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CULTURA ESTAMOS CONSTRU�NDO ESTA P�GINA, QUE SE DIVIDIR� EM MANIFESTA��O PURAMENTE LITER�RIA(CONTOS,CRONICA,POESIAS,ROMANCES,....), BEM COMO MUSICA, ARTES PL�STICAS, ET ============================================================================== LITERATURA: - POESIA OBS: Os textos, poemas seguintes: Ami Aman, P�tria, Um minuto de sil�ncio, Mensagem do Terceiro Mundo, Poema triste, Povo sem voz, Mudan�a de estado, Menino Jesu da minha cor, Poema , e O crocodilo que se fez Timor: foram retirados do livro, abaixo.
. A venda na - Livraria Portugal, Rua Genebra 165, Bela Vista, S�o Paulo, SP Tel.: (011) - 606.0877 e 604.1748 e Fax.: (011)-232.2071
POEMA (*) Xanana Gusm�o Pisaste um dia a terra descal�a do "bua" e do "malus", paraste um dia � sombra da casa alta estranhando o "tuaka" e reparaste no seu dono cobrindo com a nudez do seu "hakfolik" a campa dos antepassados. Miraste o seu suor t�rrido lavando as faces do seu rosto sujo; ouviste ainda o seu "hamulak entoado em "tais" do seu "lulik" e respeitaste o "manuaten" Conheceste, na pobreza da sua pele, o magro olhar altivo profundamente rude infinitamente �ntimo. E o dono da terra guardou o seu "ai-suak" matou o seu "karau" e levantou o "odan" agarrou no "tali" e saiu em busca do seu "kuda" esgrimindo o "surik" contra o "naogtem"; e de longe, de mui longe, de c� dos oceanos, ferido, ensang�entado, mas firme no ber�o do crocodilo * arremessou o seu "diman" e sibilando no espa�o da hist�ria rude e profundamente te rasgou a carne e �ntima e infinitamente abra�ou a tua alma de portugu�s, e tu amaste-o ... e de longe, de mui longe, de c� dos oceanos arremessou o seu "diman" que rude e profundamente te atravessou a carne e �ntima e infinitamente abra�ou a tua alma ... e tu ... amaste-o ! ... = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = AMI AMAN Amin Aman, iha lalehan, (Pai nosso, que estais no C�u...) tulun ema atu hahi Ita Naran; halo Ita Nia reinu too mai ami; haraik tulun ba ema atu tuir Ita Nia hararak iha rai nuudar iha lalehan. Ohin Nee, haraik ai-han La-loron nian mai ami; haraik perdue mai ami salan nuudar ami perdua ba ema halo aat ami; labele husik ami monu ba tentas�o, maib� hasai ami hosi buat aat. (In: Timor Timorense Com suas L�nguas, Literaturas, Lusofonia..., Artur Marcos, Edi��es Colibri, Lisboa, 1995.)
P�TRIA Xanana Gusm�o (*) P�tria �, pois, o sol que deu o ser Drama, poema, tempo e o espa�o, Das gera��es, que passam, forte la�o E as verdades que estamos a viver. P�tria... � sepultura... � sofrer De quem marca, coa vida, um novo passo. Ao povo - uma P�tria - �, num tra�o simples... Independ�ncia at� morrer ! Do trabalho o ber�o, paz, tormento, P�tria � a vida, orgulho, a alian�a Da alegria, do amor, do sentimento. P�tria... � tradi��es, passado e heran�a ! O som da bala � ... P�tria, de momento ! P�tria ... � do futuro a esperan�a ! (*) O autor � tamb�m conhecido por Kay Rala Xanana Gusm�o, ShaNa Na e ainda por Jos� Alexandre Gusm�o. = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = Um minuto de sil�ncio Borja da Costa (*)
Calai Montes Vales e fontes Regatos e ribeiros Pedras dos caminhos E ervas do ch�o, Calai Calai P�ssaros do ar E ondas do mar Ventos que sopram Nas praias que sobram De terras de ningu�m, Calai Calai Canas e bambus �rvores e "ai-r�s" Palmeiras e capim Na verdura sem fim Do pequeno Timor, Calai
Calai Calai-vos e calemo-nos POR UM MINUTO � tempo de sil�ncio No sil�ncio do tempo Ao tempo de vida Dos que perderam a vida Pela P�tria Pela Na��o Pelo Povo Pela Nossa Liberta��o Calai - Um minuto de sil�ncio... (*) Francisco Borja da Costa (1946-1975). Sua obra liter�ria foi publicada tamb�m em Mo�ambique, Angola, Portugal, Austr�lia e Holanda. Morreu prematuramente, v�tima da invas�o indon�sia. = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = AMI AMAN Amin Aman, iha lalehan, (Pai nosso, que estais no C�u...) tulun ema atu hahi Ita Naran; halo Ita Nia reinu too mai ami; haraik tulun ba ema atu tuir Ita Nia hararak iha rai nuudar iha lalehan. Ohin Nee, haraik ai-han La-loron nian mai ami; haraik perdue mai ami salan nuudar ami perdua ba ema halo aat ami; labele husik ami monu ba tentas�o, maib� hasai ami hosi buat aat.
