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A Grande Medicina - Tom Pinkson
Transcrição
de palestra realizada no California Pacific Medical
na cidade de São Franscisco,
EUA,
em março de 1992.
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Arte
Huichol
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Eu queria agradecer o Grande Espírito e o Grande Mistério
por nos trazer aqui.
E
o que eu gostaria de fazer é compartilhar alguns conceitos
gerais que ocorrem entre todas as culturas xamânicas
com os quais estive ao redor do mundo. Meu envolvimento
com xamanismo vem desde 1967.
Estudei
com mestres espirituais nativos da América do norte
e do sul.
E
mais recentemente completei um aprendizado de onze anos
com xamãs huicholes das montanhas do centro norte do
México para tomar-me um Mara'kame, um xamã.
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O
que é interessante nessas diferentes culturas xamânicas é
que as pessoas não têm uma palavra para religião, porque o
universo em que vivem é todo animado, vivo, todo ele cheio
de poder, de espírito, de inteligência. Portanto, o primeiro
conceito que eu gostaria de compartilhar tem a ver com o que
o povo Lakota chama de 'o arco sagrado', 'o círculo sagrado'.
Isso quer dizer que todo o universo que está sobre nós, abaixo
de nós, em volta de nós e dentro de nós é interconectado e
interdependente.Não
há nada que seja algo separado.
Os
anciões dizem que o círculo sagrado foi quebrado, e a razão
pela qual estamos experimentando doenças ambientais, psicológicas,
emocionais e sociais hoje, é porque perdemos a consciência
da sacralidade deste círculo. Quebramos o círculo sagrado
e por isso vivemos num mundo cuja percepção e cognição é baseada
na separação. Portanto é natural que tratemos partes de nós,
nosso corpo físico ou nossos sentimentos de uma forma destrutiva,
porque afinal eles estão separados de nós. É natural que tratemos
outras pessoas de forma destrutiva, pois elas também estão
separadas de nós, não são partes de nós. Podemos jogar bombas
nucleares no oceano porque ele não tem nada a ver conosco,
está separado de nós.

É
esta patologia da percepção baseada na separação que nos permite
agir desta maneira. Para a cultura xamânica não há separação,
não há nada que seja inanimado. A rocha tem inteligência,
a árvore tem inteligência, o vento tem inteligência e todos
têm poder, todos têm espírito. O segundo conceito que brota
desta noção de arco sagrado, onde toda a criação é um círculo
sagrado interdependente, tem a ver com relacionamento, e levanta
a questão: que tipo de relacionamento temos com as coisas
da nossa vida, tanto no nível intrapsíquico quanto no nível
externo, com todos os nossos 'parentes'? Um dos termos Lakota
usado cerimonialmente é "takwiassa", que quer dizer 'estamos
todos relacionados'.
Não
somente pessoas com a mesma cor de pele, que falam a mesma
língua, que vivem na mesma vizinhança ou que dirigem o mesmo
tipo de carro. Estamos todos relacionados, "todos unidos",
tudo é Criação - tudo o que existe no corpo de nossa mãe terra
e dentro do cosmos. Estamos todos relacionados dentro desta
teia de aranha cósmica. Eles dizem: isso é equilíbrio. É uma
dança contínua de yin e yang, de luz e escuridão, de todas
essas forças. Mas é um equilíbrio contínuo, e são os 'duas-pernas',
nós, os determinadores, porque temos o poder de perturbar
esse equilíbrio pelo que fazemos e não fazemos. E foi o que
de fato fizemos pois, ao nos esquecermos da sacralidade do
círculo, da interconexão de tudo, perturbamos o equilíbrio.
O
que os anciões nos ensinam nessas culturas baseadas nos mitos
e histórias da criação, é que estas são as instruções originais
da inteligência espiritual que nos orienta como viver em boas
relações com as forcas da criação dentro de nos e a nossa
volta. Contidas nessas histórias estão as instruções de como
viver relações corretas com as forcas da criação, e a chave
dinâmica para bons relacionamentos e o equilíbrio. E o que
essas antigas histórias da criação dos povos tradicionais
em várias partes do mundo fornecem, em suas instruções sobre
bons relacionamentos, é equilíbrio, andar em equilíbrio. Joseph
Epes Brown, cronista de um dos homens sagrados do povo Lakota
- Black Elk - se refere a isto usando a expressão 'reciprocidade
sagrada'.

O
processo da doença é, para esses povos, uma manifestação do
desequilíbrio, da .desarmonia. Ao fazer algo ou deixar de
fazer, o que precisamos é manter a harmonia e o equilíbrio.
E harmonia foi uma das formas com as quais eu fui ajudado
na minha própria cura dentro do meu envolvimento com culturas
xamânicas. Na cultura aqui do Ocidente, o tema judaico-cristão,
por assim dizer, é Cristo. Tornar-se Cristo, tentar ser como
Cristo, é um ideal maravilhoso, ser amor total incondicional,
o coração aberto todo o tempo, é algo muito importante para
mim, eu tento trabalhar sempre com isso. Mas quando esse era
o meu objetivo principal, uma das coisas que me acontecia
frequentemente era lidar com a frustração, porque eu construía
e demolia tudo todo dia.
Com
as culturas xamânicas o objetivo não é a perfeição, o objetivo
é lembrar a sacralidade do círculo, para andar em equilíbrio,
a integralidade do círculo dentro de nós; o que envolve a
nossa sombra, envolve ser levado numa viagem por dentro do
mundo inferior, direto a escuridão, aos lugares úmidos e escuros
para onde costumamos empurrar as coisas com as quais não nos
sentimos muito confortáveis. Se não me sinto muito confortável
com a minha feminilidade, eu empurro ela para lá. Se me sinto
desconfortável com os caminhos da minha mente irracional,
eu empurro para lá. Se estou desconfortável com a minha sexualidade,
com a minha raiva, com o que quer que seja, empurro para o
mundo de inferior.
Para
as culturas xamânicas, se você pretende andar em equilíbrio,
a única forma de conseguir isso é identificar todas as pernas
de uma cadeira. É muito difícil ver a cadeira equilibrada
se você nega uma das pernas. É realmente muito difícil ter
algum sentido de paz interior, de alegria ou confiança na
vida, habilidade para verdadeiramente realizar-se se você
está sem prumo o tempo todo, equilibrado em apenas duas das
quatro pernas da cadeira. O objetivo, portanto, para caminhar
em equilíbrio, é trazer tudo, literal ou metaforicamente -
tanto faz - para fora da escuridão e colocar perto da luz
do fogo para que se possa ver. A relação com a integralidade
das forças dentro de você, com a sua família, com a sua tribo,
com a mais extensa família planetária, com os locais sagrados
de poder, a metafísica da natureza, que está toda viva - lembrem-se.

A
montanha pela qual passamos todo o dia está nos enviando a
sua medicina, está nos dando ensinamento, nos dando poder,
proteção para que vivamos em equilíbrio e harmonia, e nós
precisamos retribuir. Quando saimos para caçar um animal,
antes temos que agradecer ao seu espírito, agradecemos a fonte
de onde ele vem, rezamos pela sua família, nos comprometemos
em explicar-lhe porque necessitamos tirar a sua vida e em
pedir-lhe que a ofereça a nós, para que a nossa vida, a de
nossa família, das crianças, dos anciões, de toda tribo possa
continuar - o oposto do que diz a nossa cultura, que é uma
cultura extrativista: dê-me isso, dê-me aquilo, só sabe tirar,
tirar, tirar, sem nunca agradecer ou ao menos pensar em retribuir.
O
mito contido no Equinócio de primavera, por exemplo, é o de
que a terra está se abrindo e nos dando suas flores, seus
frutos sua riqueza, por isso se fazem as celebrações sazonais
para poder retribuir e agradecer tudo que recebemos - criando
reciprocidade sagrada, bons relacionamentos. O que eu chamo
de propósito sagrado, o circulo sagrado, reciprocidade sagrada
é o que todos os povos, com cultura xamânicas com quem estive
acreditam. Eles acreditam que existe um propósito, o propósito
sagrado por estarem vivos, por você estar vivo, por todos
nós estarmos vivos. Somos, na verdade, seres sagrados. O Grande
Mistério acredita em nós a ponto de soprar dentro de nós o
sopro da vida, e isso não é um acidente, existe um propósito
para estarmos aqui.
Eu
passei um período de tempo convivendo e praticando essas diferentes
formas de meditação ritual, o que me faz sugerir que os rituais
e cerimônia desses povos, que vêm de milhares e milhares de
anos, às vezes treze ou quinze mil anos pesquisando o desenvolvimento,
representam uma forma que chamo de tecnologia psicoespiritual,
com uma consciência muito profunda do ponto de contato entre
a mente, o corpo e o espírito, os relacionamentos com o que
consideramos externos a nós - o ciclo sagrado. No México,
os huicholes, fazem uma peregrinação, que dura aproximadamente
duas semanas, e parte do trabalho de iniciação de um mara'kame
é ir nessa peregrinação liderada pelo xamã mais velho, e onde
os huicholes vão em massa, com avós e avôs, bebês, crianças,
adolescentes.

É
um veículo de transmissão dos seus valores e ética, nós seguimos
os passos das divindades huicholes até esses lugares de poder,
lugares sagrados, onde eles se doam, e fazem as cerimônias,
os rituais para agradecer e sintonizá-los com o que eu sugeri
ser a inteligência que existe dentro desses locais. Há vários
locais de poder no nosso corpo uns diferentes dos outros,
o mesmo acontece com o corpo da Mãe Terra. Estando em boas
relações com esses locais sagrados de poder eles podem nos
abrir e nos dar informações e poder sobre como viver a nossa
vida de forma a criar mais equilíbrio, mais harmonia.
Portanto
os huicholes dizem que o propósito dessa peregrinação é encontrar
a sua vida, o seu coração- a peregrinação serve para encontrar
a sua vida. Passar por essas experiências que, através das
suas tecnologias, alteram a sua consciência e lhe tiram do
racional, lhe colocando num estado visionário e intuitivo,
permite que se experimente o sentido do que seja o seu propósito.
Esse é o primeiro passo.
O
segundo passo é que você acessa o poder - eles têm uma palavra
para isso, kupuri, a energia. Você, portanto, se habilita
a percorrer oseu caminho, você encontra o seu caminho do coração
nesta vida. Demanda uma quantidade de energia imensa, poder,
força, disciplina mental, disciplina espiritual, para continuar
neste caminho, é uma tremenda dificuldade, e essas culturas
costumem acreditar nesse tipo de coisa, muito mais do que
a nossa cultura. O terceiro aspecto da peregrinação, da visão
do seu caminho do coracão, do poder, é de como acessar o poder,
e através dele incorporar nas suas relação aquilo que é maior
do que você, seja lá o que for, cabe a você descobrir - de
modo a estar apto a andar o que alguns povos chamam de a boa
estrada vermelha'.

Eles
acreditam que as sete direções do universo também têm poder
e inteligência, há um poder, um ensinamento e uma medicina
no sul, que é diferente do poder, do ensinamento e da medicina
do oeste, do leste, do norte, de todas as direções a nossa
volta, de cima, de baixo e de dentro. A boa estrada vermelha
é o lugar do sul, o lugar de se entregar com fé e confiança
à presença do Grande Mistério, e rodar no que eles chamam
de roda da medicina, através da busca e do crescimento. Você
pode chegar ao tempo dos cabelos brancos, na velhice, sem
ter conseguido sabedoria, e o que é a maior sabedoria ? A
maior sabedoria não é a memória, nem fórmulas, a maior sabedoria
é saber - não como um pensamento, um conceito abstrato - a
verdade sobre a presença do Grande Mistério em todos, em tudo,
em todo lugar, durante todo o tempo.
Os
huicholes dizem "todos unidos". Portanto, você poderá ser
capaz de se completar nessa vida, de forma que quando chegue
o tempo para mim, ou para nós ingressarmos no maior dos mistérios,
que em nossa cultura chamamos de morte, poderemos fazê-lo
e nos sentirmos bem em relação à vida que deixamos para trás.
Poderemos entrar não como perdedores, ou mostrando os dentes
tentando reagir; só conseguiremos entrar nos entregando, com
os bons sentimentos de ter feito o melhor possível para ajudar
e fazer florescer essas flores que estavam em potencial dentro
das semente.
Eu
fiz, e eu honro isso, e por isso me completei, eu me solto
me entrego ao mistério, e vou. Portanto, gostaria de sugerir
como fechamento que relembrássemos do que a vida realmente
se trata, e isso tem a ver com a qualidade da alma e do espírito,
com a essência do que somos, muito diferente do condicionamento
que sofremos na nossa cultura com a mídia nos dizendo do que
é feita a vida: carreira, aquisição material, poder, e todas
essas coisas. Isso não é nada quando entramos na nossa morte,
não significa nada. Você não leva nada disso com você, é vazio,
e você pode ver o quanto isso é vazio.

O
conhecimento que faz sentido é o conhecimento interior. Por
isso os huicholes dizem: "Vocês, gringos, estão perdidos".
Então, o propósito e a intenção deste encontro é abrir os
portais - nierica - como os huicholes chamam, para começar
a enxergar com profundidade o propósito de estarmos aqui,
e nos tornarmos aptos a ter responsabilidade sobre esse propósito
da melhor forma possível nas nossas vidas. Estamos chegando
perto. Estamos na pista certa.
Obrigado.