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Est� p�gina foi atualizada pela �ltima vez em:  26-abr-2001.

 

 

 

CULTURA – ESTAMOS CONSTRU�NDO ESTA P�GINA, QUE SE DIVIDIR� EM MANIFESTA��O PURAMENTE LITER�RIA(CONTOS,CRONICA,POESIAS,ROMANCES,....), BEM COMO MUSICA, ARTES PL�STICAS, ET

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LITERATURA:

- POESIA

 OBS: Os textos, poemas seguintes: Ami Aman, P�tria, Um minuto de sil�ncio, Mensagem do Terceiro Mundo, Poema triste, Povo sem voz, Mudan�a de estado, Menino Jesu da minha cor, Poema , e O crocodilo que se fez Timor: foram retirados do livro, abaixo.

TIMOR LESTE - Este Pa�s Quer Ser Livre, Organiza��o S�lvio L. Sant’Anna, Editora Martin Claret, S�o Paulo, SP.

. A venda na - Livraria Portugal, Rua Genebra 165, Bela Vista, S�o Paulo, SP

Tel.: (011) - 606.0877 e 604.1748 e Fax.: (011)-232.2071

 

POEMA (*)

Xanana Gusm�o

Pisaste um dia a terra descal�a

do "bua" e do "malus",

paraste um dia � sombra da casa alta

estranhando o "tuaka"

e reparaste no seu dono

cobrindo com a nudez do seu "hakfolik"

a campa dos antepassados.

Miraste o seu suor t�rrido

lavando as faces do seu rosto sujo;

ouviste ainda o seu "hamulak

entoado em "tais" do seu "lulik"

e respeitaste o "manuaten"

Conheceste, na pobreza da sua pele,

o magro olhar altivo

profundamente rude

infinitamente �ntimo.

E o dono da terra guardou o seu "ai-suak"

matou o seu "karau"

e levantou o "odan"

agarrou no "tali"

e saiu em busca do seu "kuda"

esgrimindo o "surik" contra o "naog’tem";

e de longe, de mui longe,

de c� dos oceanos,

ferido, ensang�entado,

mas firme no ber�o do crocodilo *

arremessou o seu "diman"

e sibilando no espa�o da hist�ria

rude e profundamente

te rasgou a carne

e �ntima e infinitamente

abra�ou a tua alma de portugu�s,

e tu amaste-o ...

e de longe, de mui longe,

de c� dos oceanos

arremessou o seu "diman"

que rude e profundamente

te atravessou a carne

e �ntima e infinitamente

abra�ou a tua alma ...

e tu ... amaste-o ! ...

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AMI AMAN

Amin Aman, iha lalehan, (Pai nosso, que estais no C�u...)

tulun ema atu hahi Ita Naran;

halo Ita Nia reinu to’o mai ami;

haraik tulun ba ema atu tuir Ita Nia hararak

iha rai nu’udar iha lalehan.

Ohin Ne’e,

haraik ai-han La-loron nian mai ami;

haraik perdue mai ami salan

nu’udar ami perdua ba ema halo aat ami;

labele husik ami monu ba tentas�o,

maib� hasai ami hosi buat aat.

(In: Timor Timorense Com suas L�nguas, Literaturas, Lusofonia...,

Artur Marcos, Edi��es Colibri, Lisboa, 1995.)

 

P�TRIA

Xanana Gusm�o (*)

P�tria �, pois, o sol que deu o ser

Drama, poema, tempo e o espa�o,

Das gera��es, que passam, forte la�o

E as verdades que estamos a viver.

P�tria... � sepultura... � sofrer

De quem marca, co’a vida, um novo passo.

Ao povo - uma P�tria - �, num tra�o

simples... Independ�ncia at� morrer !

Do trabalho o ber�o, paz, tormento,

P�tria � a vida, orgulho, a alian�a

Da alegria, do amor, do sentimento.

P�tria... � tradi��es, passado e heran�a !

O som da bala � ... P�tria, de momento !