(In: Timor Timorense Com suas L�nguas, Literaturas, Lusofonia..., Artur Marcos, Edi��es Colibri, Lisboa, 1995.)
P�TRIA Xanana Gusm�o (*) P�tria �, pois, o sol que deu o ser Drama, poema, tempo e o espa�o, Das gera��es, que passam, forte la�o E as verdades que estamos a viver. P�tria... � sepultura... � sofrer De quem marca, coa vida, um novo passo. Ao povo - uma P�tria - �, num tra�o simples... Independ�ncia at� morrer ! Do trabalho o ber�o, paz, tormento, P�tria � a vida, orgulho, a alian�a Da alegria, do amor, do sentimento. P�tria... � tradi��es, passado e heran�a ! O som da bala � ... P�tria, de momento ! P�tria ... � do futuro a esperan�a ! (*) O autor � tamb�m conhecido por Kay Rala Xanana Gusm�o, ShaNa Na e ainda por Jos� Alexandre Gusm�o. = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = Um minuto de sil�ncio Borja da Costa (*)
Calai Montes Vales e fontes Regatos e ribeiros Pedras dos caminhos E ervas do ch�o, Calai Calai P�ssaros do ar E ondas do mar Ventos que sopram Nas praias que sobram De terras de ningu�m, Calai Calai Canas e bambus �rvores e "ai-r�s" Palmeiras e capim Na verdura sem fim Do pequeno Timor, Calai
Calai Calai-vos e calemo-nos POR UM MINUTO � tempo de sil�ncio No sil�ncio do tempo Ao tempo de vida Dos que perderam a vida Pela P�tria Pela Na��o Pelo Povo Pela Nossa Liberta��o Calai - Um minuto de sil�ncio... (*) Francisco Borja da Costa (1946-1975). Sua obra liter�ria foi publicada tamb�m em Mo�ambique, Angola, Portugal, Austr�lia e Holanda. Morreu prematuramente, v�tima da invas�o indon�sia. = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = Mensagem do Terceiro Mundo Fernando Silvan (*) N�o tenhas medo de confessar que me sugaste o sangue E esgravataste chagas no meu corpo E me tiraste o mar do peixe e o sal do mar E a �gua pura e a terra boa E levantaste a cruz contra os meus deus E me calasse nas palavras que eu pensava. N�o tenhas medo de confessar que te inventasse mau Nas torturas em milh�es de mim E que me cavas s� o ch�o que recusavas E o fruto que te amargava E o trabalho que n�o querias E menos de metade do alfabeto. N�o tenhas medo de confessar o esfor�o De silenciar os meus batuques E de apagar as queimadas e as fogueiras E desvendar os segredos e os mist�rios E destruir todos os meus jogos E tamb�m os cantares dos meus av�s. N�o tenhas medo, amigo, que te n�o odeio. Foi essa a minha hist�ria e a tua hist�ria. E eu sobrevivi Para construir estradas e cidades a teu lado E inventar f�bricas e Ci�ncia, Que o mundo n�o pode ser feito s� por ti. (*) O poeta Fernando Silvan, nasceu em D�li em 1917, mas viveu a maior parte de sua vida em Portugal, onde veio a falecer, em 1993, na cidade de Cascais. Apesar da dist�ncia de sua terra natal, sua obra liter�ria � express�o aut�ntica da cultura maubere. = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = Poema triste
Fitun Fuik
Por que calcas meu solo ? Por que matas minha gente ? Meus verdes alcantilados, minhas azuis montanhas querem a paz, a paz que todos queremos. Minha aldeia sossegada beija os aromas puros das minhas humildes montanhas que querem a paz, para no sil�ncio e na paz construir a paz. Porque tu, com tanto progresso t�cnico, tens inveja daquilo que eu n�o tenho, n�o possuo, mas quero ser. Ser como o Senhor me fez, nascer com a paz, viver na paz e dormir sonhando a paz ! ...
