participar, dizendo que s� reconhecia o governo indon�sio, e n�o o portugu�s.

Em maio de 1975, a UDT, a Fretilin e o MFA concordaram que um governo de transi��o seria estabelecido at� outubro e que elei��es para uma assembl�ia nacional constituinte seriam realizadas no outono de 1976. Mas a Indon�sia tinha outros planos. Em meados de 1974 tinha sido desenvolvida a Opera��o Komodo - assim chamada devido aos drag�es Komodo, lagartos gigantes que comem pessoas, e que vivem em outras ilhas da Indon�sia.

A Opera��o Komodo tinha o objetivo de fortalecer a Apodeti e enfraquecer a Fretilin, e obteve certo n�mero de sucessos diplom�ticos. Num encontro com o presidente da Indon�sia, Suharto, em setembro de 1974, o primeiro-ministro da Austr�lia, Gough Whitlam, declarou que um Timor Leste independente seria "invi�vel" e "uma amea�a em potencial para �rea". Ele apresentou seu apoio a uma uni�o volunt�ria entre Timor Leste e Indon�sia. Embora tenha acrescentado que a Austr�lia n�o aprovaria o uso da for�a em Timor Leste, seus coment�rios, de maneira geral, foram considerados por Jacarta como sendo muito favor�veis � sua posi��o.

Quando a Fretilin e UDT come�aram a trabalhar juntas, a Indon�sia incrementou a Opera��o Komodo. Em meados de fevereiro de 1975, os militares indon�sios (comumente chamados pela sigla ABRI) realizaram exerc�cios em Sumatra que simulavam um ataque por ar e mar a Timor Leste. Logo depois disto a Indon�sia come�ou a divulgar relat�rios falsos de um golpe planejado pela MFA e Fretilin, e uma suposta persegui��o a membros da Apodeti.

A opera��o Komodo, juntamente com a crescente popularidade da Fretilin, enfraqueceu a coaliz�o UDT-Fretilin. A Indon�sia conseguiu convencer os membros mais conservadores da UDT de que, se fosse permitida a perman�ncia de esquerdistas na coaliz�o, isto resultaria em isolamento internacional. No final de maio de 1975, a UDT se retirou formalmente da coaliz�o.

L�deres da UDT se encontram com representantes do governo indon�sio em Jacarta e se convenceram de que a Indon�sia n�o permitiria que Timor Leste se tornasse independente sob a Fretilin e provavelmente nem mesmo sob a UDT. Eles achavam que s� limpando o territ�rio da influ�ncia "comunista" poderiam ter alguma possibilidade de evitar uma invas�o da Indon�sia.

Finalmente, em meados de agosto de 1975, a Indon�sia passou � UDT not�cias falsas do servi�o secreto sobre uma iminente tomada do poder pela Fretilin, completadas com informa��es sobre carregamentos clandestinos de armas chineses e a entrada em Timor Leste de "terroristas vietnamitas" para ajudar a Fretilin. A UDT lan�ou um golpe, capturando rapidamente a esta��o de comunica��es e o aeroporto de Dili.

Mas a UDT subestimou muito a for�a da Fretilin, que conseguiu persuadir a maioria das unidades timorenses do ex�rcito portugu�s a ficar do seu lado. Logo a Fretilin controlava toda Dili e no final de setembro tinha expulsado 500 soldados da UDT e 2.500 refugiados (na maioria fam�lias de l�deres e soldados da UDT) para Timor Ocidental. A breve guerra civil tinha terminado.

A Indon�sia s� permitia que os refugiados entrassem em Timor Ocidental se assinassem uma peti��o em favor da integra��o de Timor Leste � Indon�sia. Conforme declarou um antigo l�der da UDT: "Era a �ltima coisa que quer�amos, mas com as for�as da Fretilin se aproximando e sem comida, realmente n�o t�nhamos outra alternativa a n�o ser concordar".

A Fretilin imediatamente come�ou a estabelecer um governo de fato para preencher o vazio deixado pelos portugueses, que tinham fugido durante a guerra civil. O antigo c�nsul da Austr�lia em Dili, James Dunn, assim descreveu a rea��o do povo:

"Esta estrutura administrativa tinha limita��es evidentes, mas gozava claramente de amplo apoio e coopera��o da popula��o, inclusive de muitas pessoas que antes apoiavam a UDT... Na realidade, os l�deres do partido vitorioso foram recebidos de bra�os abertos, espontaneamente, nos principais centros por multid�es de timorenses. Em minha longa associa��o com o territ�rio, nunca tinha presenciado tais demonstra��es de calor e apoio espont�neo por parte das pessoas comuns."

A fim de completar o processo de descoloniza��o, a Fretilin convocou um confer�ncia de paz entre eles, Portugal e Indon�sia, mas os cont�nuos adiamentos por parte de Portugal impediram que as conversa��es se realizassem. Enquanto isto, a ABRI ( for�as militares indon�sias ) estava realizando incurs�es atrav�s da fronteira, a partir de Timor Ocidental, para dar a impress�o de que a guerra civil continuava. ( A Indon�sia negou estas incurs�es, mas at� a CIA as confirmou ).

A ABRI logo capturou algumas cidades perto da fronteira entre Timor Leste e Timor Oeste. Sua campanha culminou num ataque de duas semanas por terra, ar e mar a uma cidade chamada Atabae, a apenas 56 quil�metros de Dili. Finalmente, a ABRI tomou Atabae no dia 28 de novembro de 1975.

Confrontada com uma invas�o iminente, global, a Fretilin declarou a independ�ncia da Rep�blica Democr�tica de Timor Leste nesse mesmo dia.

A Fretilin esperava que esta declara��o proporcionasse alguma prote��o internacional a Timor Leste, mas somente quatro antigas col�nias portuguesas da �frica, reconheceram o novo pa�s imediatamente. As na��es ocidentais, que sabiam tudo sobre os planos de invas�o da Indon�sia, permaneceram em sil�ncio, ( ou forneceram algumas colabora��o para esta invas�o).

(*) texto retirado do livro: TIMOR LESTE - Este Pa�s Que Ser Livre - Organiza��o S�lvio L. Sant’Anna, 1997, Editora Martin Claret, S�o Paulo, SP.

TERIA SIDO POSS�VEL DESCOLONIZAR TIMOR ?

M�RIO LEMOS PIRES (*)

(...) No caso de Timor, se existe alguma afinidade no aspecto geogr�fico e n�o tanto no campo �tnico, ling��stico e social, com a geografia permitiria sugerir, tamb�m existem quatrocentos anos de hist�ria diferente, que o fizeram divergir significativamente da Indon�sia. Mas a maior exig�ncia da ONU � que a integra��o resulte "do desejo livremente expresso pelas popula��es do territ�rio, devendo a consulta fazer-se segundo m�todos democr�ticos (...) e fundados sobre o sufr�gios universal dos adultos"(Princ�pio IX anexo � Resolu��o 1541-XV).

(...) Portugal e os portugueses que aderiram ao esp�rito do 25 de Abril encararam a descoloniza��o n�o como uma opera��o de aliena��o, mas sim, e principalmente como um ato de respeito pelo direito desses povos � autodetermina��o e mesmo � independ6encia, como acabou por ficar exarado na Lei 7/74, a Lei da Descoloniza��o. (...) A maioria dos portugueses em 1974/75 ambicionava que a descoloniza��o conferisse maior dignidade a esses povos, nossos irm�os na hist�ria que durante s�culos constru�mos juntos, ajudando-os agora a assumir em pleno o governo dos seus destinos, conforme fosse a sua vontade, e a definir nova forma de conv�vio no interesse m�tuo, garantindo, no m�nimo, liga��es culturais e de amizade em fraterna continuidade.

Mas, talvez ainda mais importante, era o fato de ser aberrante negociar a integra��o n�o s� � margem da opini�o dos timorenses, mas contra a sua vontade. E (...) at� hoje ainda n�o foi realizada consulta democr�tica ao povo de Timor Leste sobre a op��o de " Integra��o". (...)

(...)

Descolonizar n�o � deixar de colonizar, mas preparar o territ�rio e as suas gentes para a autodetermina��o. Visto pelo lado do descolonizado, � um longo processo de constru��o e reivindica��o, esta muitas vezes de mistura com sangue e l�grimas. (...)

(...)

(...)

A comunidade internacional, principalmente atrav�s das Na��es Unidas, constituiu-se em instrumento persistente da descoloniza��o, parecendo, pela l�gica, que no momento em que Portugal decidiu descolonizar pudesse usufruir do apoio correspondente � press�o que at� a� afrontara. Mas o interesse e o altru�smo manifestado pelas na��es para que se descolonizasse cessou no momento da decis�o descolonizadora; ent�o come�aram a canalizar-se novos interesses para o "bolo" agora mais liberto, enquanto outros se desinteressaram por alheamento ou porque priorit�rios alinhamentos a isso aconselhavam.

Timor fica longe da �frica, continente que vivia intensamente a descoloniza��o e que foi o objeto que desencadeou ent�o toda a pol�tica anticolonialista da ONU. Para muitos pa�ses eram (e s�o) pouco percept�veis as reais diferen�as culturais, sociais, religiosas e �tnicas que separam o Timor Leste, do Timor Indon�sio. A estabilidade na �rea, confrontada com a amea�a comunista veiculada � Fretilin ( e tamb�m ao Portugal Revolucion�rio), calaram as preocupa��es quanto aos princ�pios de autodetermina��o, que at� ent�o faziam mover as for�as diplom�ticas na ONU. (...)