P�tria ... � do futuro a esperan�a !

(*) O autor � tamb�m conhecido por Kay Rala Xanana Gusm�o, Sha’Na Na e ainda por Jos� Alexandre Gusm�o.

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Um minuto de

sil�ncio

Borja da Costa (*)

 

Calai

Montes

Vales e fontes

Regatos e ribeiros

Pedras dos caminhos

E ervas do ch�o,

Calai

Calai

P�ssaros do ar

E ondas do mar

Ventos que sopram

Nas praias que sobram

De terras de ningu�m,

Calai

Calai

Canas e bambus

�rvores e "ai-r�s"

Palmeiras e capim

Na verdura sem fim

Do pequeno Timor,

Calai

 

Calai

Calai-vos e calemo-nos

POR UM MINUTO

� tempo de sil�ncio

No sil�ncio do tempo

Ao tempo de vida

Dos que perderam a vida

Pela P�tria

Pela Na��o

Pelo Povo

Pela Nossa

Liberta��o

Calai - Um minuto de sil�ncio...

(*) Francisco Borja da Costa (1946-1975). Sua obra liter�ria foi publicada tamb�m em Mo�ambique, Angola, Portugal, Austr�lia e Holanda. Morreu prematuramente, v�tima da invas�o indon�sia.

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AMI AMAN

Amin Aman, iha lalehan, (Pai nosso, que estais no C�u...)

tulun ema atu hahi Ita Naran;

halo Ita Nia reinu to’o mai ami;

haraik tulun ba ema atu tuir Ita Nia hararak

iha rai nu’udar iha lalehan.

Ohin Ne’e,

haraik ai-han La-loron nian mai ami;

haraik perdue mai ami salan

nu’udar ami perdua ba ema halo aat ami;

labele husik ami monu ba tentas�o,

maib� hasai ami hosi buat aat.

 

(In: Timor Timorense Com suas L�nguas, Literaturas, Lusofonia...,

Artur Marcos, Edi��es Colibri, Lisboa, 1995.)

 

P�TRIA

Xanana Gusm�o (*)

P�tria �, pois, o sol que deu o ser

Drama, poema, tempo e o espa�o,

Das gera��es, que passam, forte la�o

E as verdades que estamos a viver.

P�tria... � sepultura... � sofrer

De quem marca, co’a vida, um novo passo.

Ao povo - uma P�tria - �, num tra�o

simples... Independ�ncia at� morrer !

Do trabalho o ber�o, paz, tormento,

P�tria � a vida, orgulho, a alian�a

Da alegria, do amor, do sentimento.

P�tria... � tradi��es, passado e heran�a !

O som da bala � ... P�tria, de momento !

P�tria ... � do futuro a esperan�a !

(*) O autor � tamb�m conhecido por Kay Rala Xanana Gusm�o, Sha’Na Na e ainda por Jos� Alexandre Gusm�o.

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Um minuto de

sil�ncio

Borja da Costa (*)

 

Calai

Montes

Vales e fontes

Regatos e ribeiros

Pedras dos caminhos

E ervas do ch�o,

Calai

Calai

P�ssaros do ar

E ondas do mar

Ventos que sopram

Nas praias que sobram

De terras de ningu�m,

Calai

Calai

Canas e bambus

�rvores e "ai-r�s"

Palmeiras e capim

Na verdura sem fim

Do pequeno Timor,

Calai

 

Calai

Calai-vos e calemo-nos

POR UM MINUTO

� tempo de sil�ncio

No sil�ncio do tempo

Ao tempo de vida

Dos que perderam a vida

Pela P�tria

Pela Na��o

Pelo Povo

Pela Nossa

Liberta��o

Calai - Um minuto de sil�ncio...

(*) Francisco Borja da Costa (1946-1975). Sua obra liter�ria foi publicada tamb�m em Mo�ambique, Angola, Portugal, Austr�lia e Holanda. Morreu prematuramente, v�tima da invas�o indon�sia.

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Mensagem do

Terceiro Mundo

Fernando Silvan (*)

N�o tenhas medo de confessar que me sugaste o sangue

E esgravataste chagas no meu corpo

E me tiraste o mar do peixe e o sal do mar

E a �gua pura e a terra boa

E levantaste a cruz contra os meus deus

E me calasse nas palavras que eu pensava.

N�o tenhas medo de confessar que te inventasse mau

Nas torturas em milh�es de mim

E que me cavas s� o ch�o que recusavas

E o fruto que te amargava

E o trabalho que n�o querias

E menos de metade do alfabeto.

N�o tenhas medo de confessar o esfor�o

De silenciar os meus batuques

E de apagar as queimadas e as fogueiras

E desvendar os segredos e os mist�rios

E destruir todos os meus jogos

E tamb�m os cantares dos meus av�s.

N�o tenhas medo, amigo, que te n�o odeio.

Foi essa a minha hist�ria e a tua hist�ria.

E eu sobrevivi

Para construir estradas e cidades a teu lado

E inventar f�bricas e Ci�ncia,

Que o mundo n�o pode ser feito s� por ti.

(*) O poeta Fernando Silvan, nasceu em D�li em 1917, mas viveu a maior parte de sua vida em Portugal, onde veio a falecer, em 1993, na cidade de Cascais. Apesar da dist�ncia de sua terra natal, sua obra liter�ria � express�o aut�ntica da cultura maubere.

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Poema triste

 

Fitun Fuik

 

Por que calcas meu solo ?

Por que matas minha gente ?

Meus verdes alcantilados,

minhas azuis montanhas

querem a paz,

a paz que todos queremos.

Minha aldeia sossegada

beija os aromas puros

das minhas humildes montanhas

que querem a paz,

para no sil�ncio e na paz

construir a paz.

Porque tu,

com tanto progresso t�cnico,

tens inveja daquilo

que eu n�o tenho,

n�o possuo,

mas quero ser.

Ser como o Senhor me fez,

nascer com a paz,

viver na paz

e dormir sonhando a paz ! ...

 

Quem acredita que eles n�o matam,

n�o assassinam !

Quem cr� que eles querem construir na guerra,

com o cano das suas armas,

a minha aldeia.

Minha natureza contempla,

em sil�ncio, suas obras.

As cascatas das �guas nascentes

das minhas montanhas levam os males

que eles cometeram,

para assim dar ao mundo,

aos fortes,

a honra e a gl�ria !

Eu, no meu sil�ncio, choro

para que meus choros n�o ultrajem

a honra dos grandes.

Falo sem nada dizer

para que meus vizinhos me n�o gritem.

Acredito que a Paz existe para mim,

morrendo ! ...

 

(In: Coral, 2 de Setembro de 1992, p. 66)

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Povo sem voz

Xanana Gusm�o

 

Nosso grito � o sil�ncio

na passagem do tempo

e o tempo � o sangue

no sil�ncio do mundo !

 

- Ouvi, mundos !

Ouvi, gentes da pol�tica !

Invadistes a nossa P�tria com o Suharto,

isolastes Timor-Leste na guerra fria

e torturasses-nos com a indiferen�a

e matastes-nos com a cumplicidade.

 

- Ouvi, ouvi as vossas culpas !

Desengajastes a nossa causa com Jacarta,

minimizastes o nosso direito na ONU

e prendestes-nos com i�nes

e massacrastes-nos com d�lares.

 

Nosso tempo � o sil�ncio

nas mudan�as do mundo

e o sangue � o pre�o

nos mundos do sil�ncio !

 

- Ouvi, mundos !

Ouvi, gentes do poder !

Aben�oastes a mortandade com Catedrais,

enterrastes a trag�dia nos investimentos

e desafiastes a nossa consci�ncia

e reprimistes os nossos anseios.

 

- Ouvi, ouvi as vossas culpas !

Atrai�oastes os vossos pr�prios princ�pios,

manipulastes as vossas pr�prias normas

e encarcerastes-nos na realpolitik

e matastes-nos como os direitos humanos.

 

... Somos POVO SEM VOZ

alma sem fronteira com a dor

corpo na escravid�o aberto ao tempo

P�tria - um cemit�rio de interesses !

A nossa luta...

� a hist�ria

do poder do sil�ncio !

 

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Mudan�a de estado

Ruy Cinatti (*)

51

Por tr�s dos montes conhe�o

quem me aceita por marido,

se, em troca, resolver

viver a vida perdido.

 

Casado, � melhor que s�

viver a vida perdido.

 

52

 

Quero dar-me � minha gente,

como quem cumpre um dever,

mas n�o tenho prata em casa,

nem b�falos para oferecer.

 

Nada tenho para trocar,

nem b�falos para oferecer.

 

53

 

Quem a det�m pede muito,

mas n�o cesso de clamar:

A sua filha � j� grande,

meu tio, tem que ma dar !

 

Minha m�e � sua irm�.

Meu tio, tem que ma dar !

 

54

 

Deixando-vos, estou s�

absorto num pensamento.

N�o poderei enla�ar-vos

� vista de todos n�s.

 

Somos diferentes fam�lias

� vista de todos n�s.

 

55

 

Meu tio, n�o me desgrace.

Nada tenho e sou herdeiro.

Nada tenho para dar-vos,

sequer a pele de um carneiro.

 

Por vossa filha n�o troco

sequer a pele de um carneiro.

 

56

 

Por tantos porcos e panos,

dei-vos cavalos e espadas.

Mas guardei s� para ti

um colar de coralina.

 

Em cada conta contei

um colar de coralina.

 

57

 

B�tle, eu tenho par dar,

mas n�o a folha escolhida.

Essa s� a ti pertence,

porque �s a minha vida.

 

Trincamo-la ambos juntos,

porque �s a minha vida.

 

58

 

Quando subo a escada, agarro-me

ao beiral da nossa porta.

Alto, meus olhos n�o v�em

algu�m que me espera � porta.

 

Se cair, agarro a m�o

de algu�m que me espera � porta.

 

59

 

Nossos pais n�o querem ver

O muito que nos amamos,

a ponto de termo sido

um s� corpo sobre a lama.

 

O nosso filho ser�

um s� corpo sobre a lama.

 

60

 

Eu desbasto o mato grosso

e lavro a terra queimada.

Tu semeias, d�s o seio

ao filho da nossa carne.

 

O milho nasceu igual

ao fruto da nossa carne.

 

61

 

Dificuldades na vida conjugal.

Vi-te afiar a catana

� beira da nossa porta.

Noite fora, adormeci

junto � casa de meus pais.

 

Minha cabe�a n�o cortas

junto � casa de meus pais.

 

62

 

Tenho fome, tenho frio.

Alimento-me de musgo.

Ando no mundo sozinho.

Estou de luto e ando sujo.

 

63

 

Miser�vel creatura,

pe�o socorros ao c�u.

O pombo arrulha no monte.

N�o sei se � tarde ou cedo.

 

Teu cora��o � o meu.

Sei que � tarde e sei que � cedo.

 

(In: Um Cancioneiro par Timor, Ruy Cinatti, Editorial Presen�a, Lisboa, 1996.)

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Menino Jesus da

minha cor

Fernando Sylvan

 

Meu Natal Timor,

Meu primeiro Natal.

 

Quantos anos tinha ?!

Nunca o soube ao certo.

 

Minha M�e-Menina

Fez-me o seu pres�pio:

Uma encosta arrancada ao Ramelau

Com uma gruta ausente

Cheia de Maromak

E perfume de coco,

Um b�falo e um kuda

E o bafo quente dos seus pulm�es.

 

E um metiino sobre palha de arroz

E folhas de cafeeiro.

 

Um menino branco

Igual aos que chegavam de longe.

- �nan, quem � ?

 

- � o Maromak-Filho e teu Irm�o !

E eu recuei, porque via no ber�o

Um menino rosado,

Um menino branco

Igual aos que chegavam de longe.

 

- Ele �, mais do que todos, teu Irm�o...

- Mas como pode ser um meu irm�o ?

- � teu Irm�o: Firma-lhe bem teus olhos, meu Amor!

 

E eu, obedecendo,

Firmei-me todo nEle.

E vejo-O desde ent�o

Tamb�m da minha cor !

 

(In: 7 Poemas de Timor, 1965; tamb�m in A voz Fagueira de Oan Timor, Lisboa, Edi��es Colibri, 1993).

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LENDAS DO TIMOR LESTE

O CROCODILO QUE SE FEZ TIMOR

Fernando Sylvan

Disseram, e eu ouvi, que desde h� muitos s�culos um crocodilo vivia num p�ntano. Este crocodilo sonhava crescer, ter mesmo um tamanho descomunal. Mas a verdade � que ele n�o s� era pequeno, como vivia num espa�o apertado. Tudo era estreito � sua volta, somente o sonho dele era grande.

O p�ntano, � de ver, � o pior s�tio para morar. �gua parada, pouco funda, suja, abafada por margens esquisitas e indefinidas. Ainda por cima, sem abund�ncia de alimentos ao gosto de um crocodilo.

Por tudo isto, o crocodilo estava farto de viver naquele p�ntano, mas n�o tinha outra morada.

Ao longo do tempo, milhares de anos, parece, o que ia valendo ao crocodilo era o ele grande conversador. Enquanto estava acordado, conversava, conversava. � que este crocodilo fazia perguntas a si mesmo e, depois, como se ele pr�prio fosse outro, respondia-se-lhe.

De Qualquer maneira, conversar assim, isoladamente, durante s�culos gastava os assuntos. Por outro lado, o crocodilo come�ava j� a passar fome. Por dois motivos: primeiro, porque havia naquele charco pouco peixe e outra bicharada que lhe conviesse para refei��o; segundo, porque s� muito ao largo passava ca�a de categoria e tenra: cabritos, porquitos, c�es...

Muitas vezes, exclamava para si pr�prio:

- Que grande ma�ada viver com t�o pouco, e num s�tio destes !

- Tem paci�ncia, tem paci�ncia... - dizia a si pr�prio.

- Mas viver de paci�ncia n�o � coisa que alimente um crocodilo - recalcitrava-se-lhe.

Naturalmente que tudo tem um limite. Incluindo a resist�ncia `a fome. E o crocodilo entrou a sentir uma franqueza que lhe quebrava o �nimo e o definhava. Os seus olhos iam-se amortecendo e j� quase n�o podia levantar a cabe�a e abrir a boca.

- Tenho de sair deste lugar, e procurar ca�a mais al�m...

Esfor�ou-se, galgou a margem e foi ganhando caminho atrav�s do lodo e, depois, da areia. O sol estava a pino, aquecia a areia, transformava todo o ch�o em brasas. N�o havia safa, o crocodilo perdia o resto das suas for�as e ia ficar, ali, assado.

Foi nesta altura que passou pelo s�tio um rapazinho vivaz que exprimia os seus pensamentos cantarolando.

- Que tens, Crocodilo, ah !, como tu est�s ?! Tens as pernas partidas, caiu-te alguma coisa em cima ?

- N�o, n�o parti nada, estou completamente inteiro, mas, apesar de ser pequeno de corpo, h� muito n�o ag�ento com o meu pr�prio peso. Imagina que nem for�as tenho j� para sair deste braseiro.

Respondeu o rapazinho:

- Se � s� por isso, posso ajudar-te - e logo de seguida, deu uns passos, carregou o crocodilo e foi p�-lo � beira do p�ntano.

No que o rapazinho n�o reparava, era que, enquanto carregava o crocodilo, ele se animava ao ponto de arregalar os olhos, abrir a boca e passar a l�ngua pela serra dos seus dentes.

- Este rapazinho deve ser mais saboroso do que tudo o provei e vi em toda a minha vida - e imaginava-se a dar-lhe uma chicotada com a cauda para adormec�-lo e, depois, devor�-lo.

- N�o sejas ingrato - diz-lhe o outro com que ele conversava e era ele mesmo.

- A fome tem os seus direitos.

- Isso, � verdade, mas olha que trair um amigo � um ato indigno. E este, � o primeiro amigo que tens.

- Ent�o, vou deixar-me ficar na mesma, e morrer � fome ?

- O rapazinho fez-te o que era preciso, salvou-te. Afora se quiseres sobreviver, trabalha e procura alimento.

- Isso � verdade...

E quando o rapazinho o pousou no ch�o molhado, o crocodilo sorriu, dan�ou com os olhos, sacudiu a cauda, e disse-lhe:

- Obrigado. �s o primeiro amigo que encontro. Olha, n�o posso dar-te nada, mas se pouco mais conheces do que este charco, aqui, t�o � nossa vista, e se um dia quiseres passear por a� afora, atravessar o mar, vem ter comigo...

- Gostava mesmo, porque o meu sonho grande � ver o que mais h� por esse mar afora.

- Sonho...falaste em sonho ? Sabes, eu tamb�m sonho...

- arrematou o crocodilo.

Separaram-se, sem que o rapazinho sequer suspeitasse de que o crocodilo chegara a estar tentado a com�-lo. E ainda bem.

Passados tempos, o rapazinho apareceu ao crocodilo. J� quase o n�o reconhecia. Via-o sem sinais das queimaduras, gordo, bem comido...

- Ouve, crocodilo, o meu sonho n�o parou, e eu n�o o ag�ento mais c� dentro.

- O prometido � prometido... Aquele meu sonho...

Mas com tanta ca�a que tenho arranjado, quase me esquecia dele. Fizeste bem em vir lembrar-me, rapazinho. Queres, agora mesmo, ir por esse mar afora ?

- Isso, s� isso, crocodilo.

- Pois eu, agora, tamb�m. Vamos ent�o.

Ficaram ambos contentes com o acordo. O rapazinho acomodou-se no dorso do crocodilo, como numa canoa, e partiram para o alto mar.

Era tudo t�o grande e t�o lindo !

O mais surpreendente, para os dois, era o pr�prio espa�o, o tamanho do que se estendia � sua frente e para cima, uma coisa sem fim. Dia e noite, noite e dia, nunca pararam. Viam ilhas de todos os tamanhos, de onde as �rvores e as montanhas lhes acenavam. E as nuvens tamb�m. N�o sabiam se eram mais bonitos os dias, se as noites, se as ilhas, se as estrelas.

Caminharam, navegaram, sempre voltados para o sol, at� o crocodilo se cansar.

- Ouve-me, rapazinho, n�o posso mais ! O meu sonho acabou...

O meu n�o vai acabar.

Ainda o rapazinho n�o tinha dito a �ltima palavra, o aumentou, aumentou de tamanho, mas sem nunca perder a sua forma primitiva, e transformou-se numa ilha carregada de montes, de florestas e de rios.

� p�r isso que Timor tem a forma do crocodilo.

 

(*) - (In: Cantolenda Maubere - Hananaknanoik Maubere - The Legends of the Mauberes, Lisboa, Funda��o Austron�sia Borja da Costa, 1988).

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BRASILEIROS - TIMOR-POESIAS

A Ti Amor ... Timor Leste

( Ant�nio de P�dua - COMIT� BSB SOL. AO TIMOR LESTE )

Bras�lia - abril de 1997.

� Maria Em�lia.

Mulher guerreira timorense.

Orgulho do Povo Maubere.

Revolucion�ria.

A ti amor

t�o distante do meu olhar

eu te rimo no meu chorar meu

imaginando as l�grimas de sangue

derramadas nos rostos de nossas m�es.

Dessas mulheres gr�vidas e parteiras de seus frutos

e muito mais ainda pela aus�ncia deles, meninos guerreiros

que dedicam suas vidas sobre � sua terra subtra�da, anexada.

A ti meu amor, paix�o maior

assim de t�o longe do teu ventre

me recuso a te rimar com toda essa dor

com o temor, com pavor, com o terror do vizinho seu !

Pois o seu sofrimento � o meu compromisso

pois a sua luta � minha luta

uma luta de nossa liberdade e por todo sempre.

Ent�o, a minha rima � uma rima fresca

como o orvalho doce da aurora

te rimo com o carinho necess�rio

ritmo de quem com carinho e ternura

afaga uma crian�a e a faz dormir com todo cuidado ...

E a ti amor, abro o meu cora��o e rimo ainda.

E ajudado pelo turbilh�o leste, rimo a minha esperan�a,

e nas minhas veias misturo o seu sangue no meu sangue

e declaro ao vento o meu amor a ti ... a ti amor

A minha luta pela sua liberdade,

A ti amor ... Timor Leste !

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O GRITO DO PEQUENO TIMOR

Ata�ro Tonnin

Este poema � uma homenagem aos her�is da RESIST�NCIA TIMORENSE. �queles e �quelas que morreram, aos que foram violentados, aos que tiveram suas casas destru�das e �queles que foram e/ou est�o sendo perseguidos. Tamb�m por Xanana Gusm�o, Ramos-Horta, Ximenes Belo, Roque Rodrigues, David Alex e todo o povo oprimido, que apesar de tudo, com tudo e por tudo, continuam lutando. Lutando e clamando por seus direitos humanos e divinos. Vida, VIDA E LIBERDADE PARA O TIMOR LESTE.

 

Salvem-me, sou o povo Maubere.

Eu sou pequeno valente,

Mas, sozinho n�o posso

conter o tigre invasor,

que tem nos olhos, cobi�a

e a fome da morte, na boca.

Matando, pilhando, sem piedade.

Muitos !!! Disso sabem e viram as costas. Calam a boca,

Pelo negro petr�leo, pela for�a das armas,

deixaram ceifar, 350 mil vidas.

Vidas !!! Vidas perdidas !!

Holocausto moderno; limpeza �tnica.

E a �tica, e a l�gica e o amor.

Isto tudo, valores esquecidos, inv�lidos.

S� v�lido, o peso da espada,

o dano, a dor, a morte.

Clamamos ao mundo, em um brado de dor.

Companheiro, nesta nave-m�e-terra. Desprotegidos,

Precisamos de ti, do teu bra�o, tua voz, tua guarida.

Nossa for�a, sobrevida,

depende de sua acolhida,

Lutamos pela vida e liberdade,

Luta justa, desesperada,

contra o frio assassino, de palavras cifradas.

Grito - Aos amantes da vida.

Grito - Aos amantes da paz.

Abram seus olhos, Abram seus cora��es,

Salvem-nos, salvem-nos,

Salvem Timor, salvem-nos,

Salvem Timor.

Estamos lutando, fa�a sua parte,

irm�o, pequeno irm�o. Grito convosco,

empresto a minha voz, meu grito

Salvem-nos, salvem-nos

Salvem Timor.

Levem nosso grito de luta.

Levem nosso grito de dor.

Levem nosso grito de liberdade.

Levem nosso grito. Liberdade Xanana. Liberdade Timor.

Abram seus cora��es,

encham os pulm�es,

gritem nosso grito

gritem conosco, um grito un�ssono.

Liberdade, liberdade,

Liberdade, vida Timor.

Salvem-nos desse genoc�dio.

Contra o tigre ensandecido

Vamos dar um grito.

Um grito ensurdecedor

 

Saiam. Saiam de Timor.

Poder usurpador !!!

N�o matem nossos irm�os de Timor.

Sa�am, Sa�am de Timor.

Liberdade. Liberdade. Vida Timor.

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