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A Lenda de Kokopelli
"Era
uma noite de outono, e nós estávamos sentados ao redor de uma
fogueira, no alto das montanhas na Mesa Verde, quando eu vi
pela primeira vez a figura de Kokopelli se aproximando da nossa
aldeia. Ele tinha uma corcunda avantajada e vinha tocando sua
flauta numa completa harmonia com o som das montanhas. Notamos
imediatamente naquela figura o Deus Kokopelli, com sua flauta,
corcunda e com suas características fálicas pronunciadas.
Sua
flauta era confeccionada em osso, e ele a tocava pelo nariz.
Segundo os anciões, as narinas possuíam poderes mágicos, pois
o espírito entrava e saia do corpo por elas. As estórias que
eu escutava sobre nosso visitante, era que ele era um brioso
Tolteca que chegou a Aztlán vindo do coração do México. Aztlán
foi o local onde originou a poderosa Nação Asteca antes que
ela construísse sua capital no meio de um lago, numa ilha conhecida
hoje em dia como Cidade do México. A fronteira norte de Aztlán
ficava ao sul do Colorado e cobria todo o vale do Rio Grande
no Novo México. A fronteira norte de Aztlán era povoada pelas
pacificas Nações dos Pueblos. Nós os Pueblos éramos fazendeiros
e habitavamos as encostas das montanhas. Dependiamos dos Seres-Trovão
e do Arco-Íris Rodopiante para alimentar as Três Irmãs (Milho,
Abóbora e Feijão) que garantiam a nossa sobrevivência.
A
música, suave e inspiradora, ecoava pela parede do desfiladeiro.
A Mesa Verde estava repleta de habitação no alto da encosta,
as fogueiras brilhantes ardiam, e todo o Povo olhava, maravilhado,
observando Kokopelli transformar a música encantada de sua flauta
de nariz numa poção milagrosa, que alimentava os corações dos
jovens e velhos. Kokopelli não tinha corcunda, pois sua corcunda
estava sentada ao seu lado e devia ser a sua sacola de objetos
sagrados e de cura que ele havia trazido para negociar. Sua
flauta parecia brilhar à luz da fogueira, e ele empregava os
reflexos do fogo e o som de sua música para hipnotizar todo
aquele público.
Haviámos
tido um ano de seca e havia pouca esperança que voltasse a chover.
As penas do cocar de Kokopelli eram brilhantes e vermelhas de
arara, que davam a ilusão de que o corpo se banhava na Chama
Eterna da paixão e da criatividade. O Fogo da fertilidade que
coroava sua cabeça também se irradiava de seu corpo enquanto
se inclinava oscilante diante do fogo tribal. Ao terminar de
tocar sua flauta, embrulhou-a como se fosse uma criança num
pano brilhante e ofereceu à Grande Nação das Estrelas. Suas
palavras alcançaram os recantos mais distantes do povoado. -
Esta flauta leva a música das Estrelas à Grande Mãe Terra, e
convoca os Seres-Trovão a virem fazer amor com ela - gritou
Kokopelli. - Esta união dará ao Povo uma criança que um dia
conduzirá de volta às estrelas, através da Terra interior da
qual todos vieram.
Uma
lufada do ar gelado da montanha passou pelo meu corpo, subiu
o desfiladeiro e foi atiçar as brasas do fogo tribal, causando
um redemoinho que explodiu, enchendo o céu noturno de fagulhas
que lembravam as estrelas. Os murmúrios de admiração saídos
da boca do Povo ecoaram pela noite escura. Subitamente, a luz
que os Seres-Trovão lançaram foi o suficiente para que todos
vissem as massas do Povo Nuvem que já haviam se agrupado nos
céus, em resposta ao chamado de Kokopelli. Uma vez mais o Povo
gritou, espantado com a mágica realizada por esse Deus, Kokopelli.
Até mesmo os bebês, que já estavam dormindo, acordaram para
apreciar o espetáculo mágico de Kokopelli. Certamente a chuva,
há muito esperada viria para alimentar as Três Irmãs (Milho,
Abóbora e Feijão), e o Povo conseguiria sobreviver. Kokopelli
recomendou que todos apanhassem seus potes de barro e recolhessem
a água da chuva para usar futuramente. Os Trovejadores gritavam
que a chuva ia começar.
Os
Bastões de Fogo criaram um grande jogo de luzes antes que Trovão
Retumbante quebrasse o silêncio da noite. Além deste som só
se ouvia a corrida dos pés metidos nas sandálias de fibra de
iúca subindo e descendo escadas em busca dos potes. Só uma jovem
ficou parada, em pé, perto da praça principal. Ela olhava para
cima e observava, maravilhada, os relâmpagos que iluminavam
o céu noturno, enquanto os outros, a seu redor, não paravam
de correr de um lado para o outro. Kokopelli olhou seu rosto
tão maravilhado, bonito e inocente, e aproximou-se dela, ainda
segurando a flauta como se fosse uma criança. A jovem demonstrava
tanta serenidade que chamou a atenção de Kokopelli.
-
Por que não foi buscar seu potes? - perguntou ele. - Já estão
lá em cima. - respondeu ela.
Kokopelli
perguntou o seu nome, e ela respondeu:
-
Chamam-me Flor da Neve do Clã de Inverno do Milho Branco. -
Por que é que seus potes já estão lá em cima, Flor de Neve?
- perguntou ele. - Porque sua flauta me chamou assim que você
começou a subir o desfiladeiro e me revelou que você traria
a chuva. - respondeu ela.
Kokopelli
ficou intrigado. Nisto, ela olhou para ele e sorriu. Kokopelli
lhe sorriu de volta. Tinha acabado de entender a sua mensagem.
-
Então é você! - exclamou ele.
O
Xamã do Clã da Águia começou a convocar o Povo para uma oração
de Graças. Neste mesmo instante os primeiros seres do Povo da
Chuva começaram a tocar os seios da Mãe Terra. Kokopelli pegou
Flor da Neve pela mão e conduziu-a suavemente até a Fogueira.
Todos os olhares do Povo observavam o casal, que se encaminhava
para o centro da aldeia. Terminada a oração, Kokopelli colocou
sua flauta nos braços de Flor da Neve, como se fosse um bebê.
Este gesto significava que aquela mulher partilharia de sua
música e de sua semente dali por diante.
A
magia pairava no ar, e o filho desta união usaria a Magia do
Corvo para ajudar o Povo a redescobrir o seu caminho de volto
às estrelas. Segundo a lenda, os Pueblos vieram abrindo caminho
do mundo interior, logo após a Criação. Enquanto isso, os espíritos
de seus Ancestrais retornavam ao mundo interno até que soasse
a hora de caminhar novamente pela Terra. Kokopelli revelou ao
Povo que houve um momento antes da Criação em que cada pessoa
era uma fagulha da Chama Eterna do Grande Espírito, que havia
caído sobre a Terra para semear a Mãe com os seus pensamentos,
idéias e ações férteis. Kokopelli também revelou que todos se
tornariam Vagalumes na Grande Nação do Céu, no dia em que os
sangues Tolteca e Pueblo se unissem em um só sangue.
Contam
os Astecas que nove meses depois Flor da Neve deu à luz um menino,
que se tornou um grande líder espiritual do Clã da Águia. A
sua Magia de Cura consistia em unir o carinho de sua mãe ao
poder de Fogo do seu pai. Aquele local, chamado de Mesa Verde,
já está abandonado há alguns séculos. Portanto uma pergunta
ficou pairando no ar: teria este Povo deixado a Mãe Terra para
ir viver na Grande Nação das Estrelas? Se isto for verdade,
a fertilidade e a abundância de Kokopelli continuam brilhando,
até hoje, em nosso mundo, durante todas as noites do ano."
Hancoka
Olawampi "Canção da Meia-Noite"
(Jamie
Sans - As Cartas do Caminho sagrado)
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