A Indon�sia era, como certeza, o pa�s mais interessado na descoloniza��o de Timor. Talvez se possa mesmo dizer, sem grande risco de errar, que o governo indon�sio

por vezes se empenhou mais no processo de Timor do que o governo portugu�s e os partidos pol�ticos timorenses !

(...), governo indon�sio apoiou-se na mentira e agiu criminosamente.

Mentiu, sucessivamente, aos timorenses, a Portugal e � comunidade internacional porque ao mesmo tempo que proclamava aceitar a decis�o livre do povo de Timor, fazia continuada press�o ( e preparativos ) para a integra��o, nomeadamente sobre o poder pol�tico portugu�s, e montou uma m�quina de desestabiliza��o no territ�rio de Timor, procurando o caos e o descr�dito, plataformas justificativas do emprego do for�a como solu��o, quando tal fosse decidido. A mentira diplom�tica atingiu o seu auge nas conversa��es de Roma, em 1 e 2 de Novembro de 1975, entre os ministros dos Neg�cios Estrangeiros de Portugal e Indon�sia, em que repetiram"... a permanente fidelidade aos princ�pios da descoloniza��o de acordo com as resolu��es pertinentes da ONU... ", publicamente expresso no comunicado conjunto; s� que nessa data j� a Indon�sia iniciara a��es militares e se preparava intensamente para a invas�o que veio a concretizar quando os seus delegados participavam "inocentemente" no debate na ONU sobre Timor.

(...), obcecadamente o governo indon�sio decidiu pelo emprego da for�a contra o povo de Timor, sabendo que este n�o queria ser indon�sio.

(...)

(...)

No tempo que mediou entre 25 de Abril de 1974 e a invas�o de Timor pela Indon�sia, que suspendeu o processo de descoloniza��o daquele territ�rio, pouco mais de ano e meio, Portugal conheceu seis governos provis�rios, dois presidentes da Rep�blica, uma Junta de Salva��o Nacional, um Conselho da Revolu��o, uma Comiss�o Coordenadora do MFA, �rg�os pouco convergentes que, no seu conjunto foram constituindo o poder central. (...), este poder central, (...), manteve-se, nessa fase, prioritariamente empenhado na disputa pol�tica, for�ando ou contrariando os ventos revolucion�rios e descolonizando na �frica, onde rapidamente surgiram cinco novos Estados, provocando um �xodo de quase meio milh�o de portugueses de regresso ao territ�rio europeu.

Assim, o desinteresse e desconhecimento do processo de descoloniza��o de Timor, patenteado pelos �rg�os do poder central, pelos principais partidos pol�ticos, pela comunica��o social e pela popula��o portuguesa, s�o uma conseq��ncia direta de a sua aten��o estar absorvida por outros problemas, mas vem tamb�m, na continuidade hist�rica de pouca aten��o que sempre a administra��o de Timor mereceu ao poder central portugu�s. Exemplo significativo foi o fato de s� cerca de sete meses ap�s o 25 Abril ter sido nomeada uma equipe governativa para Timor, mantendo os timorenses e Timor numa situa��o de expectativa e facilitando a sua progressiva degrada��o.

(...). Quando Timor mais precisava de um poder forte e coeso em Lisboa, encontrou-se dependente de centros de decis�o inst�veis e saturados.

Alguma coisa se tem dito e escrito, insinuando ou mesmo acusando o poder pol�tico de Lisboa de ter planejado a entrega de Timor � esquerda marxista, � revelia da conjuntura regional; outros acusam pol�ticos de Lisboa de terem feito acordos de ced6encia a Indon�sia. Em minha opini�o, o poder pol�tico central nem sequer arquitetou qualquer pol�tica para Timor, caracterizando a sua sucessiva atua��o pela omiss�o e pelo pouco interesse. Embora alguns agentes da descoloniza��o tivessem eventualmente procedido como se houvesse plano de press�o ideol�gica, julgo que para tal n�o houve em Lisboa disponibilidade de tempo ou de aten��o por parte dos sucessivos pol�ticos respons�veis. A pr�pria Lei 7/75, a Lei da Descoloniza��o para Timor, assumida e patrocinada por Lisboa, teve a sua iniciativa no governo de Timor.

(...), Portugal cometeu o "pecado" de omiss�o de agir como era necess�rio e poss�vel no campo da diplomacia. Poderia ter desenvolvido uma intensa e persistente campanha que levasse, como teria sido prov�vel, a inibir as iniciativas b�licas, a moderar a a��o desestabilizadora da Indon�sia em Timor e a conseguir cativar a aten��o e posteriormente a interven��o dos pa�ses potencialmente influentes na �rea e na ONU. (...)

Outra falha do poder pol�tico central, grave pelas suas repercuss�es, foi a da decis�o de n�o enviar ( ou omiss�o de enviar ) refor�os militares para Timor, principalmente depois do golpe da UDT. Se o envio de for�as militares significativas era uma decis�o muito dif�cil, se n�o imposs�vel, face � conjuntura revolucion�ria, j� alguns meios e unidades especiais, como oportuna e insistentemente pedidos, n�o seria t�o dif�cil se houvesse vontade pol�tica, como ali�s de desenhou logo a seguir ao 25 de Novembro.

(...)

(...)

"A na��o que se prop�e descolonizar tem de se mobilizar para essa a��o... A na��o portuguesa, gasta pela guerra, n�o conseguiu mobilizar-se em pessoas, meio e mentalidade para esta nobre miss�o, n�o estando predisposta a aceitar os sacrif�cios a ela inerentes ". A descoloniza��o deveria ter come�ado muito antes e o 25 de Abril n�o pesou convenientemente o problema da descoloniza��o, acabando por, na �frica, torn�-lo pouco mais do que acordo de entrega.

(...)

A comunica��o social portuguesa n�o informou a tempo e, pior, desinformou e deformou, sendo, assim, em grande parte tamb�m respons�vel pelas aus�ncias de for�a e esclarecimento de que o processo tanto carecia.

Os partidos pol�ticos timorenses apareceram de inopinado como conseq��ncia do 25 de Abril, e n�o na seq��ncia de natural e progressiva pol�tica consciente do povo timorense. Mas estes ou outros eram necess�rios para um processo democr�tico de descoloniza��o. Querer exigir que estes partidos, assim nascidos, tivessem em 1974 um comportamento id�neo, adulto e politicamente esclarecido quanto aos fatores e perspectivas do processo de descoloniza��o � tentar ocultar a realidade da revolu��o portuguesa e do est�gio de desenvolvimento da sociedade timorense donde os partidos brotaram.

(...)

A UDT ter� de se penitenciar pelos erros de, primeiro, largar precipitadamente a id�ia da manuten��o de la�os com Portugal, que ainda calava fundo no cora��o timorense, segundo, por desferir o golpe de Agosto sem objetivos definidos e mais favorecendo a manobra indon�sia, e finalmente, em terceiro lugar e mais grave, quando alguns dirigentes solicitaram em seu nome formalmente, embora de forma compulsiva, a integra��o � Indon�sia, � revelia dos seus pr�prios objetivos e ideais.

A Fretilin agiu conscientemente numa conduta "revolucion�ria e de conquista" em territ�rio j� por Portugal oferecido aos timorenses, negando-se a considerar a realidade geopol�tica da �rea e o pensamento do governo indon�sio, para o que tanto os alertei.

A UDT e a Fretilin, que chegaram a coligar-se com grande sentido nacional sob os ausp�cios do governo de Timor, acabaram por sobrepor os interesses partid�rios, pessoais e da ambi��o, em luta fratricida facilmente evit�vel, hostilizando o meu governo, que sempre os procurou e distinguiu como parceiros pol�ticos essenciais, manchando as suas m�os em sangue, em exagero reprov�vel e desnecess�rios, s� mitigado mais tarde quando comparado com o holocausto da invas�o indon�sia e contra o qual com dignidade e estoicismo a Fretilin e o povo timorense se rebelaram, combatendo.

A Apodeti, numa continuidade coerente, agiu sempre sob a tutela indon�sia, personificada no seu c�nsul Tomodok, em sintonia com a manobra indon�sia. Esta subservi�ncia n�o isentou alguns dos seus militantes e simpatizantes de serem assassinados, a par de outros timorenses, quando da invas�o indon�sia. Nunca conseguiu ser um partido verdadeiramente timorense, se � que alguma vez esse foi seu objetivo.

(...)

(...)

O povo de Timor foi o grande surpreendido, enganado e a maior v�tima do processo de descoloniza��o. Surpreendido por n�o estar preparado, nem sequer avisado. Enganado, porque todos agiram em seu nome e quando, pela primeira vez, o governo de Timor, atrav�s de elei��es para os corpos administrativos, deu-lhe voz democr�tica, o peso indon�sio de pronto se abateu, cerceando r�pido tais veleidades. V�tima primeiro da loucura fratricida dos partidos ditos nacionalistas, depois da sanha indon�sia, de mistura com a dolorosa sensa��o de abandono de Portugal. (...)

(... ) ... sinto nos olhares dos chefes tradicionais, mais do que na palavras, a interroga��o sobre por que Portugal decidira deix�-los optar. Ainda hoje me interrogo por que n�o tive a iniciativa e a aud�cia para encabe�ar o movimento pol�tico da manuten��o de la�os com Portugal quando os partidos existentes, na pressa do acesso ao poder, quiseram ignorar a sensibilidade do seu povo. (...).

... Foi tamb�m ... o povo de Timor, que em flagrante contradi��o com a aparente abertura a qualquer modalidade do processo, tornou-se por ventura em fator decisivo, inviabilizando a �nica op��o que poderia ser tacitamente aceita na �rea, a integra��o � Indon�sia. Na realidade, antes, durante, como depois, o povo de Timor foi muito firme na sua demonstra��o de n�o querer ser indon�sio, fosse qual o pre�o a pagar.

(...)

(...). Por tudo isto n�o houvesse pressa em descolonizar, mas antes de vontade e persist�ncia por parte do governo, que conseguiu iniciar as reformas administrativas e do ensino e realizar quase todas as elei��es num primeiro ensaio democr�tico. Quanto a n�s, estavam a ser bem-sucedidas, mas mereceram, a posteriori, cr�ticas da UDT, depois da Indon�sia e tamb�m de setor de opini�o portuguesa, querendo por ignor�ncia, ou malevolamente, compar�-las a a��es distorcidas da esquerda e do PREC em Portugal, servindo assim de justificativa para as interven��es de for�a, da UDT primeiro e da Indon�sia depois.

(...) os acontecimentos de 11 de Mar�o em Portugal. Porque a descoloniza��o era essencialmente um assunto pol�tico, nunca tive d�vidas de que a solu��o para Timor teria de ser solu��o pol�tica e nunca uma solu��o de for�a. (...)

(...) A seguir ao 11 de Mar�o senti-me demasiado envolvido e respons�vel com a situa��o em Timor para o abandonar, em Agosto ap�s o golpe da UDT significaria deser��o e s� mais tarde em Ata�ro considerei oportuno o pedido de demiss�o, j� que a solu��o de Timor de mim nada dependia e Lisboa parecia ter-se acomodado ao desfecho poss�vel.

O meu governo, em Timor, viveu sempre condicionado entre a falta de vis�o dos dirigentes pol�ticos timorenses, a obsess�o agressiva da Indon�sia, o alheamento de Lisboa e a falta de for�a. (...)

A decis�o pol�tica de n�o atuar pela for�a contra UDT, quando os seus dirigentes fizeram o golpe de Agosto de 1975, a minha decis�o mais pol�mica, era a �nica que permitiria uma solu��o pol�tica sem morte e destrui��o. Pode colocar-se a pergunta do que teria acontecido se tivesse decidido empregar a for�a para repor a situa��o. � leg�timo pensar que os resultados finais seriam semelhantes, com o agravante de ter sido eu a provoc�-los, colocando portugueses a matar timorenses ( e quais ? ) e a serem derrotados pelos indon�sios.

(...)

A miss�o principal das for�as armadas em Timor era garantir a paz e a estabilidade internas que permitissem o processo de descoloniza��o.(...)

(...). "Nem mais um soldado para as col�nias" era o slogan que simbolizava a demiss�o da na��o para a tarefa da descoloniza��o.(...), em Novembro de 1974, quando cheguei, por raz�o principalmente do comportamento dos portugueses ansiosos por regressar, constitu�ram-se em mais um fator de instabilidade em vez de serem elas, como lhes competia, fator de tranq�ilidade e paz. "O imperativo da na��o era descolonizar, mas a lei passa a n�o ter "pol�cia" que a execute. A lei sem "pol�cia" n�o � lei. E descolonizar sem lei n�o � descolonizar ".

(...)

(...)

(...)

(...)

(...)

(...)

J� na fase da incapacidade do controle da situa��o e quando militares portugueses tinha sido feitos ref�ns pelos partidos, a concentra��o dos militares portugueses em Dili e a sua posterior transfer�ncia ou evacua��o decorreram com suficiente serenidade e dignidade.

No conjunto, n�o se viu ou ouviu militares portugueses a correr e a debandar em retirada, como malevolamente mais tarde em Portugal se mentiu ou insinuou. N�o considero menos digna a opera��o militar da transfer�ncia para Ata�ro do que a sa�da dos americanos de Saig�o ( Vietname ). � de apre�o o comportamento dos militares a� envolvidos e depois em apoio do governo na ilha de Ata�ro, permitindo que Portugal internacionalmente se continuasse a afirmar a pot�ncia administrante e pudesse objetivamente apontar a Indon�sia como causa do malogro da solu��o negociada.

(...)

Os militares portugueses correram grandes riscos e provaram bem o sacrif�cio. Em particular as cinco dezenas que ficaram prisioneiros da Fretilin e da UDT/Indon�sia, este em prova��o mais longa e penosa, e todos assumindo com dignidade esta situa��o que a sua condi��o de militar lhe reservou.

(...)

Em resumo, em Timor, apesar de todos os esfor�os e dilig�ncias, as For�as Armadas nunca chegaram a constituir uma for�a eficiente. E sendo a solu��o do problema de Timor eminentemente pol�tica, a componente militar da manobra global, por aus�ncia dessa for�a eficiente, n�o ajudou, como era necess�rio, a encontrar uma solu��o pol�tica.

(...)

(...) Ou como diz Vaclav Havel: "Quem tem medo de encarar o seu pr�prio passado e o descreve com mentiras, n�o ser� capaz de construir o futuro, porque para ele as transfere ". (...) "N�o pode haver liberdade onde n�o se assegurar caminho � verdade ".

(...) , s� a internacionaliza��o, em oportunidade, do processo de descoloniza��o de Timor na ONU teria podido impedir a anexa��o pela for�a, premeditada pela Indon�sia.

(...). Tenho,..., duas certezas adquiridas quando � minha atua��o e de que mais me honro: nunca entreguei Timor � Indon�sia e consegui evitar, embora com custos, a luta e a morte entre portugueses e timorenses.(...)

(...)

(*) O brigadeiro M�rio Lemos Pires foi governador de Timor Leste, oficialmente, a partir de 14/11/74 at� 25/04/76.

obs: Texto retirado do Livro TIMOR LESTE - Este Pa�s Quer Ser Livre

A INDON�SIA INVADE

O TIMOR LESTE (*)

No dia 7 de dezembro de 1975, a invas�o temida h� tanto tempo come�ou. �s 2 da madrugada, navios da Indon�sia come�aram a bombardear a periferia de Dili, onde pensavam que o bra�o militar da Fretilin , Falintil, tinha baterias de artilharia. �s 5 da madrugada avi�es j� estavam despejando p�ra-quedistas na zona portu�ria.

Soldados da ABRI come�aram a se espalhar com viol�ncia atrav�s da cidade. De acordo com o bispo cat�lico de Dili, D. Martinho Lopes, "Os soldados que chegaram come�aram a matar todas as pessoas que encontravam. Havia muitos cad�veres nas ruas - s� o que pod�amos ver eram o soldados matando, matando, matando."(...)

Depois dos massacres iniciais, os soldados come�aram a saquear casas e igrejas, carregando tudo o que tinham roubado - mob�lia, carros, motos e at� janelas - em navios que iam para Java (base da maioria dos oficiais da ABRI).

As tropas da ABRI tamb�m come�aram a procurar por "garotas".(...) Refugiados relatavam que os soldados estavam estuprando as mulheres diante de seus maridos ou pais, espancando muito, prendendo e �s vezes matando os homens que se recusavam a entregar suas esposas ou filhas. As mulheres e mo�as que participavam ativamente de organiza��es ligadas � Fretilin, ou que eram parentes de membros da Fretilin, eram submetidas ao pior tratamento. Os soldados detiveram e prenderam a maioria delas; muitas tamb�m foram torturadas e estupradas repetidas vezes.

Muitas pessoas de Timor Leste fugiram para as montanhas, para escapar das tropas que chegavam.(...)

Nos primeiros dias da invas�o, duas mil pessoas foram massacradas em Dili. Destas, de 500 a 700 eram chineses �tnicos ( a indon�sia tem uma longa hist�ria de sentimento anti-chin�s).

Alguns dias depois do assalto a Dili, os soldados indon�sios atacaram outras cidades importantes e eventualmente foram para o interior. No dia de Natal, o n�mero original de 10 mil soldados da ABRI, recebeu um suplemento(refor�o) entre 15 a 20 mil soldados. Em meados de fevereiro - pouco mais de dois meses depois da invas�o ter come�ado - 60 mil pessoas de Timor Leste estavam mortas.

Depois da invas�o, a Indon�sia estabeleceu uma assembl�ia legislativa (fantoche), cujos 28 membros - descritos pela Indon�sia como "cidad�os eminentes de Timor Leste"- tinha sido escolhidos a dedo pelo funcion�rios do servi�o secreto indon�sio, com a ajuda da Apodeti, que se certificou de que eles n�o tinham nenhuma liga��o anterior com a Fretilin ou a UDT.

No dia 31 de maio de 1976, esta assembl�ia fantoche declarou que Timor Leste queria se tornar parte da Indon�sia. Observadores presentes a este evento declaram que foi totalmente montado pelas autoridades indon�sias. Os poucos jornalistas e diplomatas de escal�o inferior de outros pa�ses que compareceram n�o tiveram permiss�o para falar com nenhum dos delegados da Assembl�ia do Povo.

Em Julho de 1976, o presidente Suharto assinou a Lei formalizando a "integra��o" de Timor Leste ao Estado Unit�rio da Rep�blica da Indon�sia.

(*) texto retirado do livro: TIMOR LESTE - Este Pa�s Que Ser Livre, organizado por S�lvio L. Sant’Anna, 1997, Editora Martin Claret, S�o Paulo, SP

RESPOSTA DA ONU � INVAS�O (*)

. Cinco dias depois da invas�o, a Assembl�ia Geral da ONU tomou uma resolu��o lamentando a invas�o, pedindo � indon�sia que se retirasse imediatamente e apoiando o direito do povo de Timor Leste � autodetermina��o. A vota��o foi de 72 a 10, com 43 absten��es, inclusive dos Estados Unidos, Canad� e da maioria dos pa�ses da Europa Ocidental. Sete resolu��es sobre Timor Leste foram tomadas depois disto pela Assembl�ia Geral (sendo a �ltima em 1982); a Fran�a, Alemanha e Inglaterra t�m se abstido, e os Estados Unidos, Austr�lia e Jap�o t�m votado contra a maioria delas - mesmo quando a resolu��o era apenas para instruir o secret�rio-geral a investigar a situa��o.

No dia 22 de dezembro de 1975, incentivado por Portugal, o Conselho de Seguran�a da ONU tomou uma resolu��o por unanimidade condenando a invas�o e ocupa��o feitas por Jacarta e apoiando o direito de Timor Leste � autodetermina��o. ( Resolu��o semelhante foi tomada em abril de 1976, com a absten��o dos Estados Unidos e Jap�o).

(...)

O especialista em direito internacional, Roger Clark, tem argumentado que, se outras e mais fortes resolu��es tivessem sido tomadas pelo Conselho de Seguran�a, os Estados Unidos teriam impedido que fossem aprovadas. Uma declara��o de Daniel Patrick Moynihan, embaixador dos Estados Unidos na ONU durante o governo Ford, confirma a an�lise feita por Clark. Falando sobre a in�rcia da ONU em rela��o a Timor Leste, ele se vangloriou de que "o Departamento de Estado (dos EUA) queria que a ONU se mostrasse inteiramente ineficaz em quaisquer medidas que tomasse. Esta tarefa me foi data e eu a levei a cabo com consider�vel sucesso".

Um exame mais detalhado das atividades, nos bastidores, de cada pa�s individualmente mostra que seu comportamento na ONU fazia parte de um padr�o muito mais amplo de apoio � Indon�sia. Certas na��es poderosas do Ocidente, ou alinhadas com o Ocidente, n�o apenas deixaram de condenar a invas�o, mas tamb�m ou sabiam que a invas�o era iminente e n�o fizeram nada para impedi-la, ou foram concretamente c�mplices na selvageria da Indon�sia. Os Estados Unidos eram o c�mplice mais importante, (no lado de Austr�lia, Jap�o, Inglaterra, Fran�a, Canad� e Holanda).

(*) texto retirado do Livro: Timor Leste - Este Pa�s Quer Ser Livre.

Obs: As palavras sublinhadas n�o fazem parte do texto original, e n�o s�o de S�lvio L. Sant’Anna.

APOIO DOS ESTADOS UNIDOS � INDON�SIA (*)

(...)

A Segunda Guerra Mundial mudou radicalmente o mapa do Pac�fico, tendo os Estados Unidos surgido como a pot�ncia dominante na regi�o.(...)

A Indon�sia, com seu solo f�rtil, ricos recursos naturais e localiza��o estrat�gica, � certamente uma �rea importante a ser "controlada ou tornada confi�vel". Numa palestra sobre a �sia, em 1965, Richard Nixon argumentou em favor de bombardear o Vietnam do Norte para proteger o "imenso potencial mineral" da Indon�sia, � qual mais tarde se referiu como "de longe o maior b�nus na �rea do sudoeste asi�tico".

Para proteger seus "b�nus, os Estados Unidos eventualmente mataram mais de quatro milh�es de pessoas no Vietnam do Norte, do Sul, Camboja e Laos, entre 1965 e 1975. S� no Vietnam do Sul, a guerra resultou em um milh�o de vi�vas e 879 mil �rf�os ( se levar em conta que a fam�lia m�dia tinham 4 filhos este n�mero seria pr�ximo a 4 milh�es na verdade ). Destruiu 9 mil dentre 15 mil vilarejos, quase 64 mil mil Km2 de terra de agricultura e 30 mil Km2 de florestas. Essa carnificina indica aquilo que os EUA estariam dispostos a apoiar na Indon�sia e em Timor Leste.

No final da d�cada de 40, o governo dos EUA e l�deres empresariais decidiram apoiar a independ�ncia da Indon�sia, frente � cont�nua instabilidade do governo holand�s. Para sua tristeza, no entanto, o novo governo da Indon�sia se tornou altamente nacionalista, antiimperialista e n�o-alinhado. Preocupado com a possibilidade de que �rea escapasse a seu controle, Washington come�ou (na d�cada de 50 ) a adular o ex�rcito indon�sio, atrav�s de programas de assist�ncia militar e de treinamento, ( atrav�s desses artif�cios preparou os novos futuros dirigentes do ex�rcito indon�sio, com o qual daria uma sacudida na situa��o e retomaria o controle).

Os Estados Unidos logo colheram os benef�cios desta pol�tica. Em 1965, usando um pretenso golpe comunista para derrubar o governo como desculpa, o general Suharto, favor�vel ao EUA, assumiu o controle dos militares e desencadeou "uma das grandes matan�as de nosso tempo".

Centenas de milhares de indon�sios foram mortos, principalmente camponeses sem terra e membros do Partido Comunista da Indon�sia (cujos nomes tinha sido fornecidos ao ex�rcito pela embaixada dos EUA em Jacarta).

O governo de Suharto revogou as leis de investimento "extremamente restritivas" do regime anterior e preparou o caminho para investimentos estrangeiros em larga escala. Na d�cada de 70 os EUA estavam investindo mais na Indon�sia do em qualquer outra na��o do sudoeste asi�tico, at� mesmo as Filipinas. Parte desse com�rcio era de armas - o Departamento de Estado avalia que empresas norte-americanas forneceram cerca de 90% das armas usadas (nos primeiros momento) da invas�o do Timor Leste.

(...)

O apoio �s a��es ( de matan�a ) da Indon�sia em Timor Leste e em outros lugares � um pre�o pequeno a pagar pelas oportunidades de investimento ( e o apoio pol�tico ) que a Indon�sia oferece. Assim, os EUA n�o s� se recusaram a condenar a invas�o, como aumentaram muito a ajuda � Indon�sia desde ent�o.

Durante o ano que se seguiu � invas�o, o governo Ford continuou a fornecer armas para a Indon�sia, embora em quantidade reduzida ( pois o estoque foi tamb�m engrossado com armamentos tamb�m de outros pa�ses ). Mas j� estava bem estabelecido o padr�o segundo o qual os Estados Unidos serviam como fonte confi�vel de armas militares ( e apoio pol�tico ) para jacarta. Quando parecia que a Indon�sia estava realmente chegando ao fim de seu equipamento militar, no fim de 1977m devido a suas atividades em Timor Leste, o governo "de direitos humanos" do presidente Jimmy Carter respondeu, autorizando no ano fiscal de 1978 uma venda de armas para Jacarta, no valor de 112 milh�es de d�lares, aumentando assim o valor de 13 milh�es do ano anterior. As vendas de equipamento militar chegaram ao auge durante a presid�ncia de Ronald Reagan, ultrapassando 500 milh�es de d�lares de 1981 a 1986. Embora a Indon�sia de Suharto tenha diversificado seus fornecedores ( principalmente pa�ses como a Inglaterra, Fran�a e Alemanha), recebeu dos Estados Unidos 53% de suas armas de 1992 a 1994. E mais de 2.600 oficiais militares indon�sios receberam treinamento nos EUA desde a invas�o de Timor Leste, sob a lei de Educa��o e Treinamento Militar Internacional (IMET).

Conforme que as empresas de comunica��o tendem a seguir a orienta��o de seu governo, as pessoas no Ocidente n�o ficaram sabendo quase nada a respeito da brutal invas�o da Indon�sia e da conseq�ente guerra. Quando os partidos pol�ticos em Timor Leste estavam trabalhando pela independ�ncia com rela��o a Portugal (em 1975), certo n�mero de jornais norte-americanos noticiaram o processo. Mas depois da invas�o, as not�cias sobre Timor Leste desapareceram em grande parte da imprensa ocidental....Esta neglig�ncia por parte da m�dia norte-americana (imprensa livre) continuou durante a d�cada de 80.

(*) o texto foi retirado do Livro TIMOR LESTE - Este Pa�s Que Ser Livre, de S�lvio L. Sant’Anna.

Obs: a parte do texto sublinhado n�o do livro ou do autor do livro.

APOIO DA AUSTR�LIA � INDON�SIA (*)

"� importante para a Austr�lia que o mundo compreenda que os pa�ses grandes n�o podem invadir seus vizinhos pequenos impunemente".

Bob Hawke, primeiro-ministro australiano, em 1990 referindo-se � invas�o do Kuwait pelo Iraque.

A Austr�lia apoiou a primeira resolu��o da ONU condenando a invas�o, e tanto o primeiro-ministro Fraser como seu ministro do Exterior repudiaram publicamente a assimila��o de Timor Leste pela Indon�sia. Mas isto se deveu em grande parte � oposi��o popular em massa � invas�o. Nos bastidores, uma hist�ria diferente estava se desenrolando.

Em janeiro de 1976 um m�s depois da invas�o, o embaixador da Austr�lia na Indon�sia, Richard Woolcott, enviou o seguinte telegrama para Canberra:

"Em rela��o � quest�o timorense... estamos enfrentando uma daquelas decis�es amplas de pol�tica exterior que a maioria das na��es enfrenta, num momento ou outro. O governo enfrenta uma escolha entre uma posi��o moral, baseada na condena��o da Indon�sia pela invas�o de Timor Leste e na afirma��o do direito inalien�vel do povo timorense � autodetermina��o, de um lado, e a aceita��o pragm�tica e realista da inevitabilidade da situa��o a longo prazo, de outro lado.

� uma escolha entre aquilo que poderia ser descrito como um idealismo wilsoniano e o realismo kissigeriano ( cinismo ).

O primeiro � mais adequado e baseado em princ�pios, mas o interesse nacional a longo prazo poder� ser bem servido pelo �ltimo. N�o acreditamos que seja poss�vel ter ambos."

(...) . O primeiro-ministro Fraser tentou minar o apoio � Fretilin dentro da Austr�lia. Ele tomou uma r�dio transmissora dentro da Austr�lia em Darwin que tinha sido usada para comunica��o com a Fretilin em Timor Leste e mais tarde negou vistos de entrada na Austr�lia a l�deres da Fretilin exilados.

A ajuda militar a Jacarta quase dobrou entre 1975 e 1981. Austr�lia agora mant�m com a Indon�sia um interc�mbio no campo do servi�o secreto militar e fornece tanto equipamento militar pesado ( por exemplo, barcos para patrulha naval ) como treinamento para a ABRI.

Press�es dos EUA podem ter tido influ�ncia sobre a posi��o da Austr�lia. Tem sido relatado que membros de altos escal�es do governo Ford avisaram Fraser de que deveria recuar em suas cr�ticas � tomada de Timor Leste pela Indon�sia. Devido � influ�ncia dos EUA sobre a Austr�lia, parece prov�vel que a Austr�lia tenha obedecido ( e resolvido tirar proveito da situa��o ). (...)

No entanto, como acontece com outras pot�ncias ocidentais, os motivos da Austr�lia ao concordar com a invas�o eram, em grande parte, econ�micos. Quando Gough Whitlam se tornou primeiro-ministro em 1972. Deixou claro que a Indon�sia era a chave para o estabelecimento de rela��es de com�rcio e de investimento mais fortes com a Associa��o de Na��es do Sudeste Asi�tico (ASEAN).(...).

A Austr�lia tem tamb�m importante interesse econ�mico no pr�prio Timor. Entre a Austr�lia e Timor Leste se encontra o Mar de Timor, que cont�m um campo de petr�leo submarino que se acredita ser um dos 25 mais ricos dep�sitos do mundo. Como escreveu o embaixador Woolcoot, em agosto de 1975. (...)

Em Janeiro de 1978, a Austr�lia se tornou o �nico pa�s ocidental a reconhecer oficialmente a soberania da Indon�sia sobre o Timor Leste; vencida esta dificuldade, os dois pa�ses iniciaram negocia��es sobre o Mar do Timor ( um acordo final entre eles foi assinado em dezembro de 1989 ). Algumas das maiores companhias de petr�leo - inclusive a BHP australiana, a Shell holandesa e a norte-amaericana Marathon - j� iniciaram perfura��es de pesquisa.

Portugal iniciou um processo contra a Austr�lia na Corte Internacional de Justi�a ( que se re�ne em Haia, na Holanda ), acusando-a de ignorar a posi��o legal de Portugal como pot�ncia administrante de Timor Leste. Um veredicto contra a Austr�lia a for�aria a escolher entre perder enormes lucros de petr�leo ou desistir da pretens�o de ser um pa�s �tico.

(*) texto retirado do Livro: TIMOR LESTE - Este Pa�s Quer Ser Livre.

OUTROS PA�SES QUE AP�IAM A INVAS�O INDON�SIA

NO TIMOR LESTE (*)

CANAD�:

Cinco meses antes da invas�o, o presidente Suharto visitou o primeiro-ministro do Canad�, Pierre Trudeau. Um dos quatro itens a serem discutidos era "Perspectivas de desenvolvimento no Timor portugu�s".

(...)

Os investimentos canadenses na Indon�sia s�o avaliados em $ 5 bilh�es de d�lares canadenses, liderados pela vasta opera��o de minera��o de n�quel da Inco Ltda em Sulawesi. Atra�da pela m�o-de-obra barata e pela fraca legisla��o sobre o meio ambiente, a Inco tem se expandido na Indon�sia, enquanto despede oper�rios em casa.

O Canad� tem vendido armas para a Indon�sia - tanto diretamente, quanto atrav�s de vendas a companhias norte-americanas que vendem para a Indon�sia - e muitas dessas armas t�m sido usadas em Timor Leste.

(...)

Em novembro de 1994, Jean Chr�tien assinou um acordo de coopera��o nuclear com a Indon�sia, o primeiro passo para lhe fornecer tecnologia canadense para reator nuclear. Isto � alarmante, j� que no passado outros pa�ses usaram tal tecnologia para ajudar a desenvolver armas nucleares ( e n�o ser� diferente com a DITADURA INDON�SIA).

JAP�O:

Em todas as oito resolu��es da Assembl�ia Geral da ONU sobre Timor Leste, o Jap�o votou "N�o". (...) O Jap�o � tamb�m o pa�s que mais d� ajuda econ�mica a Jacarta, fornecendo 69% de toda a ajuda direta, de pa�s para pa�s, que a Indon�sia recebeu em 1992.(...)

Timor Leste - min�scula metade de ilha com relativamente poucos recursos - dificilmente poderia competir com aquilo que a Indon�sia tem para oferecer, (inclusive o petr�leo TIMORENSE).

 

OBS: LOGO O JAP�O QUE JUNTO COM A AUSTR�LIA, HOLANDA E AS FOR�AS ALIADAS, J� TINHAM PROVOCADO DURANTE A 2a. GUERRA MUNDIAL A MORTE DE MAIS DE 60 MIL TIMORENSES.

 

GR� BRETANHA:

Em julho de 1975, quando os indon�sios estavam nos est�gios iniciais da Opera��o Komodo, o embaixador brit�nico na Indon�sia escreveu para o Minist�rio das Rela��es Exteriores que "o povo do Timor portugu�s n�o tem condi��es para exercer seu direito � autodetermina��o".

A Inglaterra se absteve em todas as oito vota��es sobre Timor Leste na Assembl�ia Geral da ONU e continua a vender armas para a Indon�sia.

(*) texto retirado no livro: TIMOR LESTE - Este Pa�s Quer Ser Livre

 

APOIOS FINANCEIROS/ARMAMENTOS/E BLOQUEIO NA ONU

Bilh�es de d�lares em subven��es e cr�ditos banc�rios t�m sido concedidos ao regime genocida de Suharto pelo Grupo Inter-Governamental para a Indon�sia (IGGI), um cons�rcio de pa�ses e organiza��es doadores que inclui o Jap�o, os EUA, a Fran�a, Inglaterra, Holanda e Alemanha (os �ltimos dois s�o tamb�m grandes fornecedores de armas para a Indon�sia). Desde sua cria��o em 1967, os membros do IGGI t�m incrementado regularmente sua ajuda a Jacarta.

(...) . Apesar do massacre de Santa Cruz, a ajuda do Ocidente para Indon�sia n�o diminuiu.

(*) Texto retirado do Livro: TIMOR LESTE - Este Pa�s Quer Ser Livre.

O MASSACRE DE SANTA CRUZ

TIMOR LESTE - GENOC�DIO NO PARA�SO (*)

Artigo: Matthew Jardine

Tradu��o: L�lia Azevedo

 

No dia 12 de novembro de 1991, um multid�o enlutada se reuniu numa par�quia, num bairro de Dili. Tinham vindo participar de uma missa em mem�ria de Sebasti�o Gomes, ativista pr�-independ�ncia que tinha sido morto nesta mesma igreja, por soldados indon�sios, duas semanas antes.

Tais assassinatos tinham-se tornado comuns desde a invas�o indon�sia. Mas este dia de luto em particular assumiria um significado especial - em grande parte porque jornalistas dos Estados Unidos e da Inglaterra estavam l� para dar a not�cia.

Quando a missa terminou, come�ou uma prociss�o at� o cemit�rio de Santa Cruz, a 1,5 Km. Embora soldados indon�sios estivessem colocados ao longo das ruas, as pessoas erguiam faixas e gritavam slogans em favor da independ�ncia. Este desafio � autoridade indon�sia, inusitadamente ostensivo, chamou a aten��o daqueles cujas casas e locais de trabalho se situavam ao longo do caminho da prociss�o. Outras pessoas se uniram � multid�o, que em breve contava com milhares de participantes.

No cemit�rio, alguns participantes da prociss�o se dirigiram at� o t�mulo com a fam�lia de Sebasti�o. Outros esperaram fora dos muros. Este foram os primeiros a notar que caminh�es do ex�rcito indon�sio tinham bloqueado o caminho de volta para a cidade e que uma coluna de soldados armados estava se dirigindo devagar em dire��o � multid�o.

A testemunha ocular Allan Nairn, do Jornal New Jorker, relata o que aconteceu em seguida. Sem Avisar e sem provoca��o, "soldados ergueram seus rifles e apontaram. Ent�o, agindo em conjunto, abriram fogo... Homens e mulheres ca�ram, estremecendo, na rua, rolando devido aos impactos das balas. Alguns estavam indo para tr�s, e trope�ando, com as m�os erguidas. Outros simplesmente tentaram virar e correr. Os soldados pularam por cima de corpos ca�dos e atiraram nas pessoas que ainda estavam em p�. Correram atr�s de jovens, rapazes e mo�as, e atiraram neles pelas costas". Quando acabou, mais de 250 pessoas tinham sido mortas e centenas estavam feridas. (Os soldados tamb�m bateram muito em Nairn e na sua companheira, a jornalista norte-americana Amy Goodman).

Max Stahl, um jornalista brit�nico cuja c�mera de v�deo captou o horror, chamou-o de "massacre a sangue-frio e premeditado". Testemunhas oculares lhe contaram que soldados indon�sios mataram muitos dos feridos no hospital militar de Dili; eles "esmagaram os cr�nios dos feridos com grandes pedras, passaram por cima deles com caminh�es, perfuraram-nos com baionetas e ministraram - na presen�a de m�dicos - desinfetantes qu�micos venenosos como rem�dios". Stahl avalia que cerca de 50 a 200 dos feridos morreram assim.

Quando a not�cia do massacre de Santa Cruz apareceu na m�dia ocidental, provocou indigna��o internacional. O Congresso dos Estados Unidos e o Parlamento Europeu aprovaram resolu��es condenado a Indon�sia, e Holanda, Dinamarca e Canad� suspenderam (temporariamente) sua ajuda. Editoriais a favor da autodetermina��o do povo do Timor Leste apareceram em jornais de todo o Ocidente.

A Indon�sia se mexeu rapidamente para sufocar a cr�tica. Manifestou seu "pesar" oficial pelo ocorrido, estabeleceu uma investiga��o oficial do incidente, afastou os dois principais comandantes militares do Timor Leste (enviando-os ao exterior para passar f�rias e "estudar") e condenou alguns oficiais de patente inferior por desobedecerem ostensivamente �s ordens. Enviou tamb�m seu ministro do Exterior em viagem aos Estados Unidos, Canad� e Europa Ocidental, para consertar a danificada reputa��o da Indon�sia (onde quer que fosse, era importunado por manifesta��es contr�rias).

Mas as palavras de dois oficiais militares de alto n�vel sem d�vida expressam o verdadeiro sentimento de Jacarta. O general Try Sutrisno, comandante dos militares indon�sios na �poca do massacre e atualmente "premiado" com a vice-presidencia do pa�s, disse que as pessoas de Timor Leste que tinham se reunido no cemit�rio eram ‘perturbadores" que deviam ser "esmagados". Ele acrescentou: "Delinq�entes como esses t�m de ser mortos � bala, e vamos atirar neles".

O general Mantriri, comandante regional de Timor Leste, logo ap�s o massacre de Santa Cruz declarou que o massacre era "adequado" e acrescentou: "N�o nos arrependemos de nada". Essa falta de arrependimento ficou clara nas senten�as pronunciadas contra os participantes da marcha de Santa Cruz e contra os manifestantes timorenses orientais que protestaram contra o massacre em Jacarta. As penas variaram de 5 anos de pris�o � pris�o perp�tua. "Do lado indon�sio alguns militares foram passar f�rias pr�mio no exterior, e o general Try Sutrisno ganhou de presente a vice-presid�ncia da Indon�sia pelos assassinatos".

Apesar da cobertura data ao massacre de Santa Cruz pela m�dia no ocidente, podem ainda se passar meses sem que se ou�a uma s� palavra a respeito de Timor Leste e das pessoas que est�o morrendo l�.

(*) Artigo retirado do livro: TIMOR LESTE - Este Pa�s Quer Ser Livre, Organiza��o S�lvio L. Sant’Anna, Editora Martin Claret, S�o Paulo, SP.

Obs: os termos sublinhados n�o foram escrito pela jornalista Matthew Jardine ou L�lia Azevedo.

Grande Enciclop�dia Portuguesa e Brasileira, vol. XXXI, Lisboa, Rio de Janeiro
TIMOR LESTE - Este Pa�s Quer Ser Livre, Organiza��o S�lvio L. Sant’Anna, Editora Martin Claret, 1976, S�o Paulo , SP.

SITUA��O DE TIMOR LESTE NO IN�CIO DE 1997 (*)

Nos �ltimos anos, e sobretudo depois da outorga do Pr�mio Nobel da Paz a D. Ximenes Belo, bispo de Dili, capital de Timor Leste, e ao professor Jos� Ramos-Horta, houve algum progresso na situa��o do povo timorense. Existe mais visibilidade a n�vel mundial e maior empenho por parte da ONU. O novo secret�rio-geral, Kofi Annan, recebeu Ramos-Horta no in�cio de mar�o: � a primeira vez que um respons�vel m�ximo da ONU concede audi�ncia oficial a um representante da resist�ncia timorense. Al�m disto, nomeou o paquistan�s Jamsheed Marker como seu representante pessoal para acompanhar a quest�o do Timor Leste, o qual chegou a visitar Xanana Gusm�o na pris�o, em Jacarta, no dia 27 de mar�o de 1997.

Mesmo aqui no Brasil o interesse aumenta: t�m surgido v�rios artigos e not�cias na imprensa e na televis�o.

Traduzimos a seguir trechos de recentes artigos de Mathew Jardine, que esteve recentemente em Timor Leste(1997). No primeiro, publicado no jornal The Cristian Science Monitor de 14/01/97, Jardine fala do seu contato com David Alex um dos l�deres das Falintil, nas montanhas, que ocorreu por insist�ncia de ativistas na clandestinidade, Alex declarou que a resist�ncia vai "lutar para sempre para defender os direitos do povo e manter viva sua esperan�a. S� assim conseguiremos for�ar a Indon�sia e os pa�ses que fornecem armas e dinheiro para o regime de Suharto, especialmente os Estados Unidos, a obedecerem � lei internacional e respeitarem nosso direito � autodetermina��o".

O segundo artigo saiu no Washington Post do dia 16/03/97. Diz Jardine: "Conforme meu t�xi deixava o aeroporto, pude ter evid�ncias imediatas de mudan�as, desde minha visita em 1992; em um muro perto da entrada do aeroporto algu�m tinha escrito corajosamente, com tinta spray, ‘Viva D. Belo’...

Durante minha visita de 1992 a maioria dos habitantes de Timor Leste parecia ter tanto medo que n�o conseguia me olhar nos olhos. Desta vez, muitas pessoas me cumprimentavam enquanto eu caminhava pelas ruas de Dili, pitoresca cidade de 150 mil habitantes. Algumas, especialmente os jovens, me faziam o sinal ‘V’ da vit�ria, mostrando suas simpatias nacionalistas.

Aqueles que t�m meios para comprar antenas parab�licas podem agora ver a TV estatal portuguesa RTP - que envia seu sinal para o territ�rio, passando por cima das obje��es Indon�sia - e ver r�pidas imagens de seus l�deres pr�-independ�ncia no ex�lio, ou se escondendo nas montanhas.

Durante minha vista, a RTP mostrou um document�rio sobre as Falintil, que contam agora com uns 600 guerrilheiros...

Apesar desta abertura, Timor Leste continua a ser um lugar onde poucos t�m coragem de dizer o que pensam em p�blico e ainda menos de convidar estrangeiros para suas casas. Um senhora de meia idade me disse: estamos contentes que o mundo tenha reconhecido nosso sofrimento atrav�s do Pr�mio Nobel, mais ainda vivemos numa pris�o.

A conversa acabou de repente quando apareceu um estranho.

As rua de Dili ficam fazias a partir das 21:00 hs. De acordo com v�rias pessoas que entrevistei, soldados indon�sios atacam ao acaso pessoas que est�o fora de casa de noite, especialmente jovens. A situa��o � pior nas �reas rurais, onde a Igreja Cat�lica tem menos presen�a. Fora das cidades, as pessoas est�o totalmente � merc� dos militares indon�sios, disse um sacerdote.

Uma crescente aten��o internacional tem for�ado a Indon�sia a ser mais discreta ao lidar com pessoas suspeitas de serem pr�-independ�ncia. Nas pris�es, torturas e execu��es extrajudiciais ainda s�o comuns, de acordo com pesquisadores de direitos humanos.

Tal repress�o, no entanto, n�o tem feito calar a oposi��o � autoridade da Indon�sia. Protestos abertos t�m ocorrido esporadicamente desde novembro de 1994, quando 28 timorenses ocuparam a embaixada dos EUA em Jacarta, durante a visita do presidente Clinton � Indon�sia.

Os manifestantes �s vezes se voltam contra imigrantes e negociantes indon�sios, evidenciando o profundo ressentimento provocado pela imigra��o em grande escala de indon�sios para o territ�rio. H� mais de 150 mil migrantes indon�sios em Timor Leste ( numa popula��o de 800 a 900 mil ), segundo os pesquisadores. Esse influxo, junto com a corrup��o administrativa e a destrui��o causada pela guerra, esmagam a popula��o local. As taxas de desemprego e subemprego s�o altas, especialmente entre os jovens.

A Indon�sia mant�m a ordem atrav�s de uma for�a militar altamente vis�vel, de 20 a 30 mil soldados, e de um extenso aparato administrativo.

Mas uma sofisticada resist�ncia clandestina nas cidades e vilas desafia sua autoridade. A resist�ncia clandestina tem fortes liga��es com a guerrilha das Falintil nas montanhas e com a frente diplom�tica da resist�ncia no exterior, liderada por Ramos-Horta...

Muitos timorenses me disseram que s� os EUA, que h� muito tempo patrocinam a Indon�sia militar e economicamente, t�m for�a pol�tica para pressionar a Indon�sia para solucionar o conflito ...

Enquanto isto, Timor Leste est� a beira de um aumento de viol�ncia. No dia 24 de dezembro de 1996, 100 mil pessoas se reuniram em Dili para receber de volta D. Belo, que chegava de Oslo ap�s a entrega do pr�mio Nobel. Alguns jovens, que estavam no meio do povo, aparentemente incentivados por rumores de uma trama militar para assassinar D. Belo, atacaram dois homens suspeitos de serem militares indon�sios, e mataram outro que estava carregando uma arma e um transmissor. (D. Belo tinha anunciado um m�s antes que os militares tinham por duas vezes atentado contra sua vida).

Nas �ltimas semanas, ocorreram revoltas em duas diferentes regi�es do territ�rio. As tropas indon�sias t�m respondido com uma grande repress�o e numerosas pris�es.

O deputado federal republicano (dos EUA), Frank Wolf, depois de uma visita de tr�s dias, descreveu o ambiente de Timor Leste como sendo de terror e medo total e absoluto.

Alguns timorenses que encontrei em minha recente visita expressaram seu medo de que a viol�ncia e a repress�o sejam intensificadas. As pessoas aqui est�o desesperadas, disse um sacerdote. "Se a situa��o n�o mudar logo, vai haver muito mais derramamento de sangue."
N�s mesmo podemos testemunhar sobre a viol�ncia a que est� submetido o povo timorense. Todas as semanas recebemos de Portugal, da Associa��o de Ex-Presos Pol�ticos Timorenses - AEPPOLTI - extensos relatos das pris�es e mortes ocorridas nos �ltimos dias. E, no in�cio de abril, a comiss�o de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, recebeu um v�deo com evid�ncias de torturas em Timor Leste, o que fez com essa Comiss�o condenasse, mais uma vez, a Indon�sia pela pr�tica de torturas.

A frase do sacerdote sobre o derramamento de sangue, transcrita por Matthew Jardine em seu artigo, nos relembrou a express�o de D. Desmond Tutu, da �frica do Sul: em 1984 ele dizia que, se o governo de minoria branca do apartheid n�o reconhecesse os direitos dos negros, haveria um banho de sangue no pa�s. Dez anos depois o apartheid caiu e o povo da �frica do Sul come�a a construir um futuro democr�tico e de paz. Esperamos que, gra�as inclusive � press�o internacional, Timor n�o precise esperar tanto tempo...

(*) Texto retirado do livro: TIMOR LESTE - Este Pa�s Quer Ser Livre.

Nota: Todos os fatos apresentados por Matthew Jardine est�o documentados e as fontes foram listadas no final do livro original: East Timor, Genocide in Paradise.

MUNDO PRECISA SABER

Noam Chomsky (*)

"’� impressionante como um genoc�dio desta dimens�o pode passar desapercebido da opini�o p�blica mundial. Mas foi exatamente o desconhecimento dessa realidade, o seu silenciamento, o fator que mais contribuiu para que o drama de Timor atingisse tamanhas propor��es ".

 

Ant�nio Barbedo de Magalh�es, professor catedr�tico e coordenador das Jornadas de Timor da Universidade do Porto. Portugal

Nos anais dos crimes deste s�culo terr�vel, a agress�o da Indon�sia contra Timor Leste ocupa um dos lugares de destaque, n�o s� por causa de suas propor��es - talvez o maior �ndice de mortes em rela��o � popula��o desde o holocausto dos judeus - mas porque teria sido t�o f�cil preveni-la e fazer com terminasse a qualquer momento. N�o h� necessidade de amea�as de bombardear Jacarta, nem mesmo de impor san��es contra o agressor. Bastaria que as grandes pot�ncias deixassem de participar avidamente dos crimes da Indon�sia - que parassem de colocar armas nas m�os dos assassinos e torturadores, enquanto se unem a eles no roubo do petr�leo na plataforma submarina do Mar de Timor.

Em 1992, o ministro do Exterior da Indon�sia, Ali Alatas, disse que seu governo enfrentava um decis�o grave em Timor Leste, que tinha se tornado "como que uma pedra afiada em nossos sapatos". Benedict Anderson, um dos maiores especialistas em assuntos da Indon�sia, considerou que era um dos muitos sinais de segundas inten��es "Alatas n�o especifica qual seria a decis�o", comentou Anderson, "mas ele est� deixando subentendido que se deveria tirar o sapato e se livrar da pedra".

A pedra n�o foi afiada por poderes ocidentais. Pelo contr�rio: o Ocidente e o Jap�o t�m sido, de bom grado, parceiros na conquista e anexa��o pela Indon�sia da antiga col�nia portuguesa. Bem antes de a Indon�sia come�ar sua campanha de subvers�o e terror em 1975, seguida pela invas�o direta no dia 07 de dezembro, a embaixada brit�nica em Jacarta relatava que: "Certamente, da maneira como vemos daqui, � do interesse da Gr� Bretanha que a Indon�sia incorpore o territ�rio o mais depressa e discretamente poss�vel; e que se o pior acontecer e houver uma disputa na ONU, mantenhamos a cabe�a baixa e evitemos tomar partido contra o governo da Indon�sia".

A Austr�lia concordava com esta avalia��o. Em agosto de 1975, o embaixador em Jacarta, Richard Woolcott, aconselhou, em telegramas secretos, que a Austr�lia "assumisse antes um atitude pragm�tica do que uma baseada em princ�pios" em rela��o � invas�o que ia acontecer, porque "� disto que trata o interesse nacional e a pol�tica exterior". Junto com a refer�ncia de praxe aos "interesses de defesa da Austr�lia", Woolcoott sugeriu que um tratado favor�vel em rela��o ao Mar de Timor "poderia ser negociado muito mais facilmente com a Indon�sia ... do que com Portugal ou com um Timor portugu�s independente". Ele recomendou uma prefer�ncia por um "realismo Kissingeriano" em vez de um "idealismo Wilsoniano" - uma distin��o que talvez possa ser detectada na pr�pria pr�tica, com um microsc�pio suficientemente forte.

As raz�es para apoiar os crimes da Indon�sia iam bem al�m da quest�o do petr�leo e dos "interesses de defesa", incluindo o controle de uma passagem de �guas profundas para submarinos nucleares. A Indon�sia tem sido uma aliada fiel desde que o general Suharto tomou o poder em 1965 com "um banho de sangue fervendo", que foi "a melhor not�cia em anos para o ocidente na �sia" (Time), "um massacre estarrecedor de comunistas e simpatizantes", na maioria camponeses sem-terra, que forneceu "um raio de luz na �sia" (New York Times).

A euforia n�o tinha limites, junto com elogios para os "moderados indon�sios" que tinha prevalecido (New York Times) e para seu l�der, que "no fundo do cora��o � bondoso" (The Economist). O bem recebido banho de sangue n�o s� destruiu o partido pol�tico de sustenta��o popular na Indon�sia, como tamb�m abriu os ricos recursos do pa�s � explora��o ocidental e at� mesmo justificou a guerra norte-americana no Vietn�, que "forneceu um escudo para a r�pida virada da tend�ncia da Indon�sia para o comunismo", como a Freedom House explicou sobriamente, sem reservas. Tais favores n�o se esquecem depressa.

Woolcoot ofereceu alguns exemplos do "realismo Kissingeriano". Observando, com sobriedade diplom�tica, que "os Estados Unidos poderiam ter alguma influ�ncia sobre a Indon�sia atualmente", ele relatou que Kissinger tinha dado instru��es ao embaixador norte-americano. David Newsom, para evitar a quest�o de Timor e reduzir o envio de relat�rios da embaixada, permitindo que "os acontecimentos seguissem seu curso". Newsom informou Woolcott que se a Indon�sia invadisse, os Estados Unidos esperavam que o fizesse "de modo eficiente, r�pido e sem usar nosso equipamento"- 90% de seu suprimento de armas.

Outra li��o de realismo foi dada pelo embaixador norte-americano Daniel Patrick Moynihan, que ficou c�lebre por sua corajosa defesa do direito internacional e dos direitos humanos. "Os Estados Unidos queriam que as coisas acontecessem como aconteceram", escreve ele em suas mem�rias, "e trabalharam para que isso se realizasse. O Departamento de Estado queria que as Na��es Unidas provassem ser totalmente ineficazes em qualquer medida que tomassem. Esta tarefa me foi dada e eu a realizei com bastante sucesso". Moynihan cita dados de 60 mil mortos nos primeiros meses, "quase a mesma propor��o das baixas sofridas pela Uni�o Sovi�tica durante a Segunda Guerra Mundial", sinal de sucessos ainda maiores que viriam depois.

Os governos ocidentais tinha total consci�ncia do que estava acontecendo durante todo o tempo, ao contr�rio do que se fingiu depois. Conforme foi revelado em registros internos que vazaram, o pior medo de Kissinger era que sua cumplicidade na agress�o se tornasse p�blica e "fosse usada contra mim" por inimigos pol�ticos, reais ou imagin�rios. Os telegramas trocados mostram que depois que "Suharto recebeu a luz verde", a principal preocupa��o da embaixada e do Departamento de Estado dos EUA era "com os problemas que seriam criados para n�s se o p�blico e o Congresso ficassem sabendo" do papel desempenhado pelos Estados Unidos, de acordo com Philip Liechty, ent�o funcion�rio graduado da CIA em Jacarta.

As armas fornecidas pelos Estados Unidos se limitavam estritamente � autodefesa. Isto n�o apresentava nenhum problema para o realismo Kissingeriano: "E n�s n�o podemos interpretar (a luta contra) um governo comunista no meio da Indon�sia como autodefesa?", perguntou Kissinger com ironia, quando a quest�o foi levantada para discuss�o interna. Um Timor Leste independente seria "comunista", de acordo com os crit�rios habituais: poderia n�o seguir ordens com prontid�o suficiente, interferindo com o "interesse nacional". Novas armas foram mandadas, inclusive equipamento de contra-insurg�ncia; "tudo que se precisa para travar uma guerra importante contra algu�m que n�o tem nenhuma arma de fogo", comenta Liechty, acrescentando que o equipamento militar de ponta provou ser decisivo, conforme confirmam outras fontes.

Se tivesse ocorrido alguma interpela��o, grandes precedentes poderiam ter sido citados. "Grandes esp�ritos d�o pouca import�ncia para pequenas quest�es morais", observou um outro estadista, h� dois s�culos.

Em 1977, a Indon�sia encontrou-se com falta de armas, um ind�cio da escala de seu ataque. A administra��o Carter acelerou o fluxo de armas. A Inglaterra passou a participar, quando as atrocidades chegaram ao auge em 1978, enquanto a Fran�a anunciava que venderia armas para a Indon�sia e a protegeria de qualquer "constrangimento" p�blico. Outros tamb�m procuraram tirar o maior proveito poss�vel do massacre e tortura dos timorenses.

A imprensa acrescentou sua contribui��o. Tinha havido grande cobertura de Timor Leste nos Estados Unidos em 1974-75, em meio a preocupa��es com o desmantelamento do imp�rio portugu�s. Conforme prosseguia outro "banho de sangue fervendo", a cobertura diminu�a, limitando-se em grande parte �s mentiras e justificativas do Departamento de Estado e dos generais indon�sios. Em 1978, enquanto o massacre atingia propor��es de genoc�dio, a cobertura chegou a zero. O mesmo ocorreu no Canad�, outro grande sustentador da Indon�sia.

Em 1990, a quest�o de Timor recebeu alguma aten��o quando o Iraque invadiu o Kuwait, provocando uma resposta do Ocidente bastante diferente de sua rea��o � invas�o muito mais sangrenta da Indon�sia, e � sua anexa��o de um pequeno pa�s vizinho, rico em petr�leo. Foi demonstrada muita criatividade para explicar que a diferen�a n�o estava na localiza��o do poder e do lucro, mas em alguma qualidade mais sutil que preserva a virtude anglo-americana. Gin�sticas semelhantes tinham sido realizadas uma d�cada antes, para justificar as rea��es radicalmente diferentes a atrocidades que aconteceram ao mesmo tempo no Camboja e em Timor; decisivamente diferentes, com certeza, pelo fato de que a �ltimas poderiam ter sido terminadas prontamente.

Alguns comentaristas foram francos. O ministro do Exterior da Austr�lia, Gareth Evans, explicou em 1990 que "o mundo � um lugar bastante injusto, cheio de exemplos de aquisi��es pela for�a". J� que "n�o somos obrigados legalmente a n�o reconhecer a aquisi��o de territ�rio que foi tomado pela for�a", a Austr�lia p�de passar a partilhar o petr�leo de Timor com o conquistador. Essa desobriga��o presumivelmente n�o se estenderia a um tratado entre L�bia e Iraque sobre o petr�leo do Kuwait. Enquanto isto, o primeiro-ministro Hawke da Austr�lia declarava que "pa�ses grandes n�o podem invadir vizinhos pequenos impunemente" (referindo-se a Iraque e Kuwait); "agressores potenciais v�o pensar duas vezes antes de invadir vizinhos menores", confiando na li��o de que "o dom�nio da lei deve prevalecer sobre o dom�nio da for�a nas rela��es internacionais"- pelo menos, quando o "interesse nacional" assim o decide.

A quest�o de Timor atingiu o limite novamente em novembro de 1991, quando tropas indon�sias atacaram uma multid�o que participava no cemit�rio do enterro de pessoas assassinadas anteriormente, massacrando centenas e ferindo seriamente dois rep�rteres norte-americanos. O erro t�tico exigiu a opera��o padr�o de encobrimento, considerada satisfat�ria pelos l�deres ocidentais. A explora��o do petr�leo continuou, tendo sido noticiados contratos com companhias australianas, brit�nicas, japonesas, holandesas e americanas, nos seis meses que se seguiram ao massacre. "Para os governantes capitalistas", escreveu um sacerdote timorense, "o petr�leo de Timor tem cheiro melhor que o sangue e as l�grimas timorenses".

A raz�o principal pela qual a Indon�sia poderia considerar "tirar o sapato" foi revelada nas palavras finais dos fortes e reveladores cap�tulos sobre Timor na edi��o de 1994 da obra de John Pilger: Distant Voices. A raz�o � "o persistente hero�smo do povo de Timor Leste, que continua a resistir aos invasores mesmo enquanto as cruzes se multiplicam nas encostas dos morros", um constante "lembrete da falibilidade da for�a bruta e do cinismo de outros".

Por mais corajoso que seja, o povo de Timor Leste n�o tem nenhuma esperan�a sem o apoio exterior. N�o h� coragem e unidade que impe�am a transmigra��o indon�sia, as atrocidades e a destrui��o da cultura nativa, financiadas e sustentadas pela grandes pot�ncias.

Embora o ritmo tenha sido lent�ssimo, o apoio aos direitos dos timorenses finalmente atingiu um n�vel significativo nos Estados Unidos. A verdade come�ou a se infiltrar no dom�nio p�blico, obrigando os meios de comunica��o a dar alguma aten��o aos fatos e levantando impedimentos ao "desenrolar pragm�tico".

Um cabe�alho do jornal Boston Globe, no anivers�rio do massacre de 1991, diz: "General indon�sio, amea�ado de processo, foge de Boston". Mandado para a Universidade de Harvard, para estudar, ap�s o massacre, o general foi alvo de um processo movido por uma mulher cujo filho foi um dos assassinados no cemit�rio - e muitos mais foram mortos depois, como revelaram Pilger e o corajoso acad�mico indon�sio George Aditjondro, que publicaram o resultado de investiga��o baseadas em 20 anos de pesquisas, que comprovam as piores estimativas das atrocidades. A consci�ncia popular e os ativistas t�m se tornado suficientemente fortes para que os respons�veis por assassinatos em massa, antes amigos, n�o possam mais encontrar ref�gio confort�vel nos Estados Unidos, conforme tinha descoberto um ano antes, de modo semelhante, um dos principais assassinos da Guatemala, general Hector Gramajo.

O Congresso imp�s barreiras � ajuda e treinamento militar, que a Casa Branca precisou evitar de modo cada vez mais tortuoso, especialmente nos meses mais recentes. Percebendo a oportunidade, a Inglaterra se moveu de modo eficaz sob a orienta��o de Thatcher, para ocupar o primeiro lugar na empresa altamente lucrativa de crimes de guerra. Conforme explicou o ministro de Defesa, Alan Clark, "na verdade, n�o quebro muito a cabe�a com aquilo que um grupo de estrangeiros est� fazendo a outro", quando h� dinheiro a ser conseguido pela venda de armas. Precisamos insistir em "nos reservar o direito de bombardear negros", como reconheceu Lloyd George, h� 60 anos.

A recente obra de John Pilger, inclusive seu not�vel document�rio baseado em sua visita a Timor Leste, amea�a despertar o p�blico ocidental para uma consci�ncia maior daquilo que est� sendo perpetrado em seu nome. O grande potencial disto se torna patente nas respostas zangadas que altos funcion�rios do governo t�m dado. Afastar os v�us de engano que escondem o mundo real n�o � um realiza��o pequena. No entanto, este ir� se juntar a outros esfor�os que falharam, a menos que a resposta do p�blico v� al�m da mera consci�ncia, chegando a a��es para terminar com a vergonhosa cumplicidade no crime.

(*) Noam chomsky � o mais renomado ling�ista norte-americano. Tem-se destacado internacionalmente na luta pelos Direitos Humanos.

(In: The Guardian, Londres, 7/5/94)

Obs: texto retirado do Livro: TIMOR LESTE - Este Pa�s Quer Ser Livre

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