Capítulo IV

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CAPÍTULO IV

            Após as explicações sobre os movimento das peças e aquela profunda lição inicial, começamos a jogar diariamente, em todo o período no qual não estávamos ocupados com as tarefas de reconstrução de um abrigo ou busca de raízes e carne de caça para nos alimentarmos.
            Eu que, inicialmente tinha esperança que a sua vida restante fosse bastante curta para que pudesse ficar livre do compromisso de acompanhá-lo e seguir meu próprio caminho, passei a rezar para que sua saúde lhe permitisse viver indefinidamente, tal a magia e entretenimento que as nossas horas de jogar xadrez me proporcionava.
            Com bastante dificuldade a princípio fui conseguindo aos poucos absorver as magníficas e esclarecedoras lições daquele paciente e bondoso mestre.
            A cada jogo ele me explicava passo por passo o seu desenvolvimento, comentando não somente a parte técnica dos movimentos individuais das peças, mas principalmente a parte filosófica da trama.
            Em cada lição ele fazia uma comparação com as situações pelas quais passamos pela vida e, em seu tabuleiro, aquele pequeno mundo quadrado de 64 casas, vi desfilar toda a minha vida passada como se aquele velho fosse um espelho da minha atormentada alma.
            Mas não era somente isso. Indagações e problemas que eram somente meus e nunca os tinha confiado a ninguém foram colocados sobre aquele estranho pedaço de madeira que mais parecia uma bola de cristal na mão de um experimentado adivinho.
            E um universo complexo foi sendo delineado, estudado e equacionado sobre aquele mágico oráculo e a cada dia eu pedia que estas lições nunca acabassem.
            Não sei o que aquele velho viu em mim. Eu que era um bruto ignorante, que cheguei a desejar sua morte para me ver livre, era tratado com todo o carinho e paciência.
            Com o tempo comecei a entender um pouco do que o velho tentava me explicar, mas para mim era tudo tão novo e difícil!
            Neste aprendizado passaram se, sem que eu pudesse notar, nada mais que breves, mas inesquecíveis sete anos.
            Até que, no começo da última primavera, o velho sem que eu esperasse, virou-se para mim, muito sério, e disse que teríamos somente mais quatro lições, que jogaríamos somente mais quatro partidas e que eu me esforçasse ao máximo pois seriam os seus derradeiros ensinamentos.

            Que partidas memoráveis!
            O quanto me foi exigido em cada uma delas!

            Durante todo este tempo eu não tinha ganhado um só jogo sequer; durante os sete anos anteriores havia perdido todas as partidas que jogamos e da mesma forma perdi, apesar de todo meu esforço e concentração, as três primeiras desta última série.
            Ao começar a quarta e última prometida partida senti que muita coisa havia se modificado dentro de mim. De um jovem irresponsável que era quando tudo aquilo começou, eu me tornara um adulto amadurecido e consciente da vida e do meu papel no universo que me rodeava.
            Ondas de nostalgia passaram a me envolver pois senti que naquela última partida eu seria capaz de vencer o meu querido mestre.

            E tal aconteceu.

            Depois de várias horas de concentração intensa a partida chegou ao seu final, no qual eu pela primeira vez pude ver a dignidade com que o velho tombava o seu rei e me cumprimentava pela magnífica vitória obtida.
            Após o final ele disse estar muito, muito cansado, mas consciente e satisfeito por ter cumprido a sua missão nesta vida.
            Abraçou-me e disse para nunca deixar este tesouro que me tinha ensinado, procurar sempre a cada vez mais me desenvolver e aplicar os seus ensinamentos, pois de mim, muito ainda seria exigido e grandes responsabilidades eu teria que assumir.

            Ele adormeceu em seu leito para não mais acordar.

            Uma grande tristeza abateu se sobre mim e eu vi me só com o meu destino a cumprir. Nesse momento lembrei-me de suas palavras sobre a transformação que é a morte e pude então, nas asas da minha imaginação, vê-lo abandonar aquele corpo velho e sair flutuando em uma roupagem brilhante de um ser iluminado em busca de outras paragens.
            Esta visão me reanimou e passei a realizar seus últimos desejos com respeito e orgulho de ter compartilhado parte de sua vida. O meu coração estava partido, mas eu tinha a certeza que o meu velho mestre estaria iniciando outra jornada em busca de maior perfeição, ao encontro do Criador de todos nós.

           
            Foi assim que tudo aconteceu, ó Majestade.
           
            Deixei aquele lugar e vinha caminhando sem destino por estas terras quando soube do seu concurso. Por um acaso, ou por conta de forças convergentes do universo vi a princesa na sacada do palácio, sendo imediatamente fulminado por sua fulgurante beleza. Certo de que a vitória seria minha, não pude resistir a participar do concurso, pois desposando a linda princesa eu poderia talvez cumprir o destino previsto pelo meu velho amigo e querido mestre.

            E o rei, maravilhado por toda aquela narrativa e já completamente fascinado pelo jogo de xadrez, tomou o jovem em suas mãos e o declarou vencedor do concurso, recebendo-o de imediato como seu genro, desde já o nomeando príncipe herdeiro do trono, impondo-lhe como única condição, de aquela data até o fim de seus dias, jogar xadrez e transmitir-lhe tudo o quanto lhe havia sido ensinado.

FIM

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