Quem acredita que eles n�o matam, n�o assassinam ! Quem cr� que eles querem construir na guerra, com o cano das suas armas, a minha aldeia. Minha natureza contempla, em sil�ncio, suas obras. As cascatas das �guas nascentes das minhas montanhas levam os males que eles cometeram, para assim dar ao mundo, aos fortes, a honra e a gl�ria ! Eu, no meu sil�ncio, choro para que meus choros n�o ultrajem a honra dos grandes. Falo sem nada dizer para que meus vizinhos me n�o gritem. Acredito que a Paz existe para mim, morrendo ! ...
(In: Coral, 2 de Setembro de 1992, p. 66) = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = Povo sem voz Xanana Gusm�o
Nosso grito � o sil�ncio na passagem do tempo e o tempo � o sangue no sil�ncio do mundo !
- Ouvi, mundos ! Ouvi, gentes da pol�tica ! Invadistes a nossa P�tria com o Suharto, isolastes Timor-Leste na guerra fria e torturasses-nos com a indiferen�a e matastes-nos com a cumplicidade.
- Ouvi, ouvi as vossas culpas ! Desengajastes a nossa causa com Jacarta, minimizastes o nosso direito na ONU e prendestes-nos com i�nes e massacrastes-nos com d�lares.
Nosso tempo � o sil�ncio nas mudan�as do mundo e o sangue � o pre�o nos mundos do sil�ncio !
- Ouvi, mundos ! Ouvi, gentes do poder ! Aben�oastes a mortandade com Catedrais, enterrastes a trag�dia nos investimentos e desafiastes a nossa consci�ncia e reprimistes os nossos anseios.
- Ouvi, ouvi as vossas culpas ! Atrai�oastes os vossos pr�prios princ�pios, manipulastes as vossas pr�prias normas e encarcerastes-nos na realpolitik e matastes-nos como os direitos humanos.
... Somos POVO SEM VOZ alma sem fronteira com a dor corpo na escravid�o aberto ao tempo P�tria - um cemit�rio de interesses ! A nossa luta... � a hist�ria do poder do sil�ncio !
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = Mudan�a de estado Ruy Cinatti (*) 51 Por tr�s dos montes conhe�o quem me aceita por marido, se, em troca, resolver viver a vida perdido.
Casado, � melhor que s� viver a vida perdido.
52
Quero dar-me � minha gente, como quem cumpre um dever, mas n�o tenho prata em casa, nem b�falos para oferecer.
Nada tenho para trocar, nem b�falos para oferecer.
53
Quem a det�m pede muito, mas n�o cesso de clamar: A sua filha � j� grande, meu tio, tem que ma dar !
Minha m�e � sua irm�. Meu tio, tem que ma dar !
54
Deixando-vos, estou s� absorto num pensamento. N�o poderei enla�ar-vos � vista de todos n�s.
Somos diferentes fam�lias � vista de todos n�s.
55
Meu tio, n�o me desgrace. Nada tenho e sou herdeiro. Nada tenho para dar-vos, sequer a pele de um carneiro.
Por vossa filha n�o troco sequer a pele de um carneiro.
56
Por tantos porcos e panos, dei-vos cavalos e espadas. Mas guardei s� para ti um colar de coralina.
Em cada conta contei um colar de coralina.
57
B�tle, eu tenho par dar, mas n�o a folha escolhida. Essa s� a ti pertence, porque �s a minha vida.
Trincamo-la ambos juntos, porque �s a minha vida.
58
Quando subo a escada, agarro-me ao beiral da nossa porta. Alto, meus olhos n�o v�em algu�m que me espera � porta.
Se cair, agarro a m�o de algu�m que me espera � porta.
59
Nossos pais n�o querem ver O muito que nos amamos, a ponto de termo sido um s� corpo sobre a lama.
O nosso filho ser� um s� corpo sobre a lama.
60
Eu desbasto o mato grosso e lavro a terra queimada. Tu semeias, d�s o seio ao filho da nossa carne.
O milho nasceu igual ao fruto da nossa carne.
61
Dificuldades na vida conjugal. Vi-te afiar a catana � beira da nossa porta. Noite fora, adormeci junto � casa de meus pais.
Minha cabe�a n�o cortas junto � casa de meus pais.
62
Tenho fome, tenho frio. Alimento-me de musgo. Ando no mundo sozinho. Estou de luto e ando sujo.
63
Miser�vel creatura, pe�o socorros ao c�u. O pombo arrulha no monte. N�o sei se � tarde ou cedo.
Teu cora��o � o meu. Sei que � tarde e sei que � cedo.
(In: Um Cancioneiro par Timor, Ruy Cinatti, Editorial Presen�a, Lisboa, 1996.) = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = Menino Jesus da minha cor Fernando Sylvan
Meu Natal Timor, Meu primeiro Natal.
Quantos anos tinha ?! Nunca o soube ao certo.
Minha M�e-Menina Fez-me o seu pres�pio: Uma encosta arrancada ao Ramelau Com uma gruta ausente Cheia de Maromak E perfume de coco, Um b�falo e um kuda E o bafo quente dos seus pulm�es.
E um metiino sobre palha de arroz E folhas de cafeeiro.
Um menino branco Igual aos que chegavam de longe. - �nan, quem � ?
- � o Maromak-Filho e teu Irm�o ! E eu recuei, porque via no ber�o Um menino rosado, Um menino branco Igual aos que chegavam de longe.
- Ele �, mais do que todos, teu Irm�o... - Mas como pode ser um meu irm�o ? - � teu Irm�o: Firma-lhe bem teus olhos, meu Amor!
E eu, obedecendo, Firmei-me todo nEle. E vejo-O desde ent�o Tamb�m da minha cor !
(In: 7 Poemas de Timor, 1965; tamb�m in A voz Fagueira de Oan Timor, Lisboa, Edi��es Colibri, 1993). == = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = LENDAS DO TIMOR LESTE O CROCODILO QUE SE FEZ TIMOR Fernando Sylvan Disseram, e eu ouvi, que desde h� muitos s�culos um crocodilo vivia num p�ntano. Este crocodilo sonhava crescer, ter mesmo um tamanho descomunal. Mas a verdade � que ele n�o s� era pequeno, como vivia num espa�o apertado. Tudo era estreito � sua volta, somente o sonho dele era grande. O p�ntano, � de ver, � o pior s�tio para morar. �gua parada, pouco funda, suja, abafada por margens esquisitas e indefinidas. Ainda por cima, sem abund�ncia de alimentos ao gosto de um crocodilo. Por tudo isto, o crocodilo estava farto de viver naquele p�ntano, mas n�o tinha outra morada. Ao longo do tempo, milhares de anos, parece, o que ia valendo ao crocodilo era o ele grande conversador. Enquanto estava acordado, conversava, conversava. � que este crocodilo fazia perguntas a si mesmo e, depois, como se ele pr�prio fosse outro, respondia-se-lhe. De Qualquer maneira, conversar assim, isoladamente, durante s�culos gastava os assuntos. Por outro lado, o crocodilo come�ava j� a passar fome. Por dois motivos: primeiro, porque havia naquele charco pouco peixe e outra bicharada que lhe conviesse para refei��o; segundo, porque s� muito ao largo passava ca�a de categoria e tenra: cabritos, porquitos, c�es... Muitas vezes, exclamava para si pr�prio: - Que grande ma�ada viver com t�o pouco, e num s�tio destes ! - Tem paci�ncia, tem paci�ncia... - dizia a si pr�prio. - Mas viver de paci�ncia n�o � coisa que alimente um crocodilo - recalcitrava-se-lhe. Naturalmente que tudo tem um limite. Incluindo a resist�ncia `a fome. E o crocodilo entrou a sentir uma franqueza que lhe quebrava o �nimo e o definhava. Os seus olhos iam-se amortecendo e j� quase n�o podia levantar a cabe�a e abrir a boca. - Tenho de sair deste lugar, e procurar ca�a mais al�m... Esfor�ou-se, galgou a margem e foi ganhando caminho atrav�s do lodo e, depois, da areia. O sol estava a pino, aquecia a areia, transformava todo o ch�o em brasas. N�o havia safa, o crocodilo perdia o resto das suas for�as e ia ficar, ali, assado. Foi nesta altura que passou pelo s�tio um rapazinho vivaz que exprimia os seus pensamentos cantarolando. - Que tens, Crocodilo, ah !, como tu est�s ?! Tens as pernas partidas, caiu-te alguma coisa em cima ? - N�o, n�o parti nada, estou completamente inteiro, mas, apesar de ser pequeno de corpo, h� muito n�o ag�ento com o meu pr�prio peso. Imagina que nem for�as tenho j� para sair deste braseiro. Respondeu o rapazinho: - Se � s� por isso, posso ajudar-te - e logo de seguida, deu uns passos, carregou o crocodilo e foi p�-lo � beira do p�ntano. No que o rapazinho n�o reparava, era que, enquanto carregava o crocodilo, ele se animava ao ponto de arregalar os olhos, abrir a boca e passar a l�ngua pela serra dos seus dentes. - Este rapazinho deve ser mais saboroso do que tudo o provei e vi em toda a minha vida - e imaginava-se a dar-lhe uma chicotada com a cauda para adormec�-lo e, depois, devor�-lo. - N�o sejas ingrato - diz-lhe o outro com que ele conversava e era ele mesmo. - A fome tem os seus direitos. - Isso, � verdade, mas olha que trair um amigo � um ato indigno. E este, � o primeiro amigo que tens. - Ent�o, vou deixar-me ficar na mesma, e morrer � fome ? - O rapazinho fez-te o que era preciso, salvou-te. Afora se quiseres sobreviver, trabalha e procura alimento. - Isso � verdade... E quando o rapazinho o pousou no ch�o molhado, o crocodilo sorriu, dan�ou com os olhos, sacudiu a cauda, e disse-lhe: - Obrigado. �s o primeiro amigo que encontro. Olha, n�o posso dar-te nada, mas se pouco mais conheces do que este charco, aqui, t�o � nossa vista, e se um dia quiseres passear por a� afora, atravessar o mar, vem ter comigo... - Gostava mesmo, porque o meu sonho grande � ver o que mais h� por esse mar afora. - Sonho...falaste em sonho ? Sabes, eu tamb�m sonho... - arrematou o crocodilo. Separaram-se, sem que o rapazinho sequer suspeitasse de que o crocodilo chegara a estar tentado a com�-lo. E ainda bem. Passados tempos, o rapazinho apareceu ao crocodilo. J� quase o n�o reconhecia. Via-o sem sinais das queimaduras, gordo, bem comido... - Ouve, crocodilo, o meu sonho n�o parou, e eu n�o o ag�ento mais c� dentro. - O prometido � prometido... Aquele meu sonho... Mas com tanta ca�a que tenho arranjado, quase me esquecia dele. Fizeste bem em vir lembrar-me, rapazinho. Queres, agora mesmo, ir por esse mar afora ? - Isso, s� isso, crocodilo. - Pois eu, agora, tamb�m. Vamos ent�o. Ficaram ambos contentes com o acordo. O rapazinho acomodou-se no dorso do crocodilo, como numa canoa, e partiram para o alto mar. Era tudo t�o grande e t�o lindo ! O mais surpreendente, para os dois, era o pr�prio espa�o, o tamanho do que se estendia � sua frente e para cima, uma coisa sem fim. Dia e noite, noite e dia, nunca pararam. Viam ilhas de todos os tamanhos, de onde as �rvores e as montanhas lhes acenavam. E as nuvens tamb�m. N�o sabiam se eram mais bonitos os dias, se as noites, se as ilhas, se as estrelas. Caminharam, navegaram, sempre voltados para o sol, at� o crocodilo se cansar. - Ouve-me, rapazinho, n�o posso mais ! O meu sonho acabou... O meu n�o vai acabar. Ainda o rapazinho n�o tinha dito a �ltima palavra, o aumentou, aumentou de tamanho, mas sem nunca perder a sua forma primitiva, e transformou-se numa ilha carregada de montes, de florestas e de rios. � p�r isso que Timor tem a forma do crocodilo.
(*) - (In: Cantolenda Maubere - Hananaknanoik Maubere - The Legends of the Mauberes, Lisboa, Funda��o Austron�sia Borja da Costa, 1988). = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = BRASILEIROS - TIMOR-POESIAS A Ti Amor ... Timor Leste ( Ant�nio de P�dua - COMIT� BSB SOL. AO TIMOR LESTE )Bras�lia - abril de 1997. � Maria Em�lia. Mulher guerreira timorense. Orgulho do Povo Maubere. Revolucion�ria. A ti amor t�o distante do meu olhar eu te rimo no meu chorar meu imaginando as l�grimas de sangue derramadas nos rostos de nossas m�es. Dessas mulheres gr�vidas e parteiras de seus frutos e muito mais ainda pela aus�ncia deles, meninos guerreiros que dedicam suas vidas sobre � sua terra subtra�da, anexada. A ti meu amor, paix�o maior assim de t�o longe do teu ventre me recuso a te rimar com toda essa dor com o temor, com pavor, com o terror do vizinho seu ! Pois o seu sofrimento � o meu compromisso pois a sua luta � minha luta uma luta de nossa liberdade e por todo sempre. Ent�o, a minha rima � uma rima fresca como o orvalho doce da aurora te rimo com o carinho necess�rio ritmo de quem com carinho e ternura afaga uma crian�a e a faz dormir com todo cuidado ... E a ti amor, abro o meu cora��o e rimo ainda. E ajudado pelo turbilh�o leste, rimo a minha esperan�a, e nas minhas veias misturo o seu sangue no meu sangue e declaro ao vento o meu amor a ti ... a ti amor A minha luta pela sua liberdade, A ti amor ... Timor Leste ! = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = O GRITO DO PEQUENO TIMOR Ata�ro Tonnin Este poema � uma homenagem aos her�is da RESIST�NCIA TIMORENSE. �queles e �quelas que morreram, aos que foram violentados, aos que tiveram suas casas destru�das e �queles que foram e/ou est�o sendo perseguidos. Tamb�m por Xanana Gusm�o, Ramos-Horta, Ximenes Belo, Roque Rodrigues, David Alex e todo o povo oprimido, que apesar de tudo, com tudo e por tudo, continuam lutando. Lutando e clamando por seus direitos humanos e divinos. Vida, VIDA E LIBERDADE PARA O TIMOR LESTE.
Salvem-me, sou o povo Maubere. Eu sou pequeno valente, Mas, sozinho n�o posso conter o tigre invasor, que tem nos olhos, cobi�a e a fome da morte, na boca. Matando, pilhando, sem piedade. Muitos !!! Disso sabem e viram as costas. Calam a boca, Pelo negro petr�leo, pela for�a das armas, deixaram ceifar, 350 mil vidas. Vidas !!! Vidas perdidas !! Holocausto moderno; limpeza �tnica. E a �tica, e a l�gica e o amor. Isto tudo, valores esquecidos, inv�lidos. S� v�lido, o peso da espada, o dano, a dor, a morte. Clamamos ao mundo, em um brado de dor. Companheiro, nesta nave-m�e-terra. Desprotegidos, Precisamos de ti, do teu bra�o, tua voz, tua guarida. Nossa for�a, sobrevida, depende de sua acolhida, Lutamos pela vida e liberdade, Luta justa, desesperada, contra o frio assassino, de palavras cifradas. Grito - Aos amantes da vida. Grito - Aos amantes da paz. Abram seus olhos, Abram seus cora��es,Salvem-nos, salvem-nos, Salvem Timor, salvem-nos, Salvem Timor. Estamos lutando, fa�a sua parte, irm�o, pequeno irm�o. Grito convosco, empresto a minha voz, meu grito Salvem-nos, salvem-nos Salvem Timor. Levem nosso grito de luta. Levem nosso grito de dor. Levem nosso grito de liberdade. Levem nosso grito. Liberdade Xanana. Liberdade Timor. Abram seus cora��es, encham os pulm�es, gritem nosso grito gritem conosco, um grito un�ssono. Liberdade, liberdade, Liberdade, vida Timor. Salvem-nos desse genoc�dio. Contra o tigre ensandecido Vamos dar um grito. Um grito ensurdecedor
Saiam. Saiam de Timor. Poder usurpador !!! N�o matem nossos irm�os de Timor. Sa�am, Sa�am de Timor. Liberdade. Liberdade. Vida Timor. = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